“Diminuir o
tamanho do Estado
só é bom
para os endinheirados”
Paulo e Maria Caetano, om
casal parceiro de todas as horas.
Aos 65 anos de idade, o juiz
aposentado Paulo Afonso Caetano não para de investir em aprimoramento
acadêmico. Está prestes a concluir graduação em Psicologia, em Santa Maria,
onde reside. Ao mesmo tempo faz curso de mestrado em Direito das Relações
Internacionais em Montevideo, no Uruguai.
Natural de Itacurubi, além de magistrado
aposentado Caetano é atualmente advogado. Realizou os estudos primários em
escolas públicas de São Borja. Já o curso
ginasial e o secundário foram na Escola Técnica de Comércio Vicente Goulart. Quanto
ao curso de Direito, realizou através da UFSM, graduação concluída em 1983. Atuou
como professor de Direito na UFSM, na UNIJUÍ e na UNIFRA. Casado com Maria
Caetano, tem dois filhos advogados - Taiguara e Jaciara. O filho Ykaraíma
estuda medicina no Paraguai.
Com este perfil de permanente
observador e intérprete da rotina nacional e internacional, Paulo Caetano
analisa, para o BlogAlberiCogo, um pouco da cena brasileira. “As classes
hegemônicas internas, privilegiadas pelo processo de dominação social, olham a
grande massa popular com desdém, como destinatária de favores clientelistas,
paternalistas”, avalia. Entende também
que encolher o tamanho do Estado, é sonegar políticas públicas esenciais. Nos
200 anos de independência política do Brasil, vê urgência em políticas de reindustrialização,
investimento em infraestrutura, em capital humano e em reformas a favor da
igualdade e da cidadania. Confira, a seguir, a entrevista.
Alberi Cogo - Tenho repetido a
indagação, por que necessária: ao completar 200 anos da sua independência
política, qual ou quais as dívidas mais relevantes o Brasil precisa resgatar com
uma nação ainda em construção?
Paulo Caetano - Penso que o Brasil
precisa voltar-se para si mesmo, olhar-se, dedicar-se a si próprio um pouco
mais. Não tenho formação no campo da sociologia. Todavia leio um pouco sobre
isso. Darcy Ribeiro, no seu livro ‘O Povo Brasileiro’, afirma que, diferentemente
do que ocorre em outras sociedades, aqui o povo não existe para si, mas para os
outros. Desde os tempos da colônia, passando pelo Império, a grande massa
popular não é bem considerada pelos governos. As classes dirigentes concebem o
país como exportador, para os de fora. E mesmo as classes hegemônicas internas,
privilegiadas pelo processo de dominação social, olham a grande massa popular
com desdém, como destinatária de favores clientelistas, paternalistas. Gostam
de dizer que fazem caridade, mas criam obstáculos como podem a processos de
justiça social, de emancipação dos que lhes servem. Foi assim na escravidão, na
formação da criadagem e dos agregados. Hoje, sob holofotes do neoliberalismo,
não reconhecem sequer seus empregados, que chamam de colaboradores. Se
empregados não são, não precisam ter direitos trabalhistas. Há uma ideologia
por trás disso.
Caetano - O processo histórico é contínuo, e se o Estado
não intervém com políticas vigorosas para produzir mudanças, as alterações se
tornam lentas, muitas vezes disfuncionais. Penso que o país precisa hoje de um projeto
de investimento na reindustrialização. E criar condições para isso é papel do
Estado, que precisa de um Projeto nesse sentido, pois envolve modernização da
legislação trabalhista, ordenação tributária e uma base em infraestrutura. Tudo
o que foi feito entre 1930 e 1980 veio sendo destruído por governos sucessivos
nesse campo. Hoje somos exportadores de matéria prima e importadores de
produtos derivados. Importamos muita coisa que poderia ser produzida aqui com
incentivos fiscais, com formação de técnicos, com investimento em pesquisa, em
ciência e tecnologia. Preferimos gerar empregos nos outros países. O próprio
Mercosul que era para facilitar processos de integração regional, está emperrado
desde o final do governo FHC. A América
do Sul tem uma população em torno de 420 milhões de pessoas, e a América Latina
cerca de 600 milhões. O Brasil com 210 milhões de habitantes poderia tentar
liderar um processo de facilitação desse mercado. Não é tarefa fácil, mas tem
como ousar sobre isso.
Caetano - Nosso país passa nos
últimos anos por uma fragilização dos sistemas de proteção social,
desinvestimentos em saúde pública, desmonte da pesquisa universitária, corte de
financiamento aos estudantes, desaceleração da inclusão social pela via
assistencial aos mais vulneráveis economicamente. Isso decorre de uma prática
política de enfraquecimento do Estado, sustentado por um discurso teoricamente
frágil, mas muito eficaz pela falta de esclarecimento sobre o que ele
representa. Diminuir o tamanho do Estado, diminuir as políticas públicas, só é
bom para os endinheirados que não precisam do Estado. O Estado capitalista do
Bem-Estar social desenvolvi no pós-guerra na Europa e que aqui veio sustentado
pela proposta do Trabalhismo tem esse papel. Isso não tem nada de comunismo; é
capitalismo humanizado. Mas os pobres ignorantes – inclusive pequenos
empreendedores - compraram o discurso contra eles mesmos de que isso é coisa de
comunista. Lá no Itacurubi eu ouvia um ditado popular: quando a água bate no
nariz, o cara aprende a nadar ou morre afogado. É o que vai acontecer. Quando o
Estado estiver bem fraco nós vamos ter que fazê-lo forte outra vez pra salvar
a sociedade.
AC - Repete-se sempre que a Educação é o principal agente transformador de uma sociedade. Entre nós, porém, este tem virado um recorrente discurso, mas desprovido de práticas efetivas. Temos alguma ação em curso e que possa ser utilizada como referência e parâmetro?
Caetano - Nada se faz numa organização sem planejamento.
No caso da administração de um país também é necessário dotação orçamentária e
projetos concretos. Quando alguém fala que educação será prioridade temos que
perguntar sobre qual o seu projeto, como vai executá-lo, quanto vai investir
nele, e de onde sairá o dinheiro. Se não souber responder isso, está
conversando fiado.
Caetano - O direito tem várias
funções numa sociedade. Uma delas, muito importante, é modular as liberdades,
de modo que a liberdade de um coexista com a liberdade dos outros, de modo a
preservar a convivência social em paz relativa. Mas numa sociedade
estratificada em classes tão díspares como a nossa, soma-se a essa uma outra
função: manter os privilegiados em comodidade a custo do sofrimento dos que
estão na base. Por isso é importante a gente pensar sobre quem faz as leis,
sobre quem aplica as leis. É no Parlamento, no Judiciário, no Ministério
Público, nas Procuradorias de Estado, principalmente, que está o poder de fazer
leis e dizer o que a lei disse. Como magistrado por 29 anos de exaustivo
exercício, e nas oportunidades em que lecionei em cursos jurídicos (UFSM,
UNIJUÍ e UNIFRA) sempre procurei ajudar as pessoas a despertar essa compreensão,
para a necessidade de permanente questionamento do papel dos operadores do
Direito como guardiões das normas civilizatórias, sempre empurrando para
adiante as conquistas da civilização. Acho que cumpri razoavelmente minha tarefa,
pois trabalhei bastante com essa consciência de que o Direito é instrumento das
classes hegemônicas, mas que precisa ser interpretado com critérios razoáveis
de justiça no caso concreto. Acertei e errei, pois isso é humano, mas nos
limites possíveis de extensão da regra de Direito procurei nunca ser um
serviçal das classes dominantes.
Caetano - Estudei o Espiritismo nos últimos 30
anos e desenvolvi atividades de divulgação doutrinária, assim como experiências
como dirigente de Casa Espírita. Hoje, por questões muito pessoais, estou
afastado de qualquer atuação, mas as noções éticas do Espiritismo continuam
orientando minha compreensão do mundo.
Caetano - Quando olho para o processo civilizatório para mim fica claro que existe melhoramento. Aqui
no ocidente, com o advento do Estado moderno, após a formação dos Estados
Unidos da América (1776) e a Revolução Francesa (1789), as elites organizaram
as duas Repúblicas que serviram como modelo para toda a Europa e as Américas. O
Povo assumiu sua soberania em oposição à soberania do Rei. Se a gente olhar
para 100 anos atrás, quando em 1923 aqui no Rio Grande do Sul as forças em luta
faziam o que bem entendessem impunemente, fica claro que vivemos hoje um tempo
muito superior, onde há instituições que asseguram normas de convívio. Não vivemos
numa sociedade ideal, porque no processo histórico sempre queremos mais. Mas
não posso negar que, apesar de alguns retrocessos transitórios, estamos
caminhando para frente.
Caetano - Sonhar com um mundo
melhor é sempre aspiração humana. A sociedade ideal não existe, pois ela está
sempre sendo construída. Quando conquistamos alguma coisa, queremos ir além. É como
caminhar em direção à linha do horizonte: conforme avançamos ela se afasta para
mais adiante. O importante é não esmorecermos, seguirmos vivenciando valores
éticos. Não teremos uma sociedade de iguais, pois cada um tem aspirações
próprias, talentos pessoais, interesses específicos. Mas podemos trabalhar para
construir uma sociedade em que todos tenham oportunidades de desenvolver
aptidões inatas ou construídas.
Caetano - Estarei concluindo no próximo mês de
julho o curso de graduação em Psicologia. Pretendo atuar nesse campo. Há várias
linhas teóricas na psicologia, como a Psicanálise, a Cognitivo-Comportamental,
a Sistêmica, a Positiva, a Existencial, entre outras. Eu dedico meus estudos à
Gestalt-terapia, que é um campo da psicologia humanista. Ela me permite olhar
para o ser humano na sua amplitude, inclusive sob o aspecto social, à luz das
filosofias fenomenológica e existencial, em perspectiva holística. Pretendo me
iniciar na atividade clínica sem abrir mão inicialmente da atuação no campo do
Direito, onde estou concluindo um curso de Mestrado na área das Relações
Internacionais, e atuando como advogado.
Caetano - Considero que é muito tarde, aos 65 anos, para
eu iniciar uma atividade partidária. Teria que mudar muitas coisas em mim para
me ajustar a esse campo movediço que não conheço direito. Pretendo utilizar
esses anos que me restam para continuar conversando com os jovens, debatendo
com os inquietos, ajudando meus filhos naquilo que aprendi por 40 anos de
estudo do Direito, dar mais atenção à minha família e viver mais plenamente
para eu mesmo.

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