quinta-feira, 2 de junho de 2022

SEMANA DP MEIO AMBIENTE - I


 AMBIENTALISTA DARCI BERGMANN:

 

Darci Bergmann: "Degradação de um ecossistema
começa em operação de drenagem de um banhado."

”Antes de plantar milho, soja, é

preciso plantar árvore, água”

 

Com o retorno das chuvas à região – com frequência e em bom volume -, pode parecer uma extravagância pensar em investir no armazenamento de água e em sistemas de irrigação. Mas não é exagero, nem desperdício. Quando estamos a celebrar mais uma Semana do Meio Ambiente, o evento precisa ser convertido em oportunidade de reflexões e de ações práticas.  E existem iniciativas de baixo custo e eficazes, que podem ser implementadas. Uma dela é a instalação das populares   barraginhas.

Contrastando com precipitações abundantes, como as de agora, os municípios das Missões e da Fronteira Oeste gaúcha têm, repetidamente, ciclos de severas estiagens, como a mais recente. Foram dois anos de chuvas escassas. Técnicos e produtores estão aos poucos descobrindo que, apesar das secas, dá para ‘guardar’ a água da chuva em pequenas bacias nas propriedades.  Mais que isso: dá para fazer com que o depósito hídrico se infiltre no solo e garanta umidade, realimentando o lençol freático em todo o seu entorno.

Experiências desse tipo vêm sendo aplicadas em centenas de propriedades e dezenas de municípios brasileiros. Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia e Alagoas estão entre os estados que apostam na alternativa. Em São Borja, o agrônomo e ambientalista Darci Bergmann, 74 anos,  assegura  que a experiência, além de viável  é sobretudo recomendada e autosustentável.

 


Barraginha regula captação de água
e sistema de irrigação em todo o entorno..

 “Plantar água”

 

O sistema das barraginhas consiste no fato de que  pequenas bacias façam a captação hídrica  das chuvas de maior proporção. Além dessa água ficar acumulada, ela se espalha como umidade pelo redor do local, irrigando todo o tipo de plantação, já que reabastece o lençol freático e o solo.

“Trata-se de uma tecnologia de baixo custo e que traz diversos benefícios ambientais, sociais e econômicos”, ressalta Bergmann. No Espírito Santo, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) com apoio do Fundo Estadual de Recursos Hídricos e Florestais daquele estado elaboraram  uma cartilha de orientações. A Embrapa reforça os estudos e também é parceira da iniciativa.

Darci Bergmann destaca que, considerando a realidade local e regional, os produtores precisam buscar orientação técnico de órgãos de assistência, como a Emater ou o Irga. Outra alternativa é contratar os serviços de um agrônomo ou técnico no setor. Além das barraginhas,  é possível fazer terraços, mas estes são menos eficientes.

O ambientalista ressalta  que a palavra de um técnico é fundamental, “porque ele vai determinar o número e a distância entre as barraginhas  em uma propriedade, considerando a natureza do solo, o declive do terreno e o regime médio de precipitações pluviométricas”.

Bergmann garante que é barato instalar o sistema. “Com uma  retroescavadeira, uma draga ou equipamentos mais simples se faz a escavação. A terra removida serve de taipa para as bordas da bacia. A profundidade é, no máximo de um metro e meio e o manancial tem, em geral, cerca de 15 metros de diâmetro.”

Relatos de órgãos técnicos e de produtores mostram que são bastante exitosas as experiências já registradas no Espírito Santo e em Minas Gerais. Além de não faltar água em períodos de estiagem, todo o entorno é diretamente beneficiado. Pastagens, pomares, lavouras e outras plantações acabam sendo irrigadas e bem mais produtivas.

 

Preservar o que tem

 

Recomendação técnica é que manancial tenha
no máximo um 1,5 metro de profundidade.

O ambientalista Darci Bergmann vê como natural o crescente interesse dos produtores pela expansão de lavouras de soja e de milho, por exemplo, aproveitando a maior demanda e as melhores cotações no mercado internacional.  Enfatiza, porém, que é preciso associar a esse incremento condições adequadas de produção e de produtividade.  “Agora, por ocasião da recente grande seca, produtores investiram alto em pivôs e outros sistemas de irrigação, mas alguns deles não tinham água para irrigar”, diz.

O ambientalista adverte que os efeitos do aquecimento global no planeta serão cada vez mais severos a partir de agora, como um fenômeno sem volta. “Então será indispensável criar condições para conviver  da melhor maneira possível, para não ser diretamente impactado por eventos climáticos extremos, como frios recordes e longas estiagens”, adverte. Uma das recomendações principais é manter preservadas e não devastar os sistemas existentes que ajudem na alimentação e na manutenção de sangas, açudes, restingas, lençóis  freáticos e outras fontes de irrigação.

Bergmann cita o exemplo da operação de drenagem que foi feita em áreas da  reserva biológica do Banhado de São Donato. “Parte  da região virou lavoura  e, nessa operação de drenagem, ficou comprometida a fim da irrigação não apenas no local, mas em toda  a sua volta. E o prejuízo não é apenas para as espécies vegetais originais, mas também para a fauna de modo geral”, segundo destaca.



É necessário que estudo técnico indique
a distância adequada entre as barraginhas.

O Cadastro Ambiental Rural – CAR,  preconiza, hoje, ações de preservação nesse sentido. Das áreas rurais no país, 20% têm de ser preservadas. São as populares APPs (Áreas de Preservação Permanente). Uma das finalidades é a conservação dos mananciais hídricos e reservas florestais.

 

Estudo e parcerias

 

Já o produtor familiar baiano de Juazeiro Airton França Júnior,  que também  morou em Petrolina (PE) antes de se transferir para São Borja, lança todas as suas  apostas em sistemas de irrigação. Avalia que para produzir frutas é a melhor opção.  Ele mora na localidade de Ivaí e cultiva área de seis hectares.  Ressalta, contudo, que o tipo de irrigação a ser empregado precisa ser antes brm estudado.

“É por essa razão que defendo um amplo debate entre autoridades, técnicos e produtores sobre o manejo mais adequado. O Estado, por exemplo, está usando o mesmo critério para todo o Rio Grande do Sul, e uma região é diferente da outra.” Na sua propriedade, França Júnior irriga por gotejamento.



França Júnior defende que decisão coletiva
dê orientação técnica sobre irrigação.

Baiano, como o produtor é mais conhecido, ressalta que, dependendo da demanda e das características do lugar, às vezes é melhor um poço artesiano e não um açude de captação de água da chuva. Observa que a perfuração, instalação e outorga de um poço pode custar investimentode até R$ 30 mil, mas o valor pode ser repartido por cinco ou seis produtores, assim como o abastecimento também pode ser compartilhado.  “Em regime de cooperação não fica pesado para ninguém e todos são atendidos”, pontua.

O produtor lamenta que, durante a aguda seca recente,  São Borja tenha perdido a chance de debater, para colocar em prática, um amplo projeto de irrigação.  Avalia que, por meio do sistema de aspersão -  mais potente -  dá para produzir de tudo no município.  “Dá para cultivar, o ano todo,  de pastagem a milho, soja  a hortifrutigranjeiros de modo geral”, garante.  



Para produção de frutas, baiano defende
irrigação por manejo de gotejamento.

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