Darci Bergmann: "Degradação de um ecossistema
começa em operação de drenagem de um banhado."
”Antes de plantar milho, soja, é
preciso plantar árvore, água”
Com o
retorno das chuvas à região – com frequência e em bom volume -, pode parecer uma
extravagância pensar em investir no armazenamento de água e em sistemas de
irrigação. Mas não é exagero, nem desperdício. Quando estamos a celebrar mais
uma Semana do Meio Ambiente, o evento precisa ser convertido em oportunidade de
reflexões e de ações práticas. E existem
iniciativas de baixo custo e eficazes, que podem ser implementadas. Uma dela é
a instalação das populares barraginhas.
Contrastando
com precipitações abundantes, como as de agora, os municípios das Missões e da
Fronteira Oeste gaúcha têm, repetidamente, ciclos de severas estiagens, como a
mais recente. Foram dois anos de chuvas escassas. Técnicos e produtores estão
aos poucos descobrindo que, apesar das secas, dá para ‘guardar’ a água da chuva
em pequenas bacias nas propriedades. Mais
que isso: dá para fazer com que o depósito hídrico se infiltre no solo e garanta
umidade, realimentando o lençol freático em todo o seu entorno.
Experiências
desse tipo vêm sendo aplicadas em centenas de propriedades e dezenas de
municípios brasileiros. Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia e Alagoas estão
entre os estados que apostam na alternativa. Em São Borja, o agrônomo e
ambientalista Darci Bergmann, 74 anos, assegura
que a experiência, além de viável é sobretudo recomendada e autosustentável.
“Plantar água”
O sistema
das barraginhas consiste no fato de que pequenas bacias façam a captação hídrica das chuvas de maior proporção. Além dessa água
ficar acumulada, ela se espalha como umidade pelo redor do local, irrigando todo
o tipo de plantação, já que reabastece o lençol freático e o solo.
“Trata-se
de uma tecnologia de baixo custo e que traz diversos benefícios ambientais,
sociais e econômicos”, ressalta Bergmann. No Espírito Santo, o Instituto
Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) com apoio
do Fundo Estadual de Recursos Hídricos e Florestais daquele estado elaboraram uma cartilha de orientações. A Embrapa reforça
os estudos e também é parceira da iniciativa.
Darci
Bergmann destaca que, considerando a realidade local e regional, os produtores
precisam buscar orientação técnico de órgãos de assistência, como a Emater ou o
Irga. Outra alternativa é contratar os serviços de um agrônomo ou técnico no
setor. Além das barraginhas, é possível fazer
terraços, mas estes são menos eficientes.
O
ambientalista ressalta que a palavra de
um técnico é fundamental, “porque ele vai determinar o número e a distância entre
as barraginhas em uma propriedade,
considerando a natureza do solo, o declive do terreno e o regime médio de
precipitações pluviométricas”.
Bergmann
garante que é barato instalar o sistema. “Com uma retroescavadeira, uma draga ou equipamentos
mais simples se faz a escavação. A terra removida serve de taipa para as bordas
da bacia. A profundidade é, no máximo de um metro e meio e o manancial tem, em
geral, cerca de 15 metros de diâmetro.”
Relatos
de órgãos técnicos e de produtores mostram que são bastante exitosas as
experiências já registradas no Espírito Santo e em Minas Gerais. Além de não
faltar água em períodos de estiagem, todo o entorno é diretamente beneficiado.
Pastagens, pomares, lavouras e outras plantações acabam sendo irrigadas e bem
mais produtivas.
Preservar
o que tem
O
ambientalista Darci Bergmann vê como natural o crescente interesse dos
produtores pela expansão de lavouras de soja e de milho, por exemplo,
aproveitando a maior demanda e as melhores cotações no mercado internacional. Enfatiza, porém, que é preciso associar a esse
incremento condições adequadas de produção e de produtividade. “Agora, por ocasião da recente grande seca, produtores
investiram alto em pivôs e outros sistemas de irrigação, mas alguns deles não
tinham água para irrigar”, diz.
O
ambientalista adverte que os efeitos do aquecimento global no planeta serão
cada vez mais severos a partir de agora, como um fenômeno sem volta. “Então será
indispensável criar condições para conviver da melhor maneira possível, para não ser
diretamente impactado por eventos climáticos extremos, como frios recordes e longas
estiagens”, adverte. Uma das recomendações principais é manter preservadas e
não devastar os sistemas existentes que ajudem na alimentação e na manutenção
de sangas, açudes, restingas, lençóis freáticos e outras fontes de irrigação.
Bergmann
cita o exemplo da operação de drenagem que foi feita em áreas da reserva biológica do Banhado de São Donato. “Parte
da região virou lavoura e, nessa operação de drenagem, ficou
comprometida a fim da irrigação não apenas no local, mas em toda a sua volta. E o prejuízo não é apenas para as
espécies vegetais originais, mas também para a fauna de modo geral”, segundo
destaca.
O
Cadastro Ambiental Rural – CAR, preconiza, hoje, ações de preservação nesse
sentido. Das áreas rurais no país, 20% têm de ser preservadas. São as populares
APPs (Áreas de Preservação Permanente). Uma das finalidades é a conservação dos
mananciais hídricos e reservas florestais.
Estudo
e parcerias
Já o produtor
familiar baiano de Juazeiro Airton França Júnior, que também morou em Petrolina (PE) antes de se transferir
para São Borja, lança todas as suas apostas em sistemas de irrigação. Avalia que
para produzir frutas é a melhor opção. Ele
mora na localidade de Ivaí e cultiva área de seis hectares. Ressalta, contudo, que o tipo de irrigação a
ser empregado precisa ser antes brm estudado.
“É por
essa razão que defendo um amplo debate entre autoridades, técnicos e produtores
sobre o manejo mais adequado. O Estado, por exemplo, está usando o mesmo
critério para todo o Rio Grande do Sul, e uma região é diferente da outra.” Na
sua propriedade, França Júnior irriga por gotejamento.
Baiano,
como o produtor é mais conhecido, ressalta que, dependendo da demanda e das características
do lugar, às vezes é melhor um poço artesiano e não um açude de captação de água
da chuva. Observa que a perfuração, instalação e outorga de um poço pode custar
investimentode até R$ 30 mil, mas o valor pode ser repartido por cinco ou seis
produtores, assim como o abastecimento também pode ser compartilhado. “Em regime de cooperação não fica pesado para
ninguém e todos são atendidos”, pontua.
O produtor
lamenta que, durante a aguda seca recente, São Borja tenha perdido a chance de debater,
para colocar em prática, um amplo projeto de irrigação. Avalia que, por meio do sistema de aspersão - mais potente -
dá para produzir de tudo no município. “Dá para cultivar, o ano todo, de pastagem a milho, soja a hortifrutigranjeiros de modo geral”,
garante.






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