quarta-feira, 22 de junho de 2022

SÃO BORJA-SANTO TOMÉ

 

A meta é manter a Ponte

da Integração como está

 


Experiência pioneira: investimento de 50 milhões de díkares, 
público-privado, em favor da logística entre Brasil e Argentina.

Quando inaugurada, em 9 de dezembro de 1997, era meta manter regime de concessão à iniciativa privada, por 25 anos, dos serviços de concessão da Ponte da Integração São Borja-Santo Tomé. Havia expectativas para o resultado nas operações, em formato pioneiro na América Latina. Afinal, nenhum porto, até então, havia adotado modelo semelhante: aduana integrada entre Brasil e Argentina, Centro Unificado de Fronteira (CUF), parceria público-privada e concessão mediante cobrança de pedágio para circular  na fronteira.

A experiência revelou-se acertada. De tal modo que, ao se esgotarem os 25 anos de concessão, em 29 de agosto de 2021, o período foi prorrogado por mais um ano. A tendência, ainda, é de estender o prazo por mais um ano, até agosto de 2023. A ideia é de que, ao longo do período, seja construída solução definitiva, Uma das hipóteses é uma possível nova licitação de concessão aos serviços. Hoje eles são prestados pela Mercovia S/A, consórcio formado por seis empresas.

Lideranças ligadas às municipalidades de Santo Tomé e de São Borja têm se debruçado sobre o tema. “Esperamos que nas próximas semanas tenhamos resposta formal dos governos do Brasil e da Argentina”, pontua o prefeito são-borjense Eduardo Bonotto.  “Como em time que está ganhando o jogo não se mexe, a meta é manter a ponte internacional observando a atual sistemática”, diz. Nesse aspecto, há consenso entre as autoridades da fronteira brasileiro-argentina.

A única alteração pretendida diz respeito à possível suspensão na cobrança de pedágio para a  circulação vicinal dos veículos emplacados nas duas localidades fronteiriças. Atualmente o valor do pedágio, condicionado à variação cambial do dólar, está em um pouco mais de R$ 20.  “A Comissão Mista Argentina-Brasil (Comab) está sendo provocada, e a tendência é de que a decisão não demore”, segundo destaca o vice-prefeito em São Borja Roque Feltrin.  O gerente-geral da Mercovia, José Luiz Vazzoller, pediu pressa na decisão.

 

Motor econômico

 


Números mostram que 28% das cargas rodoviárias
Brasil-Argentina circulam através da travessia.


As operações relativas ao intercâmbio comercial internacional gradativamente vêm sendo turbinadas com a Ponte da Integração. Ao lado do fato econômico gerado, há que ser considerado também uma relevante  contribuição social. No Centro Unificado de Fronteira, cerca de 900 brasileiros e argentinos têm empregos diretos assegurados.  São servidores ligados a  escritórios especializados em despachos aduaneiros, além da macro equipe da Mercovia.

Mesmo durante as restrições trazidas pela covid, as atividades não foram desaceleradas. Ao contrário, ao longo dos últimos meses, neste ano, o CUF registrou fluxos recordes. Os registros indicam mais de 11 mil caminhões,  mensalmente, atravessando a fronteira, em operações de importação e exportação pela ponte.

O recorde anterior, de fluxo, de 9,2 mil caminhões, havia sido registrado em abril de 2013.

Por meio da Ponte da Integração, já circulam  28% das cargas no intercâmbio Brasil-Argentina. Historicamente, as exportações são maiores que as importações, em volumes e valores. A razão é simples: o Brasil vende sobretudos produtos industrializados ou semielaborados. Na contrapartida, importa principalmente frutas e verduras – naturalmente mais leves na balança comercial.

A demanda  aquecida corresponde a  todo o evento de pandemia.  Enquanto outros modais de transporte desaceleraram, os caminhões não pararam de rodar. Dee tal modo que, hoje,  faltam carretas transportadoras.

Este incremento ao movimento de cargas tem reflexos diretos não apenas no intercâmbio comercial, como também no Centro Unificado de Fronteira da ponte. Entre as repercussões, filas de caminhões à espera de liberação alfandegária.



Mesmo com restrições da pandemia, fluxo recorde
de mais de 11 mil caminhões por mês, via ponte;

A demanda  crescente tem determinado adaptações. Muitas empresas acaram instalando escritórios como sucursais de apoio na cidade. A perspectiva é que esses novos serviços permaneçam na maioria dos casos, gerando empregos e fazendo girar a roda economia.

 

Rotina fronteiriça

 

Com a  liberação para retorno à localidade argentina de Santo Tomé, também tem sido intenso o fluxo de brasileiros fazendo compras ou desfrutando de atividades de lazer na cidade coirmã. Como nos tempos de travessia de balsa pelo rio Uruguai, agora o fluxo é dos automóveis.  São dezenas, às vezes centenas formando filas na travessia binacional.

Da gasolina ao vinho; do óleo de cozinha ao doce de leite. Compra-se um pouco de tudo no outro lado da fronteira para consumir no Brasil. Para o consumo próprio ou para revender. O negócio é aproveitar a baixa cotação do peso em relação ao real.



Aduana Integrada agiliza os serviços de
migração na fronteira brasileiro-argentina.

Há também argentinos fazendo o caminho inverso, mas o mais frequente é ver brasileiros reeditando a cultura do antigo ‘comércio-formiga.’  Alguns deles se ‘especializam’ e montam pontos de venda aqui ou então, serviço de entrega.

Exercitando essa mesma prática, há ainda os sacoleiros. Aqueles que se abastecem em malharias gaúchas e catarinenses, outros no comércio paulista, e depois como ‘mascates’ vendem roupas de porta em porta ou a fregueses já certos. Pode mudar a forma de atuação, mas a finalidade é a mesma – a sobrevivência.

 

Reabertura de operações, superando a pandemia,
provoca filas no Centro Unificado da ponte.

Momento importante

 

 As decisões em relação ao futuro da Ponte da Integração ocorrem em um momento significativo para a vida econômica e social argentina.  O espectro do "corralito", a grande crise cambial e econômica que abalou a Argentina no começo do século, volta a aparecer.

A inflação já é parte da cultura nacional. Buenos Aires convive há quase um século com taxas de inflação de dois ou até três dígitos. O índice médio entre 1944 e 2022 foi de 191,73%.

O descontrole dos preços devastou a economia argentina. De acordo com matéria da revista Exame, o país vizinho é um lugar onde 44% da população vive abaixo da linha de pobreza. E, dessa vez, a inflação está superando qualquer previsão.

Os preços na Argentina subiram 6,7% em março, atingindo uma média anual de 55,1%.Trata-se de uma alta que não acontecia desde 2002, ano após a derrocada provocada pelo calote que o governo de Buenos Aires deu aos detentores de títulos da dívida pública.



Fila de espera dos caminhoneiros mostra uma demanda
aqquecida, apesar da rápida habilitação alfandegária.


O aumento dos preços atinge principalmente o setor de alimentos.  E  isso se reflete sobre os bens de consumo básicos. Como consequência, dados oficiais mostram que quase metade dos argentinos passa fome. E outros 25% lutam para chegar ao final do mês com algum dinheiro. O peso não para de se desvalorizar. Já os protestos populares estão crescendo. Os sindicatos da oposição voltaram às ruas, ocupando por horas a famosa Calle 9 de Julio, a principal avenida que atravessa o centro de Buenos Aires, e divide a Casa Rosada, sede da Presidência da República, do palácio do Congresso Nacional.

Em meio à crise econômica e social, também uma crise política. Desde novembro passado, quando a esquerda governista registrou pesada derrota nas eleições regionais, as tensões entre o presidente, Alberto Fernández, e sua vice, Cristina Kirchner, têm aumentado. A rota de colisão entre ambos só dificulta as coisas.  Permeando este cenário, a Argentina tem de pagar ao Fundo Monetário Internacional (FMI) empréstimo bilionário contratado pelo presidente anterior, Maurício Macri.


 
Movimento crescente de veículos atravessando os os mais de
1.400 metros da Ponte da Integração São Borja-Santo Tomé.

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