quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

ENTREVISTA: Pedro Cezar Dutra Fonseca

  

“Só o crescimento econômico e a geração

de empregos resolvem as desigualdades”


 

Pedro Dutra Fonseca: "É ridículo acreditar que,
 privatizando a Petrobras, a gasolina vai baratear."

 Entre 1930 e 1980, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo. Hoje, porém, a indústria brasileira representa só cerca de 30% do que era nos anos 80. Doutor em Economia, o são-borjense Pedro Cezar Dutra Fonseca, 67 anos, cita esses dois parâmetros para mostrar a gravidade da situação social e econômica nacional.  Para equacionar a imensa desigualdade existente, ele defende crescimento econômico e geração de empregos. “Tem de ocorrer a entrada do Brasil nos ramos de ponta, como  microeletrônica, nanotecnologia, internet das coisas, microbiologia e de fármacos avançados”. Além disso, é preciso “investimento público em educação, ciência e tecnologia”.

O professor Pedro diz que a polarização política “é péssima, nada constrói”. Vê um vácuo de grandes novos líderes nacionais. E chama a atenção que não é a pandemia a responsável pela grave crise atual. Lamenta que a ideologização tome conta do debate da eventual privatização da Petrobras, por exemplo. Acha, contudo, que não é hora de vender a petroleira nem o Banco do Brasil, por serem “estratégicos”.  Fonseca ressalta, contudo, que “é ridículo” pensar que privatizando a Petrobras vai baratear a gasolina.

Pedro Dutra Fonseca é bacharel em Ciências Econômicas e mestre em Economia pela Ufrgs (Universidades Federal do Rio Grande do Sul). É doutor em Economia pela Universidade de São Paulo (USP). Ele deixou São Borja aos 15 anos, para  construir sua exitosa trajetória acadêmica.

Fonseca é pesquisador do CNPq desde 1987 e professor titular do Departamento de Ciências Econômicas e Relações Internacionais da Ufrgs. Foi coordenador do curso de  Pós-Graduação em Economia, chefe do Departamento de Economia e Relações Internacionais e diretor da Faculdade de Ciências Econômicas. Também é presidente da Câmara de Pesquisa da Ufrgs, pró-reitor de Pesquisa e vice-reitor da instituição. Foi coordenador da Área de Economia da CAPES, diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (1997-2000) e presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política (2002-2004). Ainda atuou como membro do Comitê de Administração, Economia e Contabilidade do CNPq (2011-2017), foi coordenador da Rede Brasileira de Ensino de Desenvolvimento Econômico (2010-2014) e diretor do Centro de Estudos Internacionais sobre Governo (CEGOV) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2014-2017). Igualmente dirigiu o Centro Internacional Celso Furtado de 2013 a 2017.

Como profissional e pesquisador na área de Economia, atua com ênfase em Economia Brasileira. Tem como foco principal Desenvolvimento Econômico, Formação Econômica do Brasil nos séculos XX e XXI e História do Pensamento Econômico. Foi contemplado com Menção Honrosa por sua tese de doutorado pela ANPEC  (Associação Nacional de Pós-Graduação em Economia), em 1987. Ficou em segundo lugar no ‘V Prêmio BNDES de Economia’ (1981). Recebeu o ‘Prêmio Pesquisador Gaúcho 2011’ concedido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (FAPERGS). Ficou com o primeiro e o segundo lugar no ‘Prêmio Brasil de Economia’, concedido pelo Conselho Federal de Economia, na categoria ‘Melhor Artigo’ de Economia nos anos de 2016 e 2014.

O nascimento de Pedro Cezar Dutra Fonseca   foi em 7 de novembro de 1954. Em 30 de novembro de 1990, ele recebeu o título de “São-Borjense Ilustre”, da Câmara Municipal de São Borja. Em 2021 foi distinguido com o título de  “Cidadão de Porto Alegre”, conferido  pelo Legislativo da capital gaúcha.  Possui cinco  livros publicados: “Vargas: o Capitalismo em Construção” (HUCITEC, 3ª edição); RS: Economia e Conflitos Políticos na República Velha (Ed. Mercado Aberto); “A Era Vargas, Economia e Sociedade (org. – em coautoria com Pedro Paulo Bastos). É autor de 49 capítulos de outros livros e 70 artigos em revistas científicas indexadas.

Em São Borja, estudou no Colégio Normal Sagrado Coração de Jesus o Curso Primário (1ª a 5ª série) e o Curso Ginasial no Colégio Estadual de São Borja (CESB). Ao transferir-se para a capital, fez o  Curso de Técnico em Contabilidade (de nível médio) na Ufrgs.  Casado há 40 anos com Elizabeth, o casal tem dois filhos -  Vicente e Lourenço. O primeiro é jornalista e o segundo é bacharel em Direito e trabalha no TRF4. Vicente é pai de Isadora,  única neta.

Ele lembra as suas origens: “O meu pai e a minha mãe, já  falecidos, são Diniz Fagundes da Fonseca Sobrinho e Nair Dutra Fonseca, dona Naná. O pai foi proprietário de uma tradicional loja de calçados e artigos de couro, localizada  na esquina das ruas General Osório com Serafim Dornelles Vargas”.

Para São Borja, com um pujante agronegócio consolidado, o conselho é diversificar e incrementar as atividades urbanas, especialmente o turismo, aproveitando seu grande e diversificado potencial. “Isso geraria empregos e faria a renda circular, com efeito multiplicador”, destaca, acrescentando que “Gramado do nada e hoje potência turística nacional.” Outra ideia é, como região de fronteira, um polo de exportação e exportação. Acompanhe a seguir a entrevista, mais uma leitura imperdível.

 

Alberi Cogo -   Os economistas registram, com frequência, que em menos 50 anos o Brasil teve duas décadas perdidas. A primeira foi nos anos 1980 e a mais recente começou pouco antes de 2010. Quando o país poderia implementar ações para superar a crise, veio a pandemia. Na sua avaliação, que medidas saneadoras são mais urgentes, prioritárias e possíveis numa conjuntura de retração econômica, inflação, desemprego crônicos e crescente e ainda escassos  investimentos?  

Pedro Fonseca - O Brasil foi o país do mundo que mais cresceu entre 1930 e 1980. Na década de 1940, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, ultrapassou a Argentina e tornou-se o maior PIB (Produto Interno Bruto) da América Latina. Infelizmente, a partir de então, seu crescimento foi pífio. A década de 1980 foi de baixíssimo crescimento e inflação alta, só contida após o Plano Real. Mas do ponto de vista político, não foi “perdida”: foi a década da redemocratização e da Constituinte. O fato mais marcante do ponto de vista econômico, desde então, foi, de um lado, o crescimento e a importância do agronegócio, atividade em que o Brasil se destaca em produtividade e ajuda garantir saldos positivos em seu balanço de pagamentos. Mas, lamentavelmente, com uma desindustrialização acelerada, tanto que hoje a indústria brasileira representa cerca de 30% do que era em 1980. Em tese, não há incompatibilidade nenhuma em ser uma grande nação exportadora de produtos primários e ao mesmo tempo ter uma indústria pujante. A alternativa seria retomar a perspectiva de medidas de política econômica que viabilizassem a entrada do Brasil nos ramos de ponta em termos de tecnologia, como a microeletrônica, nanotecnologia, internet das coisas, microbiologia e fármacos de ponta, de outros. A pandemia não pode justificar tal atraso nem o desemprego que temos sem precedentes: já em 2019, portanto antes dela, o país já computava 13 milhões de desempregados. A falta de perspectiva faz muitos jovens e cientistas quererem sair do país, o que é muito triste, numa nação que tem muito a construir.

 


Fonseca: "Se o governador recuperar
a qualidade da educação já vale a pena."


AC - Que medidas propõe para diminuir a gigantesca desigualdade  no Brasil como nação?

PF – As melhores  políticas para combater a desigualdade são o crescimento econômico e a geração de empregos. E isso se consegue com mais investimentos, com mais produção e produtividade. Por outro lado, investimento público em educação, ciência e tecnologia. É o que fizeram as nações que hoje são grandes. Mas nem sempre os políticos concordam, pois são medidas que mostram resultados só a longo prazo, não dão a visibilidade que garante votos na próxima eleição. Entendo que programas de distribuição de auxílios, seja em dinheiro ou em produtos, como cesta básica, gás ou outros, só fazem sentido no curto prazo: são importantes, mas em caráter emergencial.  A dignidade das pessoas não passa por depender do estado a vida toda, mas por ter emprego, seu próprio negócio, enfim, uma atividade que lhe dê possibilidade de exercer sua cidadania. E isso não cai do céu nem aparece por geração espontânea, precisa de política pública, de união entre os entes federativos e dos três poderes como prioridade nacional.

 

AC - Em que medida, a polarização político-ideológica entre direita e esquerda impede avanços no país? Que perspectiva o senhor traça para a disputa eleitoral de 2022?

PF - A divisão é péssima, nada constrói. Uma nação precisa compartilhar valores e símbolos comuns, é o que nos faz todos brasileiros, o reconhecimento de uma Pátria comum. As divergências, que são normais em uma democracia, não podem sobrepujar o fato de que todos são brasileiros e precisam se unir nas grandes causas. A política deve buscar alternativas com o máximo de consenso para gerir os conflitos inerentes às sociedades complexas, e não para aprofundar ainda mais os dissensos. E essa divisão política é reproduzida por mensagens que as pessoas recebem pelas redes sociais e das quais não questionam a autoria, não sabem quem as fez nem quem pagou por elas. Pensam que cai do céu. São manipuladas e pensam que são informadas. Estamos em uma época na qual só se lê aquilo que se está disposto a concordar e nunca o contraditório. Isso leva a um emburrecimento e à desinformação. E por ler a mesma informação repetida várias vezes, mesmo falsa e fantasiosa, passa-se a crer em sua veracidade, já que cada vez se lê menos jornais e até o jornalismo na TV e no rádio, que é realizado profissionais responsáveis e sem anonimato, é negligenciado.

 AC - Na sua visão, o Centro tem chances de unidade e de se firmar como terceira via ou vai continuar gravitando entre os extremos?

PF - Seria muito importante para o país ter candidatos de centro. O centro é fundamental na política, pois ele é quem pode empreender a negociação, que é a razão de ser da política. Quando falo em centro não estou me referindo ao chamado “Centrão”, que é um grupo heterogêneo e quer mais se beneficiar do dinheiro público do que levar adiante um projeto de país. Sei que não se pode generalizar, mas acho deplorável que a política, atividade tão nobre, já destacada na Antiguidade por Platão e Aristóteles, tenha virado no Brasil uma atividade para ganhar dinheiro às custas do Estado, ou seja, do contribuinte. Só o fato de o Congresso aprovar um orçamento secreto - e achar isso normal -, me parece escandaloso: os nossos representantes, por nós eleitos, resolvem que o dinheiro arrecadado pelos impostos que nós pagamos pode ser gasto sem que saibamos em quê. Isso não é usual nos países civilizados. O dinheiro do orçamento da União, dos estados e dos municípios é dos contribuintes e não dos políticos que temporariamente estão à frente de determinados cargos, seja no executivo ou nos legislativos.

 AC - No seu doutorado, na USP, o senhor trabalhou como tema central a ambivalente figura de Getúlio Vargas e um Capitalismo em construção. Amado ou odiado, Vargas é visto como principal personagem  brasileira do século XX. O Brasil está carente de líderes dessa estatura?  

PF - Não tenho a menor dúvida. Como qualquer político ou ser humano, Vargas tinha virtudes e defeitos. Mas possuía um projeto de país, de nação pujante, industrializada, moderna, com menos desigualdade. Essa perspectiva de fazer política não em benefício próprio, mas para construir algo, é que com o tempo se perdeu. Getúlio ficou vinte anos na Presidência da República, a metade em período de ditadura, mas ao morrer não tinha mais riqueza do que possuía quando saiu de São Borja para exercer os cargos. Ao contrário, talvez até tenha perdido dinheiro ou deixado de ganhar, pois ficava  longe das fazendas e dos negócios – e, como se diz, “o boi engorda com o olho do dono”. Recentemente foi publicada toda a correspondência mantida por ele com sua filha Alzira no período em que ele viveu em São Borja, entre as duas presidências, e ela permanecera no Rio de Janeiro. É impressionante ele confessar que estava com dificuldade financeira, pedia para os familiares diminuírem os gastos. Preocupava-se para dona Darcy não passar dificuldades, pedia para Alzira acompanhar as finanças da mãe. Mesmo para construir uma casa em Petrópolis, quando ainda era presidente, teve que ser aos poucos, pois eram muitos os gastos, muitas despesas de representação e o salário insuficiente. E se recusava a pedir financiamento em bancos públicos ou privados, o que poderia sugerir privilégio por exercer cargo público, propina, ou ter que retribuir depois com benesses. Nomeou sua filha Alzira como secretária depois de ela exercer tal tarefa na prática, relutante, pois era sua assessora de confiança e não recebia qualquer salário. Também deixava de ganhar, pois era formada em Direito e poderia trabalhar como profissional liberal. Enfim, os tempos eram outros.

 

Professor prevê novos livros em 2022,
marcando o bicentenário da Independência.

 AC - A atuação política no Brasil normalmente transforma-se em carreira, profissão. Isso é fator para que  não tenhamos o surgimento de novas grandes lideranças?

 PF - Pode ser um agravante, mas não há causalidade linear. Políticos profissionais, ou que se dedicam à política como atividade principal, existem em todos os países e não necessariamente impedem novas lideranças. Veja Barak Obama e Biden, nos EUA, e Angela Merkel, na Alemanha. No Brasil, também antes não era assim: tivemos grandes políticos que poderiam ser chamados de “profissionais” em vários partidos, e eles não impediram novas lideranças nem se locupletaram com os cofres públicos. Fiquemos nos antigos para exemplificar: Raul Pilla (Partido Libertador), Tarso Dutra e Tancredo Neves (antigo PSD), Getulio Vargas e João Goulart (antigo PTB), Fernando Ferrari (MTR), Pedro Simon e Ulisses Guimarães (antigo MDB), Franco Montoro e Mario Covas (PSDB) são exemplos... Isso mostra que o fenômeno é mais recente.

 

AC - A Petrobras foi um dos mais importantes e estratégicos investimentos da Era Vargas. O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, reiteram que é  indispensável privatizar a estatal. Como o senhor avalia se desfazer de uma 'das principais joias da coroa'?

PF - O problema maior ao se discutir privatização é que a ideologização do debate leva as pessoas a serem sempre contra ou sempre a favor. Querem um princípio para aplicar a todos os casos. Todavia, penso que se deve analisar caso a caso, não há regra geral. Nada em si é melhor por ser estatal ou por ser privado, a não ser no sentimentalismo ideológico que simplifica tudo.  Há empresas que foram criadas estatais porque não havia grupo empresarial capaz de bancar os investimentos.  Mas depois de certo tempo elas deixaram de ter a relevância que tinham na época em que foram criadas e podem ser privatizadas.    O usual em uma economia capitalista é que o setor privado seja o maior responsável pela produção e o Estado só entre em casos excepcionais: setores estratégicos, de segurança nacional, para fomentar indústrias nascentes e serviços de utilidade pública, por exemplo. Assim é em todos os países, mesmo os desenvolvidos, como Estados Unidos, Japão, França e Alemanha. No caso da Petrobras, Getúlio inicialmente pretendia que ela não fosse estatal, mas bancada por um pool de empresários nacionais. O que ele não aceitava, e com apoio civil, militar e popular, é que fosse uma multinacional a responsável pela lavra, prospecção e produção de petróleo. Como não apareceram grupos empresariais privados brasileiros dispostos a tal risco (não se sabia se petróleo seria encontrado no país) e com capital suficiente, então a opção foi por criar uma estatal, já que o produto era estratégico. Pessoalmente considero que empresas como Petrobras e Banco do Brasil ainda são estratégicas; além do mais, dão lucro, possuem uma lógica empresarial e são bem administradas. Não há motivo para privatizá-las. O Banco do Brasil não impede que existam bancos privados, os quais, aliás, lucram muito e constituem um dos setores mais sólidos da economia brasileira. Mas o BB, assim como a Caixa Federal, auxilia na elaboração de políticas públicas, como o próprio crédito à agricultura. Achar que a privatização vai baixar a gasolina é ridículo: ela continuará sendo o que é hoje, uma commodity, e, portanto, não pode ter preço desvinculado do mercado internacional. O que a Petrobras faz hoje é exatamente o que faria se fosse totalmente privatizada. O equívoco é querer fazer política com empresas com ações em bolsa, pois afasta os acionistas e as descapitaliza, prejudicando seus investimentos. No longo prazo, quem perde é a própria população.

 

AC - O Rio Grande do Sul tem alguns graves problemas  estruturais que governadores têm deixado de enfrentá-los. O governador atual, Eduardo Leite, produzirá avanços ou os equacionamentos ficarão para o futuro?

 PF - Penso que alguns avanços foram feitos, ele é jovem e transmite que tem vontade de acertar. Mas ainda falta muito.  O Rio Grande do Sul já teve a melhor rede educacional de ensino fundamental e médio do país. A cada pesquisa, perde posição. Não adianta encontrar culpados, há de se buscar soluções. Se o governo estadual mostrasse bons resultados só nessa área, já seria um ganho enorme para todos os gaúchos me com reflexos nos demais setores.

 

 

 

AC - Regiões como as da Fronteira Oeste e das Missões carregam heranças históricas de subdesenvolvimento. Como estudioso na área, o que sugere como iniciativas estratégicas de protagonismo para vencer os atrasos e diversificar a matriz produtiva?

PF - Não há uma fórmula pronta, cada região ou cidade deve saber encontrar sua vocação. São Borja tem excelente produtividade nas lavouras, o que é ótimo, mas poderia diversificar e incrementar atividades urbanas, o que atrairia turistas, geraria empregos e faria a renda circular, com efeito multiplicador. Por ser fronteira, poderia ser um polo de exportação e importação, bem como de serviços, como o turismo. A cidade tem história, tanto jesuítica como política, poderia investir na parte artística, como na música regional e pampeana, na paisagem do rio Uruguai e na faixa ribeirinha, como Porto Alegre só agora começou a fazer nas margens do Guaíba. Isso exigiria casas de espetáculo, bons hotéis e restaurantes, empreendedores privados e apoio do setor público. Gramado começou com chocolate, embora não produza nem cacau, nem açúcar, nem manteiga, nem nozes... e se tornou o maior centro turístico do estado e um dos maiores do Brasil.

 

AC - O professor Pedro Dutra Fonseca atua há muitos anos como docente na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já tendo sido vice-reitor da instituição e diretor do curso de Economia. A universidade tem tido liberdade ideológica e acadêmica de atuação ou tem havido algum cerceamento?

PF - Pessoalmente nunca senti nenhuma restrição política nem ideológica. Mas não sou filiado a nenhum partido, dentre outros motivos  porque prezo minha liberdade acadêmica. Partido exige disciplina e não tenho mais paciência para as idas e vindas do dia a dia da política. Mas, de forma alguma, critico quem consegue conciliar as duas coisas. Ademais, entendo que as pessoas, em si, devem ser livres e podem ter partidos, nunca a instituição. A Universidade é uma instituição que, por sua natureza, tem de ser plural, pois é um local de debate, de criação e difusão do conhecimento, onde vigora o questionamento e o contraditório. Sem essa liberdade não há pesquisa, ninguém aprende sem poder se expressar livremente, mesmo errando. E, por isso, nota-se uma correlação muito alta entre os países líderes em ciência e tecnologia e países de democracia madura. O que hoje se vê com preocupação é o corte de verbas em instituições de fomento, como CAPES e CNPq – aliás, órgãos criados na Era Vargas para apoiar a educação, a ciência e a tecnologia e que, por sua importância reconhecida, mantiveram todo o respaldo durante os governos militares, inclusive foram fortalecidos. O sistema de pós-graduação brasileiro, fruto dessa época, é invejável. Pena que poucos reconheçam isso. O que pode acontecer é o que vem ocorrendo com o ensino fundamental e médio: regressão. Eu saí da primeira série alfabetizado e lendo, minha professora foi a Irmã Rosa, no Colégio Sagrado Coração de Jesus. Hoje há crianças que não sabem ler até na terceira série. Mas fui privilegiado. Nesses anos iniciais tive excelentes professoras, além da irmã Rosa: Maria Tusnelda Lago, Matilde Cohen, Juracy Dutra.   No CESB também, nem deveria citar nomes para não cometer o pecado da omissão, mas lembro agora  a excelente Marisa Trindade, Natércia Santos, Maria Isabel Scalco, Mary Azambuja, Mágali Correa Marum, Dalva Lago, Dilza Antunes, Sonia Gimenez Teló, Consuelo Aquino... Sem falar a Dona Noêmia, professora de piano. Realmente, fui um privilegiado.

 

AC - Planos, professor? Mais livros?

PF - Tenho vários projetos. Estou na UFRGS há mais de 40 anos, já poderia estar aposentado, mas não sei ficar parado. Em 2022, comemorar-se-á o bicentenário da Independência e já fui convidado para participar de vários livros e seminários para refletir sobre o passado e o futuro do país. Se tudo der certo e a pandemia ajudar, estou pronto.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

MAIS UMA ETAPA DE RESULTADOS

 

Foi ano de aprendizados,  

de empatia e de gratidão



Ao se encerrar o segundo ano de pandemia
 mantiem a recorrente indagação: enquanto seres humanos e como sociedade, sairemos melhores quando, um dia, a impactante crise sanitária der trégua? Provavelmente não. É certo, contudo, que estamos sendo levados  a reinvenções permanentes.  Apesar do distanciamento social, criamos novos meios de interação, de aprendizados e, portanto, de evolução.

Em 2021 – de maneira autodidata, como quase tudo – e com apoios providenciais, coloquei em prática uma experiência que, se de um lado, é trabalhosa, de outro traz prazer, empatias e agrega novas ideias e informações, além de  novos amigos.  A experiência é o BlogAlberiCogo ((https://albericogo.blogspot.com), no ar desde o último dia 13 de junho.

A intenção é de manter  uma publicação plural, aberta, ouvindo as  diferentes vertentes de pensamento. É finalidade, também, mostrar a São Borja das instituições comunitárias,  dedicadas à benemerência, a atender às demandas dos que têm limitações ou que têm  menos; lançar olhares para as instituições públicas e privadas que emancipam a cidadania e contemplam desejos. É motivação, ainda, mostrar a pujança econômica ou as suas dificuldades.    

É certo que se trata de uma experiência que ainda pode (e deve) ser aprimorada. Entretanto, desde já, permite concluir que está valendo a pena.  A interrelação com saberes acadêmicos lançou luzes na escuridão e a cidade mostra-se proativa, generosa, sem pensar nos holofotes. O campo também.

Esta publicação, hoje, não é uma retrospectiva. É, sim, um  registro de gratidão no ano que termina. Gratidão a todos àqueles que, fornecendo informações ou verbalizando opiniões e saberes abriram clareiras aos amanhãs. Gratidão também a todos os que me honraram com sua audiência, como uma força motriz indicando que a roda tem de continuar girando.

Em relação àqueles que – convidados – optaram por não oferecer o que têm, fica a constatação pessoal de que é preciso ainda evoluir para estar à altura das suas grandezas.




Nesta quinta-feira (30), o economista são-borjense Pedro Cezar Dutra Fonseca encerra o ciclo de entrevistas de 2021. O destacado professor/doutor da Ufrgs, um especialista  em Brasil do último e deste século,  chama para um choque de realidade no plano  nacional,  mostrando a gravidade do momento e as ações a serem implementadas. É mais uma das leituras imperdíveis.

Com tantas peripécias da pandemia, eis que se chega sã e salgo a mais um ciclo temporal. Este é um dos prêmios principais que recebemos, minha família e eu. A experiência bem-sucedida do blog é igualmente motivo para comemorar e agradecer.  Momentos reconfortantes, gratificantes, em São Borja tem marcado a permanência por aqui. Este ano, ademais, os professores/doutores da Unipampa Adriana Dubal e Miro Bacin e o jornalista Darlan Witchaki  acarinharam meu ego em Crônicas da Cidade.   Foi assim com a distinção pelo título de Cidadão São-Borjense concedido pela Câmara Municipal, de iniciativa do  vereador Celso Lopes. Ou a homenagem recebida na Feira Municipal  do Livro. O blog, do mesmo modo, também é motivação e comemoração.

 

Repartindo saberes

 




O presidente da Acisb, Neroney de Medeiros Cargnin abriu a série de entrevistas ao blog, falando sobre o associativo e o futuro de São Borja. O  sindicalista e corediano Hugo Chimenes também o fez. O prefeito Eduardo Bonotto  projetou o futuro são-borjense e da Famurs, a exemplo do que fez seu vice Roque Feltrin, este exortando pela unidade e pela concórdia. Os secretários municipais  João Carlos Reolon, Vânia Alves Cardoso, João Pedro Daitx, Eugênio Dutra e Luciane Bidinoto igualmente projetaram  ações para que entregas mais amplas e transformadores. Darci Bergmann analisou o ecossistema e sugeriu caminhos para São Borja, enquanto  Eduardo Belmonte contou  sua história de repórter respeitado e apaixonado pelo que faz. Em tempos de pandemia, os médicos Ariane Trindade e Tiago Camícia deram orientações de prevenção e lançaram recomendações para mitigar os riscos que nos espreitam.  

Da cena nacional e local,  experimentados acadêmicos – jornalistas, professores, doutores  em Comunicação – repartiram seus saberes  e experiências, jogando luzes sobre uma conjuntura nebulosa. Foram balizadoras leituras do hoje, sinalizando os amanhãs.

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Integram o rol Paulo Afonso Caetano, Fernando Rodrigues, Tiago Cadó, Odinei Bueno Gonçalves, Adriana Duval, José Antônio Degrazia, Valmor Rhode, Leandro Comassetto, Geder Parzianello e Paulo Dutra Fonseca.  Difícil é sintetizar o que verbalizaram e ensinaram todos eles.

 Há, contudo, alguns pontos  convergentes. Um deles é que a polarização e as posições extremadas  nada constroem. Outro consenso é que, sem investimentos efetivos, determinados e permanentes em educação, ciência e tecnologia – sem hipocrisias e populismos – o Brasil não mudará a suas imensas dificuldades. Só investimentos de modo geral e a geração de empregos darão conta na imensa desigualdade existente no país.

 

Cidade benemerente

 


Comunidade Terapêutica Chico Xavier:
uma missão permanente em favor da vida.

O são-borjense é um povo solidário. Isso explica por que as suas muitas instituições comunitárias agem,  em caráter permanente, na implementação de ações de apoio aos que têm limitações, que têm menos ou não recebem oportunidades.  As instituições ouvidas demonstraram isso.

São bons exemplos Centro de Formação Tereza Verzeri, Apae/Escola Cyro Ferreira, Asilo São Vicente de Paula e  Presídio Estadual, gerando ocupação  aos reclusos. Ainda Liga Feminina de Combate ao câncer, Comunidade Terapêutica Chico Xavier, Pastoral da Saúde da igreja São Francisco de Borja e Sociedade Espírita Allan Kardec são outros bons exemplos.



Após longa luta, 2021 marca a habilitação
no SUS do Centro de Oncologia do HIG.

Em ano de pandemia, muitas também as campanhas buscando auxílios aos necessitados. Desde o poder público a organizações não governamentais e pessoas como Sônia Serpa estiveram na linha de frente, para mitigar as muitas carências – materiais e emocionais.

A Secretaria Municipal da Saúde seguiu com sua salutar rotina de conduzir pacientes a todos as latitudes na geografia gaúcha. Viagens que não cessaram e que, a cada mês, representam 50 voltas completas ao redor da Terra.  Também o Hospital Ivan Goulart virou hospital-escola em 2021, ano em que, depois de longa mobilização, viu confirmada a materialização do credenciamento ao SUS do seu Centro Oncológico.


     

Um milhão de quilômetros por mês pelos

caminhos do Rio Grande, na busca de saúde.

O ano que se encerra marcou os 15 anos de atividades em São Borja da Universidade Federal do Pampa.  A instituição terá mudança internas – curriculares – em 2022 e vao se aproximar mais da comunidade.  Assim também faz o Instituto Federal Farroupilha.

 

Apesar do clima

 

As safras do último verão injetaram cerca de R$ 1 bilhão na economia são-borjense, mesmo com clima adverso. Números como este mostram a importância do agronegócio para a economia local. Foi assim, um dos sustentáculos da economia local.



A persistente ausência de chuvas atingindo
a região missioneira ameaçou a pecuária

Isso, apesar das adversidades acarretadas por um microclima  de chuvas escassas na região. Estudos científicos mostram isso, e tornam o território missioneiro diferente do Rio Grande do Sul.  Isso explica porque choveu tão pouco este ano – só 15 mm em dezembro. O ano então fecha sob o signo da incerteza para as lavouras de verão – as principais no município -, devido à estiagem e crise hídrica nos rios e barragens de irrigação.

Mesmo diante das dificuldades, a agricultura e a agroindústria familiar cresceram. Um feira do setor, coordenada pela Acisb, ocorre no parque de exposições Serafim Vargas. O mercado pecuário segue aquecido.

Nesta pandemia também a indústria da  construção civil seguiu gerando empregos e erguendo casas e ‘espigões’ de apartamentos. Muitas dessas moradias trocaram de mãos e aqueceram o mercado imobiliário.  Também a instalação de sistemas de geração de energia fotovoltaica teve grande incremento.



Crise hídrica, ao longo dos anos, afeta
diretamente irrigação da lavoura de arroz.

Os eventos, parados durante ano e meio, voltam de maneira gradativa e sob protocolos. Os voos regulares até Porto Alegre também retorno. Aos poucos, as atividades turísticas também recomeçam.  A esperança é de melhor situação em 2022.

 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

ENTREVISTA: Eduardo Moreira Belmonte

 

A história da cidade

na ‘ponta da língua’

 



Eduardo Belmonte: tenho material para
um livro, mas meu negócio é ser repórter


Ele tem a energia e a agilidade de um guri, apesar dos seus 56 anos de idade. Como repórter de rádio, ele faz de tudo: do esporte à política, do cotidiano da cidade à rotina policial. E sempre pilotando a sua ‘motinha’, está em todos os lugares e a qualquer hora. Os mais íntimos o chamam de “Bel”. Ele é Eduardo Moreira Belmonte, nascido em Palermo, interior de São Borja, em 13 de outubro de 1965.

Na sua eclética e rica trajetória já mostrou talentos para múltiplas atividades, mas é o rádio a sua grande paixão. Com vários cursos de Eletrônica, sabe que, no setor, ganharia mais dinheiro. Entretanto, o permanente operário do rádio  – com a história de São Borja na ‘ponta da língua’ e uma memória privilegiada – já tomou uma decisão: não deixará de ser repórter.

 Rita de Cácia Ramos é a esposa de Belmonte. O casal tem duas filhas - Ritieli Ramos Belmonte (jornalista) e Adriane Ramos Belmonte (acadêmica de Educação Física na PUCRS). O hoje ‘Repórter Rota’ fez o Ensino Fundamental  no Colégio Apparício Mariense da Silva e  depois cursou o Ginásio Agrícola na antiga escola  Viriato Vargas (Gavivar). Já o  Ensino Médio fez no Colégio Estadual de São Borja, o CESB. Em 13 de novembro de 2006, por indicação do vereador Gilberto de Oliveira Souza e aprovação unânime dos demais parlamentares, ele recebeu o título de São-borjense Ilustre. Um reconhecimento pelo que faz pela cidade.



 Câmara concede a Belmonte título de São-borjense
Ilustre, um reconhecimento às suas contribuições.

 

O seu currículo inclui diversos afazeres profissionais. Um  deles o de comerciário, na Sapataria Dinis. Depois, seguido no ramo, atuou na loja Obino em  Itaqui. Voltando para São Borja, trabalhou no Hotel Charrua, bem como na empresa Vitória Matter. Teve ainda desempenho no serviço público, na Prefeitura Municipal de São Borja, na gestão do então prefeito  Paulo Baron Maurer.

Aos poucos, contudo, começou a materializar o maior sonho - o de ser radialista. Nas décadas de 1980 e 1990, na companhia de Jeovane Contreira, apresentaram o programa ‘A voz do Tiro’, da Associação de Moradores do Bairro do Tiro. Ia ao ar nas tardes de sábado através da Rádio Cultura AM.

 

Paixão vira profissão

 

Sempre fascinado pelo magnetismo do rádio, a saga vitoriosa na área recém estava começando. Em 1999, na gestão Paulo Maurer na Prefeitura, Belmonte foi  convidado pelo presidente do Conselho Municipal de Desportos (CMD), Paulo César Ferriche Paz, para  apresentar um programa esportivo. A experiência se deu na companhia do Jorge Santa Maria e ainda com participação de Alberi Dias, na Rádio Cultura AM.



Na exumação dos restos mortais de 
João Goulart, o ministro Tarso Genro.

 

Nesse período, a direção da emissora estava selecionando narradores esportivos e então  o jovem Eduardo Belmonte foi  apresentado por Jeovane Contreira ao diretor da rádio,  Roque Andres. “Ele ouviu uma gravação minha e, de imediato, já fui integrado à equipe de Esportes da Cultura.” Atuavam também Íbaro Rodrigues, Adão Vitorino, Luthero do Carmo e Paulo Corrêa.

Belmonte conta que “em 2001 aceitei o convite do Íbaro Rodrigues para desempenhar atividades na rádio comunitária Butuí FM. Inaugurada no dia 1° de agosto de 2001, a emissora teve a minha voz como repórter entrevistando o então José Pereira Alvarez. No estúdio, ancorando a programação, um dos ícones do rádio gaúcho e brasileiro -  Nelson de Oliveira. Paulo César Cardial operava a mesa de áudio.

 

Uma nova migração


“Em novembro de 2001 fui convidado pelo saudoso Roque Andres e pelo Deco Almeida  para o desafio de desenvolver o projeto "Repórter Prato Fino" numa parceria com o colega João Paulo Brum. A parceria deu certo, tanto assim que durou até 2019”, detalha.


       
Equipe Cultura de Esportes, uma das
várias paixões de Eduardo Belmonte.

Depois dessa fase, Eduardo Belmonte foi convidado para um outro desafio -  o do projeto "Repórter Rota Smart". A saga de narrar a crônica policial cotidiana permanece na rotina dos são-borjenses até agora.

A grande motivação, conforme o repórter, “é levar meu trabalho às pessoas,  que acompanham as minhas reportagens policiais nas rádios Cultura AM e Fronteira FM”. As redes sociais complementam o trabalho.  Belmonte não esconde o orgulho de trabalhar   no rádio e, em particular, nos veículos da Empresa Samborjense de Comunicações (ESBC). “É a minha segunda casa, a minha segunda família”, ressalta.

 

Cobertura geral

 

Têm sido muitos os momentos e eventos históricos acompanhados pelo experiente e atento repórter. Na área policial, destaca como exemplos,  em janeiro 2002, a  prisão realizada pela Brigada Militar de "Toco" que, na época, era considerado pela polícia como “homem perigoso”. Outro fato  marcante foi o assassinato da empresária Sônia Kaled, que consternou toda a comunidade de São Borja.



A última visita de Leonel Brizola a São Borja.
Atendendo a seu desejo, foi sepultado na cidade.

“No futsal presenciei grandes momentos do Culturão e da Serade”, lembra. No futebol as reportagens contaram grandes jogos da Sociedade Esportiva São Borja, um deles conquistando, em Pelotas, o acesso para a 2ª Divisão do futebol gaúcho.

Na área da cultura religiosa, Belmonte conta que acompanhou o retorno da imagem de São Francisco, que estava no Paraguai. Foi no dia 1° de maio de 2010. A peça histórica foi recolocada na igreja matriz da cidade e do padroeiro. 

No campo  político  Eduardo Belmonte destaca a cobertura no velório e sepultamento do ex-governador Leonel de Moura Brizola. As atenções de todo o  Brasil se voltaram para São Borja, lembra. A  Rádio Cultura fez toda a transmissão do acontecimento histórico.

Assim foi também com a exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart. Antes, outro evento histórico foi a transferência dos restos mortais do presidente Getúlio Vargas do cemitério Jardim da Paz para mausoléu na praça XV de Novembro.

 

Outros fatos marcantes

 

Ganhador do 'Ídolos', Israel Lucero
reuniu multidão na cidade natal.

Na área da Educação a história recente registrada pelo repórter registra os trâmites preliminares, a chegada e depois a inauguração da Unipampa e do Instituto Federal Farroupilha em São Borja. “Tive o privilégio, na companhia do Adriano Zanella, de fazer a transmissão das solenidades inaugurais”, recorda.

Também têm marcados os eventos de transmissão dos concursos regionais de Música para o Carnaval Apparício Silva Rillo, do festival Ronda de São Pedro e da Fenaoeste. “Isso me possibilitou entrevistar   inúmeros cantores e compositores  de expressão nacional que vieram para cidade”. Outro momento inesquecível e que parou São Borja , no dia 11 de outubro de 2010, quando da chegada à  terra natal de Israel Lucero, ganhador na época  do prêmio  Ídolos, da TV Record.

 

 


Zezé de Camargo, ícone do sertanejo nacional, 
em entrevistas exclusiva a Eduardo Belmonte. 


A profissão, o futuro

 

“Há 20 anos o repórter tinha que correr atrás da informação e enfrentava as dificuldades de  comunicação. Lembro que tínhamos que transmitir diariamente boletins para a Rádio Gaúcha no "Chamada Geral." “Hoje com a internet e a notícia em tempo real, tudo é mais rápido, porém é preciso cuidado redobrado na filtragem das informações;  Tem muito fake news” , conta;

“Eu sou radialista e tenho acompanhado o início da caminhada de novos estagiários de Jornalismo.  Certamente, com dedicação e algum tempo, terão um futuro promissor, carreiras brilhantes”, deseja. “Eu tenho vários cursos na área de Eletrônica e, fazendo uma autoavaliação, sei que poderia trabalhar nessa área, que dá muito dinheiro para um bom profissional. Contudo, não conseguiria deixar o rádio”.

Ao longo dos anos confirma ter reunidos muito material – conteúdos em imagens, textos e vídeos -, o  que daria um livro. “Mas o meu negócio é a reportagem. Escrever demanda de mais tempo“.

 

Eduardo Belmonte, Edson Arce e Alberi Cogo,
três colegas que o tempo tornou inseparáveis. 

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quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

CHANCES À ESPERA

 

Quando sobram serviços, mas

falta mão de obra qualificada



É certo que a  pandemia piorou ainda mais o cenário,  mas vários outros fatores escancaram   uma situação historicamente crônica em São Borja e que se torna cada vez mais agravada. A queixa geral é que faltam empregos e chances de renda. Isto, porém, é apenas uma meia verdade: em vários setores estão sobrando oportunidades de trabalho, entretanto há falta de mão de obra qualificada.

Um levantamento deste mês mostra que, na cidade, sobram  vagas, por exemplo, para  profissionais como vendedores, açougueiros e eletricistas, além de outros ramos da construção civil. E a constatação do Departamento de Qualificação da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) e das unidades locais da FGTAS/Sine e do Senac é de que não se trata de um problema de final de ano - sempre com maior demanda. É, na verdade, uma lacuna  que vem de muito tempo, e sem indicativo de solução imediata.

É curioso  contudo.  Não é raro a oferta de capacitações gratuitas e elas não serem aproveitadas. O diretor do Departamento de Qualificação na SMDS, Marcelo Aranda, exemplifica: “Estamos oferecendo um curso gratuito de padeiro, previsto para janeiro, mas tudo indica que teremos  que adiar as aulas, por falta de candidatos.”

O presidente do Sindicato dos Comerciários, Zenir Brittes, comemora a chance de novos empregos nesta virada de ano, principalmente nos supermercados da cidade. Ele espera que as chances possam virar vínculos empregatícios permanentes. O sindicalista confirmaque, para o preenchimento das novas vagas, “há falta principalmente  de padeiros e de confeiteiros.”

 

Reforma e manutenção

 

Na região, nesta pandemia, alguns setores produtivos até incrementaram atividades. É o caso do agronegócio, do mercado imobiliário e da implantação de sistemas geradores de energia fotovoltaica. Com o perfil de serviços essenciais, também os supermercados e as farmácias ampliaram as vendas. 

 Casas e apartamentos trocaram de mãos. Além de aquisições, em muitos casos também houve reformas e ampliações. Tal conjuntura demandou cada vez mais de mão obra. O fim de ano normalmente motiva pinturas e outras reformas. Até existem prestadores de serviços, mas a custos estão inflacionados em até três vezes em relação aos valores de mercado. Isto que São Borja pratica, na área, um dos patamares mais caros no Estado. Tem muita gente desistindo ou adiando seus planos.


Diretor Marcelo Aranda: na busca
de mais vagas através de parcerias.


Mais e mais os telhados são-borjenses ganham painéis de captação de energia solar. É, portanto, um setor literalmente aquecido. Com um nicho em expansão. Quem tem qualificação, tem emprego.

Enquanto isso, há uma carência crescente de instaladores de aparelhos de ar condicionado. Para manutenção desses equipamentos a dificuldade para conseguir prestadores de serviços é ainda maior. Como são muitas as modernas tecnologias à disposição, às vezes o split passa por duas três mãos e nem sempre tem o conserto garantido.


Centro de qualificação

 


Secretária Bidinoto: Prefeitura vai
ter centro para preparar mão de obra.


A administração municipal prevê ativar em 2022 uma unidade de capacitação de mão de obra, oferecendo cursos gratuitos. Será o Centro Municipal de Formação Profissional, que vai funcionar nas instalações do antigo Clube Continente, na vila Cabeleira. “Estamos articulando ações e recursos para a implementação do projeto”, destaca a secretária municipal de Desenvolvimento Social, Luciane Bidinoto.  Ela observa que “esta é uma das prioridades do prefeito Eduardo Bonotto;”

Nesse sentido, a SMDS em parceria com o Senac, o Senar, o Sindicato Rural, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais  e a FGTAS/Sine preveem identificar as áreas com maior carência de mão de obra qualificada, para oferecer as capacitações.  Entendemos que esses auxílios emergenciais são apenas remédio temporários, e precisamos de soluções definitivas”, diz a secretária Bidinoto.

Por seu turno, o diretor do Departamento de Qualificação da secretaria, Marcelo Aranda, que assumiu o cargo em outubro, ressalta que, ao mesmo tempo, está de olho em cursos gratuitos para preparar trabalhadores. São cursos normalmente oferecidos pelo Senac, em áreas como prestação de serviços e no comércio. Também o Senar é outra alternativa de cursos, em parceria com os sindicatos rurais.

Este ano, por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, já aconteceram alguns cursos. O público-alvo é principalmente o setor produtivo rural, mas também trabalhadores urbanos. Entram, neste caso, aprendizado em informática e montagem e manutenção de computadores.  “O fundamental é que as vagas oferecidas não sejam desperdiçadas”, destaca Aranda.

 

Capacitação na escola

 

Secretário Reolon: mais que o ensino, a
escola vai também oferecer capacitação.

Já a Secretaria Municipal de Educação (SMEd) anunciou uma ação de  qualificação através da EJA (Educação de Jovens e Adultos). A partir do início das aulas em 2022, serão oferecidos cursos profissionalizantes, visando à inserção ao mercado de trabalho.  A capacitação será ministrada pela unidade local do Senac, segundo convênio de parceria formalizado com a SMEd.

O secretário de Educação, João Carlos Reolon, ressalta que “preparar os nossos jovens e adultos para o mundo do trabalho torna-se indispensável na atual conjuntura.” Lembra que, “além dos conhecimentos pedagógicos curriculares, precisamos entregar ‘ferramentas funcionais’ a nossos estudantes para que o ensino tenha utilidade prática, de geração de renda e de emancipação da cidadania.”

Já estão definidos os cursos a serem desenvolvidos ao longo de todo o ano letivo de 2022, nas duas escolas municipais que oferecem EJA do Ensino Fundamental. As escolas são a Ubaldo Sorrilha da Costa e a Vicente Goulart.

No primeiro semestre de 2022, a Escola Ubaldo da Costa terá curso de Frentista e a Escola Vicente Goulart, de Operador Caixa. Já no segundo semestre do próximo ano a capacitação na Ubaldo da Costa será sobre Cuidados com Idosos e na Vicente Goulart, treinamento para Garçom.

Reolon observa que, em São Borja e em todo o país, gradativamente, diminui o número de frequentadores nas turmas de Educação de Jovens e Adultos. “Precisamos, então, oferecer algo mais atrativo e utilitário aos nossos alunos”, diz ele.  O secretário entende que essa estratégia vale para o ensino em todos os níveis, e não apenas para os cursos técnicos de nível médio ou universitário. “O mundo digital também nos impõe essa necessidade de conexão com os nossos tempos.”

João Carlos Reolon ainda ressalta que, pela mesma razão, a SMEd já desenvolve em parceria com o Sebrae o projeto de Educação Empreendedora. A finalidade, neste caso, é abranger crianças e adolescentes do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental. “São oferecidas noções básicas e de motivação para que preparemos os empreendedores do futuro”, justifica o secretário. A experiência foi iniciada com quatro escolas e agora já são abrangidas todas as 19 escolas de Ensino Fundamental.