sexta-feira, 12 de agosto de 2022

EVOLUÇÃO À BRASILEIRA

 

Do bico de pena ao voto de cabestro

até o avanço, hoje, à urna eletrônica



 Urna de lona usada no Brasil até a primeira
metade do séculos passado (Foto Museu TSE);


As repetidas polêmicas colocando em dúvida A Justiça Eleitoral e as urnas eletrônicas no Brasil, remetem a resgates históricos e a reflexões. Uma delas leva a analisar o lento processo que garante, hoje, voto universal como direito consolidado. Foi uma conquista a duras penas. E depois de muitas fraudes a bico de pena, procurações fajutas, voto de cabresto e dominação de minorias.

Assim é que, mesmo que novos avanços sejam implementados em relação ao voto e às urnas eletrônicos, o fato é que o sistema coloca o Brasil na vanguarda no cenário mundial. Então, eventuais ajustes não anulam e não diminuem os progressos até aqui alcançados. Basta lembrar que, apenas há algumas décadas São Borja, por exemplo, demorava até uma semana para contar os votos nas suas eleições. Assim também era em âmbito nacional. Já agora em algumas horas estão à disposição os resultados. E com certeza a confiabilidade desse processo não é menor do que no passado. Confira, a seguir, a evolução do voto e das votações no país.

 

Na Colônia e Império

 

O voto no Brasil surgiu em 1532. Em 23 de janeiro daquele ano, houve a primeira eleição, para a escolha dos seis integrantes de Conselho Municipal da vila de São Vicente, em São Paulo. Era formada, na prática, a primeira de Vereadores na então Colônia brasileira.

Em todo o período colonial, até 1821, o voto se dava apenas no âmbito municipal e não existiam partidos políticos. O voto era aberto e as eleições contavam apenas com a participação de homens livres. Elas eram também marcadas por fraudes. A principal curiosidade, nessa época, é que os homens livres analfabetos também podiam votar.

Já durante o período imperial   (1822-1889), era possível eleger deputados e senadores das Câmaras do Império. Semelhante ao período colonial, as fraudes eleitorais eram frequentes, com o uso de subterfúgios como o voto por procuração, em que o eleitor transferia seu direito de votar para outra pessoa. Ou então o uso de título de eleitor falso. O voto era censitário, isto é, apenas uma parcela da população, com determinada renda mínima tinha direito de fazer escolhas.



Imagem da primeira urna eletrônicas - 
avanço a partir de 1996. (Foto do TSE)

A Constituição de 1824, já no Brasil Império, também definiu voto censitário. Por essa Constituição, a estrutura política estava dividida em três níveis – municípios, províncias e governo central. As eleições eram indiretas para as Câmara dos Deputados, Senado e  Assembleias Provinciais. O pleito direto era apenas para Câmaras  Municipais e Juízes de Paz.

Quanto mais elevado o cargo em disputa – deputado ou senador -, maior era a renda exigida dos candidatos. Daí que para ser senador, por exemplo, o poder econômico teria de ser oito vezes maior do que ser vereador.

 

Na República Velha

 

Em boa medida, as fraudes até aumentaram com a chegada da República, em 1889, com a chance de eleger presidente e demais cargos executivos. Isso ocorreu principalmente na chamada República Velha, até 1930.

Se por um lado, havia a possibilidade de escolha do presidente como uma conquista, por outro, o poder se concentrava na mão de poucos. Não podiam votar menores de 21 anos, mulheres, analfabetos, mendigos, soldados rasos, indígenas e integrantes do clero.

Inicialmente, na República da Espada, foram eleitos dois presidentes militares, vindo depois a República dos ‘Coronéis’, marcada pelo domínio (em rodízio no poder) de São Paulo e Minas Gerais – na política ‘café-com-leite’.



Quando primeira eleição no Brasil República,
já sob as regras de uma nova Constituição.

O período foi marcado pelo voto de cabresto, controlado pelos ‘coronéis’. Eram fazendeiros ricos que usavam seu poder econômico para obter poder político. O ‘coronel’ coagia seus ‘apadrinhados’ a votar no candidato por ele indicado. Como não existia uma Justiça Eleitoral, independente e idônea, eram comuns práticas como a coação dos eleitores e o bico de pena. Era uma tática usada pelas mesas eleitorais, para forjar resultados do pleito. Frequentemente inventavam-se nomes falsos como votantes, mortos   votavam e pessoas ausentes ‘compareciam’. Não raro, as atas de votação eram escritas já no dia anterior à eleição.

Outro instrumento de fraudes eram as procurações dadas por eleitores. A prática era convite à manipulação. Era comum, por exemplo, votar duas vezes. Por bizarro que pareça, no Rio de Janeiro, em uma das eleições, tiveram de ser empossados dois governadores e duas assembleias legislativas.

 

Avanço e retrocesso

 

Com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, pela Revolução de 1930, o país passou por transformações sociais, políticas e econômicas significativas. No campo eleitoral, é destaque a criação do Tribunal Superior Eleitoral  e dos Tribunais Regionais Eleitorais, em 1932. No mesmo ano, é instituído o voto secreto, assim como o direito às mulheres de votarem. Com isso, as mulheres já puderam votar para eleger a Assembleia Nacional Constituinte, em 1933, que elaborou Constituição, vigente em 1934.

Apesar desses avanços, logo viria um retrocesso marcando a Era Vargas. Em 1937, é implantado  o Estado Novo, período de ditadura que se estenderia até 1945.

São fechadas  as câmaras legislativas, suspensas as eleições para presidente e demais cargos executivos, sendo ainda imposta pesada censura no país. Em 1946 voltaram as eleições para presidente, rotina que foi interrompida em 1964. Foram quatro  presidentes eleitos no período.

 

Outra ditadura

 


Tancredo Nevez (esq,), primeiro presidente civil eleito após o
fim da ditadura, cumprimenta o 'senhor-diretas', Ulysses Guimarães.

Em 1964, o presidente João Goulart foi deposto por um golpe civil-militar. Começa um novo período de ditadura que se estenderia por 21 anos, até 1985.  No período, contudo,  eleições para alguns cargos legislativos ocorreram. Não houve,  porém,    eleição direta para presidente da República. Os chefes do Executivo -  na União,  estados e municípios - eram eleitos indiretamente ou indicados. Nas  capitais e cidades maiores também era assim, do mesmo modo que nas chamadas áreas de segurança nacional. Foi o caso de São Borja, que só voltou a eleger prefeito em 1985.

As eleições para senador também passaram a ser indiretas. Já para a Câmara Federal, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais  seguiram as escolhas diretas. Enquanto isso, foram  suspensos os partidos políticos existentes, criados a partir de 1946. Passa a  vigorar o bipartidarismo,  autorizando apenas sendo autorizadas a Arena (de apoio ao governo) e o MDB (de oposição).

Atos Institucionais  - AIs -  adotavam as medidas do governo militar no período, vários deles depois sendo consolidados em uma nova Constituição. O mais drástico

foi o AI 5, que fechou Congresso Nacional e podia restringir liberdades individuais.  O retorno das eleições  foi se dando  de forma gradual, já no fim do regime.

Em 1984, o movimento pelas Diretas Já tomou as ruas do país. A proposta, porém, foi rejeitada no Congresso Nacional.  Escolha indireta elegeu Tancredo Neves como novo presidente. Ele, porém, adoeceu e morreu antes de assumir, causando comoção nacional, já que gerou grandes expectativas.  Em 1985, José Sarney (eleito como vice-presidente) assumiu como o primeiro presidente civil em mais de 20 anos.

 

Mais avanços


Sessão de promulgação da “Constituição Cidadã’ pelo de 1988
pelo Congresso Constituinte. (Foto: Agência Brasil/Arquivo)

 

No governo de José Sarney foi promulgada a nova Constituição Federal,  denominada de Constituição Cidadã e elaborada por Assembleia Nacional Constituinte. Além de avanços no campo dos direitos civis e sociais, os direitos políticos também foram expandidos pela nova Constituição, promulgada em 1988. É consolidado o voto universal e secreto.

A Justiça Eleitoral retomou as suas rotinas e institui no país as urnas eletrônicas. Elas passam a ser utilizadas a partir de 1996. No ano 2000 as urnas passaram ser usadas nas eleições em todos os níveis no país, deixando de serem utilizadas cédulas de papel.

A Constituição Cidadã também implantou o  voto facultativo para pessoas com 16 e 17 anos; para os com mais de 70 anos; e para analfabetos. Com isso, hoje, o voto no Brasil pode ser considerado universal, independente de critérios de renda, raça ou religião.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

SUSRENTABILIDADE

 

Apostas de São Borja com vistas à

expansão do saneamento básico

 

Como uma das ações de saneamento no cidade,
fim do Lixão e instalação de um aterro sanitário.

São Borga tem intensificado ações, nas últimas semanas, visando aprontar um novo Plano de Saneamento Básico para o município. Além das áreas urbanas, as diretrizes de ação também abrangerão às demandas das áreas rurais. Dois comitês de trabalho, segundo decreto do prefeito Eduardo Bonotto, coordenam as ações prospectando as próximas décadas.

Enquanto isso, na cidade, a Companhia Rio-grandense de Saneamento (Corsan) iniciou e precisa concluir operações em relação à ampliação do sistema de coleta e tratamento de esgoto. São ações que, uma vez concluídas, colocarão São Borja em novo patamar no mapa de saneamento básico. Quase toda a geografia urbana estará sendo abrangida.

 

Plano de Saneamento

 

A Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente (SMAMA) coordena a mobilização em curso para elaboração do novo Plano de Saneamento. São seguidas orientações gerais da União, que definem que até o final do ano precisa estar concluído o novo regramento. “Queremos um novo marco legal para o futuro do setor, contemplando as próximas décadas”, ressalta o secretário Eugênio Dutra.

Ele observa que, em relação às áreas urbanas, o trabalho fica facilitado, já que existe uma rede de serviços, em caráter permanente, de empresas públicas e privadas. Por esta razão, as atenções se voltam principalmente para o interior do município.



Já há anos, a Corsan garante abastecimento
universal de água à população da cidade.

Até o final do mês uma força-tarefa de duas equipes - da secretaria e da Emater - percorrerão as principais localidades rurais. A finalidade será recolher informações e fazer levantamento fotográfico. Serão avaliadas as atuais condições do abastecimento de água potável, forma de coleta e destino dos resíduos sólidos, situações de alagamentos e serviços de limpeza, entre outros indicadores de saneamento básico.

Principalmente no levantamento urbano também é parceira a  unidade local da Universidade  Estadual do RS – Uergs.

Na cidade, a administração municipal vem priorizando correção de alagamentos e a drenagem pluvial de modo geral. Outra ação recente foi a renovação de contrato para os serviços de coleta e destinação de resíduos sólidos. Paralelamente, é intensificada a reciclagem de materiais.


Campanhas intensificam a reciclagem de resíduos sólidos
como ação sustentável e de significativo papel social.

Instalado há décadas no bairro do Passo, o Lixão da cidade foi desativado. O local só é usado para operação de transbordo. Equipes da Prefeitura e empresa contratada preparam a recuperação do local como passivo ambiental. Ao mesmo tempo, uma empresa privada está prestar a colocar em funcionamento aterro sanitário no bairro no interior do município, a 30 quilômetros da cidade.

São previstas audiências públicas para discussão, eventuais ajustes e aprovação das diretrizes básicas de ação do Plano de Saminto Básico. Depois, sob a forma de projeto de lei, a matéria será manda à Câmara de Vereadores pelo Executivo. No Legislativo novas audiências públicas podem ocorrer, antes do texto do plano se avaliado por comissões técnicas e ser votado em plenário pelos vereadores. Após a aprovação, finalmente o novo conjunto de regras será, finalmente, sancionado pelo prefeito.

 

Água e esgoto

 

Já há algum tempo, é praticamente universal o acesso à água potável pela comunidade urbana. Há poucos anos, a Corsan ampliou seu sistema de captação, tratamento e distribuição, atendendo às demandas de praticamente a comunidade urbana. A aposta, agora, é em relação à expansão dos serviços de coleta e tratamento de dejetos. A completa implementação, dos avanços, porém, parece estar condicionada ao futuro da Corsan, com perspectiva de privatização.


Estação de tratamento de dejetos ampliada para
demandas das próximas décadas. Falta a coleta.

Ao renovar contrato com a Prefeitura, em 2012, a Companhia de Saneamento firmou compromisso de, gradualmente em 30 anos, instalar redes de coleta e tratamento de esgoto em toda a cidade. Os investimentos iniciais são animadores e sinalizam os investimentos. Entretanto, o passo seguinte deve ser a conclusão das obras iniciadas.

O primeiro grande investimento recente da empresa foi de ampliação da sua Estação de Tratamento de Esgoto (ERE). A aplicação de cerca de R$ 10 milhões redimensiona o sistema. A projeção é que o incremento atenda às demandas durante as próximas décadas.

Por enquanto, ramais residenciais visando coletas futuras inicialmente ativados nos bairros do Passo e José Alvarez. Isso ocorreu há vários anos. Em operação semelhante, na sequência, foi abrangido todo o centro-sul da cidade. A região abrange áreas dos bairros Florêncio Guimarães, Paraboi, Betim e Pirahy.

Além de recuperação adequada às ruas esburacadas, falta agora completar os serviços. Em alguns casos, é preciso instalar estações elevadas dos emissários. Em todos eles, os ramais residenciais têm de ser ligados. Quando concluídos os trabalhos, mais da metade da cidade será atendida. A expectativa, porém, é em relação a quando isto vai ocorrer.

 

 

             

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

ENTREVISTA: Roger Portela de Santis



  

Arroz recupera o potencial de irrigação,

mas a lavoura encolherá mais um pouco

Aposta deve ser na diversificação e em avanços de pequista

 


Roger Portela, acadêmico e técnico
orizícola na unidade local do Irga.

Aos 36 anos de idade, Roger Portela de Santis já tem 17 anos dedicados ao Irga (Instituto Rio-Grandense do Arroz). Tecnólogo em Agropecuária e Agroindústria e concluindo  especialização em Gestão do Agronegócio, com atuação em São Borja.. É também acadêmico do curso de Agronomia.   

Na esfera pública é Técnico Orizicola do Irga. Na esfera privada atua na gestão técnica, operacional e financeira da Cabanha Buenaça em Santo Antônio das Missões.

Nesta entrevista ao Blog Alberi Cogo, Roger ressalta que as chuvas frequentes, ultimamente, recuperaram a capacidade de irrigação da lavoura de arroz no município. Entretanto, o alto custo de produção tornará a área menor que os 36 mil hectares do ciclo anterior. Projeta o futuro da atividade integrado a outras culturas e aos avanços da pesquisa, como tem ocorrido.

 

 Evento de treinamento em manejo na lavoura de arroz.

Alberi Cogo – A região de São Bo rja registrouseca histórica até o início do ano e, depois, chuvas frequentes e volumosas. Nesse contexto, qual é a perspectiva para a lavoura de arroz no município para o ciclo 2022/23?

Roger Portela – Se analisarmos apenas a questão dos recursos hídricos, poderíamos afirmar que os níveis dos mananciais retomaram à normalidade e, consequentemente, o cenário é outra vez adequado para retornar a semeadura de 100% da área habitualmente cultivada. Contudo, outros fatores indicam que teremos mais uma redução da área semeada de arroz em São Borja para o ciclo 2022/23.  Entre as razões para isso estão o avanço de outras culturas, como a soja e o milho em terras baixas, além de um cenário de altos custos de produção, aliado a uma baixa valorização do grão.

 

AC – Normalmente nesta época, em outros anos, o município já tinha praticamente todas as terras prontas para o plantio. Qual é a situação agora?

Roger – Este ano tivemos um outono e um início de inverno com muita chuva e nebulosidade. Com isso os preparos de solo, no geral, estão atrasados comparando com a média dos últimos anos.

 

AC – Técnicos preconizam que, devido às secas frequentes e ao déficit hídrico, é preciso investir em sistemas de irrigação. Qual é a sua avaliação?

Roger – Sistemas de irrigação, da melhor maneira possível em cada propriedade, sempre devem priorizados. São essenciais. Ainda mais  para quem deseja acompanhar às evoluções tecnológicas nas mais diversas culturas. Contudo, isso deve ocorrer principalmente em relação à soja e ao milho.

 


    
Abordagem técnica em dia de campo Fronteira Oeste.

AC – O número de arrozeiros tem diminuído no município. É por redução de área ou a produção está mais concentrada?

Roger – Os dados das últimas 10 safras apontam para uma redução de aproximadamente 16 mil hectares de arroz no município de São Borja. Essa redução está ocorrendo tanto nas grandes como nas médias e pequenas propriedades. Entretanto, os produtores com áreas cultivadas de 50 hectares ou menos são a fatia mais afetada na  estratificação. É notória a redução de lavouras deste perfil.

 

Outra operação de treinamento do Irga.

AC – No último ciclo orizícola, foram altos os custos de produção. Já temos estimativas para este ano?

Roger – O custo de produção vem sendo o grande vilão da cultura do arroz Irrigado. É portanto um dos principais fatores causadores da redução da área de plantio e no número de unidades produtivas do município. Na Safra 2021/22 o custo de produção foi de aproximadamente R$ 15.000,00 e a estimativa sara esta safra é de um acréscimo de 30 a 35% sobre o valor do ciclo anterior. O custo, então, poderá chegar próximo dos R$ 20.000,00 por hectare.

 

AC – Nota-se uma progressiva migração para o plantio de soja, em função do mercado. Está acontecendo adequada integração com a cultura orizícola?

Roger – Entendo que problemas como  infestação de plantas daninhas resistentes, falta de renda e áreas ociosas são indicativos de que o modelo praticado na orizicultura já estava saturado. E a  diversificação comumente aplicada em outras culturas é essencial para a sobrevivência da lavoura arrozeira. Devemos olhar para as nossas várzeas e visualizar não mais a monocultura e sim um sistema de produção em que o arroz seja uma das opções. Neste contexto, a soja tem papel fundamental e devemos, cada vez mais, fomentar essa e outras culturas como alternativas nesse novo modelo de produção em terras baixas.

 


Sessão de apresentação da Vitrine Tecnológica Projeto 10+


AC – Além das adversidades climáticas, que custos e fatores mais encarecem e dificultam a atividade arrozeira?

Roger – Os principais fatores que colocam em risco hoje a atividade arrozeira são a falta de renda, causada pelos altos custos de produção, e uma baixa remuneração pelo grão no momento da comercialização. Além disso, cite-se o manejo de plantas daninhas, como arroz vermelho e o capim arroz resistente. A mão de obra é outro motivo, pois a cultura demanda de pessoal capacitado para a função de aguadores e se nota uma redução na oferta de trabalhadores neste segmento especifico. 

 

AC – Há quem defenda a tese de que o arrozeiro pague pela água utilizada para irrigação. Fale a respeito.

Roger – Este tema é muito controverso, como todos os temas que são relacionados a meio ambiente e setor primário. Entre alguns fóruns de debate que já participei ouvi diferentes posicionamentos tanto favoráveis quanto em sentido contrário.  Minha posição é de contrariedade a esta cobrança do uso dos recursos hídricos. Uma eventual cobrança pode inclusive levar à  definitiva inviabilidade da produção de arroz.   Isso poderia colocar em risco a segurança alimentar do país.

 

Uma apresentação em roteiros técncios.


AC – Qual é o futuro da lavoura orizícola?

Roger – Visualizo com uma grande esperança os movimentos que estão sendo feitos por diferentes órgão e setores, tendo no Irga e na pesquisa publica uma vanguarda; A expectativa é de  implantar um novo sistema de manejos de solos arrozeiros, com ênfase em um sistema de produção que traga  a diversificação de atividades. Isto será fundamental para uma lavoura arrozeira sustentável e que realmente traga renda ao produtor. Ao mesmo tempo o novo perfil manterá a cultura viabilizada. Outro fator fundamental é a gestão, e não me refiro apenas a parte financeira mas também a recursos humanos e operacionais na  propriedade. Já soja, milho, trigo e forrageiras de inverno também devem sustentar esse modelo Integração. Assim a gestão adequada traz para nossas várzeas um novo horizonte e não tenho dúvidas que este é o futuro da lavoura arrozeira gaúcha.

 

AC – Os ganhos em técnicas e tecnologias que levam a maiores produtividades são suficientes para compensar as demais perdas registradas?

Roger – Se observarmos, historicamente, em todos os momentos que a pesquisa entregou à lavoura novas ferramentas, foram feitas verdadeiras revoluções. Por exemplo, a lavoura arrozeira, na década de 1980, deu um grande salto quando do lançamento da cultivar BRIRGA 409. A  lavoura saiu dos patamares de produção de uma a três  toneladas por hectare para cinco toneladas por hectare. Já no início dos anos 2000 houve a chamada revolução agronômica liderada pelos avanços no manejo com o Projeto 10. A  lavoura então passou a patamares de sete toneladas e, depois de 2014, com a ‘repaginada’ no Projeto 10+ e a contribuição decisiva do Irga, veio a cultivar 424 RI. A lavoura  aí alcançou os patamares atuais de 8,5 a nove toneladas por hectare. Esses avanços com certeza trouxeram à lavoura a condição de suportar esse cenário complicado de custos de produção absurdos. Desta forma, afirmo que todos os avanços de tecnologia trazem. Sim. contribuições importantes ao setor.



 Participação na Semana Acadêmica da Uergs.


AC – No atual contexto regional e mundial, o que prever para a agricultura de modo geral, especialmente na produção de alimentos?

Roger – A produção de alimentos está a cada momento assumindo um papel de protagonista, não só na economia como na garantia de soberania nacional. Com o crescimento vertical da população mundial produzir alimentos se torna essencial e países como o Brasil, com vocação agrícola, se colocam cada vez mais no cenário global. No Brasil, hoje, como um dos maiores produtores de alimentos do mundo, vejo a necessidade de um investimento governamental em áreas que podem trazer uma contribuição ainda maior ao setor primário. A economia do pais, me refiro à industrialização e ao beneficiamento nacional dos produtos do setor primário para após serem comercializados no mercado internacional geraria um maior protagonismo do setor. Benefícios também à geração de empregos no Brasil. Ainda um maior avanço em tecnologias nacionais para implementos agrícolas, produção de fertilizantes e pesquisa pública, ou seja, maior soberania.

 

AC – Algum novo serviço do Irga. Sintetize as ações em curso no instituto de apoio ao produtor.

Roger – A cultura de arroz é a única que possui uma pesquisa publica de alta  qualidade. O Instituto Rio-Grandense do Arroz, hoje, é um grande fomentador de tecnologias à lavoura, mas como é “cultural” não é valorizado, tanto em nível de produtor como de governo. Mas  trago uma reflexão: dos importantes avanços da lavoura,  todos, sem exceção, tiveram no Irga o grande referencial técnico. Cito a cultivar BR IRGA 409, a IRGA 422 CL e a IRGA 424 RI.  O instituto orienta sobre época de semeadura e nitrogênio em solo seco entre outros manejos que foram implementados pelo Projeto 10 e depois  pelo Projeto 10+. Note-se o novo momento da lavoura - projetos como Soja 6000, Integração Lavoura/Pecuária, Irga 431 CL e Milho em terras baixas. São projetos que colocam o Irga na vanguarda da pesquisa e extensão e são molas propulsoras de uma lavoura arrozeira com mais sustentabilidade e renda.


Permanentes ações de treinamento pelo Irga.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

METEOROLOGISTA CARLOS NOBRE

 

“Só uns 20 anos para salvar Amazônia,

que hoje já  está à beira do precipício"

Bagunça climática no RS já é uma das consequências



Há décadas, Carlos Nobre vem lançando
alertas pelo defesa do bioma amazônico.


Reconhecido como  precursor na defesa do bioma amazônico,  o  pesquisador paulista Carlos Nobre, engenheiro e doutor  em Meteorologia, 71 anos,  maior ambientalista brasileiro, acaba de entrar  para a Royal Society, a sociedade científica mais antiga do mundo. Recentemente, ele deu longa entrevista ao jornal Zero Hora e fez uma séria advertência: “Se a mudança climática elevar a temperatura em 4ºC, a Amazônia virará uma savana degradada."

Nobre faz uma séria advertência:  “A Amazônia está chegando a um ponto de degradação do qual não será possível o retorno.” Desde 1988, o  pesquisador chama atenção para o grande desmatamento na Amazônia e seus impactos no clima. “A  floresta pode não voltar”, enfatiza.

 

Cenário alarmante

 


Se destruição da floresta não cessar logo,
todo o ecossistema ficará comprometido.

Pesquisas substituindo a floresta por pastagens de pecuária mostram que há risco do fim da maior floresta do mundo. Com o desmatamento, o clima em todo o sul da Amazônia - incluindo a área boliviana, Acre, Rondônia, sul do Amazonas, norte de Mato Grosso, sul do Pará e até o oeste do Maranhão - tudo será impactado e ficaria  mais seco. A estação seca, que dura no máximo quatro meses, passará a durar de cinco a seis meses.

O especialista diz que isso  não seria mais clima de floresta, mas de savana, “que nós chamamos de cerrado.” Este quadro leva à hipótese da  “savanização.” Nobre ressalta que há 32 anos faz esse alerta. A floresta se tornaria um bioma degradado, com poucas árvores e muito menos biodiversidade do que o cerrado.

Isso tem chamado a atenção da comunidade científica mundial. Mesmo com   desmatamento zero, se a temperatura se elevar  em 4ºC, a Amazônia se tornará  uma savana degradada. “Não há nenhuma dúvida de que a Amazônia está à beira do precipício.”

 Os desmatamentos continuam a crescer; A floresta, que era muito “resiliente” ao fogo, começa a se abrir. Aí  o sol entra e a vegetação do solo fica inflamável. Quando a floresta está fechada, só 4% da radiação solar chega ao solo, e este nunca seca.

 Como a floresta começa a ser degradada, o sol entra direto e seca tudo, aí o fogo facilmente se propaga. O fogo queima até três metros de altura do tronco das árvores, e elas morrem, comprometendo também o solo. O gás carbônico é então jogado para a atmosfera.

 

Clima mudado

 


Amazônia regula regime de chuvas e o
clima em todo o continente americano.

Carlos Nobre diz que “o dado que mais nos preocupa é que, de 1979 até agora, a estação seca no sul da Amazônia já ficou cinco semanas mais longa.” São 2,3 milhões de quilômetros quadrados dos Andes até o Atlântico. O lugar mais próximo do ponto de não retorno, de não recuperação, é entre o sul de Rondônia e o norte do Mato Grosso, incluindo o sul do Amazonas e o sul do Pará.

A estação seca fica entre 2ºC e 3ºC mais quente e até 30% mais afetada, com menos chuva. A projeção do especialista é de que ainda há tempo de 10 a 20 anos para evitar o

“não retorno”, ou seja, a não recuperação das áreas degradas.  Alguns cientistas acham que o sul e o sudeste da Amazônia já estão nesse patamar de “não retorno”. O dado otimista é que as gerações mais jovens, de 15 a 24 anos, têm uma visão melhorada de salvar o planeta da emergência climática. Essa geração vai entrar no mercado de trabalho.

 

Bagunça e regulação

 

Desmatamento sem controle é apenas uma
das preocupações na preservação do bioma.

A constatação é de que o impacto para o clima é global, especialmente para a América do Sul. “Se a Amazônia de fato completar o processo de “savanização”, ganhamos no mínimo 300 bilhões de toneladas de gás carbônico”, projeta.  O  clima já aumentou 1,1ºC e o desafio é não chegar a 1,5ºC no planeta.

Esses eventos, no Rio Grande do Sul, de secas prolonagas, enchentes, frio extremo e calorão -  têm muito a ver com as mudanças climáticas. “Ao se diminuir a floresta, há menos vapor d’água chegando ao Estado, principalmente nos meses de julho, agosto e setembro. Com isso, a  estação chuvosa na região fica mais seca”, explica.

A entrevista a ZH é também pedagógica. “A  Amazônia recicla água. Ventos alísios trazem umidade do Oceano Atlântico, formam-se nuvens, cai a chuva, grande parte vai para as raízes, que transportam a água até as folhas. Quando as folhas transpiram, o vapor umidifica a atmosfera e ajuda a formar novas nuvens e chuva”, ensina Nobre.

E acrescenta: “Uma molécula de vapor d’água que entra no Oceano Atlântico recicla entre cinco e oito vezes antes de sair da Bacia Amazônica. Essa reciclagem é muito importante, pois estabiliza a temperatura. A reciclagem de vapor d’água ainda leva vapor ao sul da Bacia Amazônica, o que alimenta sistemas de chuva do Cerrado, do Sudeste, da Bacia do Rio Paraná, do Uruguai, da Argentina, do Paraguai e do sul do Brasil.”

Deesaparecendo a floresta, as chuvas nessas regiões diminuirão, prejudicando, por exemplo, a agricultura.

Outro impacto: sem a floresta, a temperatura sobe muito na região amazônica, de 4ºC a 5ºC. Isso já acontece em áreas  de pastagem na Amazônia. O ar que passa por lá e chega ao Cerrado fica de 4ºC a 5ºC mais quente, o que perturba a ecologia do Cerrado e, principalmente, a agricultura da região no seu entorno.

 

Perfil de excelência

 

Derrubada da floresta para atividades agropecuárias
é risco crescente da "savanização", diz Carlos Nobre.

A Royal Society, sediada em Londres, no Reino Unido e que acolhe Carlos Nobre, é a mais antiga sociedade científica ainda em atividade no mundo, criada em 1660. O especialista  é o segundo nascido no Brasil a integrar a seleta instituição; o primeiro foi D. Pedro II.  Nobre é  doutor em Meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). Há quatro décadas estuda a relação entre clima e a região amazônica.

  Desde 2008, propõe soluções para um futuro sustentável para a Amazônia. Depois de se aposentar do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), onde ficou  37 anos, criou  o projeto Amazônia 4.0 para pensar em um desenvolvimento sustentável para a floresta, com melhoria socioeconômica de todas as populações, sem destruir a mata.

Trata-se de uma iniciativa para mostrar viabilidade e trazer inovações tecnológicas para capacitação de populações rurais e urbanas e para desenvolver uma bioeconomia com agregação de valor aos produtos da floresta.

 “A ideia é voltar para trás e ver que os indígenas que chegaram à América do Sul há 12 mil anos criaram um modelo que sempre mantinha a floresta em pé.“ Temos sistemas agroflorestais, com cooperativas que produzem produtos da floresta e  os comercializam, com muitos benefícios para populações amazônicas.” A iniciativa, que tem 25 sítios de pesquisas, é desenvolvida com o apoio da USP.