sexta-feira, 29 de abril de 2022

COLHENDO PREJUÍZOS

 

Baque recorde na soja e no milho.

 Agora o trigo, mas com cautelas

 


Agora aposta é no trigo, mas é preciso estar cauteloso.


 

Depois de safras frustradas de soja e de milho, como  consequência dos estragos acarretados  pela seca mais impactante das últimas décadas,  eis que São Borja e o Rio Grande do Sul apostam  suas fichas na futura lavoura trigo. Mesmo que essa cultura de inverno não seja tão expressiva, sinaliza, ainda assim,  a chance de compensar, ao  menos em parte, os muitos prejuízos colhido nas safra de verão. A atividade tritícola vem em expansão, mas analistas e instituições  de assistência técnica como a Emater preferem ser cautelosos.  A combinação entre alto custo de produção e remuneração insuficiente ao produtor acaba não sendo muito animadora.

No ano de 2021, o Rio Grande do Sul cultivou 1.177.487 hectares de trigo, com rendimento médio de 2.893 quilos por hectare.  Já São Borja plantou 20 mil hectares, com produtividade  média de 2.700  quilos por hectare. No ciclo anterior, em 2020, foram 953.832 hectares semeados em território gaúcho e produtividade de 2.297 quilos por hectare. A quebra foi por causa das formações  de geadas.  Em São Borja foram 16 mil hectares plantados e rendimento de 1.500 quilos por hectare, também devido às adversidades climáticas.

 

Otimismo contido

 

 


Decol: Elevação de todos os preços de insumos.



Para o ciclo tritícola de 2022, a projeção é de que o Rio Grande do Sul tenha um incremento significativo da área de trigo semeada, na ordem de um milhão e meio de hectares. Já São Borja – segundo avalia a Emater – deve pelo menos repetir os 20 mil hectares cultivados no ano anterior.

O diretor do escritório da Emater no município, Odacir Decol, observa, porém, que o otimismo e a projeção de incremento têm de ser cautelosos. A cotação para o trigo está boa - em torno de R$ 93 a saca de 60 quilos -, mas a recomendação é de cuidados, porque os custos de produção têm crescido muito. “O cenário  internacional de guerra e o encarecimento de insumos como adubos, ureias e  herbicidas levam o produtor a pensar bem, antes da fazer grandes investimentos,” avalia o técnico da Emater.  Há ainda que considerar a conjuntura e perspectiva do clima.  

Itens como adubos, herbicidas e fungicidas dobraram de preço. Com isso, é preciso produzir pelo menos 35 sacos por hectare, só para cobrir custos. “E nem estamos falando na depreciação das máquinas e de outros custos operacionais”, adverte Decol.

Na região de São Borja, o zoneamento para o trigo é observado de 21 de maio a 31 de julho, considerando as diversas variedades de ciclo precoce, médio e tardio. O representante da

Emater recomenda racionalização na atividades e uma gestão que combine escalonamentos  e manejos  da necessidade efetiva de insumos. “Isso, além de reduzir custos, dá melhor resultados”, orienta. A projeção é de uma produtividade média de 50 sacos ou três mil quilos por hectare.

 

Soja: só um terço

 

No ciclo 2021/22, São Borja semeou 85 mil hectares de soja – 10 mil hectares a mais que no ciclo anterior. O clima seco não permitiu chegar aos 90 mil hectares inicialmente previstos.

Na safra 2020/21, a produtividade média foi de 2.100  quilos ou 35 sacos por hectares. Lavouras produziram bem, mas a estiagem castigou determinadas  regiões do município.



Rendimento médio não deve superar mil kilos por hectare, 30% do normal.

 Já na safra 2021/22, dos 85 mil hectares cultivados, 150% tiveram algum sistema de irrigação.  De toda  a lavoura, atual 40% está colhida, 40% está em fase de maturação e 20%, em enchimento de grão.

Em relação à área irrigada, deve produzir 2.700  quilos por hectares, média, por ter enfrentado algum problema de déficit hídrico, a exemplo do que ocorreu com o  arroz.

No  contexto, a média é de produção, hoje, de 900 quilos ou 15 sacos por hectare. Como as lavouras do tarde serão um pouco melhores, com o retorno das  chuvas, a projeção é de fechar com média final de mil quilos por hectare, 30% do inicialmente previsto.  Há lavouras com perda total, especialmente as mais do cedo.

 

Milho: duplo prejuízo

 

A lavouras de milho do tipo safrinha é praticamente nula, este ano, em São Borja. São registradas apenas  pequenas lavouras de subsistência, pensando na alimentação de aninais. Já em relação à cultura do cedo foram cultivados 10 mil hectares no município – seis mil de sequeiro e quatro mil hectares com sistemas de irrigação.

O milho de sequeiro do cedo foi  atingido em cheio pela falta de chuva, resultando  em rendimento de 10 a 80 sacos por hectare, média de 40 sacos.  Já o milho irrigado produziu até 140 sacos por hectare.

No Rio Grande do Sul   a Secretaria da Agricultura e a  Emater desenvolvem o programa Pró-Milho, destinado a incrementar a produção no setor. Como o Estado não é autossuficiente, a iniciativa é implementar políticas de incentivo, de modo a estimular a expansão de cadeias produtivas como de produção de aves, suínos e produção leiteira.



Safra praticamente nula, mas RS tem programa de apoio ao incremento da produção.


O objetivo é de aumentar a produção do cereal, tornando o Rio Grande do Sul autossuficiente nessa cultura. Um dos motivos para a criação do programa é o fato de que a produção gaúcha ainda não atende à demanda. Além da alimentação humana, o milho é essencial para as cadeias produtivas da proteína animal, como avicultura, suinocultura e bovinocultura de corte e leite.

A produção tem ficado na faixa dos seis milhões de toneladas, mas bastante dependente do clima, e a meta é implementar meios técnicos e de irrigação que enfrentem as adversidades. O milho, hoje, tem reflexos diretos em 10% sobre todo o PIB gaúcho. Mesmo não sendo ainda autossuficiente, o Estado é exportador para 12 países.


A horta reage

 



Ofertas das feiras de produtores já respondem ao retorno das chuvas.

Com o retorno das chuvas, a partir de março, a produção de hortigranjeiros está diretamente beneficiada. Antes, a seca  afetou duramente  o septo. Além da crise hídrica, o forte calor e a ausência de   unidade no ar  afetaram também a  produção hidropônicas, que se utilizam apenas da água.

Agra, porém, produtores e feirante já começam a dar respostas às condições mais favoráveis do clima. Assim, é bem maior a oferta e a variedade hortaliças como rúcula, alface e repolho, por exemplo. Mandioca, abóbora e moranga também aparecem com mais frequência a custos mais acessíveis.  

Odacir Decol ressalta que a  tendência é de que, logo, também apareçam hortigranjeiros de ciclo mais longo, como é o caso de  cenoura, brócolis e couve-flor. Os níveis de produção, produtividades e oferta de produtos ao longo do ano estão diretamente ligados aos padrões tecnológicos e recursos operacionais de manejo utilizados. A atividade é basicamente mantida pela agricultura ou a agroindústria familiar.



Investimento em tecnologia é garantia de maior produtividade.


Após recesso no início do ano, foi retomada a realização da Feira Agroindústria Familiar, no Parque de Exposições Serafim Dornelles Vargas. É uma ação que normalmente reúne mais de uma dezena de produtores-feirantes, no pavilhão da Acisb no parque. Trata-se de evento promovido pela Associação Comercial e Industrial de São Borja em parceria com a Emater, contando com apoio da Prefeitura.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

EM SÃO BORJA

 

Quebra na safra de arroz vai

a 30% e impõe reinvenções

Produção cai 20%; depreciação do grão maais 10%


Déficit hídrico histórico comprometeu iirigação
das barragens, que atendem 58% da demanda 

São Borja regista no atual ciclo orizícola 2021/22 uma lavoura cultivada de 35.635 hectares de arroz, Contudo, a área  efetivamente produtiva e colhida é de 32.072 hectares, segundo levantamento do Irga (Instituto Rio-Grandense do Arroz). Cerca de 2% ainda faltam ser colhidos. A expectativa é de finalizar a safra neste mês ou no início de maio.

Números como estes, porém, não traduzem  os impactantes prejuízos acarretados à cultura  pelas adversidades climáticas. A longa e severa ausência de chuvas, associada a calorões extremos,  secou os mananciais hídricos das barragens, responsáveis por 58% do sistema de irrigação no município. Com isso,  10% da lavoura teve de ser abandonada  e o restante produziu bem menos que o esperado.

Na safra 2020/21 São Borja produziu 6.835.580 sacos de arroz. Já  na safra 2021/22 os dados, até aqui, indicam  produção de 5.475.973 sacos do grão. Isso significa   1.359.607 sacos a menos, algo como uma redução de 20%.

Portela: futuro da lavoura dependerá
de ações de integração e de reinvenções.

Ao apresentar esses números, o técnico orizícola  Roger Portela de Santis, diretor técnico para o Irga  no município, ressalta que “outro fator importante a ressaltar é a qualidade do grão, que foi bastante  prejudicada.”  A depreciação de qualidade e valoração comercial seria de 10% pelo menos.  Com contexto, com isso, as perdas vão a 30%,

 

Outro parâmetro

 

Uma projeção de rendimento, considerando a área efetivamente colhida,, mostra  uma produtividade de 8.537 quilos por hectares ou 297,5 sacos por quadra.  A óbvia conclusão é que, com água garantida, também existe certeza de produção.

Comparando a produtividades atual à do ciclo anterior,  na safra 2020/21 houve produtividade de 9.256 quilos por hectare ou 322,6 sacos por quadra.Pela projeção atual, de 8.537 quilos  por hectare  ou 297,5 sacos por quadra, a redução de rendimento é de aproximadamente  8%.

 




Com água garantida, cultura produziu, mas

a seca determinou abandono de 10% da área.

Outro gargalo

 

O mercado é novamente um dos  grandes gargalos aos orizicultores gaúchos e em São Borja. Na segunda-feira (25) a cotação de uma saca de arroz em casca, de 50 quilos, no município era de R$ 68.   O valor não remunera a atividade, segundo advertem os analistas.

Um dos motivos é que o custo de produção de um hectare de arroz esteve em R$ 15 mil na safra atual. Os insumos aumentaram 25%, em média, em relação à safra anterior.  Considerando esse custo de produção e o valor pago ao produtor, seria necessário produzir 11.030 quilos de arroz só para bancar os custos.

 

Na incerteza

 


Manejos sustentáveis e diversificação - binômio
que passa a sinalizar futuro da produção agrícola.


Não é de hoje que o cenário em torno do arroz vem se arruinando; O  ciclo atual, entretanto, está sendo emblematicamente dramático e sinalizando para um horizonte de incertezas.  “É  possível visualizar um cenário ainda mais complicado e preocupante para a lavoura de arroz de São Borja, já na implantação da próxima safra”,  adverte Roger Portela.

O extensionista rural estima uma alta no custo de produção que pode ultrapassar os 30% em relação  à anterior. Destaca principalmente o preço dos fertilizantes, dos produtos químicos, da energia elétrica e do óleo diesel. “Isso inviabiliza recuperar as perdas acumuladas até aqui, ainda mais quando a cotação do arroz  está em queda,” diz.

 

 

Elevação de custos, cotações insuficiente e 
irrigação  ameaçada projetam cenário incerto.

Na prática, a cultura orizícola tende a encolher um pouco mais. “Na minha opinião, cada vez mais nossas áreas de várzea serão ocupadas por outras culturas como soja, milho trigo e sistemas de integração lavoura-pecuária, buscando romper com a monocultura.” Ele vê   futuro na diversificação “como ferramenta-chave na implantação de sistemas produtivos.” A rotação de culturas agregará à lavoura de arroz novas alternativas  de renda, controles biológicos e rotação de princípios ativos de herbicidas que favorecerão o controle das principais plantas daninhas da cultura. Esse novo nicho  possibilitará a busca por rentabilidade e sustentabilidade nas propriedades rurais. A produção de arroz ainda demandará de gestão profissional da atividade, abandonando o modelo de propriedade rural para uma empresa rural. Isso levará ao planejamento de atividades, ao gerenciamento de custos e de  investimentos de capital como a base de tudo.

 

Agronegócio pujante

 

Apesar dos baques pontuais como este no arroz no Rio Grande  do Sul, sinalizando a necessidade de reinvenção, o agronegócio  segue pujante, se considerado o universo brasileiro. Juntamente com os investimentos imobiliários, foi o agronegócio o sustentáculo da economia, mesmo na paralisia trazida pela covid. Provas disso, são as grandes  feiras de máquinas e agrícolas e de inovações tecnológicas  no setor agropecuário.


No retorno, quase o dobro no
montante de negócios de máquinas.

A recente edição da Expodireto este ano, em Não-Me-Toque (RS), faturou impressionantes R$ 4,9 bilhões em negócios. Isso é quase o dobro do faturamento de R$ 2,6 bilhões da feira presencial anterior, há dois anos. Foram mais de 250 mil visitantes. Já a Agrishow, que ocorre desde segunda e até sexta-feira em Ribeirão Petri (SP), deve vender pelo menos R$ 2,5 bilhões. As duas vitrines esbanjam novidades.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

ARTE & CULTURA


 Rossini Rpdrigues, uma trajetória

de muito talento e de criatividade


Estátuas em frente aos museus, de Getúlio....  


A produção, em 2021,  das estátuas de Getúlio Vargas e de João Goulart, sob encomenda da administração municipal em São Borja, parece ter dado ainda mais visibilidade  ao artista criador, tornando-o ainda mais popular e requisitado.  Ele é Rossini Rodrigues, 56 anos e que. há 50 pelo menos, vem consolidando o seu talento. Dificilmente alguém passa em frente aos memoriais dos ex-presidentes, onde estão as estátuas, sem registrar uma imagem das belas peças que vê.  Agora, também a pedido, é o poeta e compositor Telmo de Lima Freitas que se vê representado na Praça Tricentenário. Observadores arriscam dizer que esta é uma das melhores criações de Rossini. Telmo ao seu acordeom faz ‘acordes’ de  boas-vindas a quem chega à cidade e canta para os são-borjenses.

  Difícil é dizer quantas grandes obras Rossini Rodrigues já entregou ao longo da sua trajetória de inspiração e de sucesso.   Autodidata, ele nutre-se nas raízes de sua terra, compondo um conjunto de traços próprios, perfeitos e ao mesmo tempo, realistas. Nesta saga de originalidade e de talento, o artista plástico retrata as figuras do seu cotidiano, utilizando-se de matérias-primas as mais diversas -  desde o bronze às  resinas até o cimento, à argila e à madeira.


... e Jango, dão ainda maior visibilidade.

 O trabalho do escultor já ultrapassou as fronteiras do Rio Grande do Sul. O seu nome é destaque em galerias de arte das mais renomadas, Brasil afora e no exterior.  Não é por acaso que a sua obra tenha sido reconhecida como Patrimônio Cultural da Unesco, um dos braços da Organização das Nações Unidas.

 

Perfil que inspira

 

Rossini é tímido e de poucas palavras.  Em compensação, esbanja talento.  Ele  nasceu em São Borja, em 1966, e informa que já aos seis começara a moldar peças de barro e de madeira como seus brinquedos. Um  aviso  dos seus pendores artísticos.  Não demorou para chamar a atenção. “Um dia, um arquiteto disse que me pagaria um salário para eu fazer minhas peças e ele vender. Deu certo”, lembra Rossini. Depois, porém, teve  que se virar por conta.



Das mãos do artista, 'nascem' os personagens da Fronteira.


O artista lembra que ia  olhando e fazendo as peças, melhor, as suas obras-primas. “Sou de família humilde e, quando a situação está muito ruim, sou pescador.” Com orgulho, o são-borjense registra ter ficado entre os dez primeiros colocados para representar o Brasil no Prêmio Unesco de Artesanato Popular.

Uma das inspirações vem de longe,  desde quando assistia ao ir e vir das ‘chibeiras’ na rotina diária do comércio-formiga entre Santo Tomé e São Borja.  Do mesmo modo, a vida no Passo e nas barrancas do rio Uruguai serviram como oficina à sua fervilhante oficina de criações. Rossini diz que encontrou nas formas arredondadas das mulheres ‘chibeiras’ motivação para as suas primeiras esculturas.

 

Valor inestimável

 


Religiosidade é presença constante na obra de Rossini.

Extraoficialmente, sabe-se que uma obra como a estátua de Getúlio Vargas, João Goulart ou de Telmo de Lima Freitas custa na ordem de R$ 12 mil. Cada peça artística, porém, tem valor inestimável. É não é por acaso, portanto, que  esteja nas maiores galerias no país ou no exterior. A Casa de Cultura Mária Quintana, em Porto Alegre, e a de Posadas, Argentina, são apenas dois exemplos.

Rossini amassa o barro e vai moldando suas índias, mulheres mestiças, ou reproduzindo o Bolicho de Campanha. Retrata ainda o churrasco típico da Fronteira e tudo o que vai observando e vivenciando no seu cotidiano.

O seu ateliê, no centro da cidade, vem, cada vez mais  ganhando demandas. São ‘encomendas’, que vão desde  cabos de facas e adornos a estátuas de figuras ilustres. Além, é clero, das sempre inspiradas obras produzidas por iniciativa do artista.

 

Vertente missioneira

 


Criador e criatura povoam a arte do cotidiano.

Outra vertente de criação é a herança cultural dos Povos Missioneiros.  Imagens de santos e  peças que materializaram a trajetória de São Borja como redução jesuítico-guarani igualmente enriquecem o seu acervo.

O meio acadêmico também tem se ocupado em estudar e a difundir a obra de Rossini Rodrigues. Em São Borja, em 2013, por exemplo, a Universidade Federal do Pampa promoveu exposição para mostrar a produção do artista ligada ao legado missioneiro. Estudos têm sido feitos no mesmo sentido, para mostrar um criador além do seu tempo, retratando o seu cotidiano.



Engenho criativo ganha reconhecimento da Unesco.

A produção, porém, é plural, na  sua capacidade criativa. Daí então que das suas mães ‘nascem’ índios guaranis, santos missioneiros, peões campeiros, tropeiros, presépios, lavadeiras, bolichos e mais o que existe na rotina da vida fronteiriça.

 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

NOSSA HISTÓRIA, NOSSA GENTE



  

Na praça, mais simbolismos

oferecem moradas à cultura

 (Fotos monumentos Ana Cogo)


Telmo, aos acordes do seu talento, num 
convite de boas-vindas a qyem chega.


Aos poucos, a praça Tricentenário, na região  sul da cidade, vai ampliando suas referências materiais ancestrais e, através de obras de arte, vai perpetuando a nossa história. Quando surgiu, em 1982, a maior motivação foi simbolizar os 300 anos da formação histórica de São Borja, quando foi erguido um monumento emblemático, marcando a efeméride. Agora, eis que um dos portais de acesso à cidade estende o abraço  de um dos seus filhos ilustre - Telmo de Lima Freitas -, para acolher quem chega e para abraçar os são-borjenses.

O Monumento ao Tricentenário foi pensado pelo talento criativo do poeta, compositor, escritor e pesquisador Apparício Silva Rillo. Na obra, no centro da praça, estão representadas as diversas etapas de uma São Borja de história densa e diversificada. Ferro e  concreto ganham vida para simbolizar o período anterior e subsequente a 1682, quando a ação de índios guarani e jesuítas começaria a construção do Primeiro dos Sete Povos Missioneiro. O rio Uruguai e sua importância também se vê representado, assim como a vida agropastoril, meio principal de sobrevivência. O monumento ainda  não esquece  as sagas portuguesa e espanhola, do mesmo modo que os eventos e vultos históricos, como o movimento republicano, pioneiro aqui, a Terra de Getúlio Vargas e de João Goulart.  A síntese de um povo,  enfim, está ali.

Agora, pela iniciativa da administração municipal e pelo talento e pelas mãos do artista plástico Rossini Rodrigues, emerge  a escultura de Telmo de Lima Freitas, trazendo para a praça mais história e mais cultura. Mais que uma homenagem, moldada em cimento e argila, a ação materializa outro regate histórico de um dos mais icônicos poetas, compositores da arte musical . Se desde fevereiro de 2021 ele não está fisicamente entre nós, sua eclética  obra permanece. Como dizia Apparício Silva Rillo “... e até num bronze de praça vive a raiz da querência!”  Confirma, a seguir, a vida e a obra de Telmo de Lima Freitas.

 


Nos 300 anos, um monumento para
materializar a formação histórica.


Vocação privilegiada   

 

Telmo de Lima Freitas nasceu em São Borja em 13 de fevereiro de 1933. É filho do oficial do Exército brasileiro   Leonardo Francisco de Freitas e da campeira Mariana de Lima Freitas. Com orgulho, sempre dizia ter nascido no bairro Paraboi, inspiração para um dos seus discos e o local onde se criou. Já aos dois anos de idade, estampou a capa da Revista Cacimba tendo na mão um cavaquinho - presente de sua madrinha. Mais tarde, ganhou  um violão de presente de um amigo.

Em 1947, aos 14 anos, despontando seus pendores para a carreira musical, participou do lendário grupo  Quarteto Gaúcho com Jaime Fagundes ao violão,  Glênio na gaita de boca e Lulu no pandeiro. Apesar da breve carreira nesta experiência,  marcou época em São Borja e na região Fronteira Oeste gaúcha.

Em 1950 Telmo inicia sua atuação na  Rádio ZYFZ   Fronteira do Sul de São Borja. Apresentou o programa gauchesco Porongo de Pedra. Foi um dos campeões de audiência da pioneira emissora de rádio da cidade. Na sequência, em 1957, o ‘paraboiense’ vence o famoso concurso de gaita de botão no ‘rande Rodeio Coringa da Rádio Farroupilha de Porto Alegre. O programa, dirigido por Darcy Fagundes e Luiz Menezes, era uma das maiores vitrines musicais do Rio Grande do Sul.

 

Mais conquistas


No ano de 1963, Telmo de Lima Freitas foi aprovado em concurso público como agente da Polícia Federal, passando a atuar em Porto Alegre. Em 1964 assume a chefia da Interpol no Rio Grande do Sul. Até 1968 Telmo tem suas músicas gravadas por José Mendes e por meio de pseudônimos, já que seu nome não podia ser divulgado.
Em 1969 participou, com brilhantismo, do 1º Festival de Música Regionalista organizado pela Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Dois anos depois, em 1971, participa com duas composições da recém criada 1ª Califórnia da Canção Nativa de  Uruguaiana. Os trabalhos foram  Retorno e Prece ao Minuano.  

A saga de  talento e de sucesso segue marcando conquistas. Em 1973 tem participação também no cinema, através do filme A Lenda do Boitatá. Já em 1975, o cantor e compositor José Mendes  consolida enorme sucesso gravando duas músicas de Telmo no LP Isto É Integração. São elas Pago Santo e Prece ao Minuano.


Consagração


O ano de 1979 marca para o poeta e compositor são-borjense uma fase de glórias. Com o clássico Esquilador – provavelmente a sua  música mais  emblemática e conhecida – ganha a cobiçada Calhandra de Ouro na 9ª Califórnia da Canção Nativa em Uruguaiana. Em parceria com



Após 40 anos, Monumento ao
Tricentenário recebe parceria
perenizada em argila e cimento.


Edson Otto e José Antônio Hahn, criou o grupo Os Cantores dos Sete Povos. Foram 11 participações na Califórnia. Em 1983,  pela  destacada gravadora Polygram ele gravou o seu primeiro LP  - O Canto de Telmo de Lima Freitas -, com produção de Ayrton dos Anjos e Juarez Fonseca.

Como típico homem da Fronteira, além de São Borja morou em Uruguaiana e Itaqui.  Em Itaqui foram quatro anos de permanência,  a partir de 1987. Nesta cidade, Telmo continuou a arte musical, segundo conta o consagrado poeta da terra João Sampaio, também responsável pelo resgate da cronologia histórica.  

Em parceria com os itaquienses  Ambrósio de Mello (gaita de botão), Zeca Bigode ( pandeiro), mais Amigo Souza no violão e o cantor Januário Teixeira como intérprete, Telmo ganha uma das linhas da 17ª Califórnia da Canção Nativa do RS. A composição foi o xote Surpresa  que fala de personagens populares de Itaqui, como dona Santiago e o famoso Ramão Grande.

Paralelamente, o gaiteiro Porca Véia – que se tornaria um dos maiores interpretes  da obra do Telmo - grava Serenata e  depois populariza, até 1999, músicas como  Lembranças, Recorrendo os Aguapés Matinê,  Canção do Andarengo, ‘arca Borrada – Marcha Tropeira e Saudade Bruaca.


  Outro disco

 

No talento dos traços de Rossini ou nos
 versos de Telmo, o bolicho de campanha.


O talento de Telmo de Lima Freitas continua a produzir sucessos. Como em 1988, quando grava o seu segundo LP – independente – Alma de Galpão. É  patrocinado pela empresa Marcopólo e conta com interpretes e convidados como José Cláudio Machado, João de Almeida Neto, Loma, Edson Otto e Renato Borghetti, entre  outros.

No ano de 1989, o clássico Esquilador recebe uma releitura ao ser gravado pelo Coral do Banrisul. Já em 1992, Telmo aposenta-se como agente da Polícia Federal, função que exerceu pelo Rio Grande do Sul. O CD  De Marcha Batida é gravado pela pela Usa/Discos, em 1994. Dois anos após é lançado o CD  Rastreador, pela Usa/Discos. A  música Lembranças – um dos clássicos – é regravada pelo cantor Dante Ramón Ledesma. Em 1998 é lançado o CD Acervo Gaúcho pela gravadora Usa/Discos. A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) grava Esquilador.

Em 1999, Telmo grava – novamente pela Usa/Discos – o CD A Mesma Fuça, homenageando o ‘seu’ Paraboi. No ano 2000 vem o Prêmio Açorianos  de Melhor Disco Regional  e Melhor Compositor Regional. Já o cantor e compositor Vinicius Brum  regrava Prece ao Minuano e Prenda Minha clássicos do repertório de Telmo. Em 2002 o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) lança o livro de poesias crioulas de Telmo -   De Volta ao Pago - editado pela Gráfica e Editora Treze de Maio. Ele ainda teria mais gravações e parcerias.

Telmo de Lima Freitas  faleceu no dia 18 de fevereiro de 2021, cinco dias  após comemorar 88 anos de idade. A comemoração de aniversário foi em uma festa campeira, onde  bebeu leite na copa de um chapéu, convencendo outros a fazerem o mesmo.

 

De tudo

 


Além de destacado homem de criação,  Telmo de Lima Freitas teve ainda múltiplas outras ocupações. Foi sapateiro,  escultor, músico, poeta, compositor, enfermeiro, peão de estância, taipeiro nas primeiras  lavouras de arroz da Fronteira Oeste e ainda agente da Polícia Federal.

Ele faleceu em Cachoeirinha, cidade da Grande Porto Alegre. Atendendo desejo pessoal expresso, seus restos mortais foram jogados nas águas do rio Uruguai em São Borja, como um retorno ao local onde nasceu. Também atendendo seu pedido, familiares trouxeram em cavalgada as cinzas do seu que, na Sexta-Feira Santa (15/4), repousaram sobre o berço das águas na região de Rincão de Santana, interior do município.