A indagação que não
se cala: no
Brasil, as lideranças sumiram?
No painel 'WW', Willian Waack debate com três
especialistas sobrea o 'apagão' de lideranças no país.
N
Para quem presta atenção à rotina
nacional, não resta dúvidas: as grandes lideranças novas sumiram no Brasil. E não se trata de mitos, de
‘salvadores
da pátria’ ou de figuras populistas. A referência é para líderes protagonistas
e que agreguem seguidores e inspirem
ações compartilhadas.
Existe também um consenso: o ‘apagão’
não se restringe ao surgimento de lideranças políticas. Alcança ainda, por
exemplo, também os mundos empresarial, religioso, da cultura e do sindicalismo.
As utopias - forças-motrizes da ação – também parece terem sumido.
A CNN Brasil promoveu debate
recentemente sobre o tema, em especial do programa WW. William Waack, âncora do
espaço, ouviu três especialistas. Analisaram o sumiço de líderes no país o economista
e ex-governador do Espírito Santo, Paulo
Hartung, o ex-presidente da Fiesp e atual empreendedor empresarial Horácio
Lafer Piva, também economista, e o sociólogo
e cientista político Bolívar Lamounier. Uma das unanimidades é que o vácuo atual está
emperrando o futuro do desenvolvimento brasileiro.
Longa letargia
Outro consenso entre os debatedores é que o Brasil, só nas últimas décadas,
entregou líderes em adequada quantidade à nação. Isso ocorreu principalmente em
dois momentos: antes ou depois de 1964 e depois no período de redemocratização do
país, coincidindo com a época da Constituinte que ofereceu a atual Constituição, em 1988. Essa
‘safra’ de lideranças foi principalmente no campo político.
Os analistas não têm dúvidas: naquela
época a efervescência das ideias e dos debates levava ao protagonismo. Os
advogados figuravam como um dos segmentos mais ativos. Hoje, porém, houve uma
proletarização da classe, que perde espaço para as grandes bancas nacionais e
internacionais.
Como profissionais mais proativos
surgiram os economistas. Eles são, hoje, uma das categorias mais respeitadas e
valorizadas. Mas os nomes mais
representativos preferem atuar no exterior, principalmente nos Estados Unidos,
e dificilmente são motivados ao engajamento político.
Nesta conjunta, associada ainda às
repercussões da ditadura militar no país (1964-1985), tem-se, há mais de três
décadas, um vazio de grandes novas grandes lideranças. Como causa ou
consequência, há tempo o Brasil literalmente parou. “Ou temos paralisação ou
retração do nosso crescimento”, concordam Bolívar, Hartung e Piva.
Política partidária
Pesquisador e ácido crítico da política
partidária praticada no Brasil, o sociólogo e cientista político Bolívar Lamounier
identifica a atual cultura da político-
partidária como um dos fatores responsáveis pelo cenário atual. “Hoje temos 24 partidos representados
no Congresso Nacional, mas é o mesmo que não existir nenhum”, dispara.
Acrescenta que “siglas descobriram que podem permanecer gravitando e, em troca
de votos de apoio, ficar tirando proveito de quem estiver no governo. “
Lamounier avalia que práticas desse
tipo também engessam a implementação das mudanças e demais reformas
necessárias. “As chamadas cláusulas pétreas da Constituição inviabilizam reformas
necessárias na carta constitucional, a não ser que uma nova Constituinte seja
convocada”, ressalta. E o especialista chama a atenção que a classe política é
responsável pelo conjunto de regras
vigentes.
Na história, entretanto, tem havido
alguns avanços. Um deles é o fim das coligações para as disputadas ao Legislativo.
Outro exemplo é a instituição da
cláusula de barreira para os partidos. O fundo partidário e o fundo eleitoral,
ambos milionários, são apontados como fator motivador à criação de novas siglas.
Empresariado apático
Assim como os economistas, os grandes empresários
no Brasil atuaram mais, em regime de cooperação, em torno das grandes
demandas nacionais. O ex-presidente da
Fiesp Horácio Lafer Piva atribui aos empreendedores boa parcela da culpa. “Hoje, a maioria dos empresários vê, primeiro,
o resultado imediato e a garantia de retorno, para só depois investir ou pensar
em ações a longo prazo.”
Do mesmo modo, acontece com as reformas
a serem feitas no país. “Todos concordam com a reforma tributária, por exemplo, mas as discussões colegiadas não
vão além da segunda ou terceira reunião. Ou o debate empaca em impasses ou então
algum segmento impõe os seus interesses”, analisa, exemplificando.
Como consenso no grupo, vem a conclusão
de que é preciso, com urgência, retomar o crescimento econômico, em favor
também do desenvolvimento social. Isso envolve investimentos, principalmente em
infraestrutura pública e de iniciativa privada. Além de vetor econômico, a
medida será a chave de ignição para o crônico problema do desemprego.
Exemplo capixaba
O estado do Espírito Santo mergulhou,
por longo período, em um cenário do caos econômico, político e social. Corrupção entre instituições públicas
e privadas, dominação pelo crime organizado e retração de crescimento marcaram
a fase inicial deste século.
Hoje o estado capixaba, no Sudeste
brasileiro, está recuperado, sendo exemplo para o país. Um dos protagonistas da
reversão do quadro é o economista Paulo Hartung, duas vezes governador daquele
estado. Ele dá como receita “a capacidade de ousadia e cooperação.” Acha que “atributos
como estes estão em falta atualmente, para o enfrentamento dos problemas e o
surgimento de novas lideranças.”
A proposição geral é que haja espírito republicano e de consciência cidadã, pensando coletivamente. Os três especialistas ouvidos pela CNN Brasil veem um quadro pouco animador, hoje, entretanto com perspectiva de reverção. “Com empenho, criatividade e mobilização da sociedade, os líderes ressurgirão, permitindo também equacionar os problemas”, acreditam Piva, Hartung e




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