quarta-feira, 29 de junho de 2022

CONJUNTURA NACIONAL

 

A indagação que não se cala: no

 Brasil, as lideranças sumiram?

 


No painel 'WW', Willian Waack debate com três
especialistas sobrea o 'apagão' de lideranças no país.

N

Para quem presta atenção à rotina nacional, não resta dúvidas: as grandes lideranças novas  sumiram no Brasil. E não se trata de mitos, de   ‘salvadores da pátria’ ou de figuras populistas. A referência é para líderes protagonistas e que agreguem  seguidores e inspirem ações compartilhadas.

Existe também um consenso: o ‘apagão’ não se restringe ao surgimento de lideranças políticas. Alcança ainda, por exemplo, também os mundos empresarial, religioso, da cultura e do sindicalismo. As utopias - forças-motrizes da ação – também parece  terem sumido.

A CNN Brasil promoveu debate recentemente sobre o tema, em especial do programa WW. William Waack, âncora do espaço, ouviu três especialistas. Analisaram o sumiço de líderes no país o economista e  ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, o ex-presidente da Fiesp e atual empreendedor empresarial Horácio Lafer Piva, também economista,  e o sociólogo e cientista político  Bolívar Lamounier.  Uma das unanimidades é que o vácuo atual está emperrando o futuro do desenvolvimento brasileiro.

 

Longa letargia

 

Outro consenso entre os debatedores é  que o Brasil, só nas últimas décadas, entregou líderes em adequada quantidade à nação. Isso ocorreu principalmente em dois momentos: antes ou depois de 1964 e depois no período de redemocratização do país, coincidindo com a época da Constituinte que  ofereceu a atual Constituição, em 1988. Essa ‘safra’ de lideranças foi principalmente no campo político.

Os analistas não têm dúvidas: naquela época a efervescência das ideias e dos debates levava ao protagonismo. Os advogados figuravam como um dos segmentos mais ativos. Hoje, porém, houve uma proletarização da classe, que perde espaço para as grandes bancas nacionais e internacionais.

Como profissionais mais proativos surgiram os economistas. Eles são, hoje, uma das categorias mais respeitadas e valorizadas. Mas os  nomes mais representativos preferem atuar no exterior, principalmente nos Estados Unidos, e dificilmente são motivados ao engajamento político.

Nesta conjunta, associada ainda às repercussões da ditadura militar no país (1964-1985), tem-se, há mais de três décadas, um vazio de grandes novas grandes lideranças. Como causa ou consequência, há tempo o Brasil literalmente parou. “Ou temos paralisação ou retração do nosso crescimento”, concordam Bolívar, Hartung e Piva.

 

Política partidária

 

Lamounier: agremiações políticas
dão as cartas do jogo, há décadas.

Pesquisador e ácido crítico da política partidária praticada no Brasil, o sociólogo e cientista político Bolívar Lamounier  identifica a atual cultura da político- partidária como um dos fatores responsáveis pelo cenário  atual. “Hoje temos 24 partidos representados no Congresso Nacional, mas é o mesmo que não existir nenhum”, dispara. Acrescenta que “siglas descobriram que podem permanecer gravitando e, em troca de votos de apoio, ficar tirando proveito de quem estiver no governo. “

Lamounier avalia que práticas desse tipo também engessam a implementação das mudanças e demais reformas necessárias. “As chamadas cláusulas pétreas da Constituição inviabilizam reformas necessárias na carta constitucional, a não ser que uma nova Constituinte seja convocada”, ressalta. E o especialista chama a atenção que a classe política é responsável pelo conjunto  de regras vigentes.

Na história, entretanto, tem havido alguns avanços. Um deles é o fim das coligações para as disputadas ao Legislativo.  Outro exemplo é a instituição da cláusula de barreira para os partidos. O fundo partidário e o fundo eleitoral, ambos milionários, são apontados como fator   motivador à criação de novas siglas.

 

Empresariado apático

 


Hartun: empresariado quer primeiro garantias
de lucro para depois investir na atual conjuntura.

Assim como os economistas, os grandes empresários no Brasil  atuaram mais, em  regime de cooperação, em torno das grandes demandas nacionais.  O ex-presidente da Fiesp Horácio Lafer Piva atribui aos empreendedores boa parcela da culpa.  “Hoje, a maioria dos empresários vê, primeiro, o resultado imediato e a garantia de retorno, para só depois investir ou pensar em ações a longo prazo.”

Do mesmo modo, acontece com as reformas a serem feitas no país. “Todos concordam com a reforma tributária,  por exemplo, mas as discussões colegiadas não vão além da segunda ou terceira reunião. Ou o debate empaca em impasses ou então algum segmento impõe os seus interesses”, analisa, exemplificando.

Como consenso no grupo, vem a conclusão de que é preciso, com urgência, retomar o crescimento econômico, em favor também do desenvolvimento social. Isso envolve investimentos, principalmente em infraestrutura pública e de iniciativa privada. Além de vetor econômico, a medida será  a chave de ignição  para o crônico problema do desemprego.

 

Exemplo capixaba

 


Horácio Piva é um dos responsáveis, como ex-governador,
de 'salvar' o estado do Espírito Santo, hoje exemplo nacional.

O estado do Espírito Santo mergulhou, por longo período, em um cenário do caos econômico, político e  social. Corrupção entre instituições públicas e privadas, dominação pelo crime organizado e retração de crescimento marcaram a fase inicial deste século.

Hoje o estado capixaba, no Sudeste brasileiro, está recuperado, sendo exemplo para o país. Um dos protagonistas da reversão do quadro é o economista Paulo Hartung, duas vezes governador daquele estado. Ele dá como receita “a capacidade de ousadia e cooperação.” Acha que “atributos como estes estão em falta atualmente, para o enfrentamento dos problemas e o surgimento de novas lideranças.”

A proposição geral é que haja espírito republicano e de consciência cidadã, pensando  coletivamente. Os três especialistas ouvidos pela CNN Brasil veem um quadro pouco animador,  hoje, entretanto com perspectiva de reverção. “Com empenho, criatividade e mobilização da sociedade, os líderes ressurgirão, permitindo também equacionar os problemas”, acreditam Piva, Hartung e 

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