Do bico de pena ao voto de cabestro
até o avanço, hoje, à urna eletrônica
As
repetidas polêmicas colocando em dúvida A Justiça Eleitoral e as urnas
eletrônicas no Brasil, remetem a resgates históricos e a reflexões. Uma delas leva
a analisar o lento processo que garante, hoje, voto universal como direito
consolidado. Foi uma conquista a duras penas. E depois de muitas fraudes a bico
de pena, procurações fajutas, voto de cabresto e dominação de minorias.
Assim
é que, mesmo que novos avanços sejam implementados em relação ao voto e às
urnas eletrônicos, o fato é que o sistema coloca o Brasil na vanguarda no
cenário mundial. Então, eventuais ajustes não anulam e não diminuem os
progressos até aqui alcançados. Basta lembrar que, apenas há algumas décadas
São Borja, por exemplo, demorava até uma semana para contar os votos nas suas
eleições. Assim também era em âmbito nacional. Já agora em algumas horas estão
à disposição os resultados. E com certeza a confiabilidade desse processo não é
menor do que no passado. Confira, a seguir, a evolução do voto e das votações
no país.
Na Colônia e Império
O voto no
Brasil surgiu em 1532. Em 23 de janeiro daquele ano, houve a
primeira eleição, para a escolha dos seis integrantes de Conselho Municipal da
vila de São Vicente, em São Paulo. Era formada, na prática, a primeira de
Vereadores na então Colônia brasileira.
Em todo o período
colonial, até 1821, o voto se dava apenas no âmbito municipal e não
existiam partidos políticos. O voto era aberto e as eleições contavam
apenas com a participação de homens livres. Elas eram também marcadas por fraudes.
A principal curiosidade, nessa época, é que os homens livres analfabetos também
podiam votar.
Já durante o
período imperial (1822-1889), era possível eleger deputados
e senadores das Câmaras do Império. Semelhante ao período colonial, as fraudes
eleitorais eram frequentes, com o uso de subterfúgios como o voto por
procuração, em que o eleitor transferia seu direito de votar para outra pessoa.
Ou então o uso de título de eleitor falso. O voto era censitário, isto é,
apenas uma parcela da população, com determinada renda mínima tinha direito de
fazer escolhas.
A Constituição
de 1824, já no Brasil Império, também definiu voto censitário. Por essa
Constituição, a estrutura política estava dividida em três níveis – municípios,
províncias e governo central. As eleições eram indiretas para as Câmara dos
Deputados, Senado e Assembleias
Provinciais. O pleito direto era apenas para Câmaras Municipais e Juízes de Paz.
Quanto mais
elevado o cargo em disputa – deputado ou senador -, maior era a renda exigida
dos candidatos. Daí que para ser senador, por exemplo, o poder econômico teria de
ser oito vezes maior do que ser vereador.
Na República Velha
Em boa
medida, as fraudes até aumentaram com a chegada da República, em 1889, com a
chance de eleger presidente e demais cargos executivos. Isso ocorreu
principalmente na chamada República Velha, até 1930.
Se por um
lado, havia a possibilidade de escolha do presidente como uma conquista, por
outro, o poder se concentrava na mão de poucos. Não podiam votar menores de 21
anos, mulheres, analfabetos, mendigos, soldados rasos, indígenas e
integrantes do clero.
Inicialmente,
na República da Espada, foram eleitos dois presidentes militares, vindo depois
a República dos ‘Coronéis’, marcada pelo domínio (em rodízio no poder) de São
Paulo e Minas Gerais – na política ‘café-com-leite’.
O período
foi marcado pelo voto de cabresto, controlado pelos ‘coronéis’.
Eram fazendeiros ricos que usavam seu poder econômico para obter poder político.
O ‘coronel’ coagia seus ‘apadrinhados’ a votar no candidato por ele indicado.
Como não existia uma Justiça Eleitoral, independente e idônea, eram comuns
práticas como a coação dos eleitores e o bico de pena. Era uma tática usada pelas
mesas eleitorais, para forjar resultados do pleito. Frequentemente inventavam-se
nomes falsos como votantes, mortos votavam e pessoas ausentes ‘compareciam’. Não
raro, as atas de votação eram escritas já no dia anterior à eleição.
Outro
instrumento de fraudes eram as procurações dadas por eleitores. A prática era
convite à manipulação. Era comum, por exemplo, votar duas vezes. Por bizarro
que pareça, no Rio de Janeiro, em uma das eleições, tiveram de ser empossados
dois governadores e duas assembleias legislativas.
Avanço e
retrocesso
Com a
chegada de Getúlio Vargas ao poder, pela Revolução de 1930, o
país passou por transformações sociais, políticas e econômicas significativas.
No campo eleitoral, é destaque a criação do Tribunal Superior
Eleitoral e dos Tribunais Regionais Eleitorais, em 1932. No mesmo
ano, é instituído o voto secreto, assim como o direito às mulheres de votarem.
Com isso, as mulheres já puderam votar para eleger a Assembleia Nacional
Constituinte, em 1933, que elaborou Constituição, vigente em 1934.
Apesar desses
avanços, logo viria um retrocesso marcando a Era Vargas. Em 1937, é implantado o Estado Novo, período de ditadura que se
estenderia até 1945.
São fechadas
as câmaras legislativas, suspensas as
eleições para presidente e demais cargos executivos, sendo ainda imposta pesada
censura no país. Em 1946 voltaram as eleições para presidente, rotina que foi
interrompida em 1964. Foram quatro presidentes eleitos no período.
Outra
ditadura
Em 1964, o
presidente João Goulart foi deposto por um golpe civil-militar. Começa um novo
período de ditadura que se estenderia por 21 anos, até 1985. No período, contudo, eleições para alguns cargos legislativos
ocorreram. Não houve, porém, eleição direta para presidente da República.
Os chefes do Executivo - na União, estados e municípios - eram eleitos
indiretamente ou indicados. Nas capitais
e cidades maiores também era assim, do mesmo modo que nas chamadas áreas de
segurança nacional. Foi o caso de São Borja, que só voltou a eleger prefeito em
1985.
As eleições para
senador também passaram a ser indiretas. Já para a Câmara Federal, Assembleias
Legislativas e Câmaras Municipais
seguiram as escolhas diretas. Enquanto isso, foram suspensos os partidos políticos existentes,
criados a partir de 1946. Passa a vigorar
o bipartidarismo, autorizando apenas
sendo autorizadas a Arena (de apoio ao governo) e o MDB (de oposição).
Atos
Institucionais - AIs - adotavam as medidas do governo militar no
período, vários deles depois sendo consolidados em uma nova Constituição. O
mais drástico
foi o AI 5,
que fechou Congresso Nacional e podia restringir liberdades individuais. O retorno das eleições foi se dando de forma gradual, já no fim do regime.
Em 1984, o
movimento pelas Diretas Já tomou as ruas do país. A proposta, porém, foi
rejeitada no Congresso Nacional. Escolha
indireta elegeu Tancredo Neves como novo presidente. Ele, porém, adoeceu e
morreu antes de assumir, causando comoção nacional, já que gerou grandes
expectativas. Em 1985, José Sarney (eleito
como vice-presidente) assumiu como o primeiro presidente civil em mais de 20
anos.
Mais avanços
Sessão de promulgação da “Constituição Cidadã’ pelo de
1988pelo Congresso
Constituinte. (Foto: Agência Brasil/Arquivo)
No governo
de José Sarney foi promulgada a nova Constituição Federal, denominada de Constituição Cidadã e elaborada
por Assembleia Nacional Constituinte. Além de avanços no campo dos direitos
civis e sociais, os direitos políticos também foram expandidos pela nova Constituição,
promulgada em 1988. É consolidado o voto universal e secreto.
A Justiça
Eleitoral retomou as suas rotinas e institui no país as urnas eletrônicas. Elas
passam a ser utilizadas a partir de 1996. No ano 2000 as urnas passaram ser
usadas nas eleições em todos os níveis no país, deixando de serem utilizadas
cédulas de papel.
A
Constituição Cidadã também implantou o voto facultativo para pessoas com
16 e 17 anos; para os com mais de 70 anos; e para analfabetos. Com isso, hoje,
o voto no Brasil pode ser considerado universal, independente de critérios de
renda, raça ou religião.





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