“Só uns 20 anos para salvar Amazônia,
que hoje já está à beira do
precipício"
Bagunça climática no RS já é
uma das consequências

Há décadas, Carlos Nobre vem lançando
alertas pelo defesa do bioma amazônico.
Reconhecido como precursor na
defesa do bioma amazônico, o pesquisador
paulista Carlos Nobre, engenheiro e doutor
em Meteorologia, 71 anos, maior
ambientalista brasileiro, acaba de entrar para a Royal Society, a sociedade científica
mais antiga do mundo. Recentemente, ele deu longa entrevista ao jornal Zero
Hora e fez uma séria advertência: “Se a mudança climática elevar a temperatura em 4ºC, a Amazônia virará
uma savana degradada."
Nobre faz uma séria advertência: “A Amazônia está chegando a um ponto de degradação do qual não
será possível o retorno.” Desde 1988, o
pesquisador chama atenção para o grande desmatamento na Amazônia e seus
impactos no clima. “A floresta pode não voltar”,
enfatiza.
Cenário alarmante
Se destruição da floresta não cessar logo,
todo o ecossistema ficará comprometido.
Pesquisas
substituindo a floresta por pastagens de pecuária mostram que há risco do fim
da maior floresta do mundo. Com o desmatamento, o clima em todo o sul da
Amazônia - incluindo a área boliviana, Acre, Rondônia, sul do Amazonas, norte
de Mato Grosso, sul do Pará e até o oeste do Maranhão - tudo será impactado e ficaria mais seco. A estação seca, que dura no máximo
quatro meses, passará a durar de cinco a seis meses.
O especialista diz que isso não seria mais clima de floresta, mas de savana, “que nós chamamos de cerrado.” Este quadro leva à hipótese da “savanização.” Nobre ressalta que há 32 anos faz esse alerta. A floresta se tornaria um bioma degradado, com poucas árvores e muito menos biodiversidade do que o cerrado.
Isso tem chamado a atenção
da comunidade científica mundial. Mesmo com
desmatamento zero, se a temperatura se elevar em 4ºC, a Amazônia se tornará uma savana degradada. “Não há nenhuma dúvida
de que a Amazônia está à beira do precipício.”
Os desmatamentos continuam a crescer; A
floresta, que era muito “resiliente” ao fogo, começa a se abrir. Aí o sol entra e a vegetação do solo fica
inflamável. Quando a floresta está fechada, só 4% da radiação solar chega ao
solo, e este nunca seca.
Clima mudado
Carlos Nobre diz que
“o dado que mais nos preocupa é que, de 1979 até agora, a estação seca no sul
da Amazônia já ficou cinco semanas mais longa.” São 2,3 milhões de quilômetros
quadrados dos Andes até o Atlântico. O lugar mais próximo do ponto de não
retorno, de não recuperação, é entre o sul de Rondônia e o norte do Mato
Grosso, incluindo o sul do Amazonas e o sul do Pará.
A estação seca fica
entre 2ºC e 3ºC mais quente e até 30% mais afetada, com menos chuva. A projeção
do especialista é de que ainda há tempo de 10 a 20 anos para evitar o
“não
retorno”, ou seja, a não recuperação das áreas degradas. Alguns cientistas acham que o sul e o sudeste
da Amazônia já estão nesse patamar de “não retorno”. O dado otimista é que as gerações mais jovens, de 15 a 24
anos, têm uma visão melhorada de salvar o planeta da emergência climática. Essa
geração vai entrar no mercado de trabalho.
Bagunça e regulação
A constatação é de
que o impacto para o clima é global, especialmente para a América do Sul. “Se a
Amazônia de fato completar o processo de “savanização”, ganhamos no mínimo 300
bilhões de toneladas de gás carbônico”, projeta. O clima
já aumentou 1,1ºC e o desafio é não chegar a 1,5ºC no planeta.
Esses eventos, no Rio
Grande do Sul, de secas prolonagas, enchentes, frio extremo e calorão - têm muito a ver com as mudanças climáticas. “Ao
se diminuir a floresta, há menos vapor d’água chegando ao Estado,
principalmente nos meses de julho, agosto e setembro. Com isso, a estação chuvosa na região fica mais seca”,
explica.
A entrevista a ZH é
também pedagógica. “A Amazônia recicla
água. Ventos alísios trazem umidade do Oceano Atlântico, formam-se nuvens, cai
a chuva, grande parte vai para as raízes, que transportam a água até as folhas.
Quando as folhas transpiram, o vapor umidifica a atmosfera e ajuda a formar novas
nuvens e chuva”, ensina Nobre.
E acrescenta: “Uma
molécula de vapor d’água que entra no Oceano Atlântico recicla entre cinco e
oito vezes antes de sair da Bacia Amazônica. Essa reciclagem é muito
importante, pois estabiliza a temperatura. A reciclagem de vapor d’água ainda
leva vapor ao sul da Bacia Amazônica, o que alimenta sistemas de chuva do
Cerrado, do Sudeste, da Bacia do Rio Paraná, do Uruguai, da Argentina, do
Paraguai e do sul do Brasil.”
Deesaparecendo a
floresta, as chuvas nessas regiões diminuirão, prejudicando, por exemplo, a
agricultura.
Outro impacto: sem a
floresta, a temperatura sobe muito na região amazônica, de 4ºC a 5ºC. Isso já
acontece em áreas de pastagem na
Amazônia. O ar que passa por lá e chega ao Cerrado fica de 4ºC a 5ºC mais
quente, o que perturba a ecologia do Cerrado e, principalmente, a agricultura
da região no seu entorno.
Perfil de excelência
A Royal Society,
sediada em Londres, no Reino Unido e que acolhe Carlos Nobre, é a mais antiga
sociedade científica ainda em atividade no mundo, criada em 1660. O
especialista é o segundo nascido no
Brasil a integrar a seleta instituição; o primeiro foi D. Pedro II. Nobre é doutor em Meteorologia pelo Instituto de
Tecnologia de Massachussetts (MIT) e pesquisador do Instituto de Estudos
Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). Há quatro décadas estuda a
relação entre clima e a região amazônica.
Trata-se de uma
iniciativa para mostrar viabilidade e trazer inovações tecnológicas para
capacitação de populações rurais e urbanas e para desenvolver uma bioeconomia
com agregação de valor aos produtos da floresta.
“A ideia é voltar para trás e ver que os
indígenas que chegaram à América do Sul há 12 mil anos criaram um modelo que
sempre mantinha a floresta em pé.“ Temos sistemas agroflorestais, com
cooperativas que produzem produtos da floresta e os comercializam, com muitos benefícios para
populações amazônicas.” A iniciativa, que tem 25 sítios de pesquisas, é
desenvolvida com o apoio da USP.




Análise de livros, relatórios técnicos e artigos científicos, além da interpretação dos gráficos contidos nos mesmos, mostraram que sempre houve variação na temperatura da atmosfera, mesmo antes do surgimento do homem e em níveis bem mais elevados do que os atuais. O tal desmatamento da Amazônia é uma narrativa hipócrita daqueles que querem, na verdade, aquilo que maus desejam, sua farta riqueza mineral.
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