Arroz recupera o potencial de irrigação,
mas a lavoura encolherá mais um pouco
Aposta deve ser na diversificação e em avanços de
pequista
Aos 36 anos de idade, Roger Portela de Santis já tem 17 anos dedicados ao Irga (Instituto Rio-Grandense do Arroz). Tecnólogo em Agropecuária e Agroindústria e concluindo especialização em Gestão do Agronegócio, com atuação em São Borja.. É também acadêmico do curso de Agronomia.
Na
esfera pública é Técnico Orizicola do Irga. Na esfera privada atua na gestão
técnica, operacional e financeira da Cabanha Buenaça em Santo Antônio das
Missões.
Nesta
entrevista ao Blog Alberi Cogo, Roger ressalta que as chuvas frequentes,
ultimamente, recuperaram a capacidade de irrigação da lavoura de arroz no município.
Entretanto, o alto custo de produção tornará a área menor que os 36 mil
hectares do ciclo anterior. Projeta o futuro da atividade integrado a outras
culturas e aos avanços da pesquisa, como tem ocorrido.
Evento de treinamento em manejo na lavoura de arroz.
Alberi Cogo – A região de São Bo rja registrouseca histórica até o início do ano e, depois, chuvas frequentes e volumosas. Nesse contexto, qual é a perspectiva para a lavoura de arroz no município para o ciclo 2022/23?
Roger
Portela – Se analisarmos apenas a
questão dos recursos hídricos, poderíamos afirmar que os níveis dos mananciais
retomaram à normalidade e, consequentemente, o cenário é outra vez adequado para
retornar a semeadura de 100% da área habitualmente cultivada. Contudo, outros
fatores indicam que teremos mais uma redução da área semeada de arroz em São
Borja para o ciclo 2022/23. Entre as
razões para isso estão o avanço de outras culturas, como a soja e o milho em
terras baixas, além de um cenário de altos custos de produção, aliado a uma
baixa valorização do grão.
AC
– Normalmente nesta época, em outros anos, o município já tinha praticamente
todas as terras prontas para o plantio. Qual é a situação agora?
Roger
– Este ano tivemos um outono e um início
de inverno com muita chuva e nebulosidade. Com isso os preparos de solo, no
geral, estão atrasados comparando com a média dos últimos anos.
AC
– Técnicos preconizam que, devido às secas frequentes e ao déficit hídrico, é
preciso investir em sistemas de irrigação. Qual é a sua avaliação?
Roger
– Sistemas de irrigação, da
melhor maneira possível em cada propriedade, sempre devem priorizados. São essenciais.
Ainda mais para quem deseja acompanhar às
evoluções tecnológicas nas mais diversas culturas. Contudo, isso deve ocorrer
principalmente em relação à soja e ao milho.
AC – O número de arrozeiros tem diminuído no município. É por redução de área ou a produção está mais concentrada?
Roger
– Os dados das últimas 10
safras apontam para uma redução de aproximadamente 16 mil hectares de arroz no
município de São Borja. Essa redução está ocorrendo tanto nas grandes como nas
médias e pequenas propriedades. Entretanto, os produtores com áreas cultivadas
de 50 hectares ou menos são a fatia mais afetada na estratificação. É notória a redução de
lavouras deste perfil.
AC
– No último ciclo orizícola, foram altos os custos de produção. Já temos
estimativas para este ano?
Roger
– O custo de produção vem
sendo o grande vilão da cultura do arroz Irrigado. É portanto um dos principais
fatores causadores da redução da área de plantio e no número de unidades
produtivas do município. Na Safra 2021/22 o custo de produção foi de aproximadamente
R$ 15.000,00 e a estimativa sara esta safra é de um acréscimo de 30 a 35% sobre
o valor do ciclo anterior. O custo, então, poderá chegar próximo dos R$ 20.000,00
por hectare.
AC
– Nota-se uma progressiva migração para o plantio de soja, em função do
mercado. Está acontecendo adequada integração com a cultura orizícola?
Roger
– Entendo que problemas como infestação de plantas daninhas resistentes,
falta de renda e áreas ociosas são indicativos de que o modelo praticado na
orizicultura já estava saturado. E a diversificação comumente aplicada em outras
culturas é essencial para a sobrevivência da lavoura arrozeira. Devemos olhar
para as nossas várzeas e visualizar não mais a monocultura e sim um sistema de
produção em que o arroz seja uma das opções. Neste contexto, a soja tem papel
fundamental e devemos, cada vez mais, fomentar essa e outras culturas como alternativas
nesse novo modelo de produção em terras baixas.
AC
– Além das adversidades climáticas, que custos e fatores mais encarecem e
dificultam a atividade arrozeira?
Roger
– Os principais fatores que
colocam em risco hoje a atividade arrozeira são a falta de renda, causada pelos
altos custos de produção, e uma baixa remuneração pelo grão no momento da
comercialização. Além disso, cite-se o manejo de plantas daninhas, como arroz
vermelho e o capim arroz resistente. A mão de obra é outro motivo, pois a
cultura demanda de pessoal capacitado para a função de aguadores e se nota uma
redução na oferta de trabalhadores neste segmento especifico.
AC
– Há quem defenda a tese de que o arrozeiro pague pela água utilizada para
irrigação. Fale a respeito.
Roger
– Este tema é muito
controverso, como todos os temas que são relacionados a meio ambiente e setor
primário. Entre alguns fóruns de debate que já participei ouvi diferentes
posicionamentos tanto favoráveis quanto em sentido contrário. Minha posição é de contrariedade a esta
cobrança do uso dos recursos hídricos. Uma eventual cobrança pode inclusive levar
à definitiva inviabilidade da produção
de arroz. Isso poderia colocar em risco a segurança
alimentar do país.
Uma apresentação em roteiros técncios.
AC
– Qual é o futuro da lavoura orizícola?
Roger
– Visualizo com uma grande
esperança os movimentos que estão sendo feitos por diferentes órgão e setores,
tendo no Irga e na pesquisa publica uma vanguarda; A expectativa é de implantar um novo sistema de manejos de solos
arrozeiros, com ênfase em um sistema de produção que traga a diversificação de atividades. Isto será fundamental
para uma lavoura arrozeira sustentável e que realmente traga renda ao produtor.
Ao mesmo tempo o novo perfil manterá a cultura viabilizada. Outro fator
fundamental é a gestão, e não me refiro apenas a parte financeira mas também a
recursos humanos e operacionais na propriedade. Já soja, milho, trigo e
forrageiras de inverno também devem sustentar esse modelo Integração. Assim a gestão
adequada traz para nossas várzeas um novo horizonte e não tenho dúvidas que
este é o futuro da lavoura arrozeira gaúcha.
AC
– Os ganhos em técnicas e tecnologias que levam a maiores produtividades são
suficientes para compensar as demais perdas registradas?
Roger
– Se observarmos,
historicamente, em todos os momentos que a pesquisa entregou à lavoura novas ferramentas,
foram feitas verdadeiras revoluções. Por exemplo, a lavoura arrozeira, na
década de 1980, deu um grande salto quando do lançamento da cultivar BRIRGA 409.
A lavoura saiu dos patamares de produção
de uma a três toneladas por hectare para
cinco toneladas por hectare. Já no início dos anos 2000 houve a chamada
revolução agronômica liderada pelos avanços no manejo com o Projeto 10. A lavoura então passou a patamares de sete
toneladas e, depois de 2014, com a ‘repaginada’ no Projeto 10+ e a contribuição
decisiva do Irga, veio a cultivar 424 RI. A lavoura aí alcançou os patamares atuais de 8,5 a nove toneladas
por hectare. Esses avanços com certeza trouxeram à lavoura a condição de
suportar esse cenário complicado de custos de produção absurdos. Desta forma,
afirmo que todos os avanços de tecnologia trazem. Sim. contribuições
importantes ao setor.
AC
– No atual contexto regional e mundial, o que prever para a agricultura de modo
geral, especialmente na produção de alimentos?
Roger
– A produção de alimentos
está a cada momento assumindo um papel de protagonista, não só na economia como
na garantia de soberania nacional. Com o crescimento vertical da população
mundial produzir alimentos se torna essencial e países como o Brasil, com
vocação agrícola, se colocam cada vez mais no cenário global. No Brasil, hoje,
como um dos maiores produtores de alimentos do mundo, vejo a necessidade de um
investimento governamental em áreas que podem trazer uma contribuição ainda
maior ao setor primário. A economia do pais, me refiro à industrialização e ao
beneficiamento nacional dos produtos do setor primário para após serem
comercializados no mercado internacional geraria um maior protagonismo do setor.
Benefícios também à geração de empregos no Brasil. Ainda um maior avanço em
tecnologias nacionais para implementos agrícolas, produção de fertilizantes e
pesquisa pública, ou seja, maior soberania.
AC – Algum novo serviço do Irga. Sintetize as ações em curso no instituto de apoio ao produtor.
Roger
– A cultura de arroz é a única que
possui uma pesquisa publica de alta qualidade. O Instituto Rio-Grandense do Arroz,
hoje, é um grande fomentador de tecnologias à lavoura, mas como é “cultural”
não é valorizado, tanto em nível de produtor como de governo. Mas trago uma reflexão: dos importantes avanços da
lavoura, todos, sem exceção, tiveram no
Irga o grande referencial técnico. Cito a cultivar BR IRGA 409, a IRGA 422 CL e
a IRGA 424 RI. O instituto orienta sobre
época de semeadura e nitrogênio em solo seco entre outros manejos que foram
implementados pelo Projeto 10 e depois pelo Projeto 10+. Note-se o novo momento da
lavoura - projetos como Soja 6000, Integração Lavoura/Pecuária, Irga 431 CL e
Milho em terras baixas. São projetos que colocam o Irga na vanguarda da
pesquisa e extensão e são molas propulsoras de uma lavoura arrozeira com mais sustentabilidade
e renda.








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