sexta-feira, 5 de agosto de 2022

ENTREVISTA: Roger Portela de Santis



  

Arroz recupera o potencial de irrigação,

mas a lavoura encolherá mais um pouco

Aposta deve ser na diversificação e em avanços de pequista

 


Roger Portela, acadêmico e técnico
orizícola na unidade local do Irga.

Aos 36 anos de idade, Roger Portela de Santis já tem 17 anos dedicados ao Irga (Instituto Rio-Grandense do Arroz). Tecnólogo em Agropecuária e Agroindústria e concluindo  especialização em Gestão do Agronegócio, com atuação em São Borja.. É também acadêmico do curso de Agronomia.   

Na esfera pública é Técnico Orizicola do Irga. Na esfera privada atua na gestão técnica, operacional e financeira da Cabanha Buenaça em Santo Antônio das Missões.

Nesta entrevista ao Blog Alberi Cogo, Roger ressalta que as chuvas frequentes, ultimamente, recuperaram a capacidade de irrigação da lavoura de arroz no município. Entretanto, o alto custo de produção tornará a área menor que os 36 mil hectares do ciclo anterior. Projeta o futuro da atividade integrado a outras culturas e aos avanços da pesquisa, como tem ocorrido.

 

 Evento de treinamento em manejo na lavoura de arroz.

Alberi Cogo – A região de São Bo rja registrouseca histórica até o início do ano e, depois, chuvas frequentes e volumosas. Nesse contexto, qual é a perspectiva para a lavoura de arroz no município para o ciclo 2022/23?

Roger Portela – Se analisarmos apenas a questão dos recursos hídricos, poderíamos afirmar que os níveis dos mananciais retomaram à normalidade e, consequentemente, o cenário é outra vez adequado para retornar a semeadura de 100% da área habitualmente cultivada. Contudo, outros fatores indicam que teremos mais uma redução da área semeada de arroz em São Borja para o ciclo 2022/23.  Entre as razões para isso estão o avanço de outras culturas, como a soja e o milho em terras baixas, além de um cenário de altos custos de produção, aliado a uma baixa valorização do grão.

 

AC – Normalmente nesta época, em outros anos, o município já tinha praticamente todas as terras prontas para o plantio. Qual é a situação agora?

Roger – Este ano tivemos um outono e um início de inverno com muita chuva e nebulosidade. Com isso os preparos de solo, no geral, estão atrasados comparando com a média dos últimos anos.

 

AC – Técnicos preconizam que, devido às secas frequentes e ao déficit hídrico, é preciso investir em sistemas de irrigação. Qual é a sua avaliação?

Roger – Sistemas de irrigação, da melhor maneira possível em cada propriedade, sempre devem priorizados. São essenciais. Ainda mais  para quem deseja acompanhar às evoluções tecnológicas nas mais diversas culturas. Contudo, isso deve ocorrer principalmente em relação à soja e ao milho.

 


    
Abordagem técnica em dia de campo Fronteira Oeste.

AC – O número de arrozeiros tem diminuído no município. É por redução de área ou a produção está mais concentrada?

Roger – Os dados das últimas 10 safras apontam para uma redução de aproximadamente 16 mil hectares de arroz no município de São Borja. Essa redução está ocorrendo tanto nas grandes como nas médias e pequenas propriedades. Entretanto, os produtores com áreas cultivadas de 50 hectares ou menos são a fatia mais afetada na  estratificação. É notória a redução de lavouras deste perfil.

 

Outra operação de treinamento do Irga.

AC – No último ciclo orizícola, foram altos os custos de produção. Já temos estimativas para este ano?

Roger – O custo de produção vem sendo o grande vilão da cultura do arroz Irrigado. É portanto um dos principais fatores causadores da redução da área de plantio e no número de unidades produtivas do município. Na Safra 2021/22 o custo de produção foi de aproximadamente R$ 15.000,00 e a estimativa sara esta safra é de um acréscimo de 30 a 35% sobre o valor do ciclo anterior. O custo, então, poderá chegar próximo dos R$ 20.000,00 por hectare.

 

AC – Nota-se uma progressiva migração para o plantio de soja, em função do mercado. Está acontecendo adequada integração com a cultura orizícola?

Roger – Entendo que problemas como  infestação de plantas daninhas resistentes, falta de renda e áreas ociosas são indicativos de que o modelo praticado na orizicultura já estava saturado. E a  diversificação comumente aplicada em outras culturas é essencial para a sobrevivência da lavoura arrozeira. Devemos olhar para as nossas várzeas e visualizar não mais a monocultura e sim um sistema de produção em que o arroz seja uma das opções. Neste contexto, a soja tem papel fundamental e devemos, cada vez mais, fomentar essa e outras culturas como alternativas nesse novo modelo de produção em terras baixas.

 


Sessão de apresentação da Vitrine Tecnológica Projeto 10+


AC – Além das adversidades climáticas, que custos e fatores mais encarecem e dificultam a atividade arrozeira?

Roger – Os principais fatores que colocam em risco hoje a atividade arrozeira são a falta de renda, causada pelos altos custos de produção, e uma baixa remuneração pelo grão no momento da comercialização. Além disso, cite-se o manejo de plantas daninhas, como arroz vermelho e o capim arroz resistente. A mão de obra é outro motivo, pois a cultura demanda de pessoal capacitado para a função de aguadores e se nota uma redução na oferta de trabalhadores neste segmento especifico. 

 

AC – Há quem defenda a tese de que o arrozeiro pague pela água utilizada para irrigação. Fale a respeito.

Roger – Este tema é muito controverso, como todos os temas que são relacionados a meio ambiente e setor primário. Entre alguns fóruns de debate que já participei ouvi diferentes posicionamentos tanto favoráveis quanto em sentido contrário.  Minha posição é de contrariedade a esta cobrança do uso dos recursos hídricos. Uma eventual cobrança pode inclusive levar à  definitiva inviabilidade da produção de arroz.   Isso poderia colocar em risco a segurança alimentar do país.

 

Uma apresentação em roteiros técncios.


AC – Qual é o futuro da lavoura orizícola?

Roger – Visualizo com uma grande esperança os movimentos que estão sendo feitos por diferentes órgão e setores, tendo no Irga e na pesquisa publica uma vanguarda; A expectativa é de  implantar um novo sistema de manejos de solos arrozeiros, com ênfase em um sistema de produção que traga  a diversificação de atividades. Isto será fundamental para uma lavoura arrozeira sustentável e que realmente traga renda ao produtor. Ao mesmo tempo o novo perfil manterá a cultura viabilizada. Outro fator fundamental é a gestão, e não me refiro apenas a parte financeira mas também a recursos humanos e operacionais na  propriedade. Já soja, milho, trigo e forrageiras de inverno também devem sustentar esse modelo Integração. Assim a gestão adequada traz para nossas várzeas um novo horizonte e não tenho dúvidas que este é o futuro da lavoura arrozeira gaúcha.

 

AC – Os ganhos em técnicas e tecnologias que levam a maiores produtividades são suficientes para compensar as demais perdas registradas?

Roger – Se observarmos, historicamente, em todos os momentos que a pesquisa entregou à lavoura novas ferramentas, foram feitas verdadeiras revoluções. Por exemplo, a lavoura arrozeira, na década de 1980, deu um grande salto quando do lançamento da cultivar BRIRGA 409. A  lavoura saiu dos patamares de produção de uma a três  toneladas por hectare para cinco toneladas por hectare. Já no início dos anos 2000 houve a chamada revolução agronômica liderada pelos avanços no manejo com o Projeto 10. A  lavoura então passou a patamares de sete toneladas e, depois de 2014, com a ‘repaginada’ no Projeto 10+ e a contribuição decisiva do Irga, veio a cultivar 424 RI. A lavoura  aí alcançou os patamares atuais de 8,5 a nove toneladas por hectare. Esses avanços com certeza trouxeram à lavoura a condição de suportar esse cenário complicado de custos de produção absurdos. Desta forma, afirmo que todos os avanços de tecnologia trazem. Sim. contribuições importantes ao setor.



 Participação na Semana Acadêmica da Uergs.


AC – No atual contexto regional e mundial, o que prever para a agricultura de modo geral, especialmente na produção de alimentos?

Roger – A produção de alimentos está a cada momento assumindo um papel de protagonista, não só na economia como na garantia de soberania nacional. Com o crescimento vertical da população mundial produzir alimentos se torna essencial e países como o Brasil, com vocação agrícola, se colocam cada vez mais no cenário global. No Brasil, hoje, como um dos maiores produtores de alimentos do mundo, vejo a necessidade de um investimento governamental em áreas que podem trazer uma contribuição ainda maior ao setor primário. A economia do pais, me refiro à industrialização e ao beneficiamento nacional dos produtos do setor primário para após serem comercializados no mercado internacional geraria um maior protagonismo do setor. Benefícios também à geração de empregos no Brasil. Ainda um maior avanço em tecnologias nacionais para implementos agrícolas, produção de fertilizantes e pesquisa pública, ou seja, maior soberania.

 

AC – Algum novo serviço do Irga. Sintetize as ações em curso no instituto de apoio ao produtor.

Roger – A cultura de arroz é a única que possui uma pesquisa publica de alta  qualidade. O Instituto Rio-Grandense do Arroz, hoje, é um grande fomentador de tecnologias à lavoura, mas como é “cultural” não é valorizado, tanto em nível de produtor como de governo. Mas  trago uma reflexão: dos importantes avanços da lavoura,  todos, sem exceção, tiveram no Irga o grande referencial técnico. Cito a cultivar BR IRGA 409, a IRGA 422 CL e a IRGA 424 RI.  O instituto orienta sobre época de semeadura e nitrogênio em solo seco entre outros manejos que foram implementados pelo Projeto 10 e depois  pelo Projeto 10+. Note-se o novo momento da lavoura - projetos como Soja 6000, Integração Lavoura/Pecuária, Irga 431 CL e Milho em terras baixas. São projetos que colocam o Irga na vanguarda da pesquisa e extensão e são molas propulsoras de uma lavoura arrozeira com mais sustentabilidade e renda.


Permanentes ações de treinamento pelo Irga.

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