“No Brasil,
essa cultura do
nós e eles sempre
existiu”
Família: orgulho das origens - força motriz para as conquistas.
Alexander da Silva Machado é, aos 41 anos de idade, uma das referências da comunidade acadêmica não apenas
de São Borja, mas do Rio Grande do Sul. Graduado
em História pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), esse cachoeirense
também tem Mestrado, trabalhou em Caxias do Sul e, há mais de uma década, é
‘patrimônio’ Instituto Federal Farroupilha em São Borja. Alexander é,
sobretudo, um exemplo de superação.
Filho de um pai chapeador e de uma mãe dona de
casa, acha que as origens foram determinantes para suas conquistas. Conta que,
ainda adolescente, trabalhou como
ajudante do pai, foi servente de pedreiro e foi também aparador de grama, “ainda todo serviço
braçal.” No Senai aprendeu a lidar com
madeira e ainda trabalhou na manutenção de equipamentos numa
empresa de cerâmica. Foi office boy,
depois trabalhou na montagem e na manutenção de computadores.
Na universidade trabalhou ajudando na Pró-Reitoria de Ensino.
Na época também vendia bebidas no DCE de Santa Maria. A Licenciatura em História na UFSM foi
conquistada com o apoio de bolsa de estudo, morando na Casa do Estudante. A Graduação foi concluída em 2001 e o
Mestrado em Integração Latino-Americana, em 2004.
Hoje tem visões claras sobre
cenário nacional. “No Brasil, sempre
tivemos essa cultura do nós e eles”, citando vários exemplos na história brasileira
– desde a colônia à república. Acha que a democracia se autorregula, mas vê
retrocessos no atual momento. Diz que os jovens lutam por espaços e identidades
e defende regulação nas redes sociais e limites para a eleição dos políticos.
Já como profissional da Educação,
Alexander da Silva Machado foi professor no Colégio Militar de Santa Maria (2004
a 2007), assim como em Caxias do Sul (de 2007 a 2010). Para o IFFar em São Borja veio em 2010, aprovado em concurso atuando,
primeiro, como coordenador do programa de Assistência Estudantil no Instituto, até 2012.
Foi diretor-geral pró-tempore no
IFFar de 2012 a 2015. Depois foi diretor-geral da instituição de 2015 a 2016. Coordenador
do Curso Técnico em Eventos Integrado do campus a partir de 2019.
Ao fazer balanço dos avanços
alcançados, diz que “tudo isso evidencia o quanto é importante a educação na
nossa vida e o quanto as ações e os investimentos em educação e na permanência
dos alunos são fundamentais. Minha família não tinha condições de me manter em
Santa Maria, mas como eu tinha moradia, alimentação subsidiada e ainda
conseguia as bolsas, consegui ser o primeiro da família a acessar o ensino
superior.”
Alexandre destaca com orgulho que “sou
muito feliz sendo professor, adoro estar em sala de aula e em contato com os
alunos e alunas. Tenho tido uma satisfação muito grande em ministrar aula de
História da Alimentação no Curso de Gastronomia e nos cursos técnicos em
Cozinha do Campus. “O que mais me motiva
é a busca por um mundo melhor para todos e todas, um mundo justo em que as
pessoas tenham dignidade, ou seja, ‘um mundo mais igualitário’ e ao mesmo tempo
‘um mundo em que caibam muitos mundos’. Busco realizar isso por meio da
docência e dos diversos projetos que desenvolvemos no IFFar, além da militância
política. Como filosofia de vida tento adotar a ideia de que ‘caminhando se
constrói o caminho’, que o erro é parte do processo e que o mais importante é
‘amar e mudar as coisas’, como cantou Belchior.” Assim fez em Santa Maria, por
exemplo, criando um curso pré-vestibular para alunos carentes.
É o filho mais velho de cinco irmãos. “Meu pai faleceu em
2021, aos 58 anos, pela Covid. Ele era chapeador e pintor. Em 2010 passou a ser
servidor da Corsan. Minha mãe é dona de
casa, mas trabalhou um tempo como cuidadora de idosos. Hoje ela cuida do meu
avô, que tem 97 anos. Sou pai da Alice, que tem oito anos, que atualmente mora em Cachoeira do Sul com a mãe.
Como hoje tenho uma nova companheira, minha colega de trabalho, a Aline Adams,
também ganhei uma enteada, a Maria, que tem sete anos. A Maria e a Alice se dão
super bem e se chama de irmãs do coração.

Em São Borja, uma nova família:
Alexander, Aline, Maria e Alice.
Alberi Cogo - Apesar da recorrência
da pergunta, a resposta muda conforme a visão do interlocutor. Então, qual é a
sua perspectiva para as eleições gerais no Brasil em 2022, considerando um país
sob acirramento político, com graves problemas socioeconômicos e ainda com a
difícil tarefa de superar os estragos acarretados pela pandemia?
Alexander da Silva Machado - Ótima
pergunta e uma grande responsabilidade tentar antecipar. Mesmo esse não sendo o
principal objetivo da história, a projeção do futuro, vou me arriscar. Entendo
que teremos uma eleição novamente muito polarizada e muito turbulenta nas redes
sociais e nas relações ente amigos e familiares. Vamos viver um momento muito
difícil, acredito que mais difícil do que vivemos em 2018. Mas essa polarização
vai caminhar por um viés um pouco diferente, pois as fake news não terão tanto poder
de aderência, os desgastes dos candidatos existem de todos os lados, pois
muitas informações sobre os sujeitos envolvidos hoje estão muito diferentes e
tivemos um retrocesso da direita e da extrema direita em muitos países. Tendo
em vista esse cenário, precisamos trabalhar para fortalecer ainda mais nossa
democracia, não apenas em termos institucionais, mas principalmente nas nossas
relações sociais, enquanto diálogos com os diferentes. Se fossem só os
problemas da pandemia, já seria uma tarefa difícil de contornar nos próximos
anos, mas ainda teremos que enfrentar os estragos causados por esse governo
composto em sua maioria por pessoas despreparadas, incompetentes e
mal-intencionadas, uma legítima ‘caquistocracia’. Estou apontando isso porque
boa parte das dificuldades que iremos enfrentar foram alimentadas nesses
últimos quatro anos com mais força, pois a democracia tentou ser
desestabilizada de várias formas, especialmente quando discursaram e defenderam
nas redes sociais que não respeitariam as decisões do judiciário, quando
ameaçam invadir e solicitam o fechamento de um dos poderes, quando se nomeou
para cargo não os escolhidos pelos seus pares, mas os que estavam mais
alinhados aos interesses do governo. Mesmo que isso seja permitido, fere as autonomias
das instituições e colocam um questionamento sobre o papel do voto e da
democracia. Outra questão que irá voltar nas discussões será a confiabilidade
das urnas eletrônicas. Elas são confiáveis, isso já foi provado, mas esse tipo
de discurso serve para criar uma insegurança e muitas pessoas aderem às teorias
conspiratórias. Nossa democracia amadureceu nesses mais de 30 anos, desde a
redemocratização, e assim como tem se mantido apesar de todos os ataques,
entendo que será capaz de resistir aos enfrentamos que teremos durante as
eleições de 2022. Importante frisar que essa força do sistema democrático
brasileiro perpassa pela capacidade de comunicação e informação imediata, o que
dificulta ações extremadas, ou seja, a mídia e as redes sociais têm um papel
fundamental nesse processo. Precisamos respeitar as regras do jogo democrático
e entender que existem limites que balizam nossas condutas, isso vale para os
agentes públicos e para a população como um todo. Isso acontecerá ao
reforçarmos princípios que garantam o respeito a organização política, a
separação dos poderes e a constituição enquanto nossa principal fonte para a
organização social. Penso que as eleições serão difíceis, com muitos percalços,
porém precisamos debater projetos de estado, projetos políticos mais
consistentes e não cairmos novamente em soluções simplistas. Mas, apesar de
tudo, teremos um governo eleito pelo voto popular e que será empossado em
primeiro de janeiro de 2023, respeitando as urnas e a democracia.
AC - A impressão geral é que a polarização política no Brasil - da
cultura do ódio, do ‘nós e eles’, é uma das mais severas da nossa história
recente. Democracia é mesmo assim ou estamos diante de um cenário patológico?
ASM - O pior período do “nós e eles” foi durante a
ditadura civil-militar de 1964-1985, quando inclusive o Estado defendeu o lema
“ame-o ou deixe-o”. Vemos um período da violência legalizada e
institucionalizada. Mas percebo que nos últimos anos algumas figuras políticas
estão resgatando os mesmos pressupostos desse período, inclusive valorizando
personagens e lemas que ferem os princípios da democracia e dos direitos
humanos em qualquer lugar do mundo. Interessante pensar num cenário patológico,
pois muitos posicionamentos políticos são difíceis de explicar pela
racionalidade. Como explicar as pessoas contrárias a vacinação? Como explicar
louvarmos torturadores e comemorarmos mortes ou doenças de adversários
políticos? Como explicar que todo mundo que seja contrário se enquadre como
comunista? Esse é um fenômeno que está acontecendo em todo o mundo, estamos
enfrentando uma onda fascista, negacionista e de extrema-direita em muitos
países, mas isso tem fortes ligações com a ideia de hegemonia de um povo ou de
uma cultura sobre as demais, é a tentativa de estabelecer um padrão como o
único aceitável, assim como já vivemos em outros momentos históricos. Entendo
que a democracia funciona assim mesmo, vai se ajustando e se organizando
conforme os problemas enfrentados e as capacidades criadas a partir das novas
tecnologias. Já tivemos momentos muito piores, a diferença é que hoje temos
mais informações e essas questões chegam até nós, basta acessar o celular.
AC - O senhor, como
historiador, pode citar algum outro período ou evento de tanta polarização e beligerância
como o de agora, na trajetória brasileira?
ASM - Gostaria de fazer uma provocação: pensarmos que a história do Brasil se fundou sempre nessa dicotomia do ‘nós e eles’, que o Brasil literalmente foi forjado com violência desde a chegada dos europeus. Vejamos alguns exemplos que penso sustentar o que afirmei acima: quando os europeus conquistaram a América, se colocaram como os civilizados contra os bárbaros, depois estabeleceram um sistema de trabalho escravo justificado pelo ‘nós brancos, europeus’, e ‘eles africanos e indígenas’ que mereciam ser subjugados. Depois, com a chegada da coroa no Brasil, em 1808, a divisão entre ‘nós portugueses’ e ‘eles, os nascidos aqui’, inclusive formando o ‘partido português’ contra o ‘partido brasileiro’; depois os ‘nós brancos’ com a vinda dos imigrantes europeus contra ‘eles, negros e pardos’, num processo justificado pela eugenia e na busca de um branqueamento para atingirmos, segundo essa ideia racista, um patamar melhor de civilização. Poderia continuar apresentando exemplos, mas vou terminar dando o exemplo do período da ditatura civil-militar no Brasil (ma). Nesse momento tivemos luta armada, grupos foram formados para resistir ou tentar derrubar o regime e muitos pessoas morreram nesses combates. Políticos foram cassados e perderam seus mandatos, pessoas foram torturadas e mortas por pensarem diferente, muitas foram exiladas, tivemos uma enorme censura nos meios de comunicação, o que impedia de ser divulgado ou questionado o que estava acontecendo, censura cultural quando entendiam que os valores ou ideias não estavam alinhadas, o congresso e o STF foram fechados e o executivo governou com total autoritarismo, enfim, esse foi um dos piores, se não o pior momento da nossa história. Era um momento da violência institucionalizada, em que o estado praticava crimes ao invés de proteger seus cidadãos.
Hoje temos uma democracia que
funciona, com a separação dos poderes para evitar um regime autoritario, a
vigência de uma constituição e o direito de escolhermos nossos representantes e
de nos manifestarmos. Mas então porque temos essa sensação, que concordo
contigo Alberi, de um momento de muita polarização e beligerância? Entendo que
percebemos isso muito em função da nossa forma de comunicação, que permite
acessarmos muitas informações e também desinformações, infelizmente, mas acima
de tudo, a capacidade das pessoas falarem sobre qualquer assunto e isso ser
tomado como verdade ou como uma opinião que deve ser levada em consideração,
quando não deveria. Não significa ser elitista, mas algumas discussões não
deveriam ser levadas a sério, pois as pessoas não têm conhecimento para opinar.
Por exemplo, eu não posso falar de saúde, de procedimentos, de medicamentos,
pois não é minha área de atuação. Posso trazer fontes e exemplos de pessoas que
estudam, apenas isso, para balizar minhas opiniões. Sobre essa percepção de
beligerância, ainda acrescento nesse processo três questões fundamentais que
consigo apenas citar, pois são discussões complexas. Entendo que ideologicamente,
em termos de concepção de mundo, estamos reeditando parte do que aconteceu
durante a ditadura no Brasil, pois temos hoje um governo civil-militar,
repetindo exatamente a mesma ideologia de “deus, pátria e família”, a reedição
de um inimigo comum, o ‘comunismo’, pois hoje todo mundo que se opõe ao governo
comunista e uma ocupação de todos os principais cargos do executivo por
militares, além do presidente e do vice-presidente que são militares.

Naposse como diretor-geral do
IFFar, em São Borja, em 2015
AC - Para o bem e para o mal, as
mídias sociais parece contribuírem para que as pessoas se hostilizem e até se
desinformem, munidas pela ‘indústria’ das fake news. O que dizer das redes
sociais?
ASM - As mídias sociais são um avanço muito grande
nas nossas relações. Hoje podemos nos comunicar com pessoas distantes, podemos
compartilhar nossa vida com familiares e amigos, podemos somar esforços para
ajudar alguém ou para juntar pessoas em busca de uma mesma causa. Eu parto
sempre desse pressuposto de que é algo positivo, pois expressamos sentimentos,
vontades, decepções e, com isso, temos nas redes sociais em um local de
transformação social, em que podemos pautar assuntos importantes e fazer as
pessoas se questionarem sobre seus pontos de vista. Já tivemos muitos exemplos
de ações e organizações que partiram totalmente das redes sociais. Os problemas
das redes sociais são as formas como elas são gerenciadas pelas corporações com
seus algoritmos, que direcionam os conteúdos servindo aos interesses comerciais
ou de quem pode pagar, além de como nós usuários a utilizamos. Posso
responsabilizar as redes sociais por termos tantas informações falsas? É claro
que não, pois elas são apenas o veículo. A responsabilidade é dos grupos que
criam e alimentam as redes sociais com essas fake news, é dos moderadores,
naquelas que tem essa capacidade, de permitir essa disseminação, mas
principalmente é fundamental responsabilizar o usuário e a ignorância que nos
acompanha enquanto sociedade. Não é possível que algumas mentiras sejam mais
aceita em pleno século XXI. Se elas são aceitas é porque temos muitas
deficiências na nossa formação. Como acreditar que as vacinas são um problema,
como acreditar que os medidores de febre podem afetar o nosso cérebro, como
acreditar em remédios como solução milagrosa e tantas outras mentiras contadas?
Fato é que hoje essa forma de comunicação nos afeta e nos últimos anos tem
prejudicado a lucidez das pessoas, inclusive pessoas que deveriam ser
esclarecidas acabam pautando suas decisões por mentiras que acessaram nas
redes. Mas o pior ainda é quando essas
desinformações, essas fake news, pautam as decisões de agentes públicos que
elaboram e decidem o rumo das nossas vidas. O que precisamos é de mais
educação, de mais acesso às informações e de respeito aos conhecimentos gerados
pelo mundo científico. Algumas coisas não são opinião. Eu não posso, enquanto
professor de história, falar sobre vacinas, remédios, etc. Só quem pode falar,
são as pessoas que trabalham com isso, que fazem pesquisa. Precisamos
reestabelecer a autoridade do conhecimento para minimizar as fake news, além de
responsabilizar quem as produz e as dissemina.
AC - Alguns dos entrevistados neste
espaço fizeram ver que os grandes veículos de imprensa sempre estiveram movidos
por interesses econômicos e políticos, o que faz da isenção plena um desejo
romântico. Como avalia a situação e o que recomenda à opinião pública menos
esclarecida para que saiba que determinado conteúdo é confiável?
ASM - Essa ainda é uma luta que travamos até os
dias de hoje. Nós somos sujeitos sociais e a nossa forma de pensar, nossa
cultura, nossas convicções e nossa história nos acompanham em todo o lugar.
Então, quando somos professores, jornalistas ou qualquer outra profissão,
estaremos sempre sendo atravessado por essas concepções de mundo e isso não é
nenhum problema. Com isso quero dizer que não existe neutralidade em nenhum
lugar de produção humana, em nenhuma ciência. Devemos assumir o risco da
subjetividade nas nossas análises e no que produzimos. Isso também vale para os
meios de comunicação! Ao defender essa postura, estou dizendo que precisamos
reconhecer que estamos presentes no que produzimos. Mas claro que essa produção, criação, deve
ser baseada em dados, em fatos, em. argumentos que tenham capacidade de serem
confrontados a partir de informações, de fontes. Quero dizer com isso, que
precisamos valorizar os locais que trabalham com determinados saberes, sites,
revistas, jornais ou outros lugares que sabemos quem assina a informação, esses
são os melhores lugares para buscarmos as informações mais próximas da verdade,
pois eu posso até discordar da forma como aquela informação foi analisada, mas
a informação não é uma invenção. Sempre oriento lerem jornais e revistas, ou
buscarem descobrir a fonte exata. Antes de repassar qualquer informação para
suas redes sociais, oriento os alunos a buscarem verificar se a informação é
procedente e que não caiam na tentação de repassar qualquer informação sem
verificar se é ou não procedente.
AC - De que modo esse ‘caldeirão’
político, no país e no mundo, tem chegado à sala de aula? Nossa juventude se
interessa pelos temas do setor?
ASM- Cada vez mais temos alunos interessados em
política, mas de uma forma diferente. Hoje temos as pautas identitárias como o
primeiro interesse dos estudantes, pois significa buscar um reconhecimento, um
entendimento de quem eles e elas são. Essas pautas identitárias ao mesmo tempo
que, num primeiro momento, mudam a forma de fazer política, pois ser negro, ser
indígena, ser mulher, ser lgbtqia+, é o principal motivo para lerem, para
discutirem e para se organizarem e lutarem por maior espaço ou por direitos
importantes, num segundo momento os fazem se aproximar da política mais
tradicional, pois esses jovens querem ver suas pautas inseridas nos planos
políticos. Eles começam a entender quais são os pressupostas que balizam cada
partido, cada grupo político e passam a se inserir em locais que eles se sintam
representados. Ao dizer isso, penso que estou sendo um pouco otimista para
alguns, pois ao mesmo tempo, estamos vivendo mais o mundo virtual que o real,
se bem que cada vez mais essa dicotomia está acabando, e no mundo virtual,
temos muitas opções e distrações que acabam tirando o foco. Quero dizer que ao
mesmo tempo que o mundo virtual ajuda com informações, com discussões e com formação
de grupos sobre determinados assuntos, também esse mundo virtual pode nos fazer
fugir dessas questões e nos alienar cada vez mais. Mesmo assim, entendo que
hoje temos uma juventude que se interessa mais por política e isso acaba
repercutindo em sala de aula e nas análises que faze, trazendo essas
informações para o debate.

Uma avaliação crítica sobre a cena
nacional> Brasil sempre do 'nós e 1l1'.
AC - Há uma espécie de consenso de que, cada vez
menos, surgem menos lideranças e, cada vez mais, nota-se o carreirismo
político. Se verdadeira a afirmativa, tem como mudar isso?
ASM - Concordo contigo nesse aspecto também. Ser
político, fazer política, é uma atribuição de quem vive a ‘pólis’, a cidade, ou
seja, é obrigação de todos os cidadãos. Mas ainda temos um ditado popular que
afasta as pessoas dessa perspectiva e que precisa ser questionado, que
“futebol, política e religião não se discute”. Precisamos explicar que é
exatamente o contrário, precisamos discutir esses assuntos e muitos outros,
pois a política conduz as nossas vidas. Mas a quem isso interessa? Por que
ficamos repetindo esse mesmo ditado popular? Interessa aos chamados políticos
de carreira, aquelas pessoas que vivem da política e acabam fazendo essa a
única forma de seu sustento, lutando com unhas e dentes para permanecer sempre
no poder. Quem gosta de política não deve ter medo de participar, de estar
envolvido em partidos, em movimentos sociais, em sindicatos, em grupos
identitários, enfim, isso não é ruim. Aqui não é uma crítica a política ou aos
políticos, pois hoje a legislação permite, mas uma crítica a forma como
organizamos nossa legislação. Penso que deveríamos ter tempo máximo para permanecer
no poder e que as pessoas precisam permitir que outros ocupem esses espaços
para que aconteça um crescimento de pessoas envolvidas com a política. Eu não
sei exatamente o tempo de cada mandato, pois isso poderia ser discutido, mas
estou convicto que para as eleições majoritárias (presidente, governador,
prefeito e senador) não deveria ter reeleição e para as eleições proporcionais
(deputados e vereadores) apenas uma recondução consecutiva.
AC - Há quem diga que mesmo
completando 200 anos de independência em 2022, o Brasil ainda não produziu e
colocou em prática um projeto abrangente e resolutivo como nação. Isso é
verdadeiro ou é pessimismo demais? ASM - Verdade, nesse ano temos uma
data importante e representativa, os 200 anos de independência do Brasil. A
despeito de todos os problemas que decorrem dessa independência, que foi apenas
uma separação de Portugal, mas uma vinculação muito forte a outros estados,
como a Inglaterra, posso afirmar que enquanto continuidade aos interesses
Europeus, o Brasil é um exemplo de nação, pois conseguiu manter a unidade
nacional, impôs uma única língua, uma única religião e seguiu o modelo da
monarquia, em que o imperador teve um grande poder a partir da constituição
outorgada em 1824 e da falsa modernização com a criação do poder moderador,
enquanto todos os outros territórios vizinhos se dividiram e adotavam a
república como forma de governo. Se observarmos nesse sentido, o Brasil foi um
sucesso, uma nação construída a partir de pressupostos da metrópole para continuar
atendendo os interesses europeus. Mas quando observamos a ideia de
independência, de respeitar as diversidades, de ter uma nação inclusiva que
tenha a participação do povo e não atendendo apenas as elites, ainda não
conseguimos colocar em prática.
AC - O IFFar e a Unipampa surgiram com a
perspectiva de contribuir para a reversão do subdesenvolvimento na região mais
atrasada do Rio Grande do Sul, incluindo São Borja. Esse progresso está
acontecendo ou é preciso alguma outra estratégia?
ASM - Penso
que realmente o IFFar e a Unipampa, assim como a Uergs, têm contribuído para
que São Borja tenha um melhor desenvolvimento social e econômico. Isso é
perceptível na cidade com as mudanças arquitetônicas, com a diversificação do
comércio, com o sonho de mudança de vida para muitos estudantes e também com
todos os recursos que entram na cidade, milhões de investimento nos alunos e
alunas, nas compras locais e dos servidores e servidoras que vieram para a
cidade. Eu entendo que esse progresso vem ocorrendo, podemos ver nos
restaurantes, nos meios de comunicação, nos projetos, nos novos
empreendimentos, etc, e na consciência da população que vem sendo afetada pelos
profissionais que essas instituições formam. Mas para que esse progresso
continue acontecendo e seja mais abrangente, deve estar entrelaçado com outras
ações, especialmente dos órgãos públicos e do setor produtivo. Entendo que o
grande desafio é essa articulação, que já acontece, em certa medida, mas que
deva ser transformado em uma política de estado, sempre buscar o apoio das
instituições que tem pessoal capacitado para ajudar.
AC - O IFFar tem como característica uma relação próxima com
a comunidade. isso está ajudando a construir ações mais coletivas ou as coisas
não têm mudado?
ASM - Sim, a forma como a
prefeitura e a população abraçaram o IFFar e, principalmente, a forma como
nosso primeiro Diretor, o professor Carlos Eugênio Balsemão conduziu a
implantação, criou laços profundos com a cidade. Me recordo que o Balsemão
sempre dizia que estávamos aqui para dizer sim aos anseios de São Borja, que
precisávamos dar um jeito de atender as demandas, que precisávamos abrir as
portas do campus e chamar as pessoas, para que elas entendessem essa
instituição que chegava era delas e para elas. Penso que conseguimos
estabelecer essa relação de proximidade e no decorrer dos anos de atuação fomos
ampliando. Vale dizer que o campus São Borja sempre foi a unidade que mais
desenvolveu projetos de extensão, evidenciando essa preocupação e a constante
construção de laços mais profundos e ações mais coletivas.
Engajamento: em manifestaçãopolítica contra reformas no país.
AC - E quais são os planos pessoais e profissionais de
Alexander da Silva Machado?
ASM - Penso que
sonhar é um dos principais motivadores na nossa vida, então tenho muitos planos
que envolvem o trabalho e minha vida, mas o principal deles é criar coragem
para enfrentar o doutorado em História.
ENTREVISTA: Alexander da Silva Machado
“No Brasil,
essa cultura do
nós e eles sempre
existiu”
Alexander da Silva Machado é, aos 41 anos de idade, uma das referências da comunidade acadêmica não apenas
de São Borja, mas do Rio Grande do Sul. Graduado
em História pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), esse cachoeirense
também tem Mestrado, trabalhou em Caxias do Sul e, há mais de uma década, é
‘patrimônio’ Instituto Federal Farroupilha em São Borja. Alexander é,
sobretudo, um exemplo de superação.
Filho de um pai chapeador e de uma mãe dona de
casa, acha que as origens foram determinantes para suas conquistas. Conta que,
ainda adolescente, trabalhou como
ajudante do pai, foi servente de pedreiro e foi também aparador de grama, “ainda todo serviço
braçal.” No Senai aprendeu a lidar com
madeira e ainda trabalhou na manutenção de equipamentos numa
empresa de cerâmica. Foi office boy,
depois trabalhou na montagem e na manutenção de computadores.
Na universidade trabalhou ajudando na Pró-Reitoria de Ensino.
Na época também vendia bebidas no DCE de Santa Maria. A Licenciatura em História na UFSM foi
conquistada com o apoio de bolsa de estudo, morando na Casa do Estudante. A Graduação foi concluída em 2001 e o
Mestrado em Integração Latino-Americana, em 2004.
Hoje tem visões claras sobre
cenário nacional. “No Brasil, sempre
tivemos essa cultura do nós e eles”, citando vários exemplos na história brasileira
– desde a colônia à república. Acha que a democracia se autorregula, mas vê
retrocessos no atual momento. Diz que os jovens lutam por espaços e identidades
e defende regulação nas redes sociais e limites para a eleição dos políticos.
Já como profissional da Educação,
Alexander da Silva Machado foi professor no Colégio Militar de Santa Maria (2004
a 2007), assim como em Caxias do Sul (de 2007 a 2010). Para o IFFar em São Borja veio em 2010, aprovado em concurso atuando,
primeiro, como coordenador do programa de Assistência Estudantil no Instituto, até 2012.
Foi diretor-geral pró-tempore no
IFFar de 2012 a 2015. Depois foi diretor-geral da instituição de 2015 a 2016. Coordenador
do Curso Técnico em Eventos Integrado do campus a partir de 2019.
Ao fazer balanço dos avanços
alcançados, diz que “tudo isso evidencia o quanto é importante a educação na
nossa vida e o quanto as ações e os investimentos em educação e na permanência
dos alunos são fundamentais. Minha família não tinha condições de me manter em
Santa Maria, mas como eu tinha moradia, alimentação subsidiada e ainda
conseguia as bolsas, consegui ser o primeiro da família a acessar o ensino
superior.”
Alexandre destaca com orgulho que “sou
muito feliz sendo professor, adoro estar em sala de aula e em contato com os
alunos e alunas. Tenho tido uma satisfação muito grande em ministrar aula de
História da Alimentação no Curso de Gastronomia e nos cursos técnicos em
Cozinha do Campus. “O que mais me motiva
é a busca por um mundo melhor para todos e todas, um mundo justo em que as
pessoas tenham dignidade, ou seja, ‘um mundo mais igualitário’ e ao mesmo tempo
‘um mundo em que caibam muitos mundos’. Busco realizar isso por meio da
docência e dos diversos projetos que desenvolvemos no IFFar, além da militância
política. Como filosofia de vida tento adotar a ideia de que ‘caminhando se
constrói o caminho’, que o erro é parte do processo e que o mais importante é
‘amar e mudar as coisas’, como cantou Belchior.” Assim fez em Santa Maria, por
exemplo, criando um curso pré-vestibular para alunos carentes.
É o filho mais velho de cinco irmãos. “Meu pai faleceu em
2021, aos 58 anos, pela Covid. Ele era chapeador e pintor. Em 2010 passou a ser
servidor da Corsan. Minha mãe é dona de
casa, mas trabalhou um tempo como cuidadora de idosos. Hoje ela cuida do meu
avô, que tem 97 anos. Sou pai da Alice, que tem oito anos, que atualmente mora em Cachoeira do Sul com a mãe.
Como hoje tenho uma nova companheira, minha colega de trabalho, a Aline Adams,
também ganhei uma enteada, a Maria, que tem sete anos. A Maria e a Alice se dão
super bem e se chama de irmãs do coração.
Alberi Cogo - Apesar da recorrência
da pergunta, a resposta muda conforme a visão do interlocutor. Então, qual é a
sua perspectiva para as eleições gerais no Brasil em 2022, considerando um país
sob acirramento político, com graves problemas socioeconômicos e ainda com a
difícil tarefa de superar os estragos acarretados pela pandemia?
Alexander da Silva Machado - Ótima
pergunta e uma grande responsabilidade tentar antecipar. Mesmo esse não sendo o
principal objetivo da história, a projeção do futuro, vou me arriscar. Entendo
que teremos uma eleição novamente muito polarizada e muito turbulenta nas redes
sociais e nas relações ente amigos e familiares. Vamos viver um momento muito
difícil, acredito que mais difícil do que vivemos em 2018. Mas essa polarização
vai caminhar por um viés um pouco diferente, pois as fake news não terão tanto poder
de aderência, os desgastes dos candidatos existem de todos os lados, pois
muitas informações sobre os sujeitos envolvidos hoje estão muito diferentes e
tivemos um retrocesso da direita e da extrema direita em muitos países. Tendo
em vista esse cenário, precisamos trabalhar para fortalecer ainda mais nossa
democracia, não apenas em termos institucionais, mas principalmente nas nossas
relações sociais, enquanto diálogos com os diferentes. Se fossem só os
problemas da pandemia, já seria uma tarefa difícil de contornar nos próximos
anos, mas ainda teremos que enfrentar os estragos causados por esse governo
composto em sua maioria por pessoas despreparadas, incompetentes e
mal-intencionadas, uma legítima ‘caquistocracia’. Estou apontando isso porque
boa parte das dificuldades que iremos enfrentar foram alimentadas nesses
últimos quatro anos com mais força, pois a democracia tentou ser
desestabilizada de várias formas, especialmente quando discursaram e defenderam
nas redes sociais que não respeitariam as decisões do judiciário, quando
ameaçam invadir e solicitam o fechamento de um dos poderes, quando se nomeou
para cargo não os escolhidos pelos seus pares, mas os que estavam mais
alinhados aos interesses do governo. Mesmo que isso seja permitido, fere as autonomias
das instituições e colocam um questionamento sobre o papel do voto e da
democracia. Outra questão que irá voltar nas discussões será a confiabilidade
das urnas eletrônicas. Elas são confiáveis, isso já foi provado, mas esse tipo
de discurso serve para criar uma insegurança e muitas pessoas aderem às teorias
conspiratórias. Nossa democracia amadureceu nesses mais de 30 anos, desde a
redemocratização, e assim como tem se mantido apesar de todos os ataques,
entendo que será capaz de resistir aos enfrentamos que teremos durante as
eleições de 2022. Importante frisar que essa força do sistema democrático
brasileiro perpassa pela capacidade de comunicação e informação imediata, o que
dificulta ações extremadas, ou seja, a mídia e as redes sociais têm um papel
fundamental nesse processo. Precisamos respeitar as regras do jogo democrático
e entender que existem limites que balizam nossas condutas, isso vale para os
agentes públicos e para a população como um todo. Isso acontecerá ao
reforçarmos princípios que garantam o respeito a organização política, a
separação dos poderes e a constituição enquanto nossa principal fonte para a
organização social. Penso que as eleições serão difíceis, com muitos percalços,
porém precisamos debater projetos de estado, projetos políticos mais
consistentes e não cairmos novamente em soluções simplistas. Mas, apesar de
tudo, teremos um governo eleito pelo voto popular e que será empossado em
primeiro de janeiro de 2023, respeitando as urnas e a democracia.
AC - A impressão geral é que a polarização política no Brasil - da
cultura do ódio, do ‘nós e eles’, é uma das mais severas da nossa história
recente. Democracia é mesmo assim ou estamos diante de um cenário patológico?
ASM - O pior período do “nós e eles” foi durante a
ditadura civil-militar de 1964-1985, quando inclusive o Estado defendeu o lema
“ame-o ou deixe-o”. Vemos um período da violência legalizada e
institucionalizada. Mas percebo que nos últimos anos algumas figuras políticas
estão resgatando os mesmos pressupostos desse período, inclusive valorizando
personagens e lemas que ferem os princípios da democracia e dos direitos
humanos em qualquer lugar do mundo. Interessante pensar num cenário patológico,
pois muitos posicionamentos políticos são difíceis de explicar pela
racionalidade. Como explicar as pessoas contrárias a vacinação? Como explicar
louvarmos torturadores e comemorarmos mortes ou doenças de adversários
políticos? Como explicar que todo mundo que seja contrário se enquadre como
comunista? Esse é um fenômeno que está acontecendo em todo o mundo, estamos
enfrentando uma onda fascista, negacionista e de extrema-direita em muitos
países, mas isso tem fortes ligações com a ideia de hegemonia de um povo ou de
uma cultura sobre as demais, é a tentativa de estabelecer um padrão como o
único aceitável, assim como já vivemos em outros momentos históricos. Entendo
que a democracia funciona assim mesmo, vai se ajustando e se organizando
conforme os problemas enfrentados e as capacidades criadas a partir das novas
tecnologias. Já tivemos momentos muito piores, a diferença é que hoje temos
mais informações e essas questões chegam até nós, basta acessar o celular.
AC - O senhor, como
historiador, pode citar algum outro período ou evento de tanta polarização e beligerância
como o de agora, na trajetória brasileira?
ASM - Gostaria de fazer uma
provocação: pensarmos que a história do Brasil se fundou sempre nessa dicotomia
do ‘nós e eles’, que o Brasil literalmente foi forjado com violência desde a
chegada dos europeus. Vejamos alguns exemplos que penso sustentar o que afirmei
acima: quando os europeus conquistaram a América, se colocaram como os
civilizados contra os bárbaros, depois estabeleceram um sistema de trabalho
escravo justificado pelo ‘nós brancos, europeus’, e ‘eles africanos e
indígenas’ que mereciam ser subjugados. Depois, com a chegada da coroa no
Brasil, em 1808, a divisão entre ‘nós portugueses’ e ‘eles, os nascidos aqui’,
inclusive formando o ‘partido português’ contra o ‘partido brasileiro’; depois
os ‘nós brancos’ com a vinda dos imigrantes europeus contra ‘eles, negros e
pardos’, num processo justificado pela eugenia e na busca de um branqueamento
para atingirmos, segundo essa ideia racista, um patamar melhor de civilização.
Poderia continuar apresentando
exemplos, mas vou terminar dando o exemplo do período da ditatura civil-militar
no Brasil (ma). Nesse momento tivemos luta armada, grupos foram formados para
resistir ou tentar derrubar o regime e muitos pessoas morreram nesses combates.
Políticos foram cassados e perderam seus mandatos, pessoas foram torturadas e
mortas por pensarem diferente, muitas foram exiladas, tivemos uma enorme
censura nos meios de comunicação, o que impedia de ser divulgado ou questionado
o que estava acontecendo, censura cultural quando entendiam que os valores ou
ideias não estavam alinhadas, o congresso e o STF foram fechados e o executivo
governou com total autoritarismo, enfim, esse foi um dos piores, se não o pior
momento da nossa história. Era um momento da violência institucionalizada, em
que o estado praticava crimes ao invés de proteger seus cidadãos.
Hoje temos uma democracia que
funciona, com a separação dos poderes para evitar um regime autoritario, a
vigência de uma constituição e o direito de escolhermos nossos representantes e
de nos manifestarmos. Mas então porque temos essa sensação, que concordo
contigo Alberi, de um momento de muita polarização e beligerância? Entendo que
percebemos isso muito em função da nossa forma de comunicação, que permite
acessarmos muitas informações e também desinformações, infelizmente, mas acima
de tudo, a capacidade das pessoas falarem sobre qualquer assunto e isso ser
tomado como verdade ou como uma opinião que deve ser levada em consideração,
quando não deveria. Não significa ser elitista, mas algumas discussões não
deveriam ser levadas a sério, pois as pessoas não têm conhecimento para opinar.
Por exemplo, eu não posso falar de saúde, de procedimentos, de medicamentos,
pois não é minha área de atuação. Posso trazer fontes e exemplos de pessoas que
estudam, apenas isso, para balizar minhas opiniões. Sobre essa percepção de
beligerância, ainda acrescento nesse processo três questões fundamentais que
consigo apenas citar, pois são discussões complexas. Entendo que ideologicamente,
em termos de concepção de mundo, estamos reeditando parte do que aconteceu
durante a ditadura no Brasil, pois temos hoje um governo civil-militar,
repetindo exatamente a mesma ideologia de “deus, pátria e família”, a reedição
de um inimigo comum, o ‘comunismo’, pois hoje todo mundo que se opõe ao governo
comunista e uma ocupação de todos os principais cargos do executivo por
militares, além do presidente e do vice-presidente que são militares.
AC - Para o bem e para o mal, as
mídias sociais parece contribuírem para que as pessoas se hostilizem e até se
desinformem, munidas pela ‘indústria’ das fake news. O que dizer das redes
sociais?
ASM - As mídias sociais são um avanço muito grande
nas nossas relações. Hoje podemos nos comunicar com pessoas distantes, podemos
compartilhar nossa vida com familiares e amigos, podemos somar esforços para
ajudar alguém ou para juntar pessoas em busca de uma mesma causa. Eu parto
sempre desse pressuposto de que é algo positivo, pois expressamos sentimentos,
vontades, decepções e, com isso, temos nas redes sociais em um local de
transformação social, em que podemos pautar assuntos importantes e fazer as
pessoas se questionarem sobre seus pontos de vista. Já tivemos muitos exemplos
de ações e organizações que partiram totalmente das redes sociais. Os problemas
das redes sociais são as formas como elas são gerenciadas pelas corporações com
seus algoritmos, que direcionam os conteúdos servindo aos interesses comerciais
ou de quem pode pagar, além de como nós usuários a utilizamos. Posso
responsabilizar as redes sociais por termos tantas informações falsas? É claro
que não, pois elas são apenas o veículo. A responsabilidade é dos grupos que
criam e alimentam as redes sociais com essas fake news, é dos moderadores,
naquelas que tem essa capacidade, de permitir essa disseminação, mas
principalmente é fundamental responsabilizar o usuário e a ignorância que nos
acompanha enquanto sociedade. Não é possível que algumas mentiras sejam mais
aceita em pleno século XXI. Se elas são aceitas é porque temos muitas
deficiências na nossa formação. Como acreditar que as vacinas são um problema,
como acreditar que os medidores de febre podem afetar o nosso cérebro, como
acreditar em remédios como solução milagrosa e tantas outras mentiras contadas?
Fato é que hoje essa forma de comunicação nos afeta e nos últimos anos tem
prejudicado a lucidez das pessoas, inclusive pessoas que deveriam ser
esclarecidas acabam pautando suas decisões por mentiras que acessaram nas
redes. Mas o pior ainda é quando essas
desinformações, essas fake news, pautam as decisões de agentes públicos que
elaboram e decidem o rumo das nossas vidas. O que precisamos é de mais
educação, de mais acesso às informações e de respeito aos conhecimentos gerados
pelo mundo científico. Algumas coisas não são opinião. Eu não posso, enquanto
professor de história, falar sobre vacinas, remédios, etc. Só quem pode falar,
são as pessoas que trabalham com isso, que fazem pesquisa. Precisamos
reestabelecer a autoridade do conhecimento para minimizar as fake news, além de
responsabilizar quem as produz e as dissemina.
AC - Alguns dos entrevistados neste
espaço fizeram ver que os grandes veículos de imprensa sempre estiveram movidos
por interesses econômicos e políticos, o que faz da isenção plena um desejo
romântico. Como avalia a situação e o que recomenda à opinião pública menos
esclarecida para que saiba que determinado conteúdo é confiável?
ASM - Essa ainda é uma luta que travamos até os
dias de hoje. Nós somos sujeitos sociais e a nossa forma de pensar, nossa
cultura, nossas convicções e nossa história nos acompanham em todo o lugar.
Então, quando somos professores, jornalistas ou qualquer outra profissão,
estaremos sempre sendo atravessado por essas concepções de mundo e isso não é
nenhum problema. Com isso quero dizer que não existe neutralidade em nenhum
lugar de produção humana, em nenhuma ciência. Devemos assumir o risco da
subjetividade nas nossas análises e no que produzimos. Isso também vale para os
meios de comunicação! Ao defender essa postura, estou dizendo que precisamos
reconhecer que estamos presentes no que produzimos. Mas claro que essa produção, criação, deve
ser baseada em dados, em fatos, em. argumentos que tenham capacidade de serem
confrontados a partir de informações, de fontes. Quero dizer com isso, que
precisamos valorizar os locais que trabalham com determinados saberes, sites,
revistas, jornais ou outros lugares que sabemos quem assina a informação, esses
são os melhores lugares para buscarmos as informações mais próximas da verdade,
pois eu posso até discordar da forma como aquela informação foi analisada, mas
a informação não é uma invenção. Sempre oriento lerem jornais e revistas, ou
buscarem descobrir a fonte exata. Antes de repassar qualquer informação para
suas redes sociais, oriento os alunos a buscarem verificar se a informação é
procedente e que não caiam na tentação de repassar qualquer informação sem
verificar se é ou não procedente.
AC - De que modo esse ‘caldeirão’
político, no país e no mundo, tem chegado à sala de aula? Nossa juventude se
interessa pelos temas do setor?
ASM- Cada vez mais temos alunos interessados em
política, mas de uma forma diferente. Hoje temos as pautas identitárias como o
primeiro interesse dos estudantes, pois significa buscar um reconhecimento, um
entendimento de quem eles e elas são. Essas pautas identitárias ao mesmo tempo
que, num primeiro momento, mudam a forma de fazer política, pois ser negro, ser
indígena, ser mulher, ser lgbtqia+, é o principal motivo para lerem, para
discutirem e para se organizarem e lutarem por maior espaço ou por direitos
importantes, num segundo momento os fazem se aproximar da política mais
tradicional, pois esses jovens querem ver suas pautas inseridas nos planos
políticos. Eles começam a entender quais são os pressupostas que balizam cada
partido, cada grupo político e passam a se inserir em locais que eles se sintam
representados. Ao dizer isso, penso que estou sendo um pouco otimista para
alguns, pois ao mesmo tempo, estamos vivendo mais o mundo virtual que o real,
se bem que cada vez mais essa dicotomia está acabando, e no mundo virtual,
temos muitas opções e distrações que acabam tirando o foco. Quero dizer que ao
mesmo tempo que o mundo virtual ajuda com informações, com discussões e com formação
de grupos sobre determinados assuntos, também esse mundo virtual pode nos fazer
fugir dessas questões e nos alienar cada vez mais. Mesmo assim, entendo que
hoje temos uma juventude que se interessa mais por política e isso acaba
repercutindo em sala de aula e nas análises que faze, trazendo essas
informações para o debate.
AC - Há uma espécie de consenso de que, cada vez
menos, surgem menos lideranças e, cada vez mais, nota-se o carreirismo
político. Se verdadeira a afirmativa, tem como mudar isso?
ASM - Concordo contigo nesse aspecto também. Ser
político, fazer política, é uma atribuição de quem vive a ‘pólis’, a cidade, ou
seja, é obrigação de todos os cidadãos. Mas ainda temos um ditado popular que
afasta as pessoas dessa perspectiva e que precisa ser questionado, que
“futebol, política e religião não se discute”. Precisamos explicar que é
exatamente o contrário, precisamos discutir esses assuntos e muitos outros,
pois a política conduz as nossas vidas. Mas a quem isso interessa? Por que
ficamos repetindo esse mesmo ditado popular? Interessa aos chamados políticos
de carreira, aquelas pessoas que vivem da política e acabam fazendo essa a
única forma de seu sustento, lutando com unhas e dentes para permanecer sempre
no poder. Quem gosta de política não deve ter medo de participar, de estar
envolvido em partidos, em movimentos sociais, em sindicatos, em grupos
identitários, enfim, isso não é ruim. Aqui não é uma crítica a política ou aos
políticos, pois hoje a legislação permite, mas uma crítica a forma como
organizamos nossa legislação. Penso que deveríamos ter tempo máximo para permanecer
no poder e que as pessoas precisam permitir que outros ocupem esses espaços
para que aconteça um crescimento de pessoas envolvidas com a política. Eu não
sei exatamente o tempo de cada mandato, pois isso poderia ser discutido, mas
estou convicto que para as eleições majoritárias (presidente, governador,
prefeito e senador) não deveria ter reeleição e para as eleições proporcionais
(deputados e vereadores) apenas uma recondução consecutiva.
AC - Há quem diga que mesmo
completando 200 anos de independência em 2022, o Brasil ainda não produziu e
colocou em prática um projeto abrangente e resolutivo como nação. Isso é
verdadeiro ou é pessimismo demais? ASM - Verdade, nesse ano temos uma
data importante e representativa, os 200 anos de independência do Brasil. A
despeito de todos os problemas que decorrem dessa independência, que foi apenas
uma separação de Portugal, mas uma vinculação muito forte a outros estados,
como a Inglaterra, posso afirmar que enquanto continuidade aos interesses
Europeus, o Brasil é um exemplo de nação, pois conseguiu manter a unidade
nacional, impôs uma única língua, uma única religião e seguiu o modelo da
monarquia, em que o imperador teve um grande poder a partir da constituição
outorgada em 1824 e da falsa modernização com a criação do poder moderador,
enquanto todos os outros territórios vizinhos se dividiram e adotavam a
república como forma de governo. Se observarmos nesse sentido, o Brasil foi um
sucesso, uma nação construída a partir de pressupostos da metrópole para continuar
atendendo os interesses europeus. Mas quando observamos a ideia de
independência, de respeitar as diversidades, de ter uma nação inclusiva que
tenha a participação do povo e não atendendo apenas as elites, ainda não
conseguimos colocar em prática.
AC - O IFFar e a Unipampa surgiram com a
perspectiva de contribuir para a reversão do subdesenvolvimento na região mais
atrasada do Rio Grande do Sul, incluindo São Borja. Esse progresso está
acontecendo ou é preciso alguma outra estratégia?
ASM - Penso
que realmente o IFFar e a Unipampa, assim como a Uergs, têm contribuído para
que São Borja tenha um melhor desenvolvimento social e econômico. Isso é
perceptível na cidade com as mudanças arquitetônicas, com a diversificação do
comércio, com o sonho de mudança de vida para muitos estudantes e também com
todos os recursos que entram na cidade, milhões de investimento nos alunos e
alunas, nas compras locais e dos servidores e servidoras que vieram para a
cidade. Eu entendo que esse progresso vem ocorrendo, podemos ver nos
restaurantes, nos meios de comunicação, nos projetos, nos novos
empreendimentos, etc, e na consciência da população que vem sendo afetada pelos
profissionais que essas instituições formam. Mas para que esse progresso
continue acontecendo e seja mais abrangente, deve estar entrelaçado com outras
ações, especialmente dos órgãos públicos e do setor produtivo. Entendo que o
grande desafio é essa articulação, que já acontece, em certa medida, mas que
deva ser transformado em uma política de estado, sempre buscar o apoio das
instituições que tem pessoal capacitado para ajudar.
AC - O IFFar tem como característica uma relação próxima com
a comunidade. isso está ajudando a construir ações mais coletivas ou as coisas
não têm mudado?
ASM - Sim, a forma como a
prefeitura e a população abraçaram o IFFar e, principalmente, a forma como
nosso primeiro Diretor, o professor Carlos Eugênio Balsemão conduziu a
implantação, criou laços profundos com a cidade. Me recordo que o Balsemão
sempre dizia que estávamos aqui para dizer sim aos anseios de São Borja, que
precisávamos dar um jeito de atender as demandas, que precisávamos abrir as
portas do campus e chamar as pessoas, para que elas entendessem essa
instituição que chegava era delas e para elas. Penso que conseguimos
estabelecer essa relação de proximidade e no decorrer dos anos de atuação fomos
ampliando. Vale dizer que o campus São Borja sempre foi a unidade que mais
desenvolveu projetos de extensão, evidenciando essa preocupação e a constante
construção de laços mais profundos e ações mais coletivas.
AC - E quais são os planos pessoais e profissionais de
Alexander da Silva Machado?
ASM - Penso que
sonhar é um dos principais motivadores na nossa vida, então tenho muitos planos
que envolvem o trabalho e minha vida, mas o principal deles é criar coragem
para enfrentar o doutorado em História.
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