O desejo: “Um governo decente,
honesto, conciliador e atuante. “
Leandro
Comassetto: “Se ruim com ademocracia, muito
pior sem ela.” (Fotos arquivo pessoal)
Aos 57 anos, o jornalista, doutor em Comunicação e professor Leandro Ramires Comassetto é,
atualmente, coordenador do curso de Jornalismo na Unipampa em São Borja. Porém,
antes de consolidar status como uma das referências intelectuais na
universidade, ascendeu de origem humilde, consolidando conquistas sucessivas. Com este perfil e em
ano eleitoral, ele compartilha sua lucidez, visão equilibrada e o desejo como a maioria dos
demais brasileiros: quer que tenhamos “um governo decente, honesto, conciliador e atuante.” Acha, contudo, que no processo teremos “mais
do mesmo.”, em uma campanha pautada pelo ódio e pela polarização.
Leandro
Comassetto é catarinense, graduado em Jornalismo e Letras (Português e Espanhol),
pós-graduado em Língua Portuguesa e Metodologia do Ensino da Comunicação
Social, mestre em Linguística (UFSC) e doutor em Comunicação Social (PUCRS). Iniciou atividades trabalhando como jornaleiro aos 12
anos de idade, ingressando depois na empresa Sadia, onde atuou como auxiliar de
oficina elétrica e marcenaria. Começou a atuar na imprensa aos 16 anos, na
Rádio Rural de Concórdia, onde exerceu as funções de rádio-escuta, repórter e
locutor-apresentador. Foi repórter,
redator e editor de O Jornal (Concórdia – SC). Atuou também no jornal A Notícia
(SC). Durante a graduação em Jornalismo, trabalhou na Rádio Difusora, de Ponta
Grossa – PR, e nas rádios Aliança eAtual
FM (Concórdia).
Comassetto
iniciou a carreira acadêmica em 1991, na Universidade do Contestado (SC), onde
foi diretor acadêmico e pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação. Na Unipampa em
São Borja ingressou em 2011: Na instituição, atualmente coordena o curso de Jornalismo. É autor dos livros ‘As
razões do título e do lead’ (uma abordagem cognitiva daestrutura da notícia) e ‘A
voz da aldeia: o rádio local e o comportamento da informação nanova ordem
global’.
Comassetto: das origens humildes a doutor
em Comunicipação e coordenador de Jornalismo.
Nesta
entrevista ao Blog Alberi Cogo, Leandro Comassetto analisa os horrores e
as consequências geopolíticas da invasão da Rússia à Ucrânia. Avalia também a
eleição recente de nomes de esquerda na América Latina. Acha que estamos aprendendo
democracia e ressalta: “Se é ruim com
ela, pior será sem ela.“ Acompanhe, a seguir, a pedagógica entrevista com o
saber didático do professor da Unipampa.
Alberi Cogo - “A democracia é
a pior forma de governo, à exceção de todas as
demais”, afirmava o ex-1º ministro britânico Winston Churchill, também Nobel de
Literatura. Basta um apelo motivador como este para, em outubro, levar os
brasileiros às urnas? Que outras razões devem mover o eleitor?
Leandro
Comassetto -Não temos escolha.
Vivemos num sistema político, onde, bem ou mal, a participação do cidadão, embora
não decisiva, ajuda a definir os rumos de um município, um estado, um país. A
democracia, obviamente, não é perfeita. É um sistema à base de negociações,
repleto de lobbies e jogo de interesses, mas, como afirmava Churchill, ainda
melhor que o autoritarismo e o estado ditatorial. A história não mente. O mundo
está repleto de acontecimentos trágicos para a humanidade. O mais recente
talvez seja a tomada da Ucrânia pelo despotismo de Vladimir Putín. Os
brasileiros, por sua vez, vão às urnas neste ano. Como já disse em entrevista
anterior, mesmo que possamos ter um sentimento negativo em relação à democracia
brasileira, estamos avançando. Somos uma democracia recente, ainda em
aprendizado e, pelo voto e pela participação cidadã, buscamos dias melhores. O Brasil
é um país em crise, não só o Brasil, mas o mundo todo, ainda por reflexo da
pandemia, e agora pela guerra provocada pela Rússia. São tempos difíceis, em
que escasseiam os recursos e os preços corroem os salários. Certamente que
muito do que está ocorrendo independe de ações e políticas internas, mas sempre
há esperança no eleitor de que, pela afirmação ou troca de governo, haverá
mudanças para melhor. Cenários de crise e insatisfação tendem a estimular de
forma mais acentuada a participação popular.
AC - O cenário
político é dinâmico e muda de acordo com as circunstâncias. Ao que tudo indica,
porém, a polarização será novamente a tônica do pleito de 2022. Ou a chamada
terceira via tem chances de decolar?
Comassetto
- A terceira via já teve tempo de sobra para mostrar a que veio. E não veio. A
escolha de um candidato único fracassou. O antes então quase imbatível Sérgio
Moro perdeu sua popularidade em função dos erros cometidos na condução da
Operação Lava Jato e nas desavenças com o governo que o elevou à condição de
ministro. Hoje coleciona mais desafetos que simpatizantes. Os demais potenciais
candidatos, por sua vez, estão desgastados ou não tiveram tempo para se
afirmar, como é o caso da senadora Simone Tebet. Além disso, todos sabemos bem
dos jogos de interesse que permeiam nossa política, o que faz com que a maioria
das lideranças e partidos prefira se agarrar ao favoritismo. O favoritismo está
do lado de Lula e Bolsonaro. A polarização vai se estreitar ainda mais até o
dia da eleição. E o problema disso é que estamos, hoje, diante de uma sociedade
dividida, onde as provocações e desavenças tendem a se acentuar, e o ódio
deverá se tornar ainda mais intenso nas redes sociais. É preciso calma,
paciência e sabedoria para não fomentarmos inimizades, com risco de atitudes
inconsequentes, brutais e, por vezes, irreversíveis.
A polarização
entre Lula e Bolsonaro leva
ao sepultamento de
uma terceira via.
AC - Normalmente as campanhas eleitorais têm sido pautadas
mais pela desconstrução entre os adversários do que por propostas visando ao
futuro do desenvolvimento nacional. Depois de um longo período de retração
socioeconômica e investimentos emperrados, ainda mais pela covid, dá para
esperar algo diferente?
Comassetto
- Bolsonaro elegeu-se m 2018 sem
prepostas concretas para o desenvolvimento do país. Foi elevado à condição de
presidente mais pelo desgaste do PT que por sua cartilha de governo. Costuma-se
dizer que Lula elegeu Bolsonaro, e agora Bolsonaro é que pode eleger Lula. E
não pelos méritos de Lula, mas pelo desgaste do governo Bolsonaro. O candidato
da esquerda vai passar a campanha batendo na tecla da retração sócio-econômica,
a qual vai associar à incapacidade de Bolsonaro para governar, e o atual
presidente vai acentuar seu discurso de associação de Lula à corrupção. Também
virão à tona questões morais e religiosas e argumentos falaciosos da luta do
bem contra o mal e do comunismo contra a iniciativa privada. Enfim, uma carga
de besteirol que não leva a nada, a não ser minar o tempo e espaço que deveriam
ser dedicados à apresentação de propostas reais para tirar o Brasil da crise.
Será uma campanha mais de ataques e acusações que de virtudes e propostas.
Fatalmente iremos passar por isso. Mas, passada a eleição, acaba a brincadeira.
Duvido que o povo brasileiro ainda terá paciência para esperar resultados
sentado. Ou o novo mandatário mostra trabalho ou será destronado do posto.
AC - O pleito de 2022 coincide com a emblemática data dos
200 anos da independência do Brasil. Na sua avaliação, qual o maior presente
poderia ser oferecido ao Brasil e aos brasileiros?
Comassetto
- Um governo decente, honesto, conciliador e atuante. Mas seria ilusão pensar
que isso virá simplesmente pelo signficado da data.
Ac - Inflação em alta, desemprego crônico, déficit em
investimentos em infraestrutura e reformas urgentes a serem implementadas. Dá
para apostar na reversão desse quadro?
Comassetto -
Tudo vai depender muito do cenário internacional. O governo Bolsonaro perdeu
prestígio pela falta e execução de propostas, mas também foi prejudicado pela
pandemia e pela guerra. Não é só o Brasil, mas o mundo que vive um momento de
estagnação econômica, inflação alta e corrosão dos salários. Se o cenário lá
fora não mudar, pouco iremos avançar aqui. Mas um pouco mais de inteligência
para governar e um mínimo de propostas fazem bem a qualquer governo. O Brasil é
um país cheio de recursos naturais, com elevado potencial econômico. O estímulo
à ciência, tecnologia e empreendedorismo podem fazer a diferença. Não se trata
de acreditar em uma total reversão do quadro de estagnação em que nos
encontramos, mas creio que, sim, podemos pensar em dias melhores. Passada a
eleição, como disse, o povo estará mais atento e sedento por resultados que
impliquem em melhor qualidade de vida.
Lula e Bolsonaro:
mais do mesmo, emum país carente de novas lideranças.
AC - Alguns setores determinantes e estratégicos, como
educação, saúde e cultura têm seus investimentos e orçamentos de rotina
encolhidos. Que repercussões projetar em relação a essa conjuntura?
Comassetto
- Um erro crasso do atual governo foi tomar a cultura e a educação por
inimigas. Nenhum país vai pra frente penalizando a educação e cultura. A saúde
também enfrentou percalços, na medida em que, por teimosia, o presidente
relutou em adotar as medidas de prevenção e retardou a chegada da vacina contra
a covid. Com todo respeito à segurança pública, que também merece ser
valorizada, um país não desenvolve à base de exército e armas. Precisamos de
inteligência, de fomento à ciência e tecnologia, de aplicação de recursos em
setores estratégicos, principalmente na área de energia, e maior incentivo e
fomento ao empreendedorismo.
AC - Observadores veem um apagão no surgimento de novas
lideranças nas últimas décadas, nos diversos setores. É verdadeira a afirmativa
e, sim, por quê?
Comassetto
- Verdade. Embora venhamos a ter uma eleição com ânimos acirrados e discursos
inflamados de ambos os lados, na crença por dias melhores, é desanimador ver
quem são nossos atores principais. O que nos espera, no fundo, é mais do mesmo,
ou seja, políticos que já deram prova do que são capazes, ou incapazes, de
fazer. Bom seria se tivéssemos novas lideranças, com propostas e ideias novas,
mostrando um novo jeito de fazer política e governar. Em parte o que atrapalhou
o surgimento de novas lideranças foi o antagonismo que se criou entre os
radicais de esquerda e de direita, que arrebanharam seguidores e deixaram pouca
margem para o surgimento de novos atores políticos. Infelizmente, no imaginário
popular, parece que não tem graça pensar e acreditar no novo. Vivemos na
política brasileira uma espécie de Grenal, que se move mais pela rivalidade que
pela esperança de títulos.
AC - É frequente ouvir que, ao invés de líderes, nós temos
mitos. Em que medida o atual sistema partidário tem culpa da situação?
Comassetto -
Não diria que o que estamos vivendo é culpa do sistema partidário. Mesmo diante
de um sistema presidencialista, o Congresso tem muito poder. O presidente, no
fundo, depende da capacidade de articulação para congregar forças.
Infelizmente, não raro, isso descamba para a barganha e leva à corrupção. Foi
assim com o mensalão, está sendo com o orçamento secreto. Olhando para a
história recente, Fernando Henrique e Dilma Roussef não tinham a aura de mitos
e, mesmo assim, foram eleitos para dois mandatos. Lula e Bolsonaro carregam
essa aura mais messiânica, mas por conta da rivalidade que o país está vivendo.
Passada esta eleição, acredito que novas lideranças fatalmente surgirão. Tenho
mais esperanças na eleição que ainda virá daqui a quatro anos que nesta que viveremos
agora.
As mudanças políticas
na América Latina não
são decorrentes
de ideologias, mas do desencanto
com políticos que
fracassaram no combate à pobreza.
AC - Vários países latino-americanos elegeram recentemente
candidatos de esquerda, após o mundo registrar guinada à direita. Isso é
resultado de um momento ou se traduz em reviravolta no espectro ideológico?
Comassetto - A guinada não é ideológica. As pessoas, na
verdade, estão pouco ligando para as ideologias. Boa parte nem sequer sabe o
que isso significa. O que leva à mudança é o desencanto com políticas que não
deram certo e não conseguiram entregar o que prometeram, melhorando a renda e a
qualidade de vida das pessoas. Se as condições de vida não melhorarem na
Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Bolívia... não há ideologia de esquerda que
resista por muito tempo.
A guerra
entre Rússia e Ucrânia ressuscita
o mundo dos
tempos da Guerra Fria.
AC - Que repercussões esperar na geopolítica global como
consequência da guerra Rússia-Ucrânia?
Comassetto
- É triste ver o que está acontecendo. Claro que nada se compara ao sofrimento
do povo ucraniano, mas praticamente o mundo todo está arcando com as consequências
desta guerra. A repercussão econômica não é negativa apenas no Brasil, os
europeus nunca pagaram tão caro pela energia, nos Estados Unidos e Canadá a
inflação, sempre controlada, hoje reduz o poder de compra da maioria dos
cidadãos. Na saída da estagnação provocada pela pandemia, tudo o que o mundo
não precisava era de um acontecimento como este. O que se esperava era um mundo
mais unido e solidário após dois anos de mortes e incerteza diante do futuro,
mas, infelizmente, a insanidade parece ter falado mais alto. Em termos de
geopolítica global, o que irá acontecer é que teremos um mundo novamente
dividido, a exemplo dos tempos da guerra fria instaurada pela rivalidade entre
EUA e URSS. Blocos de países irão se fortalecer, teremos um mundo polarizado
por forças antagonistas, com o fortalecimento da OTAN por um lado e um ainda
maior alinhamento da URSS, China e Índia por outro. Nesse cenário, a
possibilidade de uma terceira guerra, de dimensão nuclear, sempre será uma
possibilidade a ser considerada.





É importante informar que a taxa de desemprego no Brasil não é crônica. Ao contrário. Diferente do que recebeu da Dilma, o atual governo, mesmo diante da pandemia e do cerário mundial, acaba de cravar em 9.8% no trimestre encerrado em maio, menor taxa para o período desde 2015, quando foi de 8,3%, informou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quinta-feira. Uma realidade escondida pela grande mídia. Aliás este é outros tantos números.
ResponderExcluir