Propalada Terceira é Via
mais para cumprir carnê
É muito provável que a maioria sequer leia este texto até o fim, ao se dar conta que ele
tem a ver com cenário político nacional. Tal atitude é simbólica do desencanto
geral pelo tema e pelo engajamento efetivo na ação político-partidária no país.
Não participar ou se desinteressar
também é uma das formas, mas uma das piores. Em mais de 30 anos no atual
período de redemocratização, após o fim
da ditadura, o momento atual é um dos menos encorajadores. A quatro meses das
eleições gerais de 2022, a apatia e a indiferença esgaçam o tecido social de
modo geral.
E estamos falando de um pleito
que vai escolher presidente da República, governadores, senadores e deputados
federais e estaduais. São, então, agentes públicos da maior relevância e que,
eleitos, terão a difícil tarefa de trabalhar pelo equacionamento de umas das
mais graves crises sociais e econômicas do Brasil na sua história recente.
Pelo visto, mais uma vez a disputa à presidência repetirá a rotina de
polarização que tem permeado as últimas décadas. E não que haja algo errado
nisso; assim o é nas modernas e sólidas democracias. A diferença, no nosso
caso, é que não será um cotejo entre dois programas de governo, entre duas
prospecções de Brasil. Tampouco será a disputa
de dois partidos e apoiadores ou mesmo
de ideologias antagônicas bem
delineadas. O embate será, sim, basicamente, entre duas figuras que se opõem:
Lula e Bolsonaro. A cultura de um ódio
excludente, que tem sido nutrida, não se revela salutar e nem saneadora para o
atual momento da cruzada nacional.
Já há algum tempo defende-se que, no vão desses polos em choque, entre o
que chama de direita e de esquerda, há espaço para uma Terceira Via. Em
perspectiva às próximas eleições, há meses várias siglas e parcerias discutem e
ensaiam um nome de consenso e que possa ser alternativa viável e com chance de
romper a redoma da polarização. Não tem surgido esse nome, nem o consenso, nem viabilidade. Algum dia,
afinal, isso vai acontecer?
A história política do período pós-redemocratização tem mostrado que os
partidos que se colocam no miolo do bolo do banquete têm sido pragmáticos. Têm normalmente
optado por gravitar entre as bordas, quase sempre juntando-se, depois, a quem ficar
com a fatia do poder. A atual cultura da política brasileira colocada em
prática pressupõe um permanente regime de trocas. Por um lado garante votos e
apoios do Legislativo; de outro lado vêm as generosas retribuições do
Executivo.
Neste contexto, arquitetar Terceira Via é como entrar na partida para
cumprir carnê. O pragmatismo daqueles que acompanham a movimentação pendular
dos polos mostra que é muito mais produtivo concentrar esforços e recursos para
eleger parlamentares. Afinal, quanto maior for a bancada de deputados e
senadores, maior será a capacidade de apoio a quem estiver no governo. Além
disso, quanto maior for a representação legislativa, maior também será o
substancioso fundo partidário – cobiça confessa de qualquer sigla partidária.
E, nessa
conjuntura, o que pensa e diz o eleitor brasileiro? Ele que paga a conta e que
terá tarefa de escolher seus representantes. A propósito: no atual formato e
exercício de democracia representativa, ele se vê de fato representado? Por que cada vez mais abstenções, votos nulos ou em branco? Sobre processo
democrático, o estadista e 1º ministro britânico Winston Churchill, também
Nobel de Literatura, cunhou uma célebre frase: “Democracia é a pior forma de
governo, à exceção de todas as demais.” Portanto, apesar de todas as suas
deformações, privilégios e anacronismos, isso é o que temos para hoje. E,
apresar de tudo, entre os envolvidos no processo político sempre haverá alguém
de fato empenhado em atender parcial ou
integralmente as nossas expectativas. Precisamos saber identifica-los e juntar-se
a eles. Isso demanda bom senso e
sabedoria. É o jeito. Não há outro jeito!


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