sexta-feira, 27 de maio de 2022

CENA BRASILEIRA

  

Propalada Terceira é Via

mais para cumprir carnê

 



É muito provável que a maioria sequer leia  este texto até o fim, ao se dar conta que ele tem a ver com cenário político nacional. Tal atitude é simbólica do desencanto geral pelo tema e pelo engajamento efetivo na ação político-partidária no país.  Não participar ou se desinteressar também é uma das formas, mas uma das piores. Em mais de 30 anos no atual período de redemocratização,  após o fim da ditadura, o momento atual é um dos menos encorajadores. A quatro meses das eleições gerais de 2022, a apatia e a indiferença esgaçam o tecido social de modo geral.

 E estamos falando de um pleito que vai escolher presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. São, então, agentes públicos da maior relevância e que, eleitos, terão a difícil tarefa de trabalhar pelo equacionamento de umas das mais graves crises sociais e econômicas do Brasil na sua história recente.

Pelo visto, mais uma vez a disputa à presidência repetirá a rotina de polarização que tem permeado as últimas décadas. E não que haja algo errado nisso; assim o é nas modernas e sólidas democracias. A diferença, no nosso caso, é que não será um cotejo entre dois programas de governo, entre duas prospecções de Brasil. Tampouco será a  disputa de dois partidos e apoiadores  ou mesmo de  ideologias antagônicas bem delineadas. O embate será, sim, basicamente, entre duas figuras que se opõem: Lula e Bolsonaro. A cultura de um  ódio excludente, que tem sido nutrida, não se revela salutar e nem saneadora para o atual momento da cruzada nacional.

Já há algum tempo defende-se que, no vão desses polos em choque, entre o que chama de direita e de esquerda, há espaço para uma Terceira Via. Em perspectiva às próximas eleições, há meses várias siglas e parcerias discutem e ensaiam um nome de consenso e que possa ser alternativa viável e com chance de romper a redoma da polarização. Não tem surgido esse nome,  nem o consenso, nem viabilidade. Algum dia, afinal, isso vai acontecer?




A história política do período pós-redemocratização tem mostrado que os partidos que se colocam no miolo do bolo do banquete têm sido pragmáticos. Têm normalmente optado por gravitar entre as bordas, quase sempre juntando-se, depois, a quem ficar com a fatia do poder. A atual cultura da política brasileira colocada em prática pressupõe um permanente regime de trocas. Por um lado garante votos e apoios do Legislativo; de outro lado vêm as generosas retribuições do Executivo.

Neste contexto, arquitetar Terceira Via é como entrar na partida para cumprir carnê. O pragmatismo daqueles que acompanham a movimentação pendular dos polos mostra que é muito mais produtivo concentrar esforços e recursos para eleger parlamentares. Afinal, quanto maior for a bancada de deputados e senadores, maior será a capacidade de apoio a quem estiver no governo. Além disso, quanto maior for a representação legislativa, maior também será o substancioso fundo partidário – cobiça confessa de qualquer sigla partidária.   

E, nessa conjuntura, o que pensa e diz o eleitor brasileiro? Ele que paga a conta e que terá tarefa de escolher seus representantes. A propósito: no atual formato e exercício de democracia representativa, ele se vê de fato representado?  Por que cada vez mais abstenções,  votos nulos ou em branco? Sobre processo democrático, o estadista e 1º ministro britânico Winston Churchill, também Nobel de Literatura, cunhou uma célebre frase: “Democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as demais.” Portanto, apesar de todas as suas deformações, privilégios e anacronismos, isso é o que temos para hoje. E, apresar de tudo, entre os envolvidos no processo político sempre haverá alguém de fato empenhado  em atender parcial ou integralmente as nossas expectativas. Precisamos saber identifica-los e juntar-se a eles. Isso demanda  bom senso e sabedoria. É o jeito. Não há outro jeito!

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