A vida também é assim. Da espécie das chamadas árvores caducas. o caqui do pátio de casa está, aos poucos, perdendo todas as suas folhas. Todo o ano, nesta época, é assim. Já algumas vezes tenho me colocado a contemplar esse bolero da dança e da queda, a um sutil sopro do vento. Sempre chego à mesma analogia em relação à trajetória existencial, aqui, neste mundo terreno. Os anos passam, e os outonos e os invernos da vida vão extraviando, sem permissão e sem piedade, um a um, os nossos amigos, os nossos sonhos, os nossos prazeres, as nossas convicções e, às vezes, até as nossas esperanças. Como um caule despido e tiritando ao frio das invernias, o corpo carcomido pelos anos é como um cerne que resiste, à espera da primavera da renovação. Do corpo e da alma.
Amigos de longo convívio, escudeiros de parcerias de todas as horas simplesmente somem do radar. Não há GPS que os localize e os recoloque no circuito. Alguns até seguem se ‘pavoneando’ nas suas egocêntricas grandezas e maquinações. Já os outros desaparecem, de vez, fazendo-se fugazes como uma bolha de sabão no vão dos dedos. Não é queixa, cobrança ou ressentimento. É, sim, a implacável lei da vida. Essa lei da seleção, do descarte, da ‘eliminação’ das espécies. Lei impiedosa e doída. Em ‘A lista’, Oswaldo Montenegro convida: “Faça uma lista de grandes amigos/ Quem você mais via há dez anos atrás/ Quantos você ainda vê todo dia/ Quantos você já não encontra mais...”
Dia desses, um amigo de fé lamentava o fato de a gente adquirir experiências, acumular sabedorias e exercitar paciências quando já perdeu o vigor da juventude. E ele tem razão. Assim como o caqui, o que conforta é o fato de que conseguimos produzir frutos e multiplica-los. Se o caqui, além de frutos saborosos, é rico em antioxidantes, vitaminas A, B1, B2 e C, minerais, fibras e capacidade de combater os radicais livres, a maturidade também tem lá os seus ganhos compensatórios. Sabedoria, tolerância, resiliência e empatia são apenas algumas das conquistas. Com sorte, a gente também ganha amparo, respeito, motivações – para seguir sonhando. Então faça força para não ser apenas uma árvore caduca. Se perdermos as folhas, que ao menos consigamos fazer com que renasçam aqueles ramos e folhagens chamados de esperança!
Ainda repetindo Montenegro: “Faça uma lista dos sonhos que tinha/ Quantos você desistiu de sonhar/ ...Onde você ainda se reconhece/ Na foto passada ou no espelho de agora...?” Se eu sei que a árvore do quintal fica nua no outono-inverno, também sei que ela, outra vez, vestirá seu vestido verde e esplêndido, na primavera. Se os amigos somem, que ao menos então consiga permanecer com o meu maior amigo – eu mesmo. Cultivemos a fé como maior o instrumento de renovação interior. A ausência de Deus é como o maior buraco na alma, já dizia o filósofo Santo Agostinho. As folhas caem, mas elas voltam, e geralmente mais bonitas!
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Parabéns, lindo texto!
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