Já o Brasil dos mais pobres segue a amargar
um desemprego crônico e crescente. No
lugar de programas que aqueçam a economia e recuperem a renda, e a dignidade, os auxílios aos mais castigados pela covid são meros
paliativos. Insuficientes, portanto, para sair do atoleiro. Remédios e
alimentos estão entre os maiores vilões, fazendo a inflação aos poucos
explodir. Só em abril a inflação dos alimentos dos mais pobres foi duas vezes
maior que a dos mais ricos. Como exemplos, em 12 meses, o óleo de cozinha subiu
82%; o arroz, 56%; as carnes, 35%; e gás de cozinha, 21%. Esta semana, aliás, o
gás subiu mais de 5% e as altas foram mensais ao longo do ano. Agravando a
situação, a conta de luz representa outro choque, devido à crise hídrica e o déficit de produção nas
hidrelétricas, que levam à necessidade
de usar as usinas termoelétricas, de
geração muito mais cara.
O economista André Brás, da Fundação
Getúlio Vargas, ressalta que estes
muitos problemas vêm de longe e, com a pandemia, só se agravaram. A piora, na
sua avaliação, vem a reboque da lentidão das vacinas no país e do aumento do
endividamento público. Ele defende que é
preciso vacinar os mais velhos, sim, por serem mais vulneráveis. Entretanto, também
quem integra a força de trabalho tem de ser imunizado. Credita na conta da covid e da má gestão da crise sanitária o aumento das
desigualdades. Enquanto os mais pobres são cada vez mais asfixiados, os mais ricos
acumularam reservas e novos ganhos
durante a pandemia. Exemplifica que, “como
deixaram de gastar em serviços, combustíveis e tiverem desconto na mensalidade
escolar das crianças, engordaram aplicações e contas bancárias”. A explosão das
exportações de
commodities ajudou
turbinar os ganhos dos mais endinheirados.
Seria leviano e injusto, apesar de tudo, atribuir todos os males que resultam nesses dois brasis apenas à pandemia e ao governo Jair Bolsonaro. O economista André Brás chama a atenção que, historicamente, nossos governos e governantes não têm produzido e entregue projetos nacionais que contemplem as macro demandas da sociedade brasileira. Desta forma, as desigualdades persistem e agora ante às adversidades. É natural pensar num Brasil plural e diversificado como o que temos, de múltiplos potenciais e riquezas. Entretanto, é dever ético e cívico dos que governam construir uma nação mais justa e isonômica. Os governantes têm de se investir de visão de estadistas e consciência cidadã, de modo que suas ações perpassem os seus governos e alcancem o futuro das gerações, ressalta o economista da Fundação Getúli Vargas.
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