quinta-feira, 24 de março de 2022

ENTREVISTA: Miro Luiz dos Santos Bacin,

Doutor em Comunicação,
Miro Bacin tem, além da
vida acadêmica, ampla
atuação pela mídia gaúcha.

“As redações telejornalísticas escolhem o

que veicular e o que esconder do público”

 

Aos 63 anos, o jornalista e professor universitário Miro Luiz dos Santos Bacin é um autêntico mestre em tudo que faz e ensina. Da fotografia às artes plásticas;  do rádio à televisão e, com a autoridade de doutor em Comunicação, acha que a redação jornalística já foi melhor antes da internet. “As redações telejornalísticas escolhem o que veicular e o que esconder do público”,  alerta. O professor da Unipampa chama a atenção que “a pluralidade de vozes em cada telejornal está circunscrita à vontade dos seus donos, não exatamente ao que o jornalista pensa.”

Miro Bacin é  jornalista formado pela Unisinos/1985, mestre em Semiótica (pela mesma Universidade/1999) e doutor em Comunicação Social (pela PUCRS/2006. Ainda  é avaliador ad-hoc (de curso e instituição) e elaborador e revisor de itens INEP/MEC. É  professor associado na Universidade Federal do Pampa e  membro da CPA/Unipampa. Foi membro do Conselho Universitário da instituição,  tendo experiência nas áreas de Comunicação: gestão de curso. Atua como docente nas áreas de redação, edição, legislação, deontologia e ética jornalística, fotografia, fotojornalismo e jornalismo esportivo. É  também professor do pós-graduação especialização em Mídia e Educação (EaD/UAB). Pesquisa atual na Unipampa: Jornalismo Humanizador em Crônicas do Cotidiano (III).

Como profissional no jornalismo, trabalhou em vários veículos:  Diário Serrano, Jornal Vale do Sinos, Diário de Canoas, Correio do Povo e Zero Hora. Também atuou na rádio Guaíba,  TV Guaíba/Record e no site Portal3. Apaixonado pelo rádio,  ressalta que essa mídia é consumida por mais de 70% dos brasileiros, aumentando o índice na pandemia.   É  fotógrafo, ilustrador e artista plástico. Atualmente, é ainda colunista semanal da Folha de São Borja, no exercício da reportagem fotográfica para as Crônicas da Cidade.

 


Atividade semanal com fotografias
jornalísticas em ‘Crônicas da
Cidade’, na Folha de São Borja,


Miro Luiz conta que o  falecido pai, Miro Bacin, era de Jaguari, militar. A mãe, Missioneira do Santos Bacin, nasceu em Corrientes, Argentina, mas foi registrada em São Borja. Funcionária pública estadual aposentada. Ambos foram moradores de São Borja até o final dos anos 1950, quando se mudaram para Porto Alegre. Aqui, além do trabalho, exerciam, nas horas vagas, a música. Ele ao saxofone, ela na gaita. Tocaram por diversas vezes na antiga Rádio Fronteira do Sul. “Aqui na cidade ainda tenho primos.”, registra o professor.

Tenho dois irmãos: Maria Tereza, de Porto Alegre, é economiária aposentada da Caixa Federal; e Álvaro, do Rio de Janeiro, piloto aposentado, ex-comandante da Varig e Latam.  Miro é  casado com Adriana Duval, com a qual tem  as filhas Isabella, 17 anos, e Morenna, sete anos. Tem ainda  dois filhos do primeiro casamento: Bernardo, de 32 anos, e Lorenzo, de 23, residentes em Porto Alegre.

“Penso que vivemos confinados por nossos próprios ideais e com uma habilidade de expressão muito aquém do que precisamos para viver em paz”, ensina. Miro Bacin antecipa que está preparando uma exposição com as muitas imagens produzidas desde que retornou a São Borja, para a Unipampa.   A seguir, a confira a entrevista:

 

Alberi Cogo - Como doutor em Comunicação, é amplo seu espectro de formação acadêmica, mas a fotografia é uma das suas principais referências.  É verdadeira aquela máxima popular de que uma boa imagem vale mais do que mil palavras?

Miro Bacin - Esta expressão do filósofo chinês Confúcio, meados de 500 a.C., era utilizada para transmitir a ideia do poder da comunicação a partir do uso de recursos visuais. A frase hoje não faz sentido para descrever ou narrar fatos do cotidiano. Como vamos compreender mensagens apenas pelas imagens? Temos de agregar a elas uma legenda, um descritor. Só assim o receptor entenderá o sentido proposto, conceitos e informações que detém aquele que a produziu e a veiculou.  A leitura daquilo que está ali, na nossa frente, exige de nós aptidão para captarmos, nas diversas formas de construção expressiva, os sentidos intencionalmente construídos. Portanto, podemos dizer que há, no texto fotográfico, a articulação das linguagens verbal e visual, atribuindo, assim, um sentido, formando uma base comum sobre a qual se assenta a significação.

 

AC - Os jornais, as revistas e agora as mídias sociais estão usando adequadamente a fotografia?

MB - A imagem para compor uma narrativa informativa no jornalismo de qualidade é, desde sempre, estratégica. E assim se apresenta nos veículos que pretendam atingir um público tão seleto quanto abrangente. Por isso, as imagens, independente do suporte onde estejam, mais do que nunca chamam a atenção como um complemento no conjunto informativo. São uma outra forma de narrar os fatos e exigem do texto verbal a conjugação correta para o seu entendimento.

 


Hospital Ivan Goulart em São Borja.
Imagem que decora um dos corredores do


AC -  Alguma publicação específica em vista em relação a imagens?

MB - Escrevo quase diariamente em diversas páginas virtuais com o tema fotografia. Nelas, milhares de pessoas acompanham, e diversas interagem comigo. No Instagram e no Facebook tenho mantido regularidade de publicações. No suporte impresso,  semanalmente publico imagens jornalísticas juntamente com a Adriana, minha esposa, também professora da Unipampa, na coluna Crônicas da Cidade, da Folha de São Borja.

 

AC - O telejornalismo é também uma das suas especialidades. Que avaliação faz do telejornalismo atualmente produzido e entregue no Brasil?

MB - Temos aí um problema sério. As redações telejornalísticas escolhem o que veicular e o que esconder do público. Não que isso seja uma estratégia moderna ou exclusiva da agenda televisiva. Mas essas manobras exacerbadas, dicotômicas, revelam ao telespectador atento as preferências e os vieses de sujeitos preocupados com a saúde financeira de suas instituições e a captura da audiência. Penso que a pluralidade de vozes em cada telejornal está circunscrita à vontade dos seus donos, não exatamente ao que o jornalista pensa. Há, também, uma outra realidade, que indica que a linguagem das mídias noticiosas televisuais se tornou mais pessoal, emotiva, engajada em opiniões, depois do advento da Internet. Televisões que possuem uma carga expressiva de jornalismo em suas grades de programação mostram, claramente, essa aptidão por determinado alinhamento, por exemplo, político – como a CNN (mais nos EUA) ou a Jovem Pan. Antes dos acontecimentos da Internet, o jornalismo era melhor para a sociedade. E não sou o único a pensar assim. O professor do Instituto de Relações Internacionais da USP Carlos Eduardo Lins da Silva diz que o apartidarismo e a isenção diante dos fatos, antes dos anos 1990, eram maiores. Era um jornalismo mais benéfico para o país e para a democracia, de modo geral. Por outro lado, temos que compreender que jornalismo é negócio e precisa sobreviver. Se o público aceita esse tipo de comportamento, diz o professor Carlos Eduardo, é natural que seja adotado pela maior parte dos veículos.

 

Foto jornalística feita em 20 de fevereiro
deste ano em operação de combate ao fogo
em área próxima ao centro da cidade.


AC - Duas análises, por favor:  sobre a qualidade do radiojornalismo e sobre o que esperar da emissora em FM da Unipampa.

MB - Para se ter uma ideia da importância do rádio para o brasileiro, uma recente pesquisa desenvolvida pela Inside Radio 2021, da Kantar IBOPE Media, envolvendo treze regiões metropolitanas do Brasil, apontou que 80% da população dessas regiões ouvem rádio. E que, mesmo aumentando a audiência das rádios pelo celular, as pessoas preferem escutar no aparelho de rádio tradicional. Além disso, os dados revelam que 71% escutam em casa. Claro, não podemos esquecer o contexto da pandemia, do isolamento social e o trabalho em home office, que contribuíram para o aumento do consumo no ambiente residencial. A professora de Comunicação da Universidade de Brasília Cristiane Parente diz que, mesmo com o surgimento de outras mídias, o rádio que conhecemos permanece sendo a mídia mais popular. E isso, segundo ela, se fortaleceu no contexto da pandemia. Sobre esses dados, podemos inferir que a mídia radiofônica segue sendo um importante aliado da população, especialmente como veículo informativo. Para uma boa aferição da qualidade do jornalismo praticado pelas rádios, basta ouvir as grandes emissoras nacionais ou as locais que têm como característica informar a comunidade. Sobre a Rádio da Unipampa, pouco sei. Mas percebo que a equipe que está organizando a emissora universitária trabalha para colocar o sinal e a programação no ar.

 

Uma das imagens enriquecendo
oacervo das Street fotografa.

AC - É verdadeira a afirmativa de que a qualidade de texto vem caindo entre os jornalistas? A Universidade vem cuidando disso?

MB - Nunca se leu tanto, nunca se escreveu tanto como agora. E o texto jornalístico se tornou, provavelmente, o gênero textual mais consumido. Afinal, é ele que nos informa, nos traz a conhecer o que há em nosso “mundo”.   Quanto à qualidade textual dos jornalistas, creio que houve um aumento de correção, não apenas gramatical, mas de semântica, do significado usado para se expressar através da linguagem.  Os cursos de Jornalismo, desde sempre, estão atentos ao que é produzido em sala de aula, e igualmente atentos ao que se produz nas redações. O aluno deve sair das instituições com a qualidade esperada pela sociedade.

 

 

Mais imagem enriquecendo o
oacervo das Street fotografa.

AC - Neste ano de 2022 a tecnologia 5G já estará nas capitais e, depois, chegará ao Brasil inteiro. Num país tão iletrado e desigual como o nosso, isso não aprofundará ainda mais o fosso das injustiças sociais?

MB - Penso diferente. O acesso ao mundo digital – e o consequente ingresso em ambientes jamais imaginados – não pode ser encarado como aprofundamento das desigualdades ou das injustiças sociais. Por óbvio, cabe à família e cabe à escola o papel de alertar e orientar como essas pessoas podem utilizar essa fantástica ferramenta de leitura do mundo.

 

AC - A inteligência artificial e a internet das coisas avançam de forma vertiginosa. Alguns especialistas afirmam que, devido à Educação precária, será ainda mais fácil a disseminação das fakenews, piorando, por consequência, a qualidade da nossa democracia. O que o senhor acha disso?

MB - Trago aqui um estudo feito em 2018 pelo Instituto Mundial de Pesquisa (IPSO), intitulado: “Fake news, filter bubbles, post-truth and trust” (Notícias falsas, filtro de bolhas, pós-verdade e verdade). Nele é revelado que 62% dos entrevistados do Brasil admitiram ter acreditado em notícias falsas. Num mundo polarizado, as fake news agradarão sempre um lado da audiência que, por vez, a repassará rapidamente a seus pares. Quando navego pela internet – e o faço por espaços diversos –, vejo que a tendência é exatamente essa. Quanto mais se acirram os ânimos, mais pessoas buscam aconchegarem-se naquelas “verdades” que lhes trazem conforto. Uma outra questão, que não é exatamente tradutora do conceito de fake news, mas que provoca a sua produção: as grandes mídias, por suas capacidades agendadoras, promovem aquilo que lhes é útil e ignoram outras tantas coisas que poderiam beneficiar a imagem de quem elegeram como adversários. Talvez essa postura seja tanto perversa e nociva ao cidadão quanto as fake news.

 

Uma iagem que compõe o
acervo das Street fotografa.

AC - Como artista plástico, que novidades nos prepara, professor? E quais são os planos de Miro Bacin no campo pessoal e profissional?

MB - Venho pensando em preparar uma exposição de “street photography”, com imagens que mostrem o cotidiano da cidade através de registros de diferentes pessoas e contextos, a partir do acervo que construo aqui desde que vim morar em São Borja, em 2008.

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