Doutor em Comunicação,Miro Bacin tem, além davida acadêmica, amplaatuação pela mídia gaúcha.
“As redações
telejornalísticas escolhem o
que veicular e o
que esconder do público”
Aos 63 anos, o jornalista e professor
universitário Miro Luiz dos Santos Bacin é um autêntico mestre em tudo que faz
e ensina. Da fotografia às artes plásticas; do rádio à televisão e, com a autoridade de
doutor em Comunicação, acha que a redação jornalística já foi melhor antes da internet.
“As redações telejornalísticas escolhem o que veicular e o que esconder do
público”, alerta. O professor da
Unipampa chama a atenção que “a pluralidade de vozes em cada telejornal está
circunscrita à vontade dos seus donos, não exatamente ao que o jornalista
pensa.”
Miro Bacin é jornalista formado pela Unisinos/1985, mestre
em Semiótica (pela mesma Universidade/1999) e doutor em Comunicação Social (pela
PUCRS/2006. Ainda é avaliador ad-hoc (de
curso e instituição) e elaborador e revisor de itens INEP/MEC. É professor associado na Universidade Federal do
Pampa e membro da CPA/Unipampa. Foi membro
do Conselho Universitário da instituição, tendo experiência nas áreas de Comunicação:
gestão de curso. Atua como docente nas áreas de redação, edição, legislação,
deontologia e ética jornalística, fotografia, fotojornalismo e jornalismo
esportivo. É também professor do
pós-graduação especialização em Mídia e Educação (EaD/UAB). Pesquisa atual na
Unipampa: Jornalismo Humanizador em Crônicas do Cotidiano (III).
Como profissional no jornalismo,
trabalhou em vários veículos: Diário
Serrano, Jornal Vale do Sinos, Diário de Canoas, Correio do Povo e Zero Hora.
Também atuou na rádio Guaíba, TV
Guaíba/Record e no site Portal3. Apaixonado pelo rádio, ressalta que essa mídia é consumida por mais
de 70% dos brasileiros, aumentando o índice na pandemia. É fotógrafo, ilustrador e artista plástico. Atualmente,
é ainda colunista semanal da Folha de São Borja, no exercício da reportagem
fotográfica para as Crônicas da Cidade.

Atividade
semanal com fotografias
jornalísticas
em ‘Crônicas da
Cidade’,
na Folha de São Borja,
Miro Luiz conta que o falecido pai, Miro Bacin, era de Jaguari,
militar. A mãe, Missioneira do Santos Bacin, nasceu em Corrientes, Argentina,
mas foi registrada em São Borja. Funcionária pública estadual aposentada. Ambos
foram moradores de São Borja até o final dos anos 1950, quando se mudaram para
Porto Alegre. Aqui, além do trabalho, exerciam, nas horas vagas, a música. Ele
ao saxofone, ela na gaita. Tocaram por diversas vezes na antiga Rádio Fronteira
do Sul. “Aqui na cidade ainda tenho primos.”, registra o professor.
Tenho dois irmãos: Maria Tereza, de
Porto Alegre, é economiária aposentada da Caixa Federal; e Álvaro, do Rio de
Janeiro, piloto aposentado, ex-comandante da Varig e Latam. Miro é casado com Adriana Duval, com a qual tem as filhas Isabella, 17 anos, e Morenna, sete
anos. Tem ainda dois filhos do primeiro
casamento: Bernardo, de 32 anos, e Lorenzo, de 23, residentes em Porto Alegre.
“Penso que vivemos confinados por
nossos próprios ideais e com uma habilidade de expressão muito aquém do que
precisamos para viver em paz”, ensina. Miro Bacin antecipa que está preparando
uma exposição com as muitas imagens produzidas desde que retornou a São Borja,
para a Unipampa. A seguir, a confira a entrevista:
Alberi Cogo - Como doutor em
Comunicação, é amplo seu espectro de formação acadêmica, mas a fotografia é uma
das suas principais referências. É
verdadeira aquela máxima popular de que uma boa imagem vale mais do que mil
palavras?
Miro Bacin - Esta expressão do filósofo
chinês Confúcio, meados de 500 a.C., era utilizada para transmitir a ideia do
poder da comunicação a partir do uso de recursos visuais. A frase hoje não faz
sentido para descrever ou narrar fatos do cotidiano. Como vamos compreender
mensagens apenas pelas imagens? Temos de agregar a elas uma legenda, um
descritor. Só assim o receptor entenderá o sentido proposto, conceitos e
informações que detém aquele que a produziu e a veiculou. A leitura daquilo que está ali, na nossa
frente, exige de nós aptidão para captarmos, nas diversas formas de construção
expressiva, os sentidos intencionalmente construídos. Portanto, podemos dizer
que há, no texto fotográfico, a articulação das linguagens verbal e visual,
atribuindo, assim, um sentido, formando uma base comum sobre a qual se assenta
a significação.
AC - Os jornais, as revistas e agora as
mídias sociais estão usando adequadamente a fotografia?
MB - A imagem para compor uma narrativa
informativa no jornalismo de qualidade é, desde sempre, estratégica. E assim se
apresenta nos veículos que pretendam atingir um público tão seleto quanto
abrangente. Por isso, as imagens, independente do suporte onde estejam, mais do
que nunca chamam a atenção como um complemento no conjunto informativo. São uma
outra forma de narrar os fatos e exigem do texto verbal a conjugação correta
para o seu entendimento.

Hospital Ivan Goulart em São Borja.
Imagem que decora um dos corredores do
AC - Alguma publicação específica em vista em
relação a imagens?
MB - Escrevo quase diariamente em
diversas páginas virtuais com o tema fotografia. Nelas, milhares de pessoas
acompanham, e diversas interagem comigo. No Instagram e no Facebook tenho
mantido regularidade de publicações. No suporte impresso, semanalmente publico imagens jornalísticas
juntamente com a Adriana, minha esposa, também professora da Unipampa, na
coluna Crônicas da Cidade, da Folha de São Borja.
AC - O telejornalismo é também uma das
suas especialidades. Que avaliação faz do telejornalismo atualmente produzido e
entregue no Brasil?
MB - Temos aí um problema sério. As
redações telejornalísticas escolhem o que veicular e o que esconder do público.
Não que isso seja uma estratégia moderna ou exclusiva da agenda televisiva. Mas
essas manobras exacerbadas, dicotômicas, revelam ao telespectador atento as
preferências e os vieses de sujeitos preocupados com a saúde financeira de suas
instituições e a captura da audiência. Penso que a pluralidade de vozes em cada
telejornal está circunscrita à vontade dos seus donos, não exatamente ao que o
jornalista pensa. Há, também, uma outra realidade, que indica que a linguagem
das mídias noticiosas televisuais se tornou mais pessoal, emotiva, engajada em
opiniões, depois do advento da Internet. Televisões que possuem uma carga
expressiva de jornalismo em suas grades de programação mostram, claramente,
essa aptidão por determinado alinhamento, por exemplo, político – como a CNN
(mais nos EUA) ou a Jovem Pan. Antes dos acontecimentos da Internet, o
jornalismo era melhor para a sociedade. E não sou o único a pensar assim. O
professor do Instituto de Relações Internacionais da USP Carlos Eduardo Lins da
Silva diz que o apartidarismo e a isenção diante dos fatos, antes dos anos
1990, eram maiores. Era um jornalismo mais benéfico para o país e para a
democracia, de modo geral. Por outro lado, temos que compreender que jornalismo
é negócio e precisa sobreviver. Se o público aceita esse tipo de comportamento,
diz o professor Carlos Eduardo, é natural que seja adotado pela maior parte dos
veículos.
Foto jornalística feita em 20 de fevereirodeste ano em operação de combate ao fogoem área próxima ao centro da cidade.
AC - Duas análises, por favor: sobre a qualidade do radiojornalismo e sobre
o que esperar da emissora em FM da Unipampa.
MB - Para se ter uma ideia da
importância do rádio para o brasileiro, uma recente pesquisa desenvolvida pela Inside Radio 2021, da Kantar IBOPE Media,
envolvendo treze regiões metropolitanas do Brasil, apontou que 80% da população
dessas regiões ouvem rádio. E que, mesmo aumentando a audiência das rádios pelo
celular, as pessoas preferem escutar no aparelho de rádio tradicional. Além
disso, os dados revelam que 71% escutam em casa. Claro, não podemos esquecer o
contexto da pandemia, do isolamento social e o trabalho em home office, que contribuíram para o aumento do consumo no ambiente
residencial. A professora de Comunicação da Universidade de Brasília Cristiane
Parente diz que, mesmo com o surgimento de outras mídias, o rádio que
conhecemos permanece sendo a mídia mais popular. E isso, segundo ela, se
fortaleceu no contexto da pandemia. Sobre esses dados, podemos inferir que a
mídia radiofônica segue sendo um importante aliado da população, especialmente
como veículo informativo. Para uma boa aferição da qualidade do jornalismo
praticado pelas rádios, basta ouvir as grandes emissoras nacionais ou as locais
que têm como característica informar a comunidade. Sobre a Rádio da Unipampa,
pouco sei. Mas percebo que a equipe que está organizando a emissora
universitária trabalha para colocar o sinal e a programação no ar.
Uma das imagens enriquecendo
oacervo das Street fotografa.
AC - É verdadeira a afirmativa de que a
qualidade de texto vem caindo entre os jornalistas? A Universidade vem cuidando
disso?
MB - Nunca se leu tanto, nunca se
escreveu tanto como agora. E o texto jornalístico se tornou, provavelmente, o
gênero textual mais consumido. Afinal, é ele que nos informa, nos traz a
conhecer o que há em nosso “mundo”. Quanto
à qualidade textual dos jornalistas, creio que houve um aumento de correção,
não apenas gramatical, mas de semântica, do significado usado para se expressar
através da linguagem. Os cursos de Jornalismo, desde sempre, estão
atentos ao que é produzido em sala de aula, e igualmente atentos ao que se
produz nas redações. O aluno deve sair das instituições com a qualidade
esperada pela sociedade.
Mais imagem enriquecendo ooacervo das Street fotografa.
AC - Neste ano de 2022 a tecnologia 5G
já estará nas capitais e, depois, chegará ao Brasil inteiro. Num país tão
iletrado e desigual como o nosso, isso não aprofundará ainda mais o fosso das
injustiças sociais?
MB - Penso diferente. O acesso ao mundo
digital – e o consequente ingresso em ambientes jamais imaginados – não pode
ser encarado como aprofundamento das desigualdades ou das injustiças sociais.
Por óbvio, cabe à família e cabe à escola o papel de alertar e orientar como
essas pessoas podem utilizar essa fantástica ferramenta de leitura do mundo.
AC - A inteligência artificial e a
internet das coisas avançam de forma vertiginosa. Alguns especialistas afirmam
que, devido à Educação precária, será ainda mais fácil a disseminação das
fakenews, piorando, por consequência, a qualidade da nossa democracia. O que o
senhor acha disso?
MB - Trago aqui um estudo feito em 2018
pelo Instituto Mundial de Pesquisa (IPSO), intitulado: “Fake news, filter bubbles, post-truth and trust” (Notícias falsas,
filtro de bolhas, pós-verdade e verdade). Nele é revelado que 62% dos
entrevistados do Brasil admitiram ter acreditado em notícias falsas. Num mundo
polarizado, as fake news agradarão
sempre um lado da audiência que, por vez, a repassará rapidamente a seus pares.
Quando navego pela internet – e o faço por espaços diversos –, vejo que a
tendência é exatamente essa. Quanto mais se acirram os ânimos, mais pessoas
buscam aconchegarem-se naquelas “verdades” que lhes trazem conforto. Uma outra
questão, que não é exatamente tradutora do conceito de fake news, mas que provoca a sua produção: as grandes mídias, por
suas capacidades agendadoras, promovem aquilo que lhes é útil e ignoram outras
tantas coisas que poderiam beneficiar a imagem de quem elegeram como
adversários. Talvez essa postura seja tanto perversa e nociva ao cidadão quanto
as fake news.
Uma iagem que compõe o
acervo das Street fotografa.
AC - Como artista plástico, que
novidades nos prepara, professor? E quais são os planos de Miro Bacin no campo
pessoal e profissional?
MB - Venho pensando em preparar uma
exposição de “street photography”,
com imagens que mostrem o cotidiano da cidade através de registros de
diferentes pessoas e contextos, a partir do acervo que construo aqui desde que
vim morar em São Borja, em 2008.


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