sábado, 12 de março de 2022

SÃO BORJA E SUA HISTÓRIA

 

Novo Museu Missioneiro poderá  resgatar

legado da Civilização Guarani nas Missões

 


Meta é que novo Museu Missioneiro seja ainda
 mais uma referência regional. (Foto Tiago Cogo)


A administração municipal em São Borja mobiliza-se em duas frentes em relação à difusão e à preservação da rica herança história jesuítico-guarani. Uma das ações é a elaboração do projeto que, uma vez implementado, vai abrigar o novo Museu Missioneiro de São Borja,  que ficará no Cais do Porto, sob uma gigante Cruz Missioneira e como uma das obras artístico-culturais mais audaciosas em toda a região. A outra frente de mobilização é no sentido de confirmar os recursos financeiros para executar o projeto. Será parte integrante de um complexo bem maior de investimentos, na orla brasileira do rio Uruguai, abrangendo ainda a Avenida Beira-Rio e um mais um elenco complementar de produtos e serviços a favor do turismo e do lazer.

O Museu Missioneiro Apparício Silva Rillo guarda, hoje, é um dos mais amplos acervos da história missioneira, entre as antigas sete reduções no território atualmente correspondente ao Rio Grande do Sul. São peças de valor inestimável, reveladoras não apenas do talento da criação barroca, há mais de 300 anos, mas também materializando a aguçada religiosidade que os jesuítas trouxeram a estas bandas, galvanizando adesões e apoios entre os índios guaranis.  Atualmente o museu localiza-se em área contígua à Biblioteca Municipal Getúlio Vargas e precisa de um local de mais fácil acesso e adequado.


Arte barroca remonta uma rica história de
mais de 200 anos. (Foto Juliano Jacques)

Mas, além deste resgate e perenização da memória material, São Borja também ainda precisa melhor conhecer e espelhar-se na  avançada e plural Civilização Guarani. A história contada pelos vencedores sempre será incompleta, parcial. A região hoje das Missões em solo gaúcho foi permanentemente objeto de cobiças e de sucessivos troca-trocas entre Portugal e Espanha, entre 1580 e pelo menos 1801. A dominação ibérica, no período, teve fins apenas exploratórios. Apesar disso, guaranis e jesuíticas deram ao mundo exemplos de unidade, de convívio coletivo e pacífico, e de muitos progressos compartilhados. Isto quando a lógica europeia era oligárquica - de governos para poucos. O Museu Missioneiro certamente se verá convidado a recontar adequadamente esta história.

 

O contexto

 

No início da colonização da América, portugueses e espanhóis tentaram escravizar os índios para trabalharem na agricultura ou na extração de metais preciosos, buscados por bandeirantes. Os jesuítas, porém, eram contra qualquer  foram de escravização. 

Longe da perseguição, os religiosos evangelizaram os indígenas, sem intervenção da deliberada  exploradora colonial.



A religião como pano de fundo na disputa
entre Portugal e Espanha. (Foto Juliano Jacques)

 Com objetivos expansionistas, Portugal avançou para territórios hoje da Argentina e do Uruguai, criando neste último, no século 17, a Colônia do Santíssimo Sacramento, na região do rio da Prata.  Entretanto, os espanhóis, que dominavam grande parte das terras na região entraram em conflito com os portugueses, atacando a cidade de Sacramento e disputando o domínio das áreas platinas.  Eis que surge um acordo, o Tratado de Madri, em 1750, definindo que a cidade de Sacramento pertenceria aos espanhóis. Já em troca, Portugal ganhou os territórios da Amazônia e da região dos Sete Povos das Missões, no atual estado do Rio Grande do Sul.

 

Um massacre

 

Pelo Tratado de Madri, os missionários e os indígenas deveriam deixar os Sete Povos das Missões em seis meses com todos os seus pertences, em direção à região de Sacramento (atual Uruguai). Porém, os guaranis se recusaram a sair de lugar. As sete reduções tinham, à época, cerca de 30 mil índios, algumas delas com até oito mil ocupantes.

 No ano de 1754, indígenas e jesuítas se rebelaram, iniciando-se iniciava-se a sangrenta Guerra Guaranítica. A guerra durou até 1756, representando um verdadeiro massacre dos missioneiros e o povo das aldeias. Portugal e Espanha juntarem seus exércitos – bem melhor armados e numerosos -  e dizimaram os índios revoltosos.


O líder guarani Sepé Tiaraju importalizou
para a história: "Esta terra tem dono;"

Os números são conflitantes, mas há relatos que foram mortos entre 1.511 e até 20 mil índios. Já de Portugal e Espanha teriam sido somente quatro os mortos. Sepé Tiaraju, que não aceitou abandonar os Sete Povos,  foi o líder militar dos guaranis, sendo morto em combate. É atribuída a ele a célebre frase ‘Esta terra tem dono.”  

Em alguns casos, os próprios padres entregavam armas para que os índios se defendessem dos ataques bandeirantes. Os jesuítas não respondiam diretamente nem a Portugal nem à Espanha, mas à Igreja Católica em Roma.   O conflito se alastrou para a região de La Plata. A rendição dos índios foi na Batalha de Caiboaté, travada em 1756.

 

Mais troca-trocas

 

Depois do Tratado de Madri, em  1777 as duas coroas ibéricas assinaram o Tratado de Ildefonso, pelo  qual os portugueses devolveram as Sete Missões no lado brasileiro para a Espanha.

Entretanto,  os espanhóis só abriram mão da região das, em 1801, após ao ser assinado o Tratado de Badajoz. Eis que outra vez a região dos Sete Povos volta a ser de Portugal.

A consolidação da região das Missões para o território do Rio Grande do Sul deve muito a Joaquim Borges do Canto e seus soldados.  Um a um, ele foi conquistando os Sete Povos Missioneiros. Isso representava na época 40% do solo gaúcho.

 

São Borja prevê erguer cruz de Lorena
gigante, no Cais do Porto (Decom/PM)

Socialização

 

A gestão governamental das missões obedecia à organização das cidades espanholas. Cada uma possuía um chefe superior e havia prefeitos e vereadores. Ambos formavam um conselho. Todos os cargos eram exercidos por indígenas.

Na organização social das reduções aplicada pelos jesuítas, não havia propriedade particular. As ferramentas para o trabalho da terra era praticamente de uso coletivo. Sob o comando dos religiosos, os indígenas aprenderam a lidar com a terra, criar animais e a esculpir a madeira.

Em relação à cultura de costumes, os índios eram poligâmicos e nômades. Algumas tribos também eram canibalistas.  Os evangelizadores, por sua vez, pregavam Deus único, permanência em um local e a monogamia. 

 A sociedade era dividida em classes conforme o ofício de cada um.  Os artistas tinham status de nobreza. O modelo de convívio social empregado em terras missioneiras chamou a atenção da Europa na época, inclusive no período Iluminista, já no século 19.

A Coroa portuguesa permitia a escravidão indígena, enquanto o Império espanhol os tornava automaticamente súditos do rei. As missões foram constantemente atacadas por bandeirantes em busca de escravos para serem usados a serviço das colônias

 

Produto turístico

 


Ruinas de São Miguel, Patrimônio 
Cultiral da Humanidade, pela ONU.

Considerando os mais importantes, foram  registradas  30 reduções missionárias nos séculos 17 e 18. Deste total, 15 estavam no Paraguai, oito na Argentina e sete no Brasil (no Rio Grande do Sul.) Aqui, a redução de São Francisco de Borja  é tida como a primeira.

Os municípios gaúchos que integram a região onde estavam instalados os Sete Povos das Missões são destino permanente de  turistas. Na região, empresas de turismo e o poder público municipal promovem passeios nas chamadas Rotas das Missões. O objetivo é refazer o caminho dos indígenas, promover a contemplação da natureza e visitar sítios arqueológicos.

Os Sete Povos: São Francisco Borja, fundado em 1682, São Nicolau (1687) e São Luiz Gonzaga (1687). Ainda integram o circuit São Miguel Arcanjo (1687), São Lourenço Mártir (1690), São João Batista (1697) e Santo Ângelo Custódio (1707).

 



Nas telas

 


"Eque o padroeiro São Francisco de Borja
nos proteja", exorta o prefeito Bonotto.

O filme "A Missão" está entre as principais obras que destacam os efeitos da disputa entre portugueses e espanhóis pelo território de Sete Povos das Missões.

A obra retrata o drama dos indígenas que fugiam da escravidão portuguesa e permaneciam no centro da batalha territorial. Dirigido por Roland Joffé, foi lançado em 1986.

Já o Senado Federal brasileiro lançou em 2013 o documentário "Missões Jesuíticas - Guerreiros da Fé". Dividido em três  episódios, o documentário reúne  especialistas que analisam os efeitos da presença dos padres da Companhia de Jesus na região.

Em São Borja

Nos 300 anos de sua formação histórica, completados em 1982, São Borja ergueu o Monumento do Tricentenário. Surgiu, por inciativa e inspiração do poeta, escritor e pesquisador Apparício Silva Rillo, estando localizado na praça Tricentenário, região Sul da cidade. A obra de arte retrata, em escala cronológica, as diversas etapas de evolução da história do município.

No mesmo ano, também assinalando a data, foi promovido o festival musical Uma Canção para São Borja. Poetas de todo o Rio Grande do Sul cantaram a épica saga são-borjense como “esplender dos Sete Povos, primeira da conquista guarani.” Por que, afinal, “entre irmãos de arte, geografia à parte, não há contrabando.” É preciso, portanto, seguir cantando e mostrando a rica história de São Borja. E, como diz o prefeito Eduardo Bonotto, “e que São Francisco de Borja nos proteja.”



Monumento assinala os 300 anos de formação histórica

de São Borja, em 1982. (Na foto atual de Darlan Witchaki)

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