Novo Museu Missioneiro poderá resgatar
legado da Civilização Guarani nas Missões

Meta é que novo Museu Missioneiro seja ainda
mais uma referência regional. (Foto Tiago Cogo)
A
administração municipal em São Borja mobiliza-se em duas frentes em relação à
difusão e à preservação da rica herança história jesuítico-guarani. Uma das
ações é a elaboração do projeto que, uma vez implementado, vai abrigar o novo
Museu Missioneiro de São Borja, que
ficará no Cais do Porto, sob uma gigante Cruz Missioneira e como uma das obras
artístico-culturais mais audaciosas em toda a região. A outra frente de
mobilização é no sentido de confirmar os recursos financeiros para executar o
projeto. Será parte integrante de um complexo bem maior de investimentos, na
orla brasileira do rio Uruguai, abrangendo ainda a Avenida Beira-Rio e um mais
um elenco complementar de produtos e serviços a favor do turismo e do lazer.
O
Museu Missioneiro Apparício Silva Rillo guarda, hoje, é um dos mais amplos
acervos da história missioneira, entre as antigas sete reduções no território
atualmente correspondente ao Rio Grande do Sul. São peças de valor inestimável,
reveladoras não apenas do talento da criação barroca, há mais de 300 anos, mas
também materializando a aguçada religiosidade que os jesuítas trouxeram a estas
bandas, galvanizando adesões e apoios entre os índios guaranis. Atualmente o museu localiza-se em área
contígua à Biblioteca Municipal Getúlio Vargas e precisa de um local de mais
fácil acesso e adequado.
Mas,
além deste resgate e perenização da memória material, São Borja também ainda
precisa melhor conhecer e espelhar-se na
avançada e plural Civilização Guarani. A história contada pelos
vencedores sempre será incompleta, parcial. A região hoje das Missões em solo
gaúcho foi permanentemente objeto de cobiças e de sucessivos troca-trocas entre
Portugal e Espanha, entre 1580 e pelo menos 1801. A dominação ibérica, no
período, teve fins apenas exploratórios. Apesar disso, guaranis e jesuíticas
deram ao mundo exemplos de unidade, de convívio coletivo e pacífico, e de
muitos progressos compartilhados. Isto quando a lógica europeia era oligárquica
- de governos para poucos. O Museu Missioneiro certamente se verá convidado a
recontar adequadamente esta história.
O
contexto
No
início da colonização da América, portugueses e espanhóis tentaram escravizar
os índios para trabalharem na agricultura ou na extração de metais preciosos,
buscados por bandeirantes. Os jesuítas, porém, eram contra qualquer foram de escravização.
Longe
da perseguição, os religiosos evangelizaram os indígenas, sem intervenção da
deliberada exploradora colonial.
Com objetivos expansionistas, Portugal avançou
para territórios hoje da Argentina e do Uruguai, criando neste último, no
século 17, a Colônia do Santíssimo Sacramento, na região do rio da Prata. Entretanto, os espanhóis, que dominavam grande
parte das terras na região entraram em conflito com os portugueses, atacando a
cidade de Sacramento e disputando o domínio das áreas platinas. Eis que surge um acordo, o Tratado de Madri,
em 1750, definindo que a cidade de Sacramento pertenceria aos espanhóis. Já em
troca, Portugal ganhou os territórios da Amazônia e da região dos Sete Povos
das Missões, no atual estado do Rio Grande do Sul.
Um
massacre
Pelo
Tratado de Madri, os missionários e os indígenas deveriam deixar os Sete Povos
das Missões em seis meses com todos os seus pertences, em direção à região de
Sacramento (atual Uruguai). Porém, os guaranis se recusaram a sair de lugar. As
sete reduções tinham, à época, cerca de 30 mil índios, algumas delas com até
oito mil ocupantes.
No ano de 1754, indígenas e jesuítas se
rebelaram, iniciando-se iniciava-se a sangrenta Guerra Guaranítica. A guerra
durou até 1756, representando um verdadeiro massacre dos missioneiros e o povo
das aldeias. Portugal e Espanha juntarem seus exércitos – bem melhor armados e
numerosos - e dizimaram os índios
revoltosos.
Os
números são conflitantes, mas há relatos que foram mortos entre 1.511 e até 20
mil índios. Já de Portugal e Espanha teriam sido somente quatro os mortos. Sepé
Tiaraju, que não aceitou abandonar os Sete Povos, foi o líder militar dos guaranis, sendo morto
em combate. É atribuída a ele a célebre frase ‘Esta terra tem dono.”
Em
alguns casos, os próprios padres entregavam armas para que os índios se
defendessem dos ataques bandeirantes. Os jesuítas não respondiam diretamente
nem a Portugal nem à Espanha, mas à Igreja Católica em Roma. O conflito se alastrou para a região de La
Plata. A rendição dos índios foi na Batalha de Caiboaté, travada em 1756.
Mais
troca-trocas
Depois
do Tratado de Madri, em 1777 as duas
coroas ibéricas assinaram o Tratado de Ildefonso, pelo qual os portugueses devolveram as Sete
Missões no lado brasileiro para a Espanha.
Entretanto, os espanhóis só abriram mão da região das, em
1801, após ao ser assinado o Tratado de Badajoz. Eis que outra vez a região dos
Sete Povos volta a ser de Portugal.
A consolidação da região das Missões para o território do Rio Grande do Sul deve muito a Joaquim Borges do Canto e seus soldados. Um a um, ele foi conquistando os Sete Povos Missioneiros. Isso representava na época 40% do solo gaúcho.
Socialização
A
gestão governamental das missões obedecia à organização das cidades espanholas.
Cada uma possuía um chefe superior e havia prefeitos e vereadores. Ambos
formavam um conselho. Todos os cargos eram exercidos por indígenas.
Na
organização social das reduções aplicada pelos jesuítas, não havia propriedade
particular. As ferramentas para o trabalho da terra era praticamente de uso
coletivo. Sob o comando dos religiosos, os indígenas aprenderam a lidar com a
terra, criar animais e a esculpir a madeira.
Em
relação à cultura de costumes, os índios eram poligâmicos e nômades. Algumas
tribos também eram canibalistas. Os
evangelizadores, por sua vez, pregavam Deus único, permanência em um local e a
monogamia.
A sociedade era dividida em classes conforme o
ofício de cada um. Os artistas tinham
status de nobreza. O modelo de convívio social empregado em terras missioneiras
chamou a atenção da Europa na época, inclusive no período Iluminista, já no
século 19.
A
Coroa portuguesa permitia a escravidão indígena, enquanto o Império espanhol os
tornava automaticamente súditos do rei. As missões foram constantemente
atacadas por bandeirantes em busca de escravos para serem usados a serviço das
colônias
Produto
turístico
Considerando
os mais importantes, foram
registradas 30 reduções
missionárias nos séculos 17 e 18. Deste total, 15 estavam no Paraguai, oito na
Argentina e sete no Brasil (no Rio Grande do Sul.) Aqui, a redução de São Francisco
de Borja é tida como a primeira.
Os
municípios gaúchos que integram a região onde estavam instalados os Sete Povos
das Missões são destino permanente de
turistas. Na região, empresas de turismo e o poder público municipal
promovem passeios nas chamadas Rotas das Missões. O objetivo é refazer o
caminho dos indígenas, promover a contemplação da natureza e visitar sítios
arqueológicos.
Os
Sete Povos: São Francisco Borja, fundado em 1682, São Nicolau (1687) e São Luiz
Gonzaga (1687). Ainda integram o circuit São Miguel Arcanjo (1687), São
Lourenço Mártir (1690), São João Batista (1697) e Santo Ângelo Custódio (1707).
Nas
telas
O
filme "A Missão" está entre as principais obras que destacam os
efeitos da disputa entre portugueses e espanhóis pelo território de Sete Povos
das Missões.
A
obra retrata o drama dos indígenas que fugiam da escravidão portuguesa e
permaneciam no centro da batalha territorial. Dirigido por Roland Joffé, foi
lançado em 1986.
Já
o Senado Federal brasileiro lançou em 2013 o documentário "Missões
Jesuíticas - Guerreiros da Fé". Dividido em três episódios, o documentário reúne especialistas que analisam os efeitos da
presença dos padres da Companhia de Jesus na região.
Em
São Borja
Nos
300 anos de sua formação histórica, completados em 1982, São Borja ergueu o
Monumento do Tricentenário. Surgiu, por inciativa e inspiração do poeta,
escritor e pesquisador Apparício Silva Rillo, estando localizado na praça
Tricentenário, região Sul da cidade. A obra de arte retrata, em escala cronológica,
as diversas etapas de evolução da história do município.
No
mesmo ano, também assinalando a data, foi promovido o festival musical Uma
Canção para São Borja. Poetas de todo o Rio Grande do Sul cantaram a épica saga
são-borjense como “esplender dos Sete Povos, primeira da conquista guarani.”
Por que, afinal, “entre irmãos de arte, geografia à parte, não há contrabando.”
É preciso, portanto, seguir cantando e mostrando a rica história de São Borja.
E, como diz o prefeito Eduardo Bonotto, “e que São Francisco de Borja nos
proteja.”
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