terça-feira, 1 de março de 2022

A REAÇÃO DA NATUREZA

 

Com a severa estiagem, queimadas
multiplicaram-se em toda a região.
 

Na pandemia do clima, espera é que

tenhamos as vacinas do bom senso

 (Fotos Darci  Bergmann e Prefeitura municipal)

Na quinta-feira, 24/2, buzinas e sirenes de bombeiros ecoaram, ao final da tarde, na vizinha localidade argentina de Santo Tomé. O caráter festivo da manifestação, replicada por toda a comunidade local, era por um bom motivo: comemorar a chegada da chuva e o provável fim dos incêndios que assolaram a região por um mês, sem tréguas. A estimativa é de que áreas correspondentes a 800 mil hectares de pastos e de florestas de pinos ou eucalipto – algo como 10% de todo o território da província de Corrientes – tenha sido consumido pelo fogo. O evento ganhou tal magnitude que foi preciso pedir socorro ao Brasil.


Darci Bergmann: “Não há dúvidas
ser reflexo do aquecimento global.”


E este é apenas um dos muitos incêndios, principalmente a partir de janeiro, atingindo também o solo gaúcho na Fronteira Oeste. A reserva biológica  do Banhado de São Donato, entre Maçambará e Itaqui, por vários dias também ardeu em chamas e perdeu grande parte da sua rica biodiversidade. Na Coudelaria de Rincão, em São Borja, amplas áreas de campos  utilizadas pelo Exército brasileiro igualmente foram engolidas pelo fogo. Em área suburbana, em ambos os lados da BR 472, além da vegetação, também sede de empresas, caminhões, máquinas e tratores viraram cinzas. Isso sem considerar as inúmeras  ocorrências de menor proporção atendidas em escala recorde, desde dezembro pelo Corpo de Bombeiros.

 A ausência de chuvas por mais de dois meses seguidos explica isso, entretanto não é o único fator responsável. O ambientalista Darci Bergmann não tem dúvidas de que a catástrofe ambiental e econômica resulta do aquecimento global no planeta. Na sua avaliação, esse mesmo contexto do efeito estufa leva à bagunça geral  no clima brasileiro, com significativos prejuízos ao PIB nacional e ao ecossistema. “É por isso que temos períodos de frio e calor extremos, prolongadas e severas estiagens ou ocorrências pontuais de enxurradas”, avalia. Ele entende que, “mais do que nunca,  a sociedade e o poder público têm de se conscientizar da gravidade da situação, e agir de forma coletiva e sem demora.”

 

Além dos pequenos eventos, seca também
provocou incêndios de grande proporção.


Os apoios

 

Além de secar pastos e lavouras ou provocar queimadas devastadoras, a severa e prolongada estiagem também teve impactantes reflexos nos mananciais hídricos que, na sua maioria, secaram. Tal situação levou à falta de água para os animais e ainda para o consumo humano em áreas rurais e suburbanas. Desde o início de janeiro, caminhões-pipa da Prefeitura  e do Exército levam socorro emergencial às comunidades mais castigadas. Resta saber em que medida o retorno da chuva mudará esta situação.


Prefeitura já levou 1,2 milhão de
 litros d’água a comunidades rurais.


As secretarias municipais de Infraestrutura, Serviços Urbanos, Segurança e Trânsito e de Agricultura e do Meio Ambiente têm coordenado as ações de abastecimento. “Através dos nossos caminhões-pipa e do Exército, já distribuímos cerca de 1,2 milhão de litros de água”, informa o secretário de Infraestrutura, Moacir Tiecher, que também é coordenador municipal de Defesa Civil. E o socorro sobre rodas é prestado a longas distâncias, “até a 50 quilômetros da cidade”, informa Tiecher.

O secretário do Meio Ambiente, Eugênio Dutra, observa que a situação só não foi pior, “por que nos últimos meses levamos ou recuperamos redes de água e reservatórios em localidades como vila Brites, Samburá, Ivaí e Mato Grande.” Até antes das chuvas mais recentes, outra preocupação era em relação aos 63 poços artesianos no interior do município, já que em muitos deles as bombas não conseguiam mais fazer captação.

Outra ação emergencial, na severa estiagem atual, foi quanto à melhoria dos bebedouros para o gado que, em sua maioria, secaram. Eugênio Dutra informa que pelos menos 80  açudes, cacimbas e outros bebedouros utilizados pelos animais receberam limpeza ou revitalização. Máquinas como retroescavadeiras, dragas, caminhões e equipamento de apoio da Prefeitura foram utilizados.


Força-tarefa recupera pelo menos
80 bebedouros destinados a animais.

 

Ao futuro

 

O ambientalista Darci Bergmann define como uma “calamidade” a situação enfrentada em São Borja. É, portanto, uma pandemia em escala planetária. Ele publicou em rede social que “a severa estiagem deixa um cenário aterrador. Não bastassem as perdas na produção agropecuária, os incêndios nos campos devastaram o nosso Bioma Pampa.” O ambientalista diz que é impossível quantificar prejuízos e, ainda, determinar em quanto tempo haverá recuperação do ecossistema.

Bergmann acrescenta: “Na cidade, o ar ficou  quase irrespirável, pela fumaça e a fuligem das queimadas.” Nesse cenário caótico - de seca, baixa umidade no ar e temperaturas bem acima dos 40º - o ambientalista chama a atenção que, em janeiro, aumentou em 50% o número de óbitos entre  idosos, de acordo com o Hospital Ivan Goulart.

Bergmann propõe a formação de um grupo de trabalho para definir ações práticas em relação a futuros eventos similares.  Ele já diz ter recolhido na comunidade algumas sugestões. Desta forma, antecipa sugestões de medidas que podem ser implementadas.

Em relação aos incêndios, defende ampla campanha nas redes de ensino sobre os malefícios das queimadas ao meio ambiente e à saúde pública. Defende ênfase na prevenção em situações simples, como não jogar lixo e tocos de cigarro em locais impróprios.

Outra proposição é a criação de grupos de combate a incêndios em apoio ao Corpo de Bombeiros. Os quarteis do Exército também poderiam abrigar tanques com água, rebocáveis, o que auxiliaria os Bombeiros para recarga dos seus caminhões.

Prejuízos das queiadas afetam todo
o ecossistema nas regiões atingidas.

Com supervisão e treinamento do Corpo de Bombeiros, a ideia é criar grupos de bombeiros voluntários,  em diversos locais do município. Os voluntários seriam treinados e receberiam algum equipamento de proteção, como botas e roupas à prova de fogo.

Já a Prefeitura pode implementar pontos para captação de água em locais estratégicos no interior do município e próximo à cidade. Estes pontos podem ser açudes, tanques ou poços artesianos, e devem ser de fácil acesso às viaturas de combate ao fogo.

O elenco de sugestões inclui a proposta de criação de um grupo comunitário permanente de prevenção aos incêndios, em apoio ao Corpo de Bombeiros. Também é proposto  buscar apoio do setor de aeronaves agrícolas nas ações de combate aos incêndios nos campos. “Espero a sensibilidade dos nossos dirigentes políticos sobre as sugestões”, ressalta Darci Bergmann.

O prefeito em exercício de São Borja Roque Feltrin já promoveu reunião visando planejar ações de prevenção rm trlação a possíveis futuros eventos.. O encontro foi com representantes das unidades do Exército e o do Corpo de Bombeiros na cidade. A meta é implementar ações de apoio operacional e de prevenção em relação a eventos como incêndios, suprimento de água e medidas e estratégias similares. O coordenador municipal da Defesa Civil, Moacir Tiecher, também vem participando do trabalho.

 

Já há vários meses equipes da
Prefeitura recuperam as aguadas.

Mal geral

 

Depois de um dos invernos mais rigorosos das últimas décadas no Sul do país, o verão   é um dos mais escaldantes da história da região. Mais que isso: é também uma dos mais secos. Durante dois meses, dezembro e janeiro, foram registrados insignificantes 13 milímetros de precipitação,  irradiação de sol intensa e sempre baixa umidade no ar.

Darci Bergmann alerta que eventos extremos como estes vão se repetir com mais frequência e maior intensidade. A razão para isso é o efeito estufa provocado pelo aquecimento global. “É este contexto que explica também a seca recente no pantanal ou a chuva sem cessar no Sudeste e no entorno, com muitas mortes e destruições”, pontua o ambientalista.

A agressão aos grandes biomas brasileiros é igualmente apontada causa relevante. No caso do Bioma Amazônico, dados confiáveis mostram que o desmatamento cresceu substancialmente no período recente, mas com fiscalização escassa. Em relação ao Bioma do Cerrado, também é devastado para, principalmente, dar lugar à cultura de soja e ações de extrativismos.


Reforçararborização urbana é uma das
 propostas do ambientalista Bergmann.
 

Como mais uma ‘receita caseira’,  Bergmann diz que é preciso, com urgência,  ampliar a arborização na cidade e no interior do município. “A comunidade deve ter a consciência coletiva do quanto isso é importante.” A sugestão é de que os empresários, o poder público e as pessoas de modo geral ampliem as áreas verdes.

“Está provado que em uma região arborizada a temperatura, no verão, fica oito graus menor do que aquela região desprotegida”, diz o ambientalista. Destaca que o benefício não é apenas a sombra, “mas a qualidade do ar, da vida.” Por seu turno, o  secretário do Meio Ambiente, Eugênio Dutra, reafirma a intenção de ampliar de forma sigbificativa programa de plantio de árvores, iniciado no ano passado. (Na sexta-feira, 4/3, matéria sobre os muitos reflexos em cadeia na agropecuária local e demais setores produtivos.)

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