Com a severa estiagem, queimadas
multiplicaram-se em toda a região.
Na pandemia do clima, espera é que
tenhamos as vacinas do bom senso
(Fotos Darci Bergmann e Prefeitura municipal)
Na
quinta-feira, 24/2, buzinas e sirenes de bombeiros ecoaram, ao final da tarde, na
vizinha localidade argentina de Santo Tomé. O caráter festivo da manifestação, replicada
por toda a comunidade local, era por um bom motivo: comemorar a chegada da
chuva e o provável fim dos incêndios que assolaram a região por um mês, sem
tréguas. A estimativa é de que áreas correspondentes a 800 mil hectares de pastos
e de florestas de pinos ou eucalipto – algo como 10% de todo o território da
província de Corrientes – tenha sido consumido pelo fogo. O evento ganhou tal
magnitude que foi preciso pedir socorro ao Brasil.
Darci Bergmann: “Não há dúvidas
ser reflexo do aquecimento global.”
E
este é apenas um dos muitos incêndios, principalmente a partir de janeiro,
atingindo também o solo gaúcho na Fronteira Oeste. A reserva biológica do Banhado de São Donato, entre Maçambará e
Itaqui, por vários dias também ardeu em chamas e perdeu grande parte da sua
rica biodiversidade. Na Coudelaria de Rincão, em São Borja, amplas áreas de
campos utilizadas pelo Exército
brasileiro igualmente foram engolidas pelo fogo. Em área suburbana, em ambos os
lados da BR 472, além da vegetação, também sede de empresas, caminhões,
máquinas e tratores viraram cinzas. Isso sem considerar as inúmeras ocorrências de menor proporção atendidas em
escala recorde, desde dezembro pelo Corpo de Bombeiros.
A ausência de chuvas por mais de dois meses
seguidos explica isso, entretanto não é o único fator responsável. O
ambientalista Darci Bergmann não tem dúvidas de que a catástrofe ambiental e
econômica resulta do aquecimento global no planeta. Na sua avaliação, esse
mesmo contexto do efeito estufa leva à bagunça geral no clima brasileiro, com significativos
prejuízos ao PIB nacional e ao ecossistema. “É por isso que temos períodos de
frio e calor extremos, prolongadas e severas estiagens ou ocorrências pontuais
de enxurradas”, avalia. Ele entende que, “mais do que nunca, a sociedade e o poder público têm de se
conscientizar da gravidade da situação, e agir de forma coletiva e sem demora.”
Além dos pequenos eventos, seca também
provocou incêndios de grande
proporção.
Os
apoios
Além
de secar pastos e lavouras ou provocar queimadas devastadoras, a severa e
prolongada estiagem também teve impactantes reflexos nos mananciais hídricos
que, na sua maioria, secaram. Tal situação levou à falta de água para os
animais e ainda para o consumo humano em áreas rurais e suburbanas. Desde o
início de janeiro, caminhões-pipa da Prefeitura e do Exército levam socorro emergencial às
comunidades mais castigadas. Resta saber em que medida o retorno da chuva
mudará esta situação.
Prefeitura já levou 1,2 milhão de
litros d’água a comunidades rurais.
As
secretarias municipais de Infraestrutura, Serviços Urbanos, Segurança e
Trânsito e de Agricultura e do Meio Ambiente têm coordenado as ações de
abastecimento. “Através dos nossos caminhões-pipa e do Exército, já distribuímos
cerca de 1,2 milhão de litros de água”, informa o secretário de Infraestrutura,
Moacir Tiecher, que também é coordenador municipal de Defesa Civil. E o socorro
sobre rodas é prestado a longas distâncias, “até a 50 quilômetros da cidade”,
informa Tiecher.
O
secretário do Meio Ambiente, Eugênio Dutra, observa que a situação só não foi
pior, “por que nos últimos meses levamos ou recuperamos redes de água e
reservatórios em localidades como vila Brites, Samburá, Ivaí e Mato Grande.” Até
antes das chuvas mais recentes, outra preocupação era em relação aos 63 poços
artesianos no interior do município, já que em muitos deles as bombas não
conseguiam mais fazer captação.
Outra
ação emergencial, na severa estiagem atual, foi quanto à melhoria dos
bebedouros para o gado que, em sua maioria, secaram. Eugênio Dutra informa que pelos
menos 80 açudes, cacimbas e outros
bebedouros utilizados pelos animais receberam limpeza ou revitalização. Máquinas
como retroescavadeiras, dragas, caminhões e equipamento de apoio da Prefeitura
foram utilizados.
Força-tarefa recupera pelo menos
80 bebedouros destinados a animais.
Ao
futuro
O
ambientalista Darci Bergmann define como uma “calamidade” a situação enfrentada
em São Borja. É, portanto, uma pandemia em escala planetária. Ele publicou em
rede social que “a severa estiagem deixa um cenário aterrador. Não bastassem as
perdas na produção agropecuária, os incêndios nos campos devastaram o nosso
Bioma Pampa.” O ambientalista diz que é impossível quantificar prejuízos e,
ainda, determinar em quanto tempo haverá recuperação do ecossistema.
Bergmann
acrescenta: “Na cidade, o ar ficou quase
irrespirável, pela fumaça e a fuligem das queimadas.” Nesse cenário caótico - de
seca, baixa umidade no ar e temperaturas bem acima dos 40º - o ambientalista chama
a atenção que, em janeiro, aumentou em 50% o número de óbitos entre idosos, de acordo com o Hospital Ivan Goulart.
Bergmann
propõe a formação de um grupo de trabalho para definir ações práticas em
relação a futuros eventos similares. Ele
já diz ter recolhido na comunidade algumas sugestões. Desta forma, antecipa
sugestões de medidas que podem ser implementadas.
Em
relação aos incêndios, defende ampla campanha nas redes de ensino sobre os
malefícios das queimadas ao meio ambiente e à saúde pública. Defende ênfase na
prevenção em situações simples, como não jogar lixo e tocos de cigarro em
locais impróprios.
Outra
proposição é a criação de grupos de combate a incêndios em apoio ao Corpo de
Bombeiros. Os quarteis do Exército também poderiam abrigar tanques com água,
rebocáveis, o que auxiliaria os Bombeiros para recarga dos seus caminhões.
Prejuízos das queiadas afetam todo
o ecossistema nas regiões atingidas.
Com
supervisão e treinamento do Corpo de Bombeiros, a ideia é criar grupos de
bombeiros voluntários, em diversos
locais do município. Os voluntários seriam treinados e receberiam algum
equipamento de proteção, como botas e roupas à prova de fogo.
Já
a Prefeitura pode implementar pontos para captação de água em locais
estratégicos no interior do município e próximo à cidade. Estes pontos podem
ser açudes, tanques ou poços artesianos, e devem ser de fácil acesso às
viaturas de combate ao fogo.
O
elenco de sugestões inclui a proposta de criação de um grupo comunitário
permanente de prevenção aos incêndios, em apoio ao Corpo de Bombeiros. Também é
proposto buscar apoio do setor de
aeronaves agrícolas nas ações de combate aos incêndios nos campos. “Espero a
sensibilidade dos nossos dirigentes políticos sobre as sugestões”, ressalta
Darci Bergmann.
O
prefeito em exercício de São Borja Roque Feltrin já promoveu reunião visando
planejar ações de prevenção rm trlação a possíveis futuros eventos.. O encontro
foi com representantes das unidades do Exército e o do Corpo de Bombeiros na
cidade. A meta é implementar ações de apoio operacional e de prevenção em
relação a eventos como incêndios, suprimento de água e medidas e estratégias
similares. O coordenador municipal da Defesa Civil, Moacir Tiecher, também vem
participando do trabalho.
Já há vários meses equipes da
Prefeitura recuperam as aguadas.
Mal
geral
Depois
de um dos invernos mais rigorosos das últimas décadas no Sul do país, o verão é um
dos mais escaldantes da história da região. Mais que isso: é também uma dos
mais secos. Durante dois meses, dezembro e janeiro, foram registrados
insignificantes 13 milímetros de precipitação, irradiação de sol intensa e sempre baixa
umidade no ar.
Darci
Bergmann alerta que eventos extremos como estes vão se repetir com mais
frequência e maior intensidade. A razão para isso é o efeito estufa provocado
pelo aquecimento global. “É este contexto que explica também a seca recente no
pantanal ou a chuva sem cessar no Sudeste e no entorno, com muitas mortes e
destruições”, pontua o ambientalista.
A
agressão aos grandes biomas brasileiros é igualmente apontada causa relevante. No
caso do Bioma Amazônico, dados confiáveis mostram que o desmatamento cresceu
substancialmente no período recente, mas com fiscalização escassa. Em relação
ao Bioma do Cerrado, também é devastado para, principalmente, dar lugar à
cultura de soja e ações de extrativismos.
Reforçararborização urbana é uma das
propostas do ambientalista Bergmann.
Como mais uma ‘receita caseira’, Bergmann diz que é preciso, com urgência, ampliar a arborização na cidade e no interior do município. “A comunidade deve ter a consciência coletiva do quanto isso é importante.” A sugestão é de que os empresários, o poder público e as pessoas de modo geral ampliem as áreas verdes.
“Está
provado que em uma região arborizada a temperatura, no verão, fica oito graus
menor do que aquela região desprotegida”, diz o ambientalista. Destaca que o
benefício não é apenas a sombra, “mas a qualidade do ar, da vida.” Por seu
turno, o secretário do Meio Ambiente,
Eugênio Dutra, reafirma a intenção de ampliar de forma sigbificativa programa de
plantio de árvores, iniciado no ano passado. (Na sexta-feira, 4/3, matéria
sobre os muitos reflexos em cadeia na agropecuária local e demais setores
produtivos.)
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