quarta-feira, 3 de agosto de 2022

METEOROLOGISTA CARLOS NOBRE

 

“Só uns 20 anos para salvar Amazônia,

que hoje já  está à beira do precipício"

Bagunça climática no RS já é uma das consequências



Há décadas, Carlos Nobre vem lançando
alertas pelo defesa do bioma amazônico.


Reconhecido como  precursor na defesa do bioma amazônico,  o  pesquisador paulista Carlos Nobre, engenheiro e doutor  em Meteorologia, 71 anos,  maior ambientalista brasileiro, acaba de entrar  para a Royal Society, a sociedade científica mais antiga do mundo. Recentemente, ele deu longa entrevista ao jornal Zero Hora e fez uma séria advertência: “Se a mudança climática elevar a temperatura em 4ºC, a Amazônia virará uma savana degradada."

Nobre faz uma séria advertência:  “A Amazônia está chegando a um ponto de degradação do qual não será possível o retorno.” Desde 1988, o  pesquisador chama atenção para o grande desmatamento na Amazônia e seus impactos no clima. “A  floresta pode não voltar”, enfatiza.

 

Cenário alarmante

 


Se destruição da floresta não cessar logo,
todo o ecossistema ficará comprometido.

Pesquisas substituindo a floresta por pastagens de pecuária mostram que há risco do fim da maior floresta do mundo. Com o desmatamento, o clima em todo o sul da Amazônia - incluindo a área boliviana, Acre, Rondônia, sul do Amazonas, norte de Mato Grosso, sul do Pará e até o oeste do Maranhão - tudo será impactado e ficaria  mais seco. A estação seca, que dura no máximo quatro meses, passará a durar de cinco a seis meses.

O especialista diz que isso  não seria mais clima de floresta, mas de savana, “que nós chamamos de cerrado.” Este quadro leva à hipótese da  “savanização.” Nobre ressalta que há 32 anos faz esse alerta. A floresta se tornaria um bioma degradado, com poucas árvores e muito menos biodiversidade do que o cerrado.

Isso tem chamado a atenção da comunidade científica mundial. Mesmo com   desmatamento zero, se a temperatura se elevar  em 4ºC, a Amazônia se tornará  uma savana degradada. “Não há nenhuma dúvida de que a Amazônia está à beira do precipício.”

 Os desmatamentos continuam a crescer; A floresta, que era muito “resiliente” ao fogo, começa a se abrir. Aí  o sol entra e a vegetação do solo fica inflamável. Quando a floresta está fechada, só 4% da radiação solar chega ao solo, e este nunca seca.

 Como a floresta começa a ser degradada, o sol entra direto e seca tudo, aí o fogo facilmente se propaga. O fogo queima até três metros de altura do tronco das árvores, e elas morrem, comprometendo também o solo. O gás carbônico é então jogado para a atmosfera.

 

Clima mudado

 


Amazônia regula regime de chuvas e o
clima em todo o continente americano.

Carlos Nobre diz que “o dado que mais nos preocupa é que, de 1979 até agora, a estação seca no sul da Amazônia já ficou cinco semanas mais longa.” São 2,3 milhões de quilômetros quadrados dos Andes até o Atlântico. O lugar mais próximo do ponto de não retorno, de não recuperação, é entre o sul de Rondônia e o norte do Mato Grosso, incluindo o sul do Amazonas e o sul do Pará.

A estação seca fica entre 2ºC e 3ºC mais quente e até 30% mais afetada, com menos chuva. A projeção do especialista é de que ainda há tempo de 10 a 20 anos para evitar o

“não retorno”, ou seja, a não recuperação das áreas degradas.  Alguns cientistas acham que o sul e o sudeste da Amazônia já estão nesse patamar de “não retorno”. O dado otimista é que as gerações mais jovens, de 15 a 24 anos, têm uma visão melhorada de salvar o planeta da emergência climática. Essa geração vai entrar no mercado de trabalho.

 

Bagunça e regulação

 

Desmatamento sem controle é apenas uma
das preocupações na preservação do bioma.

A constatação é de que o impacto para o clima é global, especialmente para a América do Sul. “Se a Amazônia de fato completar o processo de “savanização”, ganhamos no mínimo 300 bilhões de toneladas de gás carbônico”, projeta.  O  clima já aumentou 1,1ºC e o desafio é não chegar a 1,5ºC no planeta.

Esses eventos, no Rio Grande do Sul, de secas prolonagas, enchentes, frio extremo e calorão -  têm muito a ver com as mudanças climáticas. “Ao se diminuir a floresta, há menos vapor d’água chegando ao Estado, principalmente nos meses de julho, agosto e setembro. Com isso, a  estação chuvosa na região fica mais seca”, explica.

A entrevista a ZH é também pedagógica. “A  Amazônia recicla água. Ventos alísios trazem umidade do Oceano Atlântico, formam-se nuvens, cai a chuva, grande parte vai para as raízes, que transportam a água até as folhas. Quando as folhas transpiram, o vapor umidifica a atmosfera e ajuda a formar novas nuvens e chuva”, ensina Nobre.

E acrescenta: “Uma molécula de vapor d’água que entra no Oceano Atlântico recicla entre cinco e oito vezes antes de sair da Bacia Amazônica. Essa reciclagem é muito importante, pois estabiliza a temperatura. A reciclagem de vapor d’água ainda leva vapor ao sul da Bacia Amazônica, o que alimenta sistemas de chuva do Cerrado, do Sudeste, da Bacia do Rio Paraná, do Uruguai, da Argentina, do Paraguai e do sul do Brasil.”

Deesaparecendo a floresta, as chuvas nessas regiões diminuirão, prejudicando, por exemplo, a agricultura.

Outro impacto: sem a floresta, a temperatura sobe muito na região amazônica, de 4ºC a 5ºC. Isso já acontece em áreas  de pastagem na Amazônia. O ar que passa por lá e chega ao Cerrado fica de 4ºC a 5ºC mais quente, o que perturba a ecologia do Cerrado e, principalmente, a agricultura da região no seu entorno.

 

Perfil de excelência

 

Derrubada da floresta para atividades agropecuárias
é risco crescente da "savanização", diz Carlos Nobre.

A Royal Society, sediada em Londres, no Reino Unido e que acolhe Carlos Nobre, é a mais antiga sociedade científica ainda em atividade no mundo, criada em 1660. O especialista  é o segundo nascido no Brasil a integrar a seleta instituição; o primeiro foi D. Pedro II.  Nobre é  doutor em Meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). Há quatro décadas estuda a relação entre clima e a região amazônica.

  Desde 2008, propõe soluções para um futuro sustentável para a Amazônia. Depois de se aposentar do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), onde ficou  37 anos, criou  o projeto Amazônia 4.0 para pensar em um desenvolvimento sustentável para a floresta, com melhoria socioeconômica de todas as populações, sem destruir a mata.

Trata-se de uma iniciativa para mostrar viabilidade e trazer inovações tecnológicas para capacitação de populações rurais e urbanas e para desenvolver uma bioeconomia com agregação de valor aos produtos da floresta.

 “A ideia é voltar para trás e ver que os indígenas que chegaram à América do Sul há 12 mil anos criaram um modelo que sempre mantinha a floresta em pé.“ Temos sistemas agroflorestais, com cooperativas que produzem produtos da floresta e  os comercializam, com muitos benefícios para populações amazônicas.” A iniciativa, que tem 25 sítios de pesquisas, é desenvolvida com o apoio da USP.

Um comentário:

  1. Análise de livros, relatórios técnicos e artigos científicos, além da interpretação dos gráficos contidos nos mesmos, mostraram que sempre houve variação na temperatura da atmosfera, mesmo antes do surgimento do homem e em níveis bem mais elevados do que os atuais. O tal desmatamento da Amazônia é uma narrativa hipócrita daqueles que querem, na verdade, aquilo que maus desejam, sua farta riqueza mineral.

    ResponderExcluir