sexta-feira, 4 de março de 2022

MÚLTIPLOS FATORES


 


Pandemia, seca, guerra: o efeito dominó

provocado pelo baque na agropecuária

(Fotos Roger Portela) 

Só no ano passado déficit de 560 milímetros de
 chuvas. Precipitação é insuficiente há 30 meses.

 

Quando a pandemia de covid eclodiu, há mais de dois anos, o que mais se perguntava é quais seriam as consequências da impactante crise sanitárias em relação ao capital humano e material. A conta ainda precisa ser fechada mas, como se não bastassem os estragos do coronavírus, vieram outros agravando a situação. Para quem habita o Brasil meridional, uma das maiores secas já registradas na região só piorou tudo.  As chuvas mais recentes até amenizam, contudo nem de longe reparam os prejuízos. Enquanto isso, no miolo do território nacional inundações, mortes e devastações. Agora, ainda, mais a invasão russa na Ucrânia. A bestial beligerância é no Leste europeu, mas os seus reflexos alcançam o mundo inteiro.

No que tange  ao clima, estudos acadêmicos em quatro universidades mostram que a região da Fronteira Oeste e Missões, entre nós, detém um espectro de longas e severas estiagens.  Há 30 meses – dois anos e meio – chove menos que o normal. Entretanto, neste  período de primavera-verão 2021/2022 o La Niña só agravou o cenário, acentuando a escassez hídrica. No último ano, choveu 560 milímetros abaixo da média, ou um terço menos do que é normal. Ao decretar emergência, no final de janeiro, a Prefeitura de São Borja já contabilizava R$ 150 milhões em prejuízos, mas é certo que agora o montante é muito maior.

Desde sempre dependente da agropecuária, o município é diretamente afetado neste contexto. Entre os consumidores a queixa é geral, já que os preços de produtos básicos não param de subir. A inflação oficial  está acima dos 10%, porém é bem maior nos bolsos e nas gôndolas. No mesmo ritmo das remarcações, chega a escassez ou a falta dos produtos, alimentando a espiral das majorações.  É necessário, assim, fazer opções e ginásticas de demanda.


Secura nos campos e nos mananciais afeta
toda agropecuária, maior base econômica.

As feiras de produtores e o mercado público resistem. Contudo, a variedade e a quantidade dos produtos em oferta diminuem, acentuadamente. Hortaliças e verduras de modo geral são cada vez mais escassas, numa região em que sistemas de irrigação são ainda incipientes. A secura que acaba com os pastos compromete também a produção de leite. Deste modo, já difícil encontrar o produto, mais ainda os seus derivados.

 

Produzie arroz vira

 uma interrogação

 

Já há alguns anos, São Borja vem reduzindo a sua lavoura de arroz.  No ciclo orizícola 2021/2022 em relação ao anterior a diminuição é de 3,4%. O município cultivou  35.635 hectares nesta safra ante 36.889 hectares no ciclo  antecedente. Da lavoura cultivada, 9% (cerca de 3,5 mil hectares) tiveram de ser abandonados, por falta de água para a irrigação.

O diretor da unidade local do Irga (Instituto Rio-Grandense do Arroz), técnico agrícola Roger Portela, ressalta que a dificuldade de irrigação é apenas um dos fatores adversos. Ele também aponta como causas a “gravíssima crise econômica há mais de uma década enfrentada pelo setor, o déficit hídrico e a chegada da soja em terras baixas.”  Acrescenta que a redução de área aponta para “um novo modelo de lavoura arroz.”


 Produtividade na lavoura de arroz
cairá pelo menos 30%, projeta o Irga.

O Irga estimou uma produtividade semelhante à da safra passada, algo em torno de 9 mil  kg/hectares, porém  diante das perdas e danos causados pela estiagem e ainda as altas temperaturas, a projeção agora é de uma redução de pelo menos 30%. A média de rendimento, com isso, deverá ser pouco superior a 6 mil quilos por hectare . O arroz tem seguro em relação a enchentes e granizo, mas não para problemas de irrigação.  A colheita atinge cerca de 40% da lavoura.

Em São Borja, atualmente, 58% da área de arroz é irrigada por barragens ou açudes. No momento, os níveis desses mananciais estão em estado crítico, “muitos deles praticamente secos, em uma situação extremamente preocupante para a próxima safra”, informa  o extensionista rural Roger Portela. Ele acha que é necessário de 800 a 1000 milímetros de chuvas nos próximos meses para que o déficit hídrico seja sanado. Outro problema sério a ser enfrentado é o alto custo de produção, que chegou a mais de 30% só no último ano.

 

Aposta na soja e no

 milho: a frustração

 


Aposta na soja transforma-se em uma
grande frustração para os produtores.

A postando nas boas cotações no mercado interno e internacional, os produtores resolveram apostar na soja. O plano era semear 90 mil hectares. Só que a ausência de umidade no solo não deixou. E do que foi possível plantar acabou dizimado por uma secura inclemente. Em janeiro e fevereiro praticamente não choveu.

Esse período de estiagem afetou a planta na fase de crescimento e, dependendo da época de semeadura, também de floração e frutificação. Como consequência, boa parte das lavouras foi abandonada e, ao invés de colher uma grande safra, o produtor será colherá frustrações. E esses resultados quase nulos não afetam apenas os lavoureiros, mas toda a cadeia econômica local.  

Em relação ao milho, algo semelhante. Em relação à safra do cedo, de 7 mil hectares, j[a houve perdas consideráveis com a estiagem no final do ciclo da cultura. Já em relação à safrinha, a partir de janeiro, nada foi plantado, quando se espera de 3 a 4 mil hectares. As cotações vêm melhorando, mas sem produção isso não faz grande sentido. Menos ainda quando, na carência alimentar, o milho poderia ser usado como ração animal.

 

Lavouras são setor mais catingido
comprometendo safras e sonhos.

Para piorar tudo,

também a guerra

 

Ao longo do último ano, os preços do petróleo subiram de maneira extraordinária no mercado internacional. O Brasil, diretamente dependente desse combustível fóssil, teve reflexos diretos e acachapantes. A cotação em ascensão do dólar em relação ao real ajudou a inflacionar os custos dos importados no mercado interno.

Agora a guerra da Rússia contra a Ucrânia. Qualquer que seja o seu desfecho, só vem agravar a situação. As cotações do petróleo já são as mais altas em oito anos. Sobem também  insumos usados na agropecuária e no consumo de modo geral. Fertilizantes, adubos, defensivos agrícolas e rações animais adquiridos no exterior, especialmente da região em conflito, ou serão retidos ou ficarão mais caros. Vale o mesmo para insumos alimentícios como trigo, milho e farinha, com a inevitável tendência de alta nas importações.


Conjuntura internacional é
ameaça a novos investimentos.

A lavoura de trigo em  São Borja, que deu sinais de expansão no último ano, é um dos setores com projeção pessimista. A continuar a conjuntura atual, dificilmente o município conseguirá repetir os quase 25 mil hectares plantados ano passado. A agricultura de modo geral será prejudicada, no que depende do exterior.

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 Também na pecuária

  dilema é semelhante

 

A situação da produção pecuária não é menos preocupante que as demais atividades do setor primário. O setor está sendo atingida de forma direta e, portanto, igualmente com grandes prejuízos. As pastagem implantadas estão morrendo e os campos nativos são dizimados pela ausência de chuvas regulares. O rebanho, por consequência,  perde peso, por falta de alimentação e, em muitos casos,  também por falta de água, já que a maioria dos barramentos, açudes e pequenos bebedouros estão secos ou com seus níveis críticos.


Pecuária terá reflexos dfa estiagem
ainda por período bastante longo.

Outras perdas significativas estão ligadas à reprodução do rebanhou, que já diminuiu com a venda de matrizes a compradores de fora. Fatores de ordem fisiológica afetam as fêmeas quando perdem peso ou apresentam escore corporal baixo. Elas tendem a ter mais dificuldades de entrar no cio e, consequentemente, de reproduzir.  Outra perda importante será  genética devido à falta de pastagens e de água.  À medida que os pecuaristas se desfazem de matrizes selecionadas geneticamente há vários anos, no futuro próximo deve haver escassez de terneiros e novilhos de boa qualidade.

Além disso, o período outono-inverno se aproxima. Há o risco de a carência alimentar se agravar. Quem produz somente em campo nativo enfrentará problemas ainda mais severos.

 

E o futuro da economia

de São Borja como será?

 

Neste sábado (5), em Cerro Largo, haverá encontro do Fórum de Desenvolvimento da Região Fronteira-Missões.  O tema central do evento deverá ser justamente o contexto de demandas e perspectivas da esteira da seca, da pandemia e agora da guerra. A Associação Comercial e Industrial de São Borja (Acisb) é protagonista da iniciativa. A entidade  abrange, além do comércio e da indústria, também os serviços e a agropecuária.

Prejuízos na agropecuário levam a
reflexos em cadeia em toda economia.

O presidente da Acisb, Neroney Cargnin, diz que, considerando as circunstâncias, “o comércio vende relativamente bem”, mas ele está preocupado com o futuro. O temor é o que ocorrerá com os agropecuaristas que perderam tudo o quase tudo no atual ciclo produtivo. “Eles precisam de algum apoio emergencial dos governos federal e estadual, pois do contrário a produção vai parar.”

Cargnin está preocupado também com o futuro da capacidade de  compra e consumo da população em geral, “e aí isso impacta diretamente no comércio;” Como efeito dominó, outra preocupação é em relação à geração de empregos no comércio lojista e nos serviços. “Os níveis estão estáveis, mas ninguém sabe o que acontecerá lá adiante.”

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação, Hugo Chimenes, tem a apreensão semelhante. “Continuamos com o nosso nível histórico de industriários empregados, de mil a  1,2 mil, entretanto a incerteza é para depois do segundo semestre deste ano.”  O sindicalista diz que “o sinal amarelo está acesso em todos os setores de atividade produtiva.”


Esperança que o atual cenário adverso aos
poucos fique para traz, salvando a produção.

No campo, já há algum tempo diminuem as chance de vagas de trabalho. Chimenes  teme que o quadro piore, devido aos aumentos dos custos de produção e às frustrações de safras.  “Entendo que precisamos de uma grande mobilização conjunta e que pense de saídas coletivas.”

Um comentário:

  1. Esse problema da falta de água é bastante grave há decadas no RS, cono aumentos das lavouras e drenagem dos as banhados (inclusive os micro banhados), que têm função regulatoria na manutenção da umidade dos solos.

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