A Educação está transformando
fronteira São Borja-Santo Tomé
O professor Muriel Pinto, 40 anos,
doutor de Geografia e professor na Universidade Federal do Pampa, é natural de
São Borja. Realizou fora, porém, a sua formação acadêmica. Contudo, escolheu a
cidade para permanecer e compartilhar o seu saber. É licenciado em Geografia pela URI
(Universidade Regional Integrada das Missões e do Alto Uruguai), campus Santo
Ângelo. Tem Mestrado em Desenvolvimento pela UNISC (Universidade de Santa Cruz
do Sul). Já pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), obteve seu
Doutorado em Geografia.
Com esta autoridade acadêmica e sua
paixão pelas Missões, o professor Muriel destaca que São Borja, como antiga Redução, tem vasto potencial histórico, turístico
e cultural para ser trabalhado como
produto econômico no cenário nacional e latino-americano. Mas, além desse rico passado,
chama a atenção para os avanços transformadores recentes, trazidos pelas
Universidades públicas. “Hoje as municipalidades de São Borja e de Santo Tomé (AR) têm, juntas, 10 mil universitários, o
que é 10% dos seus 100 mil habitantes.” Muriel Pinto diz que programa federal,
a partir de 2008, de apoio a São Borja e à Metade Sul gaúcha, já quadriplicou o
PIB municipal.
O professor já atuou como docente pela Rede Cipel e na Escola Cinecista de Lajeado,
além de também ter dado aulas em cursos preparatórios. Atualmente é professor adjunto
II da Unipampa/São Borja. É coordenador e professor permanente do curso de Mestrado Profissional em Políticas Públicas
(PPGPP-Unipampa). Atua ainda como professor
do curso de Bacharelado em Ciências Sociais-Ciência Política, Licenciatura em
Ciências Humanas, Direito e Licenciatura em Geografia – EAD (Unipampa-UAB).
Muriel é filho de Lea Regina Pinto de
Freitas e neto de Alcino de Souza Pinto e Adiles Calazans Pinto. É casado com
Daniele Jungton Pinto. O casal tem dois filhos: Joaquin Jungton Pinto e Luiz
Felipe Jungton. A seguir, a entrevista
concedida ao BlogAlberiCogo.
Alberi Cogo - O Brasil completa neste ano seu bicentenário como Estado independente. O que temos a comemorar na efeméride?
Muriel Pinto - A constituição de um
Estado Nacional envolve uma organização político-administrativa e
reconhecimento das diversidades socioculturais de um território. Nos últimos
200 anos o país continental da República Federativa do Brasil passou a valorizar
e melhor planejar todos os cantos do país, para além dos grandes centros
nacionais, localizados na região Sudeste. É o caso de São Borja, que nos
últimos 20 anos recebeu políticas públicas federais que primaram pelo
desenvolvimento regional amparado nas questões sociais, como
educação, habitação e inclusão social. Ou seja, nestes últimos 200 anos o Brasil vem se
tornando um país de todos os brasileiros.
AC - Na
sua avaliação, quais são as demandas mais urgentes a serem encaradas e
equacionadas pela nação brasileira?
MP - Como demandas prioritárias a serem
planejadas e executadas pelo país, destaco as políticas públicas educacionais e
culturais, pois um país pujante, progressista e soberano precisa deste como uma
das ações inovadoras que nunca vai cair
de moda. É a inovação pelo mundo das
ideias. Assim, necessitamos que o capital intelectual se forme e fique aqui no
Brasil. Vejamos agora na pandemia. A superação só é possível graças a cientistas, pesquisadores e
Universidades, combatendo o vírus e
criando vacina. Nesta lógica, pensar na educação significa pensar o
desenvolvimento nacional para além índices econômicos, mas também de
qualidade de vida e formação de capital intelectual. Precisamos planejar
e gerir o país de forma inovadora para as próximas décadas.
Educação como força motriz de desenvolvimento
da Metade Sul gaúcha, como política de governo.
AC - Em ano eleitoral, o senhor espera
algum projeto consistente e de
prospecção do futuro nacional?
MP - Vejo que o país está em prova,
para indicar se apreendeu com os mais diversos erros do passado. As formas tradicionais e centralistas de gestão
pública estão defasadas. Para efetivar
um projeto de país, qualquer que seja o partido ou linha ideológica, necessita-se de atores qualificados para
compreender os processos públicos e implementar e políticas públicas. O que
vejo nos últimos anos são atores e
partidos carguistas. Para um projeto corajoso e desenvolvimentista para os
brasileiros necessita-se de soberania nacional, de valorizar os atores
nacionais nas diversas frentes e setores sociais e econômicos. O país continua sendo um território com
grande influência do exterior, considerando o amplo território, as grandes
áreas cultiváveis, a grande reserva
mineral, a grande reserva petrolífera, o grande manancial hídrico. Além de
estar localizado em território geopoliticamente de grande relevância para o sul
global.
AC - A polarização entre esquerda e
direita ajuda ou atrapalha o processo eleitoral? Isso significa vigor ou
fragilidade da nossa democracia?
MP - Nos últimos anos se verificou uma
pulverização de partidos políticos no país, fator que tornou difusos os
processos eleitorais. Da mesma forma, isso
fortaleceu dois polos ideológicos - de um lado os progressistas e de
outro, os conservadores. Vejo que, para além dos partidos, o que tem ganhado
força nos pleitos eleitorais são os projetos ou agendas programáticas em âmbito
local, estadual e nacional. Portanto, os processos eleitorais vêm exigindo a
qualificação de seus atores políticos. É isso que coloca São Borja, por
exemplo, no centro deste processo de
capacitação em âmbito nacional, pois tornou-se um polo na ciência política
brasileira, com graduação em Ciências Sociais,
Ciência Política, em Políticas Públicas. São cursos que vêm qualificando
servidores públicos municipais, estaduais e federais, servidores do Exército,
Brigada Militar e Polícia Federal, e ao mesmo tempo os entregando ao mercado de
trabalho.
AC - Normalmente
o que se vê é um cidadão desmotivado para a ação política efetiva. Como
reverter esse desencanto?
MP - A desmotivação política em âmbito
nacional, principalmente nos jovens, tem várias causas, mas uma das principais
diz respeito às relações de força e às
disputas por arenas políticas na própria juventude. No que toca ao campo da
ciência política, a busca é por uma sensibilização e conscientização dos atores
das comunidades nos processos de
participação e deliberação. No caso de
São Borja a Unipampa tem realizado projetos no campo da Educação para a
Cidadania, mostrando a importância da
participação cidadã em favor da boa governança.
AC - O atual embate entre Estados Unidos e China, mesmo que mais cingido ao campo econômico, vai desembocar em nova Guerra Fria?
MP - Não vejo que as disputas entre
China e EUA venham gerar algum conflito, pois no campo das relações
internacionais existem três fatores que devem ser observados: Econômico,
Militar e Político. Nas relações globais estes três fatores estão articulados
com o sistema internacional em vigor, ou seja, países cooperam em algumas
frentes e rivalizam em outras. Portanto, nas relações EUA-Cchina os dois países
podem ter desacordos políticos, mas a balança comercial bilateral possui uma alta interdependência.
AC - Da guerra entre Rússia e Ucrânia, que perspectiva o senhor projeta para a correlação de forças na geopolítica mundial?
MP - O conflito entre Rússia e Ucrânia
vem alterando e rompendo com o atual sistema geopolítico contemporâneo, visto
que as relações de força e de poder por muitas vezes estão subjetivos na mídia.
Aainda mais com a cibernética a todo o vapor, que vem demostrando um poder sem
precedentes para guerras hibridas, invasão de sistemas públicos e influências
em processos eleitorais mundo afora. No tocante à guerra em voga, em vários
aspectos nos remete à Idade Média. Cenas de horror de todos os lados e que
demonstram que oss homens no planeta
ainda não estão prontos para a convivência fraterna. A pandemia da Covid-19, os conflitos no
Oriente Médio, crises econômicas, políticas, e ambientais só reforçam esta
lógica perversa.
Em menos de 20 anos, PIB de São Borja já
quadriplicou; 20% da população na Universidade.
AC - Como acadêmico e pesquisador, o
senhor tem estudado a história de São Borja. A que eventos e personagens
precisamos dedicar mais atenção, inclusive como matéria-prima pedagógica?
MP - Nos últimos 20 anos vem me
debruçado, refletindo e procurando cooperar tecnicamente com os estudos sobre o
patrimônio cultural missioneiro, as identidades regionais e sobre os processos
de integração nos espaços de fronteira. Em relação aos processos que merecem
mais atenção para ensinar e aprender no
âmbito local e regional, destaca-se a obrigatoriedade do cumprimento do decreto
8.636 (sobre as cidades vinculadas
Brasil e Argentina) e a lei 10.639 (da obrigatoriedade do ensino da História da África, negra e
indígena). Estas duas jurisprudências respetivamente trazem a importância de
ensinar as relações fronteiriças socioculturais entre São Borja e
Santo Tomé. Também a lei 10.639 trata da importância de pensar os
vínculos e identidades das comunidades tradicionais de São Borja como os
descendente dos povos originários da região. Somos ex- guaranis, guenoas, minuanos, etc. Esta
herança está presente até hoje nos modos de vida e nos cotidianos locais.
AC - Ouve-se com frequência que São
Borja tem um rico e diversificado potencial turístico a ser trabalhado, mas os
são-borjenses na sua maioria ainda não se apropriaram desse patrimônio. Como
construir esse pertencimento?
MP - No ano de 2006 tive a oportunidade
de participar como aluno de Graduação de Licenciatura em Geografia pela URI/
Santo Ângelo de um projeto de cooperação internacional intitulado “Elementos do
Turístico-Patrimonial da região missioneira”. Neste estudo comecei a me
encantar e indagar sobre o rico potencial que possui São Borja. No estudo
foi apontado que São Luiz Gonzaga, São Borja e Santo Ângelo têm os maiores
maiores potenciais turísticos da região missioneira. Realizamos uma série
cursos de especialização, de formação, disciplinas em Mestrados e Graduação.
Houve ainda chancela do sítio arqueológico de São Francisco de Borja junto ao
IPHAN. O que se observa é que o processo de reconhecimento e valorização da
história e patrimônio cultural regional é algo a longo prazo. São Borja, nos últimos anos dá mostras que a
ação precisa partir da base da comunidade, pois os políticos eleitos passarão
com suas ideias e prioridades, entretanto a cultura coletiva, popular, permanece. Portanto, se São Borja almeja pensar para
frente, necessita com urgência inverter a pauta na valorização dos seus muitos
potenciais históricos. Isso garante omvestimento, sustentação e
sustentabilidade.
AC - A Universidade Federal do Pampa e
a o Instituto Federal Farroupilha vieram para ajudar a superar o déficit de
desenvolvimento na região. Estão conseguindo cumprir essa tarefa?
MP - A mesorregião sudoeste
rio-grandense é a região oficial de São Borja, conforme o IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e estatística). Segundo dados do Ministério do
Desenvolvimento Regional (MDR), desde 2007 está criada a Política Nacional de
Desenvolvimento Regional (PNDR), que visa combater as assimetrias regionais no
território brasileiro. Tal política tornou-se uma Política do Estado
Brasileiro, pois ainda vem sendo adotada
pelo MDR. Dentro do PNDR, desde
2007 foram apontadas áreas estagnadas que vêm tendo variações e anomalias no
crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). Estes territórios passaram a ser prioritários pelo
Governo Federal para a implementação de políticas públicas. A região da Metade
Sul do RS, incluindo São Borja, foi definida
como prioritária, sendo uma mesorregião diferenciada para receber uma
atenção especial por parte do Estado brasileiro. Desde 2007 estão criadas
políticas educacionais federais nos espaços de fronteira do país, como é o
caso da Unipampa e IFFar, que vêm
contribuindo para a democratização e a interiorização do ensino técnico,
superior e de pós-graduação públicos.
Outra contribuição é com mão-de-obra qualificada para diversas áreas
essenciais à sociedade e à gestão pública. São exemplos áreas como Assistência
Social em que a maioria dos assistentes sociais atuantes na região são egressos
da Unipampa; Jornalismo, Publicidade e
Propaganda, Relações Públicas e Mestrado em Comunicação e Indústria Criativa.
Além de novos profissionais em Comunicação, há formação de professores nas
redes pública e privada, casos de Ciências Humanas, Matemática, Física e
Direito. Turismo é outro exemplo, assim como a área de Ciência Política e
Mestrado em Políticas Públicas. Além disso, as instituições universitárias
vêm agregando valor ao PIB local, que
desde 2008 pulou de 400 milhões ano para 1,6 bilhão de reais ao ano. O avanço,
portanto, é de quatro vezes mais.
AC - São Borja sabe conviver como
comunidade?
MP - Sou um pouco suspeito em falar
sobre as vivências na comunidade local, pois sou natural daqui e gosto muito
deste município. Isso é o que me fez retornar para cá. Falar de viver em
comunidade envolve uma série de fatores, um deles é o pertencimento e reconhecimento
social e cultural ao território. Isso vejo muito por aqui, o que estava
faltando eram oportunidades iguais para todos, e elas vieram nos novos
horizontes e novos aprendizados colocados à disposição. São Borja vive um momento ímpar em sua trajetória
histórica, pois é um polo educacional, constituído em conjunto com a
municipalidade vizinha de Santo Tomé, na Argentina. As duas cidades, conforme
pesquisa do Labpoliter – Laboratório de Políticas Públicas e Territórios
Fronteiriços (CNPQ/ Unipampa) totalizam em torno de 10 mil estudantes
universitários. O número representa
aproximadamente 10% das populações das duas municipalidades. Juntas elas
chegam a 100 mil habitantes. Assim, o senso de comunidade remete ao período
missioneiro, pois a antiga Redução de São Francisco de Borja era relatada por
viajantes estrangeiros como o povoado reducional que possuía os índios mais bem
vestidos e politizados da região. É
certo que essas heranças políticas e hist.[oricas chegam a atualidade.
AC - Quais são os plano de Muriel
Pinto?



Parabéns pela entrevista, mestre. O professor Muriel é um sujeito equilibrado. Mesmo em momentos como este, que muitos parte para análises apressadas, militantes e sem fundamento na realidade, ele é sóbrio e inteligente. São Borja ganha com a sua presença.
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