sexta-feira, 13 de maio de 2022

ENTREVISTA: Muriel Pinto

  

A Educação está transformando

fronteira São Borja-Santo Tomé

 


Muriel Pinto: São Borja e as Miss~pes
como permanente foco das atenções::

O professor Muriel Pinto, 40 anos, doutor de Geografia e professor na Universidade Federal do Pampa, é natural de São Borja. Realizou fora, porém, a sua formação acadêmica. Contudo, escolheu a cidade para permanecer e compartilhar o seu saber.  É licenciado em Geografia pela URI (Universidade Regional Integrada das Missões e do Alto Uruguai), campus Santo Ângelo. Tem Mestrado em Desenvolvimento pela UNISC (Universidade de Santa Cruz do Sul). Já pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), obteve seu Doutorado em Geografia.

Com esta autoridade acadêmica e sua paixão pelas Missões, o professor Muriel  destaca que São Borja, como antiga Redução,  tem vasto potencial histórico, turístico e  cultural para ser trabalhado como produto econômico no cenário nacional e latino-americano. Mas, além desse rico passado, chama a atenção para os avanços transformadores recentes, trazidos pelas Universidades públicas. “Hoje as municipalidades de São Borja e de Santo Tomé  (AR) têm, juntas, 10 mil universitários, o que é 10% dos seus 100 mil habitantes.” Muriel Pinto diz que programa federal, a partir de 2008, de apoio a São Borja e à Metade Sul gaúcha, já quadriplicou o PIB municipal.

O professor já atuou  como docente pela  Rede Cipel e na Escola Cinecista de Lajeado, além de também ter dado aulas em cursos preparatórios. Atualmente é professor adjunto II da Unipampa/São Borja. É coordenador e professor permanente do curso de  Mestrado Profissional em Políticas Públicas (PPGPP-Unipampa).  Atua ainda como professor do curso de Bacharelado em Ciências Sociais-Ciência Política, Licenciatura em Ciências Humanas, Direito e Licenciatura em Geografia – EAD (Unipampa-UAB).

Muriel é filho de Lea Regina Pinto de Freitas e neto de Alcino de Souza Pinto e Adiles Calazans Pinto. É casado com Daniele Jungton Pinto. O casal tem dois filhos: Joaquin Jungton Pinto e Luiz Felipe Jungton.  A seguir, a entrevista concedida ao BlogAlberiCogo.

 Alberi Cogo - O Brasil completa neste ano seu bicentenário como Estado independente. O que temos a comemorar na efeméride?

Muriel Pinto - A constituição de um Estado Nacional envolve uma organização político-administrativa e reconhecimento das diversidades socioculturais de um território. Nos últimos 200 anos o país continental da República Federativa do Brasil passou a valorizar e melhor planejar todos os cantos do país, para além dos grandes centros nacionais, localizados na região Sudeste. É o caso de São Borja, que nos últimos 20 anos recebeu políticas públicas federais que primaram pelo desenvolvimento regional amparado nas questões sociais,  como  educação, habitação e inclusão social. Ou seja,  nestes últimos 200 anos o Brasil vem se tornando um país de todos os brasileiros.

 

AC -          Na sua avaliação, quais são as demandas mais urgentes a serem encaradas e equacionadas pela nação brasileira?

MP - Como demandas prioritárias a serem planejadas e executadas pelo país, destaco as políticas públicas educacionais e culturais, pois um país pujante, progressista e soberano precisa deste como uma das ações  inovadoras que nunca vai cair de moda. É a  inovação pelo mundo das ideias. Assim, necessitamos que o capital intelectual se forme e fique aqui no Brasil. Vejamos agora na pandemia. A superação só é  possível graças a cientistas, pesquisadores e Universidades,  combatendo o vírus e criando vacina. Nesta lógica, pensar na educação significa pensar o desenvolvimento nacional para além índices econômicos, mas também  de  qualidade de vida e formação de capital intelectual. Precisamos planejar e gerir o país de forma inovadora para as próximas décadas.

 

Educação como força motriz de desenvolvimento
da Metade Sul gaúcha, como política de governo.


AC - Em ano eleitoral, o senhor espera algum projeto  consistente e de prospecção do futuro nacional?

MP - Vejo que o país está em prova, para indicar se apreendeu com os mais diversos erros do passado. As  formas tradicionais e centralistas de gestão pública estão defasadas. Para  efetivar um projeto de país, qualquer que seja o partido ou linha ideológica,  necessita-se de atores qualificados para compreender os processos públicos e implementar e políticas públicas. O que vejo nos últimos anos são  atores e partidos carguistas. Para um projeto corajoso e desenvolvimentista para os brasileiros necessita-se de soberania nacional, de valorizar os atores nacionais nas diversas frentes e setores sociais e econômicos.  O país continua sendo um território com grande influência do exterior, considerando o amplo território, as grandes áreas cultiváveis, a  grande reserva mineral, a grande reserva petrolífera, o grande manancial hídrico. Além de estar localizado em território geopoliticamente de grande relevância para o sul global.

 

AC - A polarização entre esquerda e direita ajuda ou atrapalha o processo eleitoral? Isso significa vigor ou fragilidade da nossa democracia?

MP - Nos últimos anos se verificou uma pulverização de partidos políticos no país, fator que tornou difusos os processos eleitorais. Da mesma forma, isso  fortaleceu dois polos ideológicos - de um lado os progressistas e de outro, os conservadores. Vejo que, para além dos partidos, o que tem ganhado força nos pleitos eleitorais são os projetos ou agendas programáticas em âmbito local, estadual e nacional. Portanto, os processos eleitorais vêm exigindo a qualificação de seus atores políticos. É isso que coloca São Borja, por exemplo,  no centro deste processo de capacitação em âmbito nacional, pois tornou-se um polo na ciência política brasileira, com graduação em Ciências Sociais,  Ciência Política, em Políticas Públicas. São cursos que vêm qualificando servidores públicos municipais, estaduais e federais, servidores do Exército, Brigada Militar e Polícia Federal, e ao mesmo tempo os entregando ao mercado de trabalho.

 

AC -          Normalmente o que se vê é um cidadão desmotivado para a ação política efetiva. Como reverter esse desencanto?

MP - A desmotivação política em âmbito nacional, principalmente nos jovens, tem várias causas, mas uma das principais diz respeito às  relações de força e às disputas por arenas políticas na própria juventude. No que toca ao campo da ciência política, a busca é por uma sensibilização e conscientização dos atores das comunidades  nos processos de participação e deliberação.   No caso de São Borja a Unipampa tem realizado projetos no campo da Educação para a Cidadania,  mostrando a importância da participação cidadã em favor da boa governança.

 AC - O atual embate entre Estados Unidos e China, mesmo que mais cingido ao campo econômico, vai desembocar em nova Guerra Fria?

MP - Não vejo que as disputas entre China e EUA venham  gerar  algum conflito, pois no campo das relações internacionais existem três fatores que devem ser observados: Econômico, Militar e Político. Nas relações globais estes três fatores estão articulados com o sistema internacional em vigor, ou seja, países cooperam em algumas frentes e rivalizam em outras. Portanto, nas relações EUA-Cchina os dois países podem ter desacordos políticos, mas a balança comercial bilateral possui  uma alta interdependência.

 AC - Da guerra entre Rússia e Ucrânia, que perspectiva o senhor projeta para a correlação de forças na geopolítica mundial?

MP - O conflito entre Rússia e Ucrânia vem alterando e rompendo com o atual sistema geopolítico contemporâneo, visto que as relações de força e de poder por muitas vezes estão subjetivos na mídia. Aainda mais com a cibernética a todo o vapor, que vem demostrando um poder sem precedentes para guerras hibridas, invasão de sistemas públicos e influências em processos eleitorais mundo afora. No tocante à guerra em voga, em vários aspectos nos remete à Idade Média. Cenas de horror de todos os lados e que demonstram que  oss homens no planeta ainda não estão prontos para a convivência fraterna.  A pandemia da Covid-19, os conflitos no Oriente Médio, crises econômicas, políticas, e ambientais só reforçam esta lógica perversa.

 


Em menos de 20 anos, PIB de São Borja já
quadriplicou; 20% da população na Universidade.

AC - Como acadêmico e pesquisador, o senhor tem estudado a história de São Borja. A que eventos e personagens precisamos dedicar mais atenção, inclusive como matéria-prima pedagógica?

MP - Nos últimos 20 anos vem me debruçado, refletindo e procurando cooperar tecnicamente com os estudos sobre o patrimônio cultural missioneiro, as identidades regionais e sobre os processos de integração nos espaços de fronteira. Em relação aos processos que merecem mais atenção para  ensinar e aprender no âmbito local e regional, destaca-se a obrigatoriedade do cumprimento do decreto 8.636 (sobre as cidades  vinculadas Brasil e Argentina) e a lei 10.639 (da obrigatoriedade  do ensino da História da África, negra e indígena). Estas duas jurisprudências respetivamente trazem a importância de ensinar as relações fronteiriças socioculturais entre  São Borja e  Santo Tomé. Também a lei 10.639 trata da importância de pensar os vínculos e identidades das comunidades tradicionais de São Borja como os descendente dos povos originários da região. Somos  ex- guaranis, guenoas, minuanos, etc. Esta herança está presente até hoje nos modos de vida e nos cotidianos locais.

 

AC - Ouve-se com frequência que São Borja tem um rico e diversificado potencial turístico a ser trabalhado, mas os são-borjenses na sua maioria ainda não se apropriaram desse patrimônio. Como construir esse pertencimento?

MP - No ano de 2006 tive a oportunidade de participar como aluno de Graduação de Licenciatura em Geografia pela URI/ Santo Ângelo de um projeto de cooperação internacional intitulado “Elementos do Turístico-Patrimonial da região missioneira”. Neste estudo comecei a me encantar e indagar sobre o rico potencial que possui São Borja. No   estudo foi apontado que São Luiz Gonzaga, São Borja e Santo Ângelo têm os maiores maiores potenciais turísticos da região missioneira. Realizamos uma série cursos de especialização, de formação, disciplinas em Mestrados e Graduação. Houve ainda chancela do sítio arqueológico de São Francisco de Borja junto ao IPHAN. O que se observa é que o processo de reconhecimento e valorização da história e patrimônio cultural regional é algo a longo prazo.  São Borja, nos últimos anos dá mostras que a ação precisa partir da base da comunidade, pois os políticos eleitos passarão com suas ideias e prioridades, entretanto a cultura  coletiva, popular, permanece.  Portanto, se São Borja almeja pensar para frente, necessita com urgência inverter a pauta na valorização dos seus muitos potenciais históricos. Isso garante omvestimento, sustentação e sustentabilidade.

 

 

AC - A Universidade Federal do Pampa e a o Instituto Federal Farroupilha vieram para ajudar a superar o déficit de desenvolvimento na região. Estão conseguindo cumprir essa tarefa?

MP - A mesorregião sudoeste rio-grandense é a região oficial de São Borja, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e estatística). Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), desde 2007 está criada a Política Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR), que visa combater as assimetrias regionais no território brasileiro. Tal política tornou-se uma Política do Estado Brasileiro, pois ainda vem sendo adotada  pelo MDR.  Dentro do PNDR, desde 2007 foram apontadas áreas estagnadas que vêm tendo variações e anomalias no crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). Estes  territórios passaram a ser prioritários pelo Governo Federal para a implementação de políticas públicas. A região da Metade Sul do RS, incluindo São Borja, foi definida  como prioritária, sendo uma mesorregião diferenciada para receber uma atenção especial por parte do Estado brasileiro. Desde 2007 estão criadas políticas educacionais federais nos espaços de fronteira do país, como é o caso  da Unipampa e IFFar, que vêm contribuindo para a democratização e a interiorização do ensino técnico, superior e de pós-graduação públicos.  Outra contribuição é com mão-de-obra qualificada para diversas áreas essenciais à sociedade e à gestão pública. São exemplos áreas como Assistência Social em que a maioria dos assistentes sociais atuantes na região são egressos da Unipampa;  Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Mestrado em Comunicação e Indústria Criativa. Além de novos profissionais em Comunicação, há formação de professores nas redes pública e privada, casos de Ciências Humanas, Matemática, Física e Direito. Turismo é outro exemplo, assim como a área de Ciência Política e Mestrado em Políticas Públicas. Além disso, as instituições universitárias vêm  agregando valor ao PIB local, que desde 2008 pulou de 400 milhões ano para 1,6 bilhão de reais ao ano. O avanço, portanto, é de quatro vezes mais.

 

AC - São Borja sabe conviver como comunidade?

MP - Sou um pouco suspeito em falar sobre as vivências na comunidade local, pois sou natural daqui e gosto muito deste município. Isso é o que me fez retornar para cá. Falar de viver em comunidade envolve uma série de fatores, um deles é o pertencimento e reconhecimento social e cultural ao território. Isso vejo muito por aqui, o que estava faltando eram oportunidades iguais para todos, e elas vieram nos novos horizontes e novos aprendizados colocados à disposição.  São Borja vive um momento ímpar em sua trajetória histórica, pois é um polo educacional, constituído em conjunto com a municipalidade vizinha de Santo Tomé, na Argentina. As duas cidades, conforme pesquisa do Labpoliter – Laboratório de Políticas Públicas e Territórios Fronteiriços (CNPQ/ Unipampa) totalizam em torno de 10 mil estudantes universitários. O número representa  aproximadamente 10% das populações das duas municipalidades. Juntas elas chegam a 100 mil habitantes. Assim, o senso de comunidade remete ao período missioneiro, pois a antiga Redução de São Francisco de Borja era relatada por viajantes estrangeiros como o povoado reducional que possuía os índios mais bem vestidos e politizados da região.  É certo que essas heranças políticas e hist.[oricas chegam a atualidade.

 

AC - Quais são os plano de Muriel Pinto?

MP - Meus planos são bem singelos, mas de modo geral sempre buscando por conquistas educacionais para a região e procurando contribuir para com a democratização do acesso ao ensino superior e de pós-graduação públicos na região. Também é meta ser articulador das questões culturais, da integração fronteiriça e missioneira como uma das formas de desenvolvimento são-borjense. Isso pressupõe geração de emprego e renda, assim como inclusão social e novos modelos de governança

Um comentário:

  1. Parabéns pela entrevista, mestre. O professor Muriel é um sujeito equilibrado. Mesmo em momentos como este, que muitos parte para análises apressadas, militantes e sem fundamento na realidade, ele é sóbrio e inteligente. São Borja ganha com a sua presença.

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