quarta-feira, 11 de maio de 2022

FLAGELO SOCIAL

 

Quando o combate à fome

tem que ser a prioridade

 




A demanda social vem de longe. O desafio é o Brasil - a partir de seu rico potencial e da sua  gigantesca extensão territorial -, conceber e entregar um projeto de nação que seja viável e consistente. Um projeto de prospecção de futuro e de ganhos e desenvolvimento coletivos. No ano em que o país completa seus dois séculos como Estado independente,  preconiza-se a efeméride como sendo emblematicamente simbólica e oportuna para que esta dívida histórica possa ser resgatada. Mas, como sempre, tudo vai ficando para  depois. Afinal, o Brasil é o país é o país do futuro e, pelo visto, esse futuro nunca chega.

O ano de disputa eleitoral até poderia ser fator motivador, mas, ao contrário, só atrapalha. Entre candidatos, partidos, coligações e seus marqueteiros a prioridade não é pensar no Brasil de amanhã; é sim, sobretudo, hora de pensar no resultado das urnas, na desconstrução do adversário. A meta, principal, portanto, é chegar ao poder e manter-se nele. Uma coisa não deveria excluir a outra, mas excluía. Até hoje – 522 anos após ser achado e 200 anos depois de se tornar independente – o Brasil tem  basicamente  peças de ficção ou apenas pontuais de desenvolvimento nacional. E, tudo indica, que mais uma vez não iremos além disso.  Então que, ao menos, sejam oferecidas ações objetivas e urgentes, determinadas  e não meramente eleitoreiras como a de combate à fome. É dramático e surreal, mas não é exagero afirmar que enfrentar o flagelo da fome, hoje, deve ser prioridade absoluta.

 

Cenário de caos

 

Entre os brasileiros, 55% acusam algum tipo de insegurança alimentar  -  moderada ou severa. Quase 10% informam que ficam um dia ou mais sem comer. De toda a  população brasileira, 9%  já declarava isso em 2020 e, com a pandemia, a situação só piorou.

Nos tribunais em todas as esferas do Judiciário, em todo o  país aumentam os  processosenvolvendo furtos praticados por  pessoas que buscam  o que comer.  No Brasil a renda, hoje, é  8,8% menor do que era há 12 meses. No Rio Grande do Sul é recorde o nível de endividamento das famílias.

A elevação dos custos dos insumos alimentícios é sempre maior que os salários. O preço da soja até fevereiro deste ano subiu 130%; do milho, 120%; e do trigo, 100%. Mesmo o  feijão e arroz tiveram

alta de 52%  e de 41%, respectivamente, muito acima mesmo acima da correção dos salários. O salário mínimo – R$ 1,200 – deveria estar em mais de R$ 6 mil,  ou cinco vezes mais, diz o Dieese.

A pobreza, que começou a se agravar em 2015, só aumentou a partir de 2019. A combinação perversa de desemprego, recessão econômica, alta da inflação, pandemia e adversidades do clima foi acumulando retrocessos. Agora a guerra no Leste europeu piorou tudo.




A projeção é que o ano termine com inflação superior a 8%. Nos alimentos, o índice deverá chegar a 13%. E os mais pobres, claro, serão os mais castigados.  Existe a tendência, ainda, de que a alta nos alimentos se manterá na atual escalada nos próximos 12 ou até 24 meses.

Sobe tudo: dos derivados de leite ao óleo de cozinha até a carne ou o açúcar. Alguns desses itens têm o custo mais  alto em 32 anos. Como Rússia e Ucrânia

exportam 25% do trigo e 15%  do milho consumidos no mundo, a perspectiva é sombria. Além do consumo humano, encarece igualmente a ração animal, segundo alerta o  economista André Braz, da Fundação Getúlio Vargas.

 

Cobertor curto

 

O Auxílio Brasil de R$ 400l, novo Bolsa Família, deve ganhar vida para além de 2023.  É importante, mas insuficiente. Um dos motivos é que alcança a somente 19 milhões de famílias e as necessidade engrossam contingente muito maior. Além disso, de há muito,  mais que programa de renda mínima é cassa-votos, assistencialista.

Recente levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM)  mostra que é grande o número de famílias necessitadas e fora do programa. O perfil socioeconômico utilizado também esconde os níveis de pobreza. Além da negativa de acesso a um grande contingente de famílias, os reajustes para o programa não acompanham a variação inflacionária e nem há periodicidade para as correções.




A geração de emprego é o melhor programa socia - sabemos. A criação de vagas, contudo, tem esbarrado no custo Brasil, na burocracia, na inflação, nos juros altos e na ausência de programas  geradores de investimentos de oportunidades.

 São quase 13 milhões de desempregados, sem considerar o número fora aqueles  que ‘jogaram a  toalha’.

Mas além dos muitos internos,  existem aqueles de âmbito global. Se as  exportações em dólar  se viram favorecidas,  as importações são duramente afetas na proporção inversa. As sucessivas altas do petróleo e do gás , na esteira na guerra é apenas um exemplo, mas com efeito em cadeia. Há ainda que considerar a crescente e devastadora bagunça climática,  como consequência do aquecimento global.

O Rio Grande do Sul teve quebra entre 50 e 60% nas suas safras de verão. Foi a maior seca em 17 anos. No mundo, a temperatura deve aumentar 1,5ºC até 2030, bem antes do previstos e com consequências catastróficas.

Os países mais populoso do planeta  – China e Índia – ampliam seu poder seu poder aquisitivo, seu PIB e devem consumir mais alimentos. Este é o lado bom. Mas a FAO, órgão da ONU para alimentação, alerta que para atender a esta demanda é primeiro preciso ter o que vender.

 

EsTõmago e voto

 



Em um país como o Brasil, onde as políticas partidárias se parecem na ausência de propostas mais densas e mais convincentes, não é raro termos o voto balizado por múltiplas motivações. Na prática, o voto acaba sendo um instrumento corporativo e movido por algum tipo de interesse. Seguindo esta lógica, o pleito deste ano deverá ter a sobrevivência, a superação das  muitas dificuldades  como o carro-cfede no ranking das demandas.

Em outras palavras,  boa parte do eleitorado votará pensando na recuperação do  eseu mprego, da comida na mesa. E certamente não bastará trocar voto por algum auxílio meramente temporário. É certo que o  eleitor  também consultará seu próprio estômago, entretanto destinará seu voto a quem conseguir ser mais ético, respeitoso e capaz entregar ações mais efetivas e de maior longevidade.

As mulheres representam maioria folgada e, atendendo ao apelo Tribunal Superior Eleitoral, milhões de jovens habilitaram-se a ir às urnas. Quem sabe não está começando aí o ciclo da mudança qualitativa para um novo Brasil? Que este desejo romântico enfim se realize. Mas com certeza,  paralelamente, este ano do bicentenário da independência também será  um ano de combater à fome.

 

Um comentário:

  1. Sorte que os ventos voltam a soprar ao nosso favor. Mesmo com a pandemia e a guerra na Ucrânia, estamos nos recuperando e os números já estão aí para mostrar esse cenário positivo. O que depende do povo brasileiro, as coisas estão se ajeitando. Ago3ra, olhando para trás, dá pena daqueles bilhões de reais jogados pelo "ralo" e que poderiam ter sido investidos em uma base econômica sólida.

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