terça-feira, 6 de dezembro de 2022

JOÃO GOULART


 

Saga de um bem-sucedido estancieiro e

 de uma complicada  gestão presidencial

 

 


Antiga morada da família Goulart é hoje o
memorial que guarda acervo de referências.

Esta terça-feira, 6, marcou a passagem de um dos eventos históricos na trajetória de São Borja e do Brasil. Na data, em 2022, completaram-se 46 anos da morte do ex-presidente João Goulart, ocorrida no exílio, em 1976. A importância dessa figura pública para a conjuntura nacional justifica que se faça um breve resgate o seu perfil e das  suas ações.

As origens vêm do outro lado do Atlântico, da ilha dos Açores,  ligada a Portugal. De lá  veio a família Goulart. João Belchior, o Jango como era conhecido, foi o primeiro dos oito filhos do casal de estancieiros Vicente Rodrigues Goulart e  Vicentina Marques Goulart. Ele nasceu em 1º de março de 1919, Da pacata São Borja, na fronteira Oeste gaúcha, ele  consolidaria , aos poucos, projeção nacional em internacional.

Como a família tinha bons recursos, além de investir na produção agropastoril, também investiu na educação dos filhos. Jango, por exemplo, foi mandado ainda aos nove anos para o Colégio Santana em Uruguaiana. Lá ficou cinco anos em regime de internato, transferindo-se depois para Porto Alegre, onde fez o curso secundário. Em 1935 iniciou o curso de Direito, que concluiu quatro anos mais tarde.

Também na capital gaúcha, Goulart revelou seu talento esportivo. No futebol, ingressou nas categorias de base do Sport Club Internacional. Firmou-se, depois, como um dos bons laterais direitos do Colorado gaúcho. Jango também teve de se tratar em relação a uma Sífilis  contraída na juventude. Os muitos tratamentos especializados minimizaram os impactos, mas, ainda assim, chegou a ficar com alguma  sequela na locomoção.

 

O estancieiro

 

Imagem do rico estancieiro
está materializada em estátua.

 João Goulart não seguiu a carreira de advogado. Ele gostava mesma era da vida no campo. Além de cuidar da fazenda, plantava linho e trigo.

Com apoio inicial do pai e por meio de uma parceria com Protásio Vargas (irmão de Getúlio), Jango desenvolveu negócios da compra e engorda de bois, que depois vendia a frigoríficos. A experiência rendeu um bom dinheiro. Em seguida, o jovem Jango decidiu dedicar-se exclusivamente à administração do patrimônio próprio e da família, inclusive por que o pai estava com câncer . Depois, Vicente acabou morrendo vitimado pela doença.

Outra parceria seria feita também com outro irmão de Getúlio – Manoel Vargas, o Maneco. Os negócios deram tão certo que, em dado  momento, estima-se uma fortuna de 500 mil dólares, em bois, nas mãos de Jango.

 

Na política

 

Afilhado político do presidente Getúlio Vargas,
Jango marcou presença em todos os momentos.


 Entretanto, a deposição do presidente Getúlio Vargas em 1945 começaria a levar o amigo João Goulart  para a vida política. Bom de discurso e plenamente identificado com Getúlio, Jango inicialmente entrou no PSD e, em seguida, no PTB. Primeiramente foi presidente em São Borja, depois no Rio Grande do Sul e, após, dirigiu no país o Partidos Trabalhista Brasileiro.

As articulações com Getúlio Vargas se intensificam e, em 1947, Goulart é eleito deputado estadual. Em 1950, quando Vargas volta à presidência da República, agora pelo voto popular, Goulart elege-se deputado federal. Jango, contudo, assume uma função no governo estadual do Rio Grande do Sul, onde o governador era o são-borjenses Ernesto Dornelles. Na época, já começa também dobradinha com Leonel Brizola, igualmente deputado e que, mais tarde, viria ser cunhado de Jango.

Após a passagem pelo governo gaúcho, Goulart  volta para o Rio de Janeiro, sede do governo federal. Foi chamado por Getúlio Vargas e para ser ministro do Trabalho. Corriam o  anos de tensão.  Depois de  uma greve de trabalhadores, foi apaziguada a situação  e o salário mínimo teve seu valor dobrado.

A aguda crise política de 1954, que levou  Getúlio Vargas ao suicídio,  provocou também uma nova reviravolta no cenário político e na trajetória de Jango.

 

Vice-presidente

 

Eleito duas vezes vice-presidente da República,
em 1955 com JK e em 1959 com Jânio Quadros.

Depois de ser derrotado em eleição para senador, João Goulart se elegeria, em 1955, a vice-presidente da República pelo PTB.  Para presidente foi eleito o mineiro Juscelino  Kubistchek, do PSD. Na época, as votações para os dois cargos eram em separado. A UDN, de Carlos Lacerda, tentou mas não conseguiu impedir a posse de ambos.

Já em 1919 , João Goulart voltaria a ser eleito vice-presidente da República pelo PTB. Para presidente foi eleito o conservador Jânio Quadros, da UDN.  Entretanto, a gestão de Jânio foi curta e desastrada. Ele renunciou ao cargo sete meses após assumir, dando início a uma crise de grandes proporções, com impactos  diretos também para João Goulart.

 

Arranjo e golpe

 


2. 
Suspeita de assassinato, mas exumação em
2013 não chega a um laudo conclusivo.


Pela Constituição, com a renúncia de Jânio, Jango é que deveria assumir o comando do país. Contudo, forte oposição  de setores civis e militares eram contra a posse de Goulart. Deflagra-se então o movimento da Legalidade, liderado pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, para que Jango assumisse. Um levanta armado chegou a ser cogitado.

Jânio Quadros havia renunciado em 25 de agosto de 1961 e em 7 de setembro saiu uma solução paliativa para o intrincado impasse. O sistema parlamentarista foi instituído no Brasil, transformando João Goulart em chefe de Estado, com bem menos poderes. Contudo, em janeiro de 1963 Goulart promoveria uma plebiscito e, por ampla maioria, o Presidencialismo é reinstituído no Brasil.

João Goulart tem, constitucionalmente, plenos poderes, mas politicamente estava fragilizado e era acusado de atos contra a democracia.  O processo só se agravou, chegando ao ápice em março de 1964. Um dos detonadores do estopim da crise foi o anúncio da chamadas Reformas de Base. A principal delas seria a implementação de um programa de reforma agrária.  O cenário só foi se agravando e, entre os dias 31 de março e 1º  de abril,  João Goulart é deposto da presidência por um golpe civil-militar.

 

Morte no exílio

 

Deposto, João Goulart deixou o país, exilando-se no Uruguai. Principalmente neste país  na Argentina, ele  ficou por 12  anos. Faleceu o em 6 de dezembro de 1976. Não houve autópsia. Oficialmente, a causa da morte foi um ataque cardíaco. Setores defendem a tese de que ele foi morto pela ditadura internacional.

Diante das dúvidas, em 13 de novembro de 2013 os restos mortais de Jango foram exumado no Cemitério Jardim da Paz em São Borja. A perícia de técnicos da Polícia Federal, Comissão Nacional da Verdade e Presidência  da República diz que os laudos são inclusivos para determinar a causa da morte. O presidente da comissão de investigação em São Borja, Iberê Asthayde Teixeira, entende que Jango morreu devido às amarguras acarretadas pelo exílio.

A moradia da família João Goulart, localizada na Avenida Presidente Vargas, está preservada e foi transformada no Memorial João Goulart. É, hoje, uma das principais referências de Jango em São Borja e, por isso, também local de visitação. Grande parte do acervo relativo à trajetória do ex-presidente é guardada nesse museu.

 

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