quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

RESPEITO ÀS DIFERENÇAS

 Com o seu atual formato,

democracia corre perigo?

(Imagens site Brasil Escola)


 

Se percorrida a sua trajetória  histórica, a democracia nunca foi, de fato, “o governo do povo, pelo povo e para o povo”, como  fomos ensinados. Aliás, normalmente não é assim,  embora haja o consenso de que é o sistema menos ruim  que temos à disposição. No  passado  recente e, em particular na atualidade, as feições são   carrancudas. Há quem enxergue uma névoa de incertezas, parece que  querendo  estacionar nuvens sombrias no horizonte.

Desde a sua origem, em Atenas, na Grécia Antiga (entre os séculos 6 e  5 antes de Cristo), as ações ditas democráticas eram para poucos – apenas os cidadãos -, ou seja, os oligarcas  ou aristocratas. Dessas ações só podiam participar aqueles que tinham posses e mais conhecimentos, portanto um  grupo minoritário.   Os escravos,  as mulheres, os despossuídos, os estrangeiros e os que não tinham uma idade mínima exigida, todos ficavam de fora.  Como os habilitados a tomar decisões também não trabalhavam, uma das  principais funções era fazer política. Nas assembleias se reuniam para tomar decisões. Era a  chamada Democracia Direta.

Vários filósofos, na época, entres eles Platão, difundiram suas diretrizes sobre a democracia. Em muitos casos eram posições entre si conflitantes. Um pouco mais tarde, o Império Romano instituiu a República. Era também um sistema de regulação das relações da vida da sociedade da época. Outra vez, porém, a maioria da população ficava à margem do processo. Normalmente a capacidade econômica e o maior conhecimento eram fatores determinantes como direito à participação dos ‘privilegiados.’

Em sequência, veio a Idade Média, até o século 15, fase em que a democracia entra em recesso geral. Centralizam-se as decisões através dos senhores feudais e da Igreja. Após esse ‘apagão’, o processo democrático   também fica calado pelo Absolutismo (o governo de reis  e de dinastias), durante a Idade Moderna.  Apesar do Renascimento em relação à cultura da Grécia e da Roma antigas, esse sistema centralizador e de poucas liberdades estende-se até o século 18.



Exceções pontuais de decisões coletivas, em favor do bem comum, são registradas entre povos indígenas na América, nas antes da chegada dos colonizadores (séculos 15 e 16).  No século 18, porém, dois eventos emblemáticos marcariam a retomada de práticas democráticas. O primeiro foi em 1776, na Guerra de Independência dos Estados Unidos. Outro evento relevante foi o da Revolução Francesa, a partir de 1789.

O Iluminismo, surgido na França, mas que se propagou rapidamente,  teve influência direta para este novo ciclo de mudanças. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, defendidos  como  mantras durante a Revolução Francesa , são um forte símbolo da democracia moderna. França e EUA são as principais referências. Tal movimento também ensejou o surgimento da   república moderna que, claro, não é o mesmo que democracia, mas defende liberdades.

 

Democracia moderna

 

O professor de Sociologia Francisco Porfírio avalia que a democracia na modernidade – a Democracia Representativa -   pressupõe algumas condições essenciais:  sufrágio universal; existência de uma Constituição regulando a política pública e os direitos e deveres de todos; igualdade de todos perante a lei, em respeito à Constituição;   eleição regular de  representantes;  e necessidade  de alternância no poder.



O direito ao voto feminino é bem recente na história da humanidade. Só em 1893 é que, pela primeira vez, na Nova Zelândia, as mulheres foram autorizadas a votar.  Nos Estados Unidos isso ocorreu só em 1920 e no Brasil, em 1932. No Brasil, ainda, apenas com a atual Constituição de 1988 é que os analfabetos passaram a ter o direito de votar.  

Especialmente a partir do século passado e neste início do século 21, é que surge o maior número países com perfil convencionalmente democrático. São em geral, porém, democracias  ainda frágeis e instituídas sobretudo por nações antes colônias de grandes potências. Esses novos governos não raro  desembocam em ditaduras de direita ou de esquerda cerceando as liberdades.

O Brasil tem de ser citado nessa análise. Como colônia e depois Império, o país foi o último nas Américas a declarar o fim da escravidão – a mais severa de todas. Já dos 133 anos de República, completados em 2022, a partir de 1889, somente 55 anos – de 1946 a 1964 – e depois a partir de 1985 são  considerados democráticos. No restante do período, conchavos políticos, voto de canhestro, coronelismo, revoluções e ditadura.

Há consenso de que não bastam apenas eleições para dizer que uma nação é democrática. Um processo  efetivo pressupõe algumas condições essenciais. Entre elas, liberdade de expressão, de circulação e de imprensa; possibilidade de voto e elegibilidade política; liberdade de associação política;  e  e acesso à informação; e eleições idôneas e reconhecidas.

 


Uma nova face

 

Principalmente


nos últimos anos, tem-se o fazer democrático ganhando novas feições  e nuances.   O filósofo francês contemporâneo Jacques Rancière escreveu o livro ‘O ódio à democracia’, em que ele disserta sobre a crise democrática que tem assolado os países no século 21.  Segundo o pensador, o mundo tem agido contra a democracia por uma espécie de medo  de que a democracia afete  o cidadão  médio nos seus intereses. Medo de que a democracia possa ser  o regime político por excelência.

Rancière afirma que a democracia é o regime do dissenso. Entretanto,  isso tem promovido a cisão da população. Ressalta, porém,  que é  normal que haja discordância dentro de um regime democrático, mas deve haver também respeito mútuo - e isto não vem ocorrendo. No lugar da união,  de unidade e de fraternidade, o que se tem é o ódio, a segregação. Basta pensar diferente par virar  inimigo. E, nesse ‘inimigo’, só se vê riscos; nenhuma virtude. Inimigo é para ser combatido. Também para o Brasil vale tem valido esta mesma lógica. E vale a  reflexão!

 


(Com informações de apoio dos professores Francisco Porfírio, de Sociologia, e  Vitor Soares, de História

Nenhum comentário:

Postar um comentário