(Fotos arquivo pessoal)
“Somos
um povo que late
muito, mas cobra pouco”.
O jornalista e professor
catarinense Leandro Ramires Comassetto, 54 anos, coordenador do curso de
Jornalismo da Unipampa em São Borja, nos conduz para um choque de realidade sobrea
a dita ‘parcialidade’ da imprensa
brasileira. Lembra que isso já foi bem pior e observa que “isenção total é uma
utopia.” Ressalta que a Unipampa está ajustando seus currículos nos cursos de
Comunicação, em sintonia aos novos tempos. Mesmos que o diploma de jornalista
não seja obrigatório, “quanto maior o grau de formação, mais altos
são os salários.”
Da
conjuntura nacional, acha que Bolsonaro
acertou querendo manter a atividade produtiva na pandemia, mas perdeu a grande
chance de se unir aos governadores. “Perdemos todos nós”. É otimista com o
Brasil, mas vê o Congresso como a “casa da barganha”; e a prática política como “clientelista.” Acha
que aos poucos estamos mudando, mas ainda estamos longe de termos “uma Angela Merkel”.
Na sua avaliação, “somos um povo que late muito, mas cobra pouco”.
Leandro
Comassetto tem graduação em Jornalismo e Letras (Português e
Espanhol) e é especialista em Ensino da Língua Portuguesa e Metodologia do
Ensino da Comunicação Social. Na sua trajetória acadêmica, também é mestre em
Linguística e doutor em Comunicação Social.
Como jornalista, atuou por 30 anos em rádios e jornais de Santa
Catarina e Paraná, com destaque para a Rádio Rural e O Jornal (Concórdia-SC). Foi professor, diretor de campus e pró-reitor
de Pesquisa e Pós-Graduação na UnC (Universidade do Contestado– SC). Aprovado em concurso público, desde 2011 migrou
para São Borja, para ser docente do curso de Jornalismo da Unipampa. Atualmente
é o coordenador do curso.
Comasseto é natural de Concórdia-SC. Além do compromisso e da dedicação
com o Jornalismo e o ensino universitário, tem profunda vinculação com o
ambiente familiar. É casado com a enfermeira Sandra Poletto, que atua no
serviço público em São Borja. É pai de Ana Laura Comassetto, jornalista
empreendedora na cidade de Três Rios-RJ. Os seus pais são Vandete Paese
Comassetto e Antonio Ricardo Comassetto (já falecido). Ele - Antoninho da
Fronteira, como era mais conhecido - foi radialista, músico e repentista da música
riograndense, um gaúcho de Santa Maria. Deixou
vários discos e DVDs gravados. Do pai,
Leandro herdou a paixão pelo rádio e pelo Jornalismo.
Comasseto tem publicados vários
artigos científicos e dois livros. Um é resultante do mestrado ("As razões
do título e do lead: uma abordagem cognitiva da estrutura da notícia") e oe
outro do doutorado ("A voz da aldeia: o rádio local e o comportamento da
informação na nova ordem global"). O professor Leandro projeta pelo menos
mais uns 20 anos de docência universitária e tem como um dos sonhos escrever um romance. Frustração?
não ter sido músico como o pai.
Alberi Cogo - Como veículo e como instituição, a imprensa
normalmente é vista pela sociedade como referência de isenção ética e de
neutralidade. No Brasil, contudo, cada vez mais a chamada grande mídia indica
pautar-se por posições e interesses parciais. Se correta a afirmativa,
por que mudaram os paradigmas?
Leandro Comassetto - O Jornalismo, ao longo da história, sempre
se dividiu em duas vertentes: o Jornalismo como um serviço, voltado à
divulgação das informações e o esclarecimento público, e o Jornalismo como
negócio, como empresa em busca de lucro e a serviço de interesses econômicos (e
também políticos) associados ao negócio jornalístico. Os paradigmas não
mudaram. Se voltarmos à história, vamos perceber que, na verdade, o Jornalismo
evoluiu e continua evoluindo. No passado, tanto no Brasil como em outros
países, o Jornalismo, que já nasceu como ferramenta político-ideológica, já foi
bem mais parcial em defesa de interesses particulares. No Brasil, tome-se o
caso, por exemplo, de Assis Chautebriand, dono de um império da comunicação,
denominado Diários Associados, que reunia dezenas de jornais, revistas,
emissoras de rádio e televisão, e também Samuel Weiner, criador e proprietário
do consagrado jornal Última Hora. Tanto um quanto outro costumavam pressionar
empresas e políticos, elencando os fatos que resultassem em benefícios
econômicos pessoais, muitas vezes chantageando políticos e autoridades. Pode-se
dizer que hoje o Jornalismo é muito mais sério que o praticado no início e
meados do século passado, também, por força de uma legislação mais rigorosa em
relação à atividade jornalística.
AC - Numa nação como a nossa, pouco letrada e com
déficits de discernimentos, como ter a segurança de estar consumindo um
conteúdo confiável e seguro?
LC - A disputa pelo poder é inerente ao ser humano e sempre
esteve presente na arena social. Por isso, isenção total é uma utopia. O
jornalismo evoluiu, aos longo das décadas, por força de legislação e também por
pressão da audiência. Nem por isso podemos dizer que há isenção e total
imparcialidade no tratamento da informação e na opinião jornalística. Há, sim,
jornalistas mais ou menos comprometidos com a verdade e o esclarecimento
público. Obviamente que, numa sociedade pouco letrada e com déficit de
entendimento e discernimento, a vulnerabilidade no consumo do jornalismo está
sempre presente. Quanto ao público mais esclarecido, o ideal é sempre pautar-se
em uma diversidade de fontes, de meios de comunicação, para daí extrair a
essência dos fatos e formar sua própria opinião.
AC - Para muitos, imprensa boa é aquela que publica
aquilo que lhes agrada, mesmo que uma fake news. O que dizer sobre isso?
LC - Esta é uma realidade cada vez mais evidente. Até poucos
anos, a Rede Globo era boa para alguns e maldita para outros porque atacava
Lula e o PT. Nos dias atuais, veem-se políticos e simpatizantes de esquerda
elogiando a Globo, porque o alvo passou a ser o presidente Jair Bolsonaro. Para
estes últimos, a emissora passou a ser sinônimo de lixo. A Globo, na verdade,
destarte todos os interesses obscuros e também evidentes que acompanham sua
trajetória, tem também um compromisso com a investigação e a denúncia dos
malfeitos públicos. Uma empresa jornalística nunca vai agradar todos os lados.
Não é possível conciliar todos os interesses. Sempre haverá quem elogie e quem
atire pedras. E isso se torna mais saliente ainda em sociedades de forte
antagonismo político, como o Brasil de nossos dias. Sem falar que as redes
sociais estimulam o embate, que geralmente descamba para as ofensas e agressões.
E, como forma de desqualificar o meio de comunicação e numa tentativa de fazer
prevalecer a própria "verdade", proliferam-se as fake news.
AC - Formações acadêmicas na área das Comunicações
pressupõem, como pré-requisitos, muita leitura, informação e conhecimentos
gerais. Porém, neste chamado ‘mundo líquido’, efêmero, da vida dominada pelas
telas, pela linguagem cifrada, como as universidades estão entregando os
jornalistas ao mercado de trabalho
LC - As pessoas em geral,
incluindo os próprios estudantes universitários, estão lendo cada vez menos.
Isso não é uma novidade. É próprio da sociedade de nossos dias, em que
prevalece a pragmática e o imediatismo. Busca-se o conhecimento para
necessidades imediatas, para a resolução de questões pontuais. Não se vê quase
mais ninguém lendo filosofia ou os clássicos da literatura. Isso, obviamente,
prejudica a formação. Mas, enquanto professores, temos que continuar insistindo
na importância do conhecimento e da ciência. Pode-se dizer, sim, que falamos
para muitos e somos ouvidos por poucos. Das universidades, saem bons e maus
profissionais. Os bons, certamente, terão uma vida profissional mais duradoura
e alcançarão reconhecimento público.
AC
- A formação acadêmica em Jornalismo chega a ser determinante
para que tenhamos bons profissionais?
LC - Quando o STF (Supremo
Tribunal Federal) extinguiu, em 2011, a exigência do diploma para atuar no
Jornalismo, muitos disseram que não haveria mais procura pelos cursos e que a
profissão estava com os dias contados. Eu sempre vi de forma diferente. O
diploma não é garantia de excelência profissional, mas é óbvio também que os
que se dedicam à busca do conhecimento, ao aprofundamento dos estudos, o que em
geral passa pela formação universitária, terão mais chances e oportunidades no
mercado de trabalho. Os estudos demonstram que quanto maior o grau de formação,
mais altos são os salários. E a prova é que, em busca de melhores
oportunidades, as pessoas continuam se qualificando, não só em termos de graduação,
mas também com pós-graduações. A formação educacional é permanente e, numa
sociedade dita do conhecimento, a busca pelo conhecimento não cessa nunca.
AC Frequentemente se ouve que as muitas carências
na educação básica se refletem depois no desempenho na universidade. Há
críticas, também, de que educação básica e universidade não dialogam entre si,
não se integram. Fale sobre isso.
LC - A educação no Brasil sempre serviu de instrumento ao
discurso politiqueiro. Desde criança, ouço que o país tem que investir em
educação, em pesquisa, em ciência, em tecnologia. Mas, a cada governo, o que
vemos é um descaso com a educação e a valorização dos educadores. O nível
educacional no Brasil, comparado a outros países, é fraco, deixa a desejar. Há
necessidade de maior valorização dos docentes, mais investimento no setor
educacional, mas também maior cobrança de resultados. O compromisso tem que ser
de mão dupla. Quando à falta de diálogo entre os níveis educacionais, em parte,
isso é verdade. Não há uma verdadeira integração e, podemos acrescentar que, em
muitos casos, a universidade peca também no diálogo com a comunidade. Todavia,
mudanças, embora ainda tímidas, estão acontecendo. O ensino do empreendedorismo
é uma realidade hoje nas escolas e disciplina obrigatória nos cursos
universitários, o que aproximará as instituições de ensino do ambiente
profissional. Em 2023, entrará em vigor a lei que estabelece a necessidade de
pelo menos 10% de prática de extensão universitária em todos os cursos, o que
certamente resultará em maior envolvimento da universidade com a
comunidade.
AC - Na Unipampa em São Borja têm sobrado vagas no curso de
Jornalismo. Que sugestões o senhor dá para que a graduação tenha sua
procura ampliada e com demanda de desempenhos?
LC - Cursos de Comunicação, seja de Jornalismo, Publicidade ou
Relações Públicas, têm demandas limitadas. A demanda reprimida de São Borja e
região já foi contemplada na formação das primeiras turmas. Hoje, o curso conta
muito mais com alunos oriundos de regiões distantes, sobretudo de outros
estados. Obviamente que os pretendentes aos cursos procuram, primeiramente, as
universidades situadas nos grandes centros do país. As universidades
periféricas aparecem como segunda opção. No caso da Unipampa, os cursos vêm
demonstrando boa qualidade e atraindo estudantes, mas apenas o suficiente para
mal preencher as vagas. Isso, porque se trata de universidade federal,
gratuita. No caso das universidades particulares, a maioria, devido à falta de
procura, teve que fechar os cursos. No caso da Unipampa, mesmo sendo uma
universidade federal, isso é algo que nos preocupa também e nos motiva a
repensar a formação que estamos proporcionando, com frequentes mudanças de
projeto pedagógico e revisão da matriz curricular, visando a um ensino mais
compromissado com as mudanças do mundo do trabalho. Em 2022, daremos início a
uma nova grade, com mais ênfase em jornalismo digital, jornalismo de dados,
produção multiplataforma, interação com as mídias sociais e empreendedorismo.
Também estamos iniciando um grupo de estudos, envolvendo os três cursos de
comunicação, que irá pensar formações em comunicação além do Jornalismo, da
Publicidade e das Relações Públicas. Há muitos estudos apontando que boa parte
do ensino praticado hoje, em todas as áreas do conhecimento, é inútil do ponto
de vista profissional. Por isso, há necessidade de atualização permanente. As
demandas sociais e profissionais estão cada vez mais aceleradas. Recentemente,
li um estudo dando conta de que 80% das carreiras atuais não existirão mais em
2030 e que 60% dos jovens estão aprendendo profissões que vão deixar de
existir. Se pararmos no tempo, vamos ser atropelados.
AC - O Brasil completa em 2022 seu bicentenário de
independência político-administrativa. Continuamos, porém, como uma nação
extremamente desigual e com um Estado centralizador e pouco republicano.
Mazelas como estas têm solução?
LC - Acredito que sim, o Brasil tem solução. Temos que pensar
com otimismo. Bem ou mal, descontadas as paixões ideológicas, acredito que
estamos evoluindo do ponto de vista político. As pessoas, mesmo que fortemente
pautadas em fake news, estão participando mais, debatendo e discutindo
política. Até poucos anos, ninguém sabia, por exemplo, o que era e para que
servia o STF. Hoje, vejo o nome dos ministros citados a todo momento, vigiados
e cobrados por suas atitudes. Deputados e senadores sabem que suas ações terão
repercussão nas urnas nas próximas eleições. Mesmo assim, ainda somos um povo
que late muito e cobra pouco, que não vai à luta por seus direitos. A tendência
é que isso venha a ser aprimorado ao longo do tempo e que o Estado, em todas as
instâncias, passe a levar mais a sério as demandas sociais e ter mais zelo pelo
dinheiro público. Estamos engatinhando, é verdade, mas também é verdade que,
comparado a nações de maior estabilidade econômica e social, recém estamos
saindo das fraudas. Temos ainda muito que aprender e evoluir.
AC - Brasil enfrenta, já há um bom tempo, uma séria crise que só
se agravou com a pandemia. O que esperar como perspectiva de reversão nas
eleições do próximo ano? Temos líderes à altura das soluções?
LC - A pandemia, infelizmente, em boa parte, foi pautada por
interesses político-ideológicos, em meu entendimento, muito fortemente por
conta da postura muitas vezes irresponsável do próprio presidente Jair
Bolsonaro. O presidente acertou quando bateu o pé no sentido de que a economia
não poderia parar completamente por conta da pandemia, mas foi relapso no sentido
de minimizar a importância da ciência e dos cuidados básicos como o uso da
máscara, por exemplo. Tivesse sido mais sábio, hábil no discurso e no
tratamento com os governadores, teria conseguido manter a economia
funcionando, a inflação controlada e o câmbio em patamar aceitável, com amplo
apoio de todos os segmentos. Pecou por sua impulsividade e perdeu com isso.
Todos perdemos, infelizmente.
AC - Que mudanças o senhor faria nas atuais regras da política
brasileira? Parlamentarismo é alternativa viável?
LC - A política brasileira tem muito ainda que evoluir. Reformas
nesse sentido são urgentes. Temos que pôr fim à proliferação de partidos de
toda ordem, em sua maioria atuando de forma clientelista, em benefício da casta
política e não do povo. Veja o Congresso Nacional, tomado como a casa da
barganha, em que os políticos mudam de lado conforme as próprias conveniências.
Não digo que o parlamentarismo é o sistema ideal. A democracia presidencialista
americana, embora atualmente desgastada, conseguiu dar respostas mais que
satisfatórias às necessidades de seu povo. Por outro lado, vejo com simpatia o
sistema político de países como Alemanha, Inglaterra e Japão, que adotam o
parlamentarismo. Mesmo a pequena Portugal conseguiu superar a forte crise de
uma década atrás e hoje apresenta uma economia estável e atrativa, inclusive
para muitos brasileiros. Quando olho para a realidade brasileira e a faceta de
nossos políticos, sinto uma grande inveja dos alemães, que tiveram a sorte de
contar com a seriedade, habilidade diplomática e visão de uma Angela Merkel.
Nosso país ainda carece de políticos sérios e competentes. Mas como sempre
digo, não podemos desistir, temos que continuar tentando a busca por esse
ideal.
AC - Quais são os planos pessoais e profissionais do
professor Leandro Comassetto?
LC - Sempre me vi na linha de frente, atuando no jornalismo e na
educação. Não consigo me ver aposentado, cuidando apenas de afazeres
domésticos. Acredito ter pelo menos mais uns 20 anos de vida profissional.
Gosto do que faço, gosto também da convivência em família e me dedico muito à
leitura. Uma frustração foi não ter me dado bem com a música, algo que tentei
quando jovem, mas por um curto período. Hoje, além da leitura necessária ao meu
aperfeiçoamento enquanto educador, aprecio a literatura e pretendo, ainda,
escrever um romance. Não quero morrer sem satisfazer esse desejo.
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