sexta-feira, 19 de novembro de 2021

ENTREAMVISTA: Leandro Ramires Comassetto

 


Leandro Comassetto: Brasil uma

democracia saindo das fraldas.


(Fotos arquivo pessoal)


“Somos um povo que late

muito, mas cobra pouco”.

     

O jornalista e professor catarinense Leandro Ramires Comassetto, 54 anos, coordenador do curso de Jornalismo da Unipampa em São Borja, nos conduz para um choque de realidade sobrea a dita  ‘parcialidade’ da imprensa brasileira. Lembra que isso já foi bem pior e observa que “isenção total é uma utopia.” Ressalta que a Unipampa está ajustando seus currículos nos cursos de Comunicação, em sintonia aos novos tempos. Mesmos que o diploma de jornalista não seja obrigatório,   “quanto maior o grau de formação, mais altos são os salários.”

Da conjuntura nacional, acha que  Bolsonaro acertou querendo manter a atividade produtiva na pandemia, mas perdeu a grande chance de se unir aos governadores. “Perdemos todos nós”. É otimista com o Brasil, mas vê o Congresso como a “casa da barganha”;  e a prática política como “clientelista.” Acha que aos poucos estamos mudando, mas ainda estamos longe de termos “uma Angela Merkel”. Na sua avaliação, “somos um povo que late muito, mas cobra pouco”.



Com a inseparável esposa, enfermeira Sandra
Poletto. Uma vida sempre em família.

Leandro Comassetto  tem  graduação em Jornalismo e Letras (Português e Espanhol) e é especialista em Ensino da Língua Portuguesa e Metodologia do Ensino da Comunicação Social. Na sua trajetória acadêmica, também é mestre em Linguística e doutor em Comunicação Social.

Como jornalista, atuou  por 30 anos em rádios e jornais de Santa Catarina e Paraná, com destaque para a Rádio Rural e O Jornal (Concórdia-SC).  Foi professor, diretor de campus e pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação na UnC (Universidade do Contestado– SC).  Aprovado em concurso público, desde 2011 migrou para São Borja, para ser docente do curso de Jornalismo da Unipampa. Atualmente é o coordenador do curso.

Comasseto é natural de Concórdia-SC. Além do compromisso e da dedicação com o Jornalismo e o ensino universitário, tem profunda vinculação com o ambiente familiar. É casado com a enfermeira Sandra Poletto, que atua no serviço público em São Borja. É pai de Ana Laura Comassetto, jornalista empreendedora na cidade de Três Rios-RJ. Os seus pais são Vandete Paese Comassetto e Antonio Ricardo Comassetto (já falecido). Ele - Antoninho da Fronteira, como era mais conhecido - foi   radialista, músico e repentista da música riograndense, um  gaúcho de Santa Maria. Deixou vários discos  e DVDs gravados. Do pai, Leandro herdou a paixão pelo rádio e pelo Jornalismo.

Comasseto tem publicados vários artigos científicos e dois livros. Um é resultante do mestrado ("As razões do título e do lead: uma abordagem cognitiva da estrutura da notícia") e oe outro do doutorado ("A voz da aldeia: o rádio local e o comportamento da informação na nova ordem global"). O professor Leandro projeta pelo menos mais uns 20 anos de docência universitária  e tem como um dos sonhos escrever um romance. Frustração? não ter sido músico como o pai.

 


Com a filha - Ana Laura, jornalista como ele -, 
um passeio pela cena são-borjense e seu aconchego.

Alberi Cogo   -     Como veículo e como instituição, a imprensa normalmente é vista pela sociedade como referência de isenção ética e de neutralidade. No Brasil, contudo, cada vez mais a chamada grande mídia indica pautar-se por  posições e interesses parciais. Se correta a afirmativa, por que mudaram os paradigmas?

Leandro Comassetto - O Jornalismo, ao longo da história, sempre se dividiu em duas vertentes: o Jornalismo como um serviço, voltado à divulgação das informações e o esclarecimento público, e o Jornalismo como negócio, como empresa em busca de lucro e a serviço de interesses econômicos (e também políticos) associados ao negócio jornalístico. Os paradigmas não mudaram. Se voltarmos à história, vamos perceber que, na verdade, o Jornalismo evoluiu e continua evoluindo. No passado, tanto no Brasil como em outros países, o Jornalismo, que já nasceu como ferramenta político-ideológica, já foi bem mais parcial em defesa de interesses particulares. No Brasil, tome-se o caso, por exemplo, de Assis Chautebriand, dono de um império da comunicação, denominado Diários Associados, que reunia dezenas de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, e também Samuel Weiner, criador e proprietário do consagrado jornal Última Hora. Tanto um quanto outro costumavam pressionar empresas e políticos, elencando os fatos que resultassem em benefícios econômicos pessoais, muitas vezes chantageando políticos e autoridades. Pode-se dizer que hoje o Jornalismo é muito mais sério que o praticado no início e meados do século passado, também, por força de uma legislação mais rigorosa em relação à atividade jornalística.

 

AC -      Numa nação como a nossa, pouco letrada e com déficits de discernimentos, como ter a segurança de estar consumindo um conteúdo confiável e seguro?

LC - A disputa pelo poder é inerente ao ser humano e sempre esteve presente na arena social. Por isso, isenção total é uma utopia. O jornalismo evoluiu, aos longo das décadas, por força de legislação e também por pressão da audiência. Nem por isso podemos dizer que há isenção e total imparcialidade no tratamento da informação e na opinião jornalística. Há, sim, jornalistas mais ou menos comprometidos com a verdade e o esclarecimento público. Obviamente que, numa sociedade pouco letrada e com déficit de entendimento e discernimento, a vulnerabilidade no consumo do jornalismo está sempre presente. Quanto ao público mais esclarecido, o ideal é sempre pautar-se em uma diversidade de fontes, de meios de comunicação, para daí extrair a essência dos fatos e formar sua própria opinião. 

 

AC -   Para muitos, imprensa boa é aquela que publica aquilo que lhes agrada, mesmo que uma fake news. O que dizer sobre isso?

LC - Esta é uma realidade cada vez mais evidente. Até poucos anos, a Rede Globo era boa para alguns e maldita para outros porque atacava Lula e o PT. Nos dias atuais, veem-se políticos e simpatizantes de esquerda elogiando a Globo, porque o alvo passou a ser o presidente Jair Bolsonaro. Para estes últimos, a emissora passou a ser sinônimo de lixo. A Globo, na verdade, destarte todos os interesses obscuros e também evidentes que acompanham sua trajetória, tem também um compromisso com a investigação e a denúncia dos malfeitos públicos. Uma empresa jornalística nunca vai agradar todos os lados. Não é possível conciliar todos os interesses. Sempre haverá quem elogie e quem atire pedras. E isso se torna mais saliente ainda em sociedades de forte antagonismo político, como o Brasil de nossos dias. Sem falar que as redes sociais estimulam o embate, que geralmente descamba para as ofensas e agressões. E, como forma de desqualificar o meio de comunicação e numa tentativa de fazer prevalecer a própria "verdade", proliferam-se as fake news.   

 

Na posse como coordenador de Jornalismo/Unipampa.
Com os colegas Ronaldo Kolvero e Fernando Santor.


AC  -   Formações acadêmicas na área das Comunicações pressupõem, como pré-requisitos, muita leitura, informação e conhecimentos gerais. Porém, neste chamado ‘mundo líquido’, efêmero, da vida dominada pelas telas, pela linguagem cifrada, como as universidades estão entregando os jornalistas ao mercado de trabalho

LC - As pessoas em geral, incluindo os próprios estudantes universitários, estão lendo cada vez menos. Isso não é uma novidade. É próprio da sociedade de nossos dias, em que prevalece a pragmática e o imediatismo. Busca-se o conhecimento para necessidades imediatas, para a resolução de questões pontuais. Não se vê quase mais ninguém lendo filosofia ou os clássicos da literatura. Isso, obviamente, prejudica a formação. Mas, enquanto professores, temos que continuar insistindo na importância do conhecimento e da ciência. Pode-se dizer, sim, que falamos para muitos e somos ouvidos por poucos. Das universidades, saem bons e maus profissionais. Os bons, certamente, terão uma vida profissional mais duradoura e alcançarão reconhecimento público.

 

AC -   A formação acadêmica em Jornalismo chega a ser determinante para que tenhamos bons profissionais?

LC - Quando o STF  (Supremo Tribunal Federal) extinguiu, em 2011, a exigência do diploma para atuar no Jornalismo, muitos disseram que não haveria mais procura pelos cursos e que a profissão estava com os dias contados. Eu sempre vi de forma diferente. O diploma não é garantia de excelência profissional, mas é óbvio também que os que se dedicam à busca do conhecimento, ao aprofundamento dos estudos, o que em geral passa pela formação universitária, terão mais chances e oportunidades no mercado de trabalho. Os estudos demonstram que quanto maior o grau de formação, mais altos são os salários. E a prova é que, em busca de melhores oportunidades, as pessoas continuam se qualificando, não só em termos de graduação, mas também com pós-graduações. A formação educacional é permanente e, numa sociedade dita do conhecimento, a busca pelo conhecimento não cessa nunca.

 

AC   Frequentemente se ouve que as muitas carências na educação básica se refletem depois no desempenho na universidade. Há críticas, também, de que educação básica e universidade não dialogam entre si, não se integram. Fale sobre isso.

LC - A educação no Brasil sempre serviu de instrumento ao discurso politiqueiro. Desde criança, ouço que o país tem que investir em educação, em pesquisa, em ciência, em tecnologia. Mas, a cada governo, o que vemos é um descaso com a educação e a valorização dos educadores. O nível educacional no Brasil, comparado a outros países, é fraco, deixa a desejar. Há necessidade de maior valorização dos docentes, mais investimento no setor educacional, mas também maior cobrança de resultados. O compromisso tem que ser de mão dupla. Quando à falta de diálogo entre os níveis educacionais, em parte, isso é verdade. Não há uma verdadeira integração e, podemos acrescentar que, em muitos casos, a universidade peca também no diálogo com a comunidade. Todavia, mudanças, embora ainda tímidas, estão acontecendo. O ensino do empreendedorismo é uma realidade hoje nas escolas e disciplina obrigatória nos cursos universitários, o que aproximará as instituições de ensino do ambiente profissional. Em 2023, entrará em vigor a lei que estabelece a necessidade de pelo menos 10% de prática de extensão universitária em todos os cursos, o que certamente resultará em maior envolvimento da universidade com a comunidade.  

 



O pai e artista 'Antoninho' - inspiração
para seguir no rádio e no jornalismo.

AC -   Na Unipampa em São Borja têm sobrado vagas no curso de Jornalismo. Que sugestões o senhor dá  para que a graduação tenha sua procura  ampliada e com demanda de desempenhos?

LC - Cursos de Comunicação, seja de Jornalismo, Publicidade ou Relações Públicas, têm demandas limitadas. A demanda reprimida de São Borja e região já foi contemplada na formação das primeiras turmas. Hoje, o curso conta muito mais com alunos oriundos de regiões distantes, sobretudo de outros estados. Obviamente que os pretendentes aos cursos procuram, primeiramente, as universidades situadas nos grandes centros do país. As universidades periféricas aparecem como segunda opção. No caso da Unipampa, os cursos vêm demonstrando boa qualidade e atraindo estudantes, mas apenas o suficiente para mal preencher as vagas. Isso, porque se trata de universidade federal, gratuita. No caso das universidades particulares, a maioria, devido à falta de procura, teve que fechar os cursos. No caso da Unipampa, mesmo sendo uma universidade federal, isso é algo que nos preocupa também e nos motiva a repensar a formação que estamos proporcionando, com frequentes mudanças de projeto pedagógico e revisão da matriz curricular, visando a um ensino mais compromissado com as mudanças do mundo do trabalho. Em 2022, daremos início a uma nova grade, com mais ênfase em jornalismo digital, jornalismo de dados, produção multiplataforma, interação com as mídias sociais e empreendedorismo. Também estamos iniciando um grupo de estudos, envolvendo os três cursos de comunicação, que irá pensar formações em comunicação além do Jornalismo, da Publicidade e das Relações Públicas. Há muitos estudos apontando que boa parte do ensino praticado hoje, em todas as áreas do conhecimento, é inútil do ponto de vista profissional. Por isso, há necessidade de atualização permanente. As demandas sociais e profissionais estão cada vez mais aceleradas. Recentemente, li um estudo dando conta de que 80% das carreiras atuais não existirão mais em 2030 e que 60% dos jovens estão aprendendo profissões que vão deixar de existir. Se pararmos no tempo, vamos ser atropelados. 

 

AC -  O Brasil completa em 2022 seu bicentenário de independência político-administrativa. Continuamos, porém, como uma nação extremamente desigual e com um Estado centralizador e pouco republicano. Mazelas como estas têm solução?

LC - Acredito que sim, o Brasil tem solução. Temos que pensar com otimismo. Bem ou mal, descontadas as paixões ideológicas, acredito que estamos evoluindo do ponto de vista político. As pessoas, mesmo que fortemente pautadas em fake news, estão participando mais, debatendo e discutindo política. Até poucos anos, ninguém sabia, por exemplo, o que era e para que servia o STF. Hoje, vejo o nome dos ministros citados a todo momento, vigiados e cobrados por suas atitudes. Deputados e senadores sabem que suas ações terão repercussão nas urnas nas próximas eleições. Mesmo assim, ainda somos um povo que late muito e cobra pouco, que não vai à luta por seus direitos. A tendência é que isso venha a ser aprimorado ao longo do tempo e que o Estado, em todas as instâncias, passe a levar mais a sério as demandas sociais e ter mais zelo pelo dinheiro público. Estamos engatinhando, é verdade, mas também é verdade que, comparado a nações de maior estabilidade econômica e social, recém estamos saindo das fraudas. Temos ainda muito que aprender e evoluir.  

 

AC -   Brasil enfrenta, já há um bom tempo, uma séria crise que só se agravou com a pandemia. O que esperar como perspectiva de reversão nas eleições do próximo ano? Temos líderes à altura das soluções?

LC - A pandemia, infelizmente, em boa parte, foi pautada por interesses político-ideológicos, em meu entendimento, muito fortemente por conta da postura muitas vezes irresponsável do próprio presidente Jair Bolsonaro. O presidente acertou quando bateu o pé no sentido de que a economia não poderia parar completamente por conta da pandemia, mas foi relapso no sentido de minimizar a importância da ciência e dos cuidados básicos como o uso da máscara, por exemplo. Tivesse sido mais sábio, hábil no discurso e no tratamento com os governadores,  teria conseguido manter a economia funcionando, a inflação controlada e o câmbio em patamar aceitável, com amplo apoio de todos os segmentos. Pecou por sua impulsividade e perdeu com isso. Todos perdemos, infelizmente.

 

AC - Que mudanças o senhor faria nas atuais regras da política brasileira? Parlamentarismo é alternativa viável?

LC - A política brasileira tem muito ainda que evoluir. Reformas nesse sentido são urgentes. Temos que pôr fim à proliferação de partidos de toda ordem, em sua maioria atuando de forma clientelista, em benefício da casta política e não do povo. Veja o Congresso Nacional, tomado como a casa da barganha, em que os políticos mudam de lado conforme as próprias conveniências. Não digo que o parlamentarismo é o sistema ideal. A democracia presidencialista americana, embora atualmente desgastada, conseguiu dar respostas mais que satisfatórias às necessidades de seu povo. Por outro lado, vejo com simpatia o sistema político de países como Alemanha, Inglaterra e Japão, que adotam o parlamentarismo. Mesmo a pequena Portugal conseguiu superar a forte crise de uma década atrás e hoje apresenta uma economia estável e atrativa, inclusive para muitos brasileiros. Quando olho para a realidade brasileira e a faceta de nossos políticos, sinto uma grande inveja dos alemães, que tiveram a sorte de contar com a seriedade, habilidade diplomática e visão de uma Angela Merkel. Nosso país ainda carece de políticos sérios e competentes. Mas como sempre digo, não podemos desistir, temos que continuar tentando a busca por esse ideal.




Um dos desejos do professor Comassetto:  
entregar também a obra de um romance.

 

AC -  Quais são os planos pessoais e profissionais do professor Leandro Comassetto?

LC - Sempre me vi na linha de frente, atuando no jornalismo e na educação. Não consigo me ver aposentado, cuidando apenas de afazeres domésticos. Acredito ter pelo menos mais uns 20 anos de vida profissional. Gosto do que faço, gosto também da convivência em família e me dedico muito à leitura. Uma frustração foi não ter me dado bem com a música, algo que tentei quando jovem, mas por um curto período. Hoje, além da leitura necessária ao meu aperfeiçoamento enquanto educador, aprecio a literatura e pretendo, ainda, escrever um romance. Não quero morrer sem satisfazer esse desejo.

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