Missões: os dilemas de uma região
com microclima de chuvas escassas
Enquanto
líderes mundiais de todas as latitudes discutem o futuro do clima no planeta,
São Borja busca respostas por que, aqui e em municípios da região, as estiagens
são tão frequentes e devastadoras. Estudos
acadêmicos com foco na segunda metade do século passado e início do
século 21 mostram que a região das Missões no Rio Grande do Sul apresenta
prolongadas e severas ausências de chuvas, escalonadas por hiatos de volumosas
precipitações. Toda a população é afetada, mas particularmente a produção agropecuária, diretamente dependente
de condições normais de clima. Em território são-borjense, as lavouras e a
criação de gado são os setores mais castigados.
Bastam observações
empíricas para constatar que, nesta microrregião gaúcha, a reposição hídrica é
muito menor que nas demais áreas do Estado. Estas percepções são confirmadas
por análises técnicas e que motivaram teses de mestrado e pós-graduação em
universidades brasileiras. É o caso de trabalhos apresentadas por
Arnaldo de Araújo Ribeiro e João Afonso Zavattini,
através da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidades
Estadual Paulista (Unessp). Do mesmo modo, há tese de Melina Dornelles Severo
Rohde, da Universidade Federal de Santa
Maria (UFSM).
Um dos
trabalhos acompanhou, por uma década, toda a região das Missões. Desde São
Borja a Ijuí coleta e análise sistemática de dados, indicando que São Luiz
Gonzaga é o epicentro das estiagens em território missioneiro. Um outro recorte
trabalha com informações de Santo Antônio das Missões, com apoio de moradores
urbanos e rurais. Os resultados s]ao semelhantes: são rotineiras as prolonagadas
estiagens com alguns picos de chuva intensa.
Agropecuária:
reflexos
Neste
contexto, a cultura orizícola vem perdendo extensão ano após ano em São Borja. Claro que a conjuntura de mercado também contribui
para isso, mas o clima é um dos principais fatores determinantes. O município
já superou o cultivo de 50 mil hectares, há alguns anos, mas, mas a área gradualmente encolhe. No ciclo 2020-202 foi de
somente 36,9 mil hectares e deve reduzir
ainda mais na nova etapa. O diretor da unidade local do Irga, Roger Portelas, projeta
queda de 3,4% - algo como mil hectares -, mas, diante da sinalização de água
escassa à irrigação, a área pode reduzir ainda mais.
As chuvas
insuficientes e mal distraída comprometem, desde o ano passado, não repuseram o nível das barragens. Em muitos
casos elas estão com pouco mais de 50% da sua capacidade hídrica. Esses
mananciais respondem por 63% de toda a
capacidade de irrigação. Portela informa
que o plantio da lavoura já passa do
60%, “entretanto o produtor usa de cautela, e os meses de novembro serão
bastante secos, segundo as precisões dos instituto de climatologia.”
Já a
Emater prevê aumento de cerca de 10% na futura lavoura de soja, projeção que,
se confirmada, representará o plantio de 75 mil hectares no município. A
semeadura, porém, ainda está em fase inicial. E como os próximos meses serão de
chuva escassa, a tendência é de semeadura mais tarde, se as condições forem
favoráveis, de acordo com o técnico agrícola Clóvis Schwengberg.
Outra interrogação
diz respeito à produção de milho. É
lavoura alternativa, entretanto vem, gradativamente, ganhando expressão. Neste ano,
contudo, a área do cedo deve ser impactada pelo clima, e as lavouras plantadas
correm o risco de ficarem comprometidas na época de floração e formação de
espigas. Outra ameaça é em relação à produção de hortifrutigranjeiros, quase
toda sem irrigação e, portanto, dependente de chuvas normais.
Quanto ao
trigo, cultivado em [área de 20 mil a 25 mil hectares, foi impactado por
estiagem na fase inicial. A projeção é de perda média de 10%. As lavouras mais
tarde têm melhor desempenho e, com isso, o município deve colher 45 saco, ou
2,7 mil quilos por hectare.
A pecuária
de campo nativo enfrenta dificuldade de pastagens. Os longos períodos de
estiagens comprometem a nutrição animal. E tumbem as aguadas em regiões do município. O
mercado para o gado gordo é favorável, entretanto a oferta é pequena.
Futuro do clima
País
que abriga 60% da Amazônia, o Brasil assina durante a COP26, em Glasgow,
na Escócia, um acordo internacional essencial para a preservação das florestas.
O acordo é um dos pontos relevantes na conferência do clima, que ocorrerá até 12 de novembro. O documento
busca a definição de objetivos claros, em nível mundial, sobre a redução do
desmatamento e da degradação dos solos até 2030. São medidas que, se adequadamente
implementadas, diminuirão os impactos no meio ambiente, favorecendo, ao mesmo
tempo, ao regime de chuvas.
O documento, contudo, não é garantia de
resultados, assim como outro subscrito pelo Brasil e cuja aplicabilidade terá
impacto direto na produção agrícola. Relatório
do coletivo de ONGs Observatório do Clima mostra que as emissões de CO2 do
Brasil aumentaram 9,5% em 2020, enquanto a média mundial caiu em 7% devido à
pandemia de coronavírus, que reduziu o transporte e a produção industrial.
A piora no Brasil é atribuída ao “aumento do desmatamento
no ano passado, em especial na Amazônia, que colocou o Brasil na contramão do
planeta”, diz o Observatório do Clima. Cientistas brasileiros como Alexandre
Costa e Francisco Eliseu Aquino afirmam
que o desmatamento na Amazônia se
reflete na escassez de chuvas no Sul do país, assim como contribuiu para um dos
invernos mais rigorosos da história recente da região.
A meta é impedir que o clima no planeta
fique mais quente em 1,5ºC até 2050. Além do controle do desmatamento, está em
jogo a substituição de combustíveis fósseis, geradores do efeito estufa. Entre
os países desenvolvidos, a maioria caminha para a produção de carros elétricos
ou a hidrogênio. Outra medida em expansão é a geração de energia limpas, como
eólica e solar. Neste aspecto, o Brasil está progredindo, devido à crise
energética geral.
Sustentabilidade no campo
Pastagem recuperada,
pelo trabalho da Fazenda Ecológica
(foto: Daniel Hunter/WRI Brasil)
As
mudanças climáticas são uma ameaça real a produtores rurais no mundo todo. A
agricultura é altamente dependente da meteorologia, incluindo temperaturas
máximas e mínimas, quantidade de chuva, intensidade dos ventos e muitas outras
variáveis.
Estimativas
indicam que o clima adverso pode diminuir em 17% a produtividade da agricultura mundial. O Brasil, portanto, como grande produtor
agropecuário, tem a chance de implementar ações de sustentabilidade e tirar
proveito dessa circunstância.
Pesquisas
mostram que mudanças no padrão de chuva causadas pelas mudanças climáticas
podem reduzir drasticamente a produção de soja, uma das principais commodities
de exportação do país. Outro exemplo é o café, também importante para as
exportações. Estudos mostram que um aumento na temperatura pode reduzir em 95%
a área de produção de café em três estados brasileiros.
Manejo racional
A
Embrapa e outros centros de excelência em pesquisa têm indicado alternativas
para uma produção sustentável, de acordo com as diferentes áreas do Brasil. Uma
das opções é o consórcio lavoura-pecuária-floresta. Em vez de focar a
produção agrícola apenas em um tipo, os sistemas integrados
combinam esses três tipos.
Segundo a Embrapa, os sistemas integrados
produzem alimentos, energia, fibras, madeira e produtos florestais
não-madeireiros em uma mesma área, ao mesmo tempo ou em rotação.
Outra alternativa proposta
é a restauração de pastagem degradada. As pastagens degradadas são um dos maiores
problemas nas propriedades brasileiras, pois retêm menos água, possuem pasto
menos nutritivo para os animais e contribuem para uma pecuária de baixa rendimento.
Sistema agroflorestal no
Vale do
Paraíba, em São Paul
o (foto: Bruno Calixto/WRI Brasil)
A maneira mais
convencional de restauração envolve a aplicação de fertilizantes – mas não é a
mais sustentável, já que geralmente é preciso repetir as aplicações. As
pastagens degradadas podem ser recuperadas também pelo plantio de forrageiras
nativas ou pela introdução de árvores na pastagem, de forma a evitar a erosão. São
muitas as vantagens da restauração: redução da temperatura máxima local,
aumento da umidade do ar, melhor resistência contra secas e ondas de calor e
maior resiliência contra desastres naturais.
Um terceiro sistema proposto é projetos
agroflorestais. Eles integram árvores e lavouras em um sistema em
que cada planta tem seu próprio propósito e espaço próprio. A diversidade de
plantas agrícolas e árvores permite que o sistema produza o ano todo, o que é
muito importante para o agricultor familiar, já que ele terá renda independente
da estação.
As florestas
plantadas são outra opção indicada pelos cientistas. Este sustentável oferece tanto
benefícios ambientais – como a captura de gases de efeito estufa e a proteção
dos solos – quanto a possibilidade de ganho econômico por meio da
comercialização de madeira e produtos florestais não-madeireiros. A região tem alguns bons exemplos de
investimento como parâmetro.
Mudas de espécies nativas
para reflorestamento.
(foto: Rachel Biderman/WRI Brasil)
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