quinta-feira, 4 de novembro de 2021

REFLEXOS SEVEROS

 

Missões: os dilemas de uma região

com microclima de chuvas escassas

 

Pasto nativo na região todo o
ano castigado *Foto Roger Portela)

       Enquanto líderes mundiais de todas as latitudes discutem o futuro do clima no planeta, São Borja busca respostas por que, aqui e em municípios da região, as estiagens são tão frequentes e devastadoras. Estudos  acadêmicos com foco na segunda metade do século passado e início do século 21 mostram que a região das Missões no Rio Grande do Sul apresenta prolongadas e severas ausências de chuvas, escalonadas por hiatos de volumosas precipitações. Toda a população é afetada, mas particularmente a  produção agropecuária, diretamente dependente de condições normais de clima. Em território são-borjense, as lavouras e a criação de gado são os setores mais castigados.

        Bastam observações empíricas para constatar que, nesta microrregião gaúcha, a reposição hídrica é muito menor que nas demais áreas do Estado. Estas percepções são confirmadas por análises técnicas e que motivaram teses de mestrado e pós-graduação em universidades brasileiras. É o caso de trabalhos  apresentadas por     

Arnaldo de Araújo Ribeiro e João Afonso Zavattini, através da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidades Estadual Paulista (Unessp). Do mesmo modo, há tese de Melina Dornelles Severo Rohde, da  Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

     Um dos trabalhos acompanhou, por uma década, toda a região das Missões. Desde São Borja a Ijuí coleta e análise sistemática de dados, indicando que São Luiz Gonzaga é o epicentro das estiagens em território missioneiro. Um outro recorte trabalha com informações de Santo Antônio das Missões, com apoio de moradores urbanos e rurais. Os resultados s]ao semelhantes: são rotineiras as prolonagadas estiagens com alguns picos de chuva intensa.

 

      Agropecuária: reflexos

 



Roger Portela, 
diretor local do Irga.

  Neste contexto, a cultura orizícola vem perdendo extensão ano após ano em São Borja.  Claro que a conjuntura de mercado também contribui para isso, mas o clima é um dos principais fatores determinantes. O município já superou o cultivo de 50 mil hectares, há alguns anos, mas, mas a área  gradualmente encolhe. No ciclo 2020-202 foi de somente  36,9 mil hectares e deve reduzir ainda mais na nova etapa. O diretor da unidade local do Irga, Roger Portelas, projeta queda de 3,4% - algo como mil hectares -, mas, diante da sinalização de água escassa à irrigação, a área pode reduzir ainda mais. 

      As chuvas insuficientes e mal distraída comprometem, desde o ano passado,  não repuseram o nível das barragens. Em muitos casos elas estão com pouco mais de 50% da sua capacidade hídrica. Esses mananciais  respondem por 63% de toda a capacidade de irrigação.  Portela informa que o plantio da lavoura  já passa do 60%, “entretanto o produtor usa de cautela, e os meses de novembro serão bastante secos, segundo as precisões dos instituto de climatologia.”

       Já a Emater prevê aumento de cerca de 10% na futura lavoura de soja, projeção que, se confirmada, representará o plantio de 75 mil hectares no município. A semeadura, porém, ainda está em fase inicial. E como os próximos meses serão de chuva escassa, a tendência é de semeadura mais tarde, se as condições forem favoráveis, de acordo com o técnico agrícola Clóvis Schwengberg.


No arroz, projeção de mil hectares
a menos. (Foto Roger Portela)


     
A safra 2020-2021  teve quebra na ordem de 30%, em média, por causa do clima. O regime de chuva determinou  precipitações bastante heterogêneas, de acordo com a região do município. Enquanto isso, as áreas irrigadas chegam a somente 10%. A média de produção no ciclo passado não foi além dos 35 sacos por hectare.

      Outra interrogação  diz respeito à produção de milho. É lavoura alternativa, entretanto vem, gradativamente, ganhando expressão. Neste ano, contudo, a área do cedo deve ser impactada pelo clima, e as lavouras plantadas correm o risco de ficarem comprometidas na época de floração e formação de espigas. Outra ameaça é em relação à produção de hortifrutigranjeiros, quase toda sem irrigação e, portanto, dependente de chuvas normais.

      Quanto ao trigo, cultivado em [área de 20 mil a 25 mil hectares, foi impactado por estiagem na fase inicial. A projeção é de perda média de 10%. As lavouras mais tarde têm melhor desempenho e, com isso, o município deve colher 45 saco, ou 2,7 mil quilos por hectare.

    A pecuária de campo nativo enfrenta dificuldade de pastagens. Os longos períodos de estiagens comprometem a nutrição animal.  E tumbem as aguadas em regiões do município. O mercado para o gado gordo é favorável, entretanto a oferta é pequena.

 

            Futuro do clima

 


Compromisssos é reduzir aquecimento global.

       País que abriga 60% da Amazônia, o Brasil assina durante a COP26, em Glasgow, na Escócia, um acordo internacional essencial para a preservação das florestas. O acordo é um dos pontos relevantes na conferência  do clima,  que ocorrerá até 12 de novembro. O documento busca a definição de objetivos claros, em nível mundial, sobre a redução do desmatamento e da degradação dos solos até 2030. São medidas que, se adequadamente implementadas, diminuirão os impactos no meio ambiente, favorecendo, ao mesmo tempo, ao regime de chuvas.

     O documento, contudo, não é garantia de resultados, assim como outro subscrito pelo Brasil e cuja aplicabilidade terá impacto direto na produção agrícola.     Relatório do coletivo de ONGs Observatório do Clima mostra que as emissões de CO2 do Brasil aumentaram 9,5% em 2020, enquanto a média mundial caiu em 7% devido à pandemia de coronavírus, que reduziu o transporte e a produção industrial.

     A piora no Brasil é atribuída ao “aumento do desmatamento no ano passado, em especial na Amazônia, que colocou o Brasil na contramão do planeta”, diz o Observatório do Clima. Cientistas brasileiros como Alexandre Costa e Francisco Eliseu Aquino afirmam que o  desmatamento na Amazônia se reflete na escassez de chuvas no Sul do país, assim como contribuiu para um dos invernos mais rigorosos da história recente da região.

     A meta é impedir que o clima no planeta fique mais quente em 1,5ºC até 2050. Além do controle do desmatamento, está em jogo a substituição de combustíveis fósseis, geradores do efeito estufa. Entre os países desenvolvidos, a maioria caminha para a produção de carros elétricos ou a hidrogênio. Outra medida em expansão é a geração de energia limpas, como eólica e solar. Neste aspecto, o Brasil está progredindo, devido à crise energética geral.

 

     Sustentabilidade  no campo

 



Pastagem recuperada,

 pelo trabalho da Fazenda Ecológica 

(foto: Daniel Hunter/WRI Brasil)


     As mudanças climáticas são uma ameaça real a produtores rurais no mundo todo. A agricultura é altamente dependente da meteorologia, incluindo temperaturas máximas e mínimas, quantidade de chuva, intensidade dos ventos e muitas outras variáveis.

  Estimativas indicam que o clima adverso pode diminuir em 17%  a produtividade da agricultura mundial.  O Brasil, portanto, como grande produtor agropecuário, tem a chance de implementar ações de sustentabilidade e tirar proveito dessa circunstância.

    Pesquisas mostram que mudanças no padrão de chuva causadas pelas mudanças climáticas podem reduzir drasticamente a produção de soja, uma das principais commodities de exportação do país. Outro exemplo é o café, também importante para as exportações. Estudos mostram que um aumento na temperatura pode reduzir em 95% a área de produção de café em três estados brasileiros.

 

      Manejo racional

     

    A Embrapa e outros centros de excelência em pesquisa têm indicado alternativas para uma produção sustentável, de acordo com as diferentes áreas do Brasil. Uma das opções é o consórcio lavoura-pecuária-floresta. Em vez de focar a produção agrícola apenas em um tipo, os sistemas integrados combinam esses três tipos.

Segundo a Embrapa, os sistemas integrados produzem alimentos, energia, fibras, madeira e produtos florestais não-madeireiros em uma mesma área, ao mesmo tempo ou em rotação.

    Outra alternativa proposta é a restauração de pastagem degradada. As pastagens degradadas são um dos maiores problemas nas propriedades brasileiras, pois retêm menos água, possuem pasto menos nutritivo para os animais e contribuem para uma pecuária de baixa rendimento.





 Sistema agroflorestal no

 Vale do Paraíba, em São Paul

o (foto: Bruno Calixto/WRI Brasil)


A maneira mais convencional de restauração envolve a aplicação de fertilizantes – mas não é a mais sustentável, já que geralmente é preciso repetir as aplicações. As pastagens degradadas podem ser recuperadas também pelo plantio de forrageiras nativas ou pela introdução de árvores na pastagem, de forma a evitar a erosão. São muitas as vantagens da restauração: redução da temperatura máxima local, aumento da umidade do ar, melhor resistência contra secas e ondas de calor e maior resiliência contra desastres naturais.

     Um terceiro sistema proposto é projetos  agroflorestais. Eles  integram árvores e lavouras em um sistema em que cada planta tem seu próprio propósito e espaço próprio. A diversidade de plantas agrícolas e árvores permite que o sistema produza o ano todo, o que é muito importante para o agricultor familiar, já que ele terá renda independente da estação.

    As florestas plantadas são outra opção indicada pelos cientistas. Este sustentável oferece tanto benefícios ambientais – como a captura de gases de efeito estufa e a proteção dos solos – quanto a possibilidade de ganho econômico por meio da comercialização de madeira e produtos florestais não-madeireiros.  A região tem alguns bons exemplos de investimento como parâmetro.


Mudas de espécies nativas

 para reflorestamento.

 (foto: Rachel Biderman/WRI Brasil)


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