Da política ao futebol, testemunha
da História há quase sete décadas
Apaixonado por
rádio e futebol, José Antonio dos Santos Degrazia, 80 anos, (12/3/1941) é, além
de destacado cronista esportivo desde 1958, também um atento observador da cena
política nacional e internacional. Se o Brasil fosse uma partida de futebol, o
Judiciário mandaria no jogo, observa. Reconhece as muitas dificuldades do país,
mas vê o atual governo massacrado pela
oposição e pela “extrema mídia.”. Polarização? “Na Guerra Fria também foi
assim.“ Entende, ainda, que o atual sistema partidário inviabiliza os
estadistas e os resgates da nação.
Com curso de Direito incompleto, em Porto Alegre, Degrazia foi bancário (Banco
da Lavoura/MG e Banco da Bahia), atuando ainda na Cooperativa da Fronteira
Oeste de Carnes e Derivados Ltda. Munido dessas experiências, o uruguaianense depois
viria para São Borja para administrar os negócios agropecuários dos pais, na
herança do avô materno, Manoel Rodrigues dos Santos - Minéca.
A exitosa saga de radialista, José Antonio Degrazia começou em 16 de julho de 1959, na rádio Charrua de Uruguaiana. A seguir, foi estagiário na rádio Gaucha em Porto Alegre. Na sequência, voltou para Uruguaiana, agora para a rádio São Miguel, onde dirigiu os departamentos de Jornalismo e de Esportes. De maneira paralela, produziareportagens especiais para a Agência Nacional, rádio Vaticano e BBC. Na sequência, foi para a rádio Guaíba de Porto Alegre, vindo, depois, para São Borja. Na cidade, atuou na extinta rádio Fronteira do Sul. No final dos anos 1970 passou a trabalhar na rádio Cultura AM, onde permanece como comentarista. Já a partir dos anos 1980 passou a dirigir a recém criada rádio Fronteira FM.
No mundo do
esporte, Degrazia lamenta que a
Sociedade Esportiva São Borja tenha acabado e que, após, sua marca e sua
história não tenham sido mantidas. Como
cronista, a partir de 1958, trabalhou dois anos no jornal A Vanguarda, de
Uruguaiana. Na mídia impressa, após viria escrever para Folha de São Borja,
onde também permanece como colaborador, em temas gerais.
O atual entrevistado do BlogAlberiCogo, considera-se um homem sintonizado a seu tempo. Diz
que, “ao envelhecer parei de escutar o que as pessoas dizem. Agora só presto
atenção ao que elas fazem”. É casado com Maria Izabel Buzato. Degrazia tem
dois filhos - Rodrigo Degrazia e Diogo Degrazia. As noras são Lidiane Rodrigues Degrazia e Moana Ferrão
Degrazia. Já os netos são : Matheus, Mariana, Helena, Bernardo e Bento
Alberi Cogo -Todos aqueles que, como José Antônio
Degrazia, têm marcada a sua longa
trajetória como homem de imprensa, têm o privilégio, também, de estar
testemunhando sucessivas revoluções no
setor nas últimas décadas. Foi mais romântica e prazerosa a atividade no
passado ou é agora, com a comunicação em
tempo real? E por quê?
José Antonoi
Degrazia - Não sou saudosista, gosto de
ter saudades. É bom remexer nas gavetas do tempo e lembrar o passado. Mas o
passado não existe mais e o futuro é sempre uma grande incógnita. Então, é
preciso viver o presente, sempre, na sua plenitude. O mundo das comunicações
avança em ritmo avassalador, de forma impressionante. E me sinto muito bem,
inserido nele.
AC - A sua imagem é
sempre associada ao cronista, ao narrador esportivo. O futebol e os demais
esportes que se praticava há 30, 40 anos, tinham maior apelo e motivação ao
torcedor do que têm atualmente?
JAD –
Sinceramente, não gosto de comparar épocas. Os tempos mudam quase tudo. No
futebol, como na política, ficam apenas as paixões que são transmitidas através
das gerações. Em alguns casos, nem isso.
Hoje, a televisão reduziu muito o público dos estádios. Antes, quem
tinha condições viajava mil quilômetros para ver os grandes craques em ação.
Agora, é possível assistir em um mesmo dia, sem sair de casa, os principais
certames do Brasil e do Mundo. Até as emissoras de rádio usam a TV para
transmitir os jogos desde os seus estúdios.
AC - Há quem diga que o futebol de modo geral, hoje, é acima
de tudo um negócio e, por consequência, também serve a aproveitadores. Tem sentido essa afirmativa ou é um exagero?
JAD - Sim, faz todo sentido sem exagero algum.
Prova disso é o grande número de dirigentes de entidades como a FIFA, a CBF e
outras, presos ou respondendo processos por corrupção. Nos clubes, também,
acarretando graves problemas às entidades. Casos de Barcelona (Espanha) e Milan
(Itália); Cruzeiro-MG, Botafogo e Vasco-RJ e outros.
AC - Há consenso
que o futebol movimenta bilhões. Há consenso, igualmente, que educação é o
principal agente transformador de uma nação. O futebol, então, não poderia
ajudar no processo de transformação da sociedade?
JAD – De certa forma ele já vem ajudando
através das categorias de base dos clubes e da própria Confederação Brasileira
de Futebol, apesar do dinheiro envolvendo dirigentes e empresários dos jovens
jogadores, em alguns casos. Penso que as escolas e as universidades, como
acontece nos EUA, na Grã-Bretanha, na França, na Alemanha e outros países,
deveriam inserir não apenas o futebol, mas alguns esportes olímpicos. Esse é o
caminho.
AC - Depois da existência de Cruzeiro e de Internacional na cidade, há algumas décadas, sob várias versões surgiu o São Borja, mas não tem conseguido garantir estabilidade. Na sua opinião, o que é preciso fazer para que haja longevidade?
JAD - Peço
desculpas ao amigo Alberi Cogo, mas da fusão Cruzeiro-Internacional, na cidade,
só surgiu uma entidade - a Sociedade Esportiva São Borja, nascida em 1977 e
morta no início dos anos 1990. As outras “versões” não passaram de tentativas
de reviver o futebol profissional na cidade. Acho que o erro maior foi o uso do
nome, do distintivo, das cores e em alguns casos da apropriação da história da
Sociedade Esportiva São Borja, o único e verdadeiro Bugre das Missões. Também
misturaram futebol com política. Isso nunca deu certo. E formaram “equipes
transitórias” com jogadores de fora, para determinadas competições apenas. Zero
aproveitamento dos valores da terra, sempre um bom celeiro de craques. Gostaria
de ver surgir uma nova entidade, desligada do falecido “Bugre das Missões”, com
projetos sólidos e bases bem assentadas neste chão sagrado.
AC - Trocando o ‘jazz’, os seus comentários na Rádio Cultura
AM têm abordado, além do esporte, também a cena sociopolítica nacional e
internacional. Como vê a atual polarização política no Brasil? Sempre foi assim
ou está chegando ao seu ápice?
JAD – No tempo
da Guerra Fria (1947 a 1989), entre os EUA e a URSS, o mundo se tornou bipolar,
um de ideologia capitalista (EUA) e outra socialista (URSS) formando dois
grandes blocos, e o resto do mundo se viu obrigado a escolher um dos lados para
se aliar e obter recursos, além de proteção. E o “espetáculo” continua, agora
com a entrada de novos protagonistas em um teatro que está virando de terror.
AC - Qual é a sua perspectiva para as eleições de 2022?
JAD –
Sinceramente, não faço a menor ideia do que possa acontecer nas eleições do ano
que vem. Hoje, praticamente um ano antes, o quadro é desanimador para o
eleitor. Por enquanto está tudo nas mãos do Poder Judiciário, que detém as
rédeas da Nação.
AC - O Brasil teve, a partir de 2010, mais uma década perdida
e, sem intervalo, a pandemia, o aumento da fome, da desigualdade, do desemprego
crescente e a inflação em alta em quase tudo. Como superar tamanha crise?
JAD - É evidente que a pandemia da Covid-19 agravou
uma situação que vinha de longe, desde antes de 2010. O próprio ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, contava que no Exterior fornecia números exagerados
para determinados casos, certo de que ninguém iria conferir. E ria disso. Como
acreditar, então, nos dados oficiais da época? A crise do momento é gerada em
parte pela pandemia e complementada pela oposição ferrenha ao governo
legalmente eleito em 2018, extremamente prejudicial aos interesses do Brasil.
Exatamente aqueles que pregam e exigem democracia, defendem governos
totalitários e lutam pela desestabilização do atual governo brasileiro. Assim,
inexiste fórmula para superar essa crise.
AC - No atual cenário
da política nacional, o Brasil tem algum um líder com visão de estadista
e que consiga unir a nação?
JAD – Entre as qualidades exigidas de um
verdadeiro Estadista, está a de que deva exercer liderança política com
sabedora e sem limitações partidárias. Mesmo que exista alguém com visão
política, conseguiria ele ou ela superar essas “limitações partidárias” atualmente,
governando dentro dos ditames da Constituição, e de forma democrática? Nunca!
AC - Como vê a posição normalmente enviesada ou parcial da grande mídia nacional?
JAD – Vejo a
“extrema mídia” com tristeza e preocupação, pois na defesa intransigente de
interesses escusos e obscuros, pode levar o pas ao caos. “O controle dos meios
de comunicação modernos dá a grupos poderosos e cartéis uma força esmagadora e
quase invencível. Os poderosos podem não aumentar a própria estatura, mas lhes
é muito fácil rebaixar o teto”, como dizia Millôr Fernandes.
ÁC - Para quem é da chamada velha guarda e como homem que
dirigiu emissoras de rádio, como vê a música que se produz, hoje, no Brasil?
JAD – Em algumas
coisas sou conservador sim, e a música é uma delas. Gosto da música com
melodia, letra, orquestração e interpretação. Sou um romântico incorrigível.
Hoje os meus netos gostam das produções atuais. É o tempo deles, bem diferente
do meu. Fico com as minhas relíquias e respeito os gostos dos outros.
AC – Por favor, uma mensagem de futuro e sobre os seus
planos.
JAD - Mensagem
às Pedras do Deserto
“Se és incapaz
de sonhar, nasceste velho. Se o teu sonho te impede de agir segundo as
realidades, nasceste inútil; se, porém, sabes transformar sonhos em realidades
que encontram com a luz do teu sonho, então serás grande na tua pátria e a tua
pátria será grande em ti”. (Plínio
Salgado).
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