sexta-feira, 12 de novembro de 2021

ENTREVISTA: Roque Langendolff Feltrin

  

“A dualidade em São Borja está com

dias contados. E sem caça às bruxas”


Roque Feltrin: uma vida em família

e voltada para valores espirituais.


, Roque Langendolff Feltrin faz uma exortação: que as pessoas sejam menos egoístas e julguem menos aos outros.  Ele avalia que a divisão na cidade está chegando ao fim. Com a esposa, Jaqueline,  ele mantém um local de retiros, uma Casa de Curas, para terapias de  refazimentos emocionais e espirituais. “As pessoas vivem com o olhar no passado, caminham em direção ao futuro e se esquecem de viver o hoje. Falta-nos compreender que a única coisa que temos é a próxima respiração”.

Como vice-prefeito e agente público, não acha que resolve mudar regras político-eleitorais no país:  “O que tem de mudar são essas defesas intransigentes de posições meramente pessoais”. Vê   problemas nas nomeações políticas no Judiciário, “que age como o Executivo”.  Lamenta que o atual modelo federativo retire o dinheiro dos municípios, e lembra que, por isso, São Borja deixar de fazer obras importantes.

Roque Feltrin tem curso de Direito, mas sem exercer a advocacia. Desenvolve atividades rurais nas localidades de Olavo Viana e Nhu-Porã. Foi funcionário no antigo supermercado Trevisan, assim como do Ministério da Agricultura. Atuou igualmente como serventuário da Justiça do RS, onde se aposentou em 2017.

Na área política, foi vereador por duas legislaturas, de 2009 a 2016. Em 2013,  foi presidente da Câmara Municipal de Vereadores. Na sequência, foi eleito vice-prefeito de São Borja por dois mandatos.

É natural de Santa Maria e veio com a família para a cidade, em 1964, quando tinha  dois meses de idade. Circunstância inusitada, contudo,  o considera como são-borjense na certidão de nascimento. Feltrin conta que seu pai foi a Santa Maria, na época, exclusivamente para fazer o registro dele, Roque. “Entretanto, como esqueceu a data de meu nascimento, voltou sem o registo. Mas, para não perder a viagem, registrou em Santa Maria outros quatro filhos, estes sim nascidos em São Borja. Com isso, sou o último filho de uma família de 10 irmãos que nasceu em Santa Maria, porém que tenho o assento de registro em São Borja”.

Feltrin  faz questão de destacar que é católico praticante e leva “uma vida em família no estilo monástico, no sentido de frequentar eventos de glamour ou exposição social”. Acredita que o ser humano precisa “domar seu ego e frear seus julgamentos, aprendendo o que de fato é o amor, onde encontrá-lo e como vive-lo”.  Acrescenta que ”tenho concentrado boa parte do meu tempo na busca dessa compreensão para, a partir dela, ajudar pessoas a viverem melhor”. É casado há 32 anos com Jaqueline Pinheiro Feltrin, 32 anos. O casal tem dois  filhos -  Lohana, advogada, residente em Santa Maria, e Péricles, cientista da Computação, residente em Porto Alegre. Ambos são casados e profissionalmente independentes.

 

Alberi Cogo - O senhor é reconhecido como um homem de gestão. E, na  administração municipal, já foi duas vezes eleito vice-prefeito, assumindo agora o Executivo com mais frequência, em função do afastamento temporário do prefeito Eduardo Bonotto para presidir a Famurs. Que avaliação faz dessa longa experiência?

 

Roque Feltrin - Em primeiro lugar, estar na Prefeitura em parceira com o atual prefeito e a equipe de servidores é algo extremamente gratificante. Fazer gestão é preciso harmonia e entendimento entre aqueles que compõem qualquer administração e aqui temos isso. Tenho me colocado no meu lugar – vice-prefeito – e, com as viagens do prefeito Bonotto, não há que se “inventar a roda”; apenas dar sequência ao trabalho que vem sendo realizado. A coligação não está alicerçada cem bases e desejos pessoais, mas num projeto para São Borja. Com isso, sempre se sabe o rumo a seguir e o desempenho do mandato se torna uma atividade leve e agradável.

 

AC - Como atento observador das rotinas na administração municipal são-borjense,  que avanços mais significativos o senhor identifica a partir da chegada à Prefeitura da parceria Bonotto-Feltrin?

 

RF - O primeiro e principal avanço é, sem sombra de dúvidas, o resgate da credibilidade na administração municipal. Nossa ação colocou em dia pesadas dívidas do Município, aperfeiçoou e qualificou a educação e a saúde, inclusive com a chegada da Oncologia no SUS. Vieram também o desenvolvimento social, o incremento à agricultura familiar. Do mesmo modo que também acontecem os cuidados com as estradas rurais e os vultosos investimentos na infraestrutura do município. Outro avanço como exemplo é na modernização e simplificação de procedimentos administrativos, facilitando a vida do cidadão. 

 

AC - A queixa recorrente no atual modelo federativo brasileiro é que a União centraliza quase todas as receitas e as transforma  em capital político. Na atual conjuntura, o que dá para mudar?

 

RF - Precisamos insistir num novo pacto federativo, no qual as receitas sejam redistribuídas e a maior parte fique nos municípios. Os municípios são o primo pobre da federação, mas com a responsabilidade direta por todas as políticas públicas que afetam a população. Para que ocorra essa mudança é necessário escolher deputados federais e senadores comprometidos com a causa municipalista, pois é no Congresso Nacional que são criadas todas as regras de repartição dos recursos arrecadados.

 

AC - Ainda considerando esse cobertor curto, de recursos escassos, dê exemplos de ações pretendidas nos últimos anos, mas que se viram inviabilizadas por falta de condições de investimentos?

 

RF - A  brutal concentração de recursos na União nos leva a adiar investimentos em novas pavimentações e de recuperação de várias ruas, como a Tancredo Neves e vias  centrais. A escassez de recursos também impossibilita a pavimentação do anel viário de São Borja. Também retarda ou torna moroso a recuperação de prédios públicos em que são assegurados serviços à população. Mesmo assim, conseguimos investimentos vultosos que resultaram em obras e serviços a nossa população.

 

AC - Em seu período como vereador, o senhor conheceu o Legislativo de perto. O que mudaria no formato atual de atuação da instituição nas suas várias esferas?  

 

RF - A questão não mudar o formato ou modelo de atuação da instituição, mas construir um consenso de pautas positivas com os vereadores. A afinal, a administração municipal e os vereadores têm suas pautas e muitos pontos são convergentes. É nesses pontos que precisamos focar e aproveitá-los para levar  a efeito o plano de governo aprovado nas urnas.

 

AC -  E sobre a política brasileira praticada nas últimas décadas, seguidamente ouve-se que é um modelo falido? O senhor também pensa assim? Que mudanças vê necessárias?

 

RF -A prática política no Brasil vem sendo exercida de forma casuísta. Pouco adianta mudar o modelo, se não mudar a mentalidade daquele que escolhe e a daquele que é escolhido para cargos de representação. Essa postura perniciosa está estampada pelas defesas intransigentes de posições meramente pessoais através de leis e autorizações com fins exclusivamente eleitoreiros. Sem uma mudança de consciência, pouco adiantará mudar as regras, elas serão sempre burladas.

 

AC - O senhor é ligado às ciências jurídicas e, antes da atividade política, atuou como servidor do Judiciário. Como tem acompanhado as decisões mais recentes das cortes superiores da Justiça?

RF - O grande problema são as indicações por mérito político. Com isso temos visto o Judiciário decidindo como se fosse o Executivo, inclusive em alguns casos ditando políticas públicas. Felizmente, essa fase está passando e espera-se que as coisas voltem ao normal, com cada um cumprindo apenas a sua função constitucional.

 

AC -  Roque Feltrin é também um homem de letras, com livros publicados. Nos detalhe mais, por favor. Alguma nova obra pela frente?

 

RF - O livro Rompendo Fronteiras tem como ponto central o despertar e a motivação ao empreendedorismo. São cases de pessoas e empresas que, a partir de São Borja, alcançaram sucesso em nível nacional e algumas, inclusive, projeção internacional. Mostramos que a distância não é obstáculo para o alcance do sucesso. Atualmente estou voltado às atividades da Prefeitura e ao auxilio a pessoas, para uma vida mais leve através da prática da hipnoterapia (hipnose), constelação sistêmica e respiração sistêmica. Esse trabalho desenvolvo em conjunto com minha esposa Jaqueline, através de atendimentos individuais ou coletivos.

 

AC -  Outra marca pessoal é sua fé religiosa. Nesse momento de tantas tribulações trazidas pela  pandemia, está faltando mais fé e religiosidade à humanidade?

 

RF - A questão central não é a falta de fé. Até mesmo aquele que diz não crer em nada, coloca sua fé na não crença.  As pessoas vivem com o olhar no passado, caminham em direção ao futuro e se esquecem de viver o hoje. Falta-nos compreender que a única coisa que temos é a próxima respiração. Se não a tivermos, não teremos mais nada. A maior tribulação do ser humano nasce no seu ego, o qual eu digo que é uma oposição ao amor. Com o ego, vem o julgamento e, ambos, dão origem a todos os males. E quando o ego e o julgamento entram em cena não adianta falar em religiosidade ou fé religiosa. Isso será apenas uma justificativa para tentar aplacar as tribulações da vida.

 

AC - Há uma espécie de consenso de que São Borja tem no seu DNA uma polarização, uma espécie de grenalização incorrigível.  Se verdadeira a afirmativa, que exortação o senhor faz pela unidade?

 

RF - Essa dualização está com os dias contados. Ela vem de uma época na qual as pessoas tinham poucas informações. Por causa dela, em outros tempos, perdemos grandes oportunidades. Hoje há um quase consenso de que essa prática é extremamente prejudicial e já não há razão de ser. Temos conseguido demonstrar isso na atual administração. Assumimos e não fizemos a tradicional “caça às bruxas”. Ao contrário, sempre primamos pelo diálogo e a integração de todos, pois compreendemos que, mesmo com visões de mundo diferente, todos têm algo de bom a contribuir. E é justamente neste algo de bom que acreditamos na unidade para a construção de uma cidade melhor para todos, apesar das divergências.

 

AC - Nos campo político e pessoal, quais são os seus planos, vice-prefeito?

 

RF - No campo pessoal, estamos colocando em prática, na Morada Aconchego, uma espécie de “Casa de Cura”, onde as pessoas que se sentem tribuladas poderão se retirar, se recompor emocionalmente, voltando a uma vida mais leve, plena e feliz. No campo político, temos dois grandes objetivos: levar adiante, juntamente com o prefeito Bonotto, o projeto de desenvolvimento de São Borja, e; envidar esforços para a vitória de Eduardo Leite na convenção do PSDB e, por consequência, ascender ao Planalto e tomar posse como presidente da República.

 

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