“A dualidade em São Borja está com
dias contados. E sem caça às bruxas”
Roque Feltrin: uma vida em família
e voltada para valores espirituais.
, Roque Langendolff Feltrin faz uma exortação: que as pessoas sejam menos egoístas e julguem menos aos outros. Ele avalia que a divisão na cidade está chegando ao fim. Com a esposa, Jaqueline, ele mantém um local de retiros, uma Casa de Curas, para terapias de refazimentos emocionais e espirituais. “As pessoas vivem com o olhar no passado, caminham em direção ao futuro e se esquecem de viver o hoje. Falta-nos compreender que a única coisa que temos é a próxima respiração”.
Como
vice-prefeito e agente público, não acha que resolve mudar regras
político-eleitorais no país: “O que tem
de mudar são essas defesas intransigentes de posições meramente pessoais”. Vê problemas nas nomeações políticas no
Judiciário, “que age como o Executivo”. Lamenta que o atual modelo federativo retire o
dinheiro dos municípios, e lembra que, por isso, São Borja deixar de fazer
obras importantes.
Roque
Feltrin tem curso de Direito, mas sem exercer a advocacia. Desenvolve atividades
rurais nas localidades de Olavo Viana e Nhu-Porã. Foi funcionário no antigo
supermercado Trevisan, assim como do Ministério da Agricultura. Atuou
igualmente como serventuário da Justiça do RS, onde se aposentou em 2017.
Na
área política, foi vereador por duas legislaturas, de 2009 a 2016. Em 2013, foi presidente da Câmara Municipal de
Vereadores. Na sequência, foi eleito vice-prefeito de São Borja por dois
mandatos.
É
natural de Santa Maria e veio com a família para a cidade, em 1964, quando
tinha dois meses de idade. Circunstância
inusitada, contudo, o considera como
são-borjense na certidão de nascimento. Feltrin conta que seu pai foi a Santa
Maria, na época, exclusivamente para fazer o registro dele, Roque. “Entretanto,
como esqueceu a data de meu nascimento, voltou sem o registo. Mas, para não
perder a viagem, registrou em Santa Maria outros quatro filhos, estes sim
nascidos em São Borja. Com isso, sou o último filho de uma família de 10 irmãos
que nasceu em Santa Maria, porém que tenho o assento de registro em São Borja”.
Feltrin faz questão de destacar que é católico
praticante e leva “uma vida em família no estilo monástico, no sentido de frequentar
eventos de glamour ou exposição social”. Acredita que o ser humano precisa “domar
seu ego e frear seus julgamentos, aprendendo o que de fato é o amor, onde
encontrá-lo e como vive-lo”. Acrescenta
que ”tenho concentrado boa parte do meu tempo na busca dessa compreensão para,
a partir dela, ajudar pessoas a viverem melhor”. É casado há 32 anos com Jaqueline
Pinheiro Feltrin, 32 anos. O casal tem dois filhos - Lohana, advogada, residente em Santa Maria, e
Péricles, cientista da Computação, residente em Porto Alegre. Ambos são casados
e profissionalmente independentes.
Alberi
Cogo - O senhor é reconhecido como um homem de gestão. E, na
administração municipal, já foi duas vezes eleito vice-prefeito,
assumindo agora o Executivo com mais frequência, em função do afastamento
temporário do prefeito Eduardo Bonotto para presidir a Famurs. Que avaliação
faz dessa longa experiência?
Roque
Feltrin - Em primeiro lugar, estar na Prefeitura em parceira com o atual
prefeito e a equipe de servidores é algo extremamente gratificante. Fazer
gestão é preciso harmonia e entendimento entre aqueles que compõem qualquer
administração e aqui temos isso. Tenho me colocado no meu lugar – vice-prefeito
– e, com as viagens do prefeito Bonotto, não há que se “inventar a roda”; apenas
dar sequência ao trabalho que vem sendo realizado. A coligação não está
alicerçada cem bases e desejos pessoais, mas num projeto para São Borja. Com
isso, sempre se sabe o rumo a seguir e o desempenho do mandato se torna uma
atividade leve e agradável.
AC
- Como atento observador das rotinas na administração municipal são-borjense,
que avanços mais significativos o senhor identifica a partir da chegada à
Prefeitura da parceria Bonotto-Feltrin?
RF
- O primeiro e principal avanço é, sem sombra de dúvidas, o resgate da
credibilidade na administração municipal. Nossa ação colocou em dia pesadas
dívidas do Município, aperfeiçoou e qualificou a educação e a saúde, inclusive
com a chegada da Oncologia no SUS. Vieram também o desenvolvimento social, o
incremento à agricultura familiar. Do mesmo modo que também acontecem os
cuidados com as estradas rurais e os vultosos investimentos na infraestrutura
do município. Outro avanço como exemplo é na modernização e simplificação de
procedimentos administrativos, facilitando a vida do cidadão.
AC
- A queixa recorrente no atual modelo federativo brasileiro é que a União
centraliza quase todas as receitas e as transforma em capital
político. Na atual conjuntura, o que dá para mudar?
RF
- Precisamos insistir num novo pacto federativo, no qual as receitas sejam
redistribuídas e a maior parte fique nos municípios. Os municípios são o primo
pobre da federação, mas com a responsabilidade direta por todas as políticas
públicas que afetam a população. Para que ocorra essa mudança é necessário
escolher deputados federais e senadores comprometidos com a causa
municipalista, pois é no Congresso Nacional que são criadas todas as regras de
repartição dos recursos arrecadados.
AC
- Ainda considerando esse cobertor curto, de recursos escassos, dê exemplos de
ações pretendidas nos últimos anos, mas que se viram inviabilizadas por falta
de condições de investimentos?
RF
- A brutal concentração de recursos na
União nos leva a adiar investimentos em novas pavimentações e de recuperação de
várias ruas, como a Tancredo Neves e vias centrais. A escassez de recursos também
impossibilita a pavimentação do anel viário de São Borja. Também retarda ou
torna moroso a recuperação de prédios públicos em que são assegurados serviços
à população. Mesmo assim, conseguimos investimentos vultosos que resultaram em
obras e serviços a nossa população.
AC
- Em seu período como vereador, o senhor
conheceu o Legislativo de perto. O que mudaria no formato atual de atuação da
instituição nas suas várias esferas?
RF
- A questão não mudar o formato ou modelo de atuação da instituição, mas
construir um consenso de pautas positivas com os vereadores. A afinal, a
administração municipal e os vereadores têm suas pautas e muitos pontos são
convergentes. É nesses pontos que precisamos focar e aproveitá-los para
levar a efeito o plano de governo
aprovado nas urnas.
AC
- E sobre a política brasileira praticada nas
últimas décadas, seguidamente ouve-se que é um modelo falido? O senhor também
pensa assim? Que mudanças vê necessárias?
RF
-A prática política no Brasil vem sendo exercida de forma casuísta. Pouco
adianta mudar o modelo, se não mudar a mentalidade daquele que escolhe e a
daquele que é escolhido para cargos de representação. Essa postura perniciosa
está estampada pelas defesas intransigentes de posições meramente pessoais
através de leis e autorizações com fins exclusivamente eleitoreiros. Sem uma
mudança de consciência, pouco adiantará mudar as regras, elas serão sempre
burladas.
AC
- O senhor é ligado às ciências jurídicas e, antes da atividade política, atuou
como servidor do Judiciário. Como tem acompanhado as decisões mais recentes das
cortes superiores da Justiça?
RF
- O grande problema são as indicações por mérito político. Com isso temos visto
o Judiciário decidindo como se fosse o Executivo, inclusive em alguns casos
ditando políticas públicas. Felizmente, essa fase está passando e espera-se que
as coisas voltem ao normal, com cada um cumprindo apenas a sua função
constitucional.
AC
- Roque Feltrin é também um homem de
letras, com livros publicados. Nos detalhe mais, por favor. Alguma nova obra
pela frente?
RF
- O livro Rompendo Fronteiras tem como ponto central o despertar e a
motivação ao empreendedorismo. São cases de pessoas e empresas que, a
partir de São Borja, alcançaram sucesso em nível nacional e algumas, inclusive,
projeção internacional. Mostramos que a distância não é obstáculo para o
alcance do sucesso. Atualmente estou voltado às atividades da Prefeitura e ao
auxilio a pessoas, para uma vida mais leve através da prática da hipnoterapia
(hipnose), constelação sistêmica e respiração sistêmica. Esse trabalho
desenvolvo em conjunto com minha esposa Jaqueline, através de atendimentos
individuais ou coletivos.
AC
- Outra marca pessoal é sua fé religiosa.
Nesse momento de tantas tribulações trazidas pela pandemia, está faltando
mais fé e religiosidade à humanidade?
RF
- A questão central não é a falta de fé. Até mesmo aquele que diz não crer em
nada, coloca sua fé na não crença. As
pessoas vivem com o olhar no passado, caminham em direção ao futuro e se
esquecem de viver o hoje. Falta-nos compreender que a única coisa que temos é a
próxima respiração. Se não a tivermos, não teremos mais nada. A maior
tribulação do ser humano nasce no seu ego, o qual eu digo que é uma oposição ao
amor. Com o ego, vem o julgamento e, ambos, dão origem a todos os males. E
quando o ego e o julgamento entram em cena não adianta falar em religiosidade
ou fé religiosa. Isso será apenas uma justificativa para tentar aplacar as
tribulações da vida.
AC
- Há uma espécie de consenso de que São Borja tem no seu DNA uma polarização,
uma espécie de grenalização incorrigível. Se verdadeira a afirmativa, que
exortação o senhor faz pela unidade?
RF
- Essa dualização está com os dias contados. Ela vem de uma época na qual as
pessoas tinham poucas informações. Por causa dela, em outros tempos, perdemos
grandes oportunidades. Hoje há um quase consenso de que essa prática é
extremamente prejudicial e já não há razão de ser. Temos conseguido demonstrar
isso na atual administração. Assumimos e não fizemos a tradicional “caça às
bruxas”. Ao contrário, sempre primamos pelo diálogo e a integração de todos,
pois compreendemos que, mesmo com visões de mundo diferente, todos têm algo de
bom a contribuir. E é justamente neste algo de bom que acreditamos na unidade
para a construção de uma cidade melhor para todos, apesar das divergências.
AC
- Nos campo político e pessoal, quais são os seus planos, vice-prefeito?
RF - No campo pessoal, estamos colocando em
prática, na Morada Aconchego, uma espécie de “Casa de Cura”, onde as pessoas
que se sentem tribuladas poderão se retirar, se recompor emocionalmente,
voltando a uma vida mais leve, plena e feliz. No campo político, temos dois
grandes objetivos: levar adiante, juntamente com o prefeito Bonotto, o projeto
de desenvolvimento de São Borja, e; envidar esforços para a vitória de Eduardo
Leite na convenção do PSDB e, por consequência, ascender ao Planalto e tomar
posse como presidente da República.
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