sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

ENTREVISTA: Geder Luis Parzianello

 

Populismo, desinformação e ataques ao Judiciário

e à imprensa projetam cenário incerto para o País


Geder e Sadra  Parzianiello com o  filho Lucas,
que reside nos Estados Unidos.  “Os brasileiros
se informam pouco e se informam mal.”


 A política e os políticos brasileiros seriam reprovados caso se submetessem a uma avaliação do professor Geder na Unipampa – ele um cidadão do mundo e dono de uma lucidez privilegiada. Mesmo defendendo as utopias como vetores de motivação e de protagonismo, ele rechaça as práticas populistas da rotina nacional, em todos os espectros ideológicos, e defende reformas saneadoras. Acha, porém, que o Parlamentarismo não seria solução, por ampliar ainda mais os ganhos e poderes de um Congresso Nacional já largamente favorecido. Diz estar preocupado com a “desinformação” rondando as eleições do próximo ano. Neste contexto, preocupam, por exemplo, os auxílios temporários “usados como discursinho de ajuda social, como favor de um político ou um partido ou um governo, e não como um direito social.”  

Natural de Ijuí, no Noroeste gaúcho, Geder Luis Parzianello, 54 anos, avalia que André Mendonça mudou o próprio discurso para ser aprovado novo ministro do STF. Ainda assim, enxerga uma campanha de deslegitimação contra o Judiciário.  Vê igualmente atacadas a imprensa, as universidades, a ciência e a cultura. Quanto à imprensa, contudo, considera que se ocupa de questões estéreis, deixando à margem as grandes demandas da superação dos muitos problemas econômicos e sociais no país.

O professor Geder é Cidadão São-borjense, distinção conferida em 2017 pela Câmara Municipal, por iniciativa do vereador Celso Lopes. É  doutor em Comunicação Social pela PUCRS, com pós-doutorado na Universität Paderborn, Alemanha (Bolsa Capes 2012/2013). É mestre em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e bacharel em Comunicação Social/ Jornalismo pela PUCRS. Atualmente é professor associado classe D nível III na Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Atuou como membro do grupo gestor de implantação da universidade  (entre 2008 e 2012). É pesquisador associado ao Centre dEtude des Discours da Université Paris-Est Créteil (Paris XII) e da Universidade de Helsinki, integra o grupo científico europeu Kontrastive Medienlinguistik e a rede de pesquisadores KULI Kulturbezogene und kulturanalytische Linguistik. Foi professor visitante  (Gastprofessur) na Universität zu Köln e pesquisador convidado da Università Degli Studi Roma Tre, na Itália. Atuou como  professor colaborador credenciado ao Programa de Mestrado Acadêmico em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), na linha de Pesquisa Mídia, Cotidiano e Imaginário, e professor concursado de Teorias da Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Tem experiência no mercado profissional, na área de Comunicação e Jornalismo. Interessa-se por estudos teóricos e epistemológicos. Estuda linguagem, discurso e retórica contemporânea.

Além de professor com experiência em universidades, inclusive estrangeiras, atuou como repórter, editor e redator em jornais e revistas, foi gerente de rádio e assessor de imprensa. Trabalhou em gestão acadêmica. Por seis anos consecutivos, foi membro do grupo de implantação da Unipampa e coordenou, em duas universidades federais, a área de Comunicação Social de duas reitorias.

Bolsista do CNPq, da Fapergrs e da Capes em diferentes períodos de atuação, tem investido na internacionalização da universidade. No seu trabalho como pesquisador,  conciliou trabalhos no Brasil e no exterior. Leciona na graduação e na pós-graduação da Unipampa e da Universidade Aberta do Brasil (UAB), nos cursos de Comunicação não Violenta e Cultura de Paz e de Mídia e Educação. Atuou na criação da primeira faculdade de Jornalismo em Moçambique, na África.

Geder é defensor da ideia de que “só os obstinados vencem.” Inspirado no exemplo de trabalho de seus avós, imigrantes, e nos exemplos de atletas, artistas e profissionais das diversas áreas, bem sucedidos, entende que “as conquistas exigem empenho e mesm assim são sempre difíceis. Mas não há outro caminho para alcançá-las. “Quando alguém tem uma conquista, não falta quem lhe diga que foi sorte, quando na maioria das vezes, exceto quando é por privilégio, as conquistas são fruto de muito trabalho, trabalho real, dedicação incansável, foco e determinação, com muito planejamento.  Os resultados não chegam por acaso.”  Ainda destaca como filosofia de vida: “Sempre me inspirei no melhor que tinham a me mostrar os meus melhores professores e logo percebi que os que se destacavam (naquilo que para eles era importante) não havia hora, nem dia, para trabalhar”.

Geder Parzianello soube que estava por ser criada a Universidade Federal do Pampa e se voluntariou para vir para São Borja, transferindo-se como servidor público para auxiliar no processo de implantação da Unipampa. Quando chegou, a  universidade nem existia oficialmente: parte era extensão da UFSM, a Federal de Santa Maria, e outra parte da UFPel, a Federal de Pelotas. Foi transferido para a UFSM e só, depois, designado para a Unipampa. Na chegada, Parzianello foi convidado pela reitora Maria Beatriz Luce a assumir o cargo na reitoria como coordenador da ACS - Assessoria de Comunicação Social. “Era um trabalho intenso, abrangendo os dez campi da instituição, quase tudo presencial”, lembra. Ficava a semana fora, “perpassando as dez cidades da região Meso-Sul em que a universidade está situada”. A saga durou seis anos, divulgando e consolidando a Unipampa na comunidade gaúcha.

O jornalista, professor e tradutor Geder Parzianello é casado com a jornalista e cientista política Sandra Barbosa Parzianello, atualmente concluindo seu doutorado em Ciência Política pela UFPel e bolsista da Capes. Sandra atuou também como jornalista e assessora de comunicação em São Borja desde a chegada em 2008. O casal tem um filho, Lucas, hoje com 25 anos e que há quase quatro mora nos Estados Unidos, estudando e trabalhando também na área da Comunicação. Firma-se como um “um cidadão do mundo.” Geder faz questão de ressaltar que “acho que fizemos um bom trabalho, como pais, e apesar da saudade e da distância, sabemos que ele encontrou seu caminho e está feliz e não há outra coisa que nós pais queremos para nossos filhos, não é mesmo?”. A seguir, a imperdível leitura da entrevista ao BlogAlberiCogo.


Natal de 2019, em Illinois, EUA, revezando
das viagens habituais à Alemanha.
“O Brasil vive a cultura do ódio.”

 

Alberi Cogo -  Em menos de um ano, o Brasil terá eleições gerais. Para presidente, tudo indica, deverá ser um pleito dramático, e não apenas pela  beligerância entre direita e esquerda ou a aparente inconsistência e difícil unidade de uma terceira via, ao centro. O país enfrenta, além disso, uma das suas graves crises nos campos social e econômico – com desemprego crescente e sem solução e a inflação em alta.  Que perspectiva é possível traçar?

Geder Parzzianello - Você fez um excelente resumo do cenário, colega Alberi. Este é mesmo o momento em que vivemos. Gosto sempre de lembrar que o país (e o mundo) sempre tiveram momentos difíceis, este não será maior, nem mais especial, nem mais difícil que muitos outros. A história ensina que sempre se superam as dificuldades. Minha vida pessoal e acho que a de quase todo mundo está repleta de exemplos assim, de que as fases ruis passam, que tudo passa. A gente precisa é ter foco. Eu costumo dizer, Alberi, que utopias são necessárias. Sem elas a gente não levanta todos os dias, principalmente, para educar pessoas. Mas, também para fazer jornalismo, construir prédios, abrir o mercado do bairro, levar o cachorro para passear ou cuidar de quem a gente ama, firmar e fortalecer nossos vínculos, principalmente, os mais importantes e verdadeiros, os familiares, com aqueles que caminham ao nosso lado, que se preocupam conosco, de quem cuidamos e que cuidam de nós. Acho que esta eleição poderá nos ensinar muita coisa. Poderá ser uma grande lição ao Brasil, à política, aos políticos, e a cada um de nós. Dependendo do resultado, entendo que será um acerto de contas, dependendo, será uma lição histórica que deve ensinar muito sobre nossas escolhas e os rumos que nós mesmos damos ao Brasil. Não acredito em destino. Na minha sensibilidade, o maior problema para superarmos esta eleição em especial, será a falta de informação. A desinformação que alimenta o ódio e acentua polaridades. Infelizmente, é muito grande o contingente de cidadãos brasileiros que pelas mais diversas razões e condições, se informa pouco e se informa muito mal. Sabemos o preço disso. É muito difícil fazer que a percepção popular supere a imagem que existe do líder populista, do salvador da pátria, de quem se afirma como aquele ou aquela que fez mais pelo país. Os grandes problemas, Alberi, como você mesmo menciona na pergunta, o desemprego e as questões sociais, vêm sendo quase sempre desviados por candidatos em eleições porque sua solução não é simples e os candidatos sabem disso. Então, a imprensa precisa deixar de se contaminar por agendamentos de discussões estéreis, muitas vezes fomentadas pelas redes sociais e que interessam justamente a quem não sabe como resolver de fato o que o país precisa. Não precisamos mais de uma política de disputas com acusações quando de todos os lados cada um(a) tem de sobra telhado de vidro. Veja bem, que moral vai haver apontar o dedo para um ex-presidiário se você se alia com um para tentar reeleição? Não precisamos de debates que deixem de apresentar soluções e caminhos para o país porque seus candidatos estejam mais interessados em atacar o adversário, em desqualificar o oponente. Acho que já temos maturidade política no Brasil para votar em quem apresenta propostas, diz de onde e como vai tirar recursos para resolver problemas sociais, que não fuja do debate de ideias, que se posicione dizendo como vai de fato fazer a economia girar e promover emprego e renda e que não busque se eleger na sombra de medidas de ajuda social temporárias. O que me preocupa é o coletivo de pessoas que ainda se deixam levar pela ajuda provisória de benefícios sociais de enfrentamento à pobreza e à miséria e que por terem pouca informação, baixa escolaridade, e estarem sem emprego (e continuarão sem se não se optarem por mudança) acabem votando em resposta a este apelo populista e estes eleitores são os que podem decidir uma eleição. Mas, entendo perfeitamente que a emergência da fome fala mais alto, claro, e essas ajudas são absolutamente necessárias. O que me preocupa é que são usadas como discursinho de ajuda social, como se estivesse sendo feito um favor por um político ou um partido ou um governo e não como um direito social, que é o que essas ações realmente são ou deveriam ser. Acabam funcionando, infelizmente, como instrumento de ilusão política e mecanismo de persuasão das massas. O processo de ataque à ciência, à universidade, ao conhecimento, às artes e à cultura, à imprensa, aos jornalistas profissionais, às instituições, por isso mesmo, se torna um imperativo já que estes espaços ameaçam que a verdade seja revelada de modo crítico e cada vez as mais pessoas enxerguem esse uso que é feito na política populista (pela direita, pela esquerda, pelos partidos de Centro, enfim, seja qual for a ideologia). O poder tem um magnetismo impressionante sobre o ego de quem está no jogo da política profissional, é outra coisa muito séria. Há razões para uma expectativa de que as coisas melhorem, sempre há, mas para isso é preciso educação, informação, e é justamente o que vem sendo negado, falseado, de muitas formas. É preciso reagir a isso tudo e o voto é um instrumento fundamental. Aposto muito nos eleitores jovens, nas novas gerações, nas pessoas que querem um Brasil que se construa pela educação, como fizeram as grandes nações do mundo e todas elas que atingiram a reconstrução de suas realidades mesmo quando tudo parecia sem a menor perspectiva. Há um risco, como tentei dizer acima, mas espero que pelo menos as pessoas que possam e consigam acessar informação, que tenham conhecimento, elas atuem nas mais diversas frentes de disseminação da ideia de que precisamos realmente combater a velha política, a corrupção endógena, e que é possível um país crescer com desenvolvimento social pela educação, pela tecnologia, pela força produtiva e não apenas assistencialista, populista. Nós temos o dever moral de passar esperança e expectativas às novas gerações. De mostrar que historicamente já superamos momentos bem difíceis, que há saídas. É preciso um plano de ajuda social, de enfrentamento à fome, à miséria e à pobreza, claro, mas não basta isso para eleger um presidente. Precisamos de uma liderança sensata, aglutinadora, capaz de diálogo e de sensibilidade, de ideias concretas sobre como promover emprego e renda, devolver trabalho aos milhões de cidadãos desalentados, aos brasileiros que são força produtiva. É preciso fortalecer a indústria, promover o consumo, fazer o país andar. Perdemos muito tempo com assuntos que não levam a nada e desgovernam o Brasil. Isso também não é por acaso. O povo precisa começar a se perguntar mais a quem interessa que as coisas continuem como estão. O Brasil é de todos, não pode ser administrado apenas para quem é de um partido, de um setor produtivo ou de uma parte do funcionalismo público, por exemplo. Temos que ter um governo com a cara do Brasil e não o contrário.

 

AC - Há algumas semanas, o Brasil completou 132 anos de República. Desse longo período, mais da metade foi marcada por ações oligárquicas, por rupturas ou intervenções à ordem democrática. No contexto latino-americano, como pode ser avaliada a qualidade da democracia brasileira?

GP - Boa pergunta, Alberi. Começaria lembrando que as democracias estão em crise e sob ameaça no mundo inteiro. Há importantes trabalhos científicos publicados sobre isso. O que mais ameaça as democracias é justamente o ataque às instituições como o Judiciário e à Imprensa e a crítica que é feita contra elas, quando elas, na verdade, são a sustentação do pouco que ainda resta para coibir o avanço de medidas autocráticas, da decisão por tirania (na rejeição ao diálogo e à busca do consenso) em relação a questões decisivas para o país. É um falso silogismo a premissa de que mudanças sejam necessariamente uma intervenção antidemocrática. O sistema democrático permite, sim, alterações e elas são importantes porque a sociedade avança e as leis avançam, ainda que mais lentamente, o que me parece natural porque não teria lógica se fosse o contrário. Só o conservador não deseja mudanças. É um erro pensarmos que as intervenções, quando feitas justamente porque há uma ameaça ao ordenamento, sejam uma ruptura com a democracia. O que rompe com a democracia é a decisão autocrática, à margem da lei, como tantas vezes já tentada em nosso país e, inclusive, na realidade presente e na história recente. Há um movimento, que considero niilista e bastante reducionista, que defende que refundemos a República, que se construa uma nova organização política na estrutura de poder, como se isso fosse colocar fim aos ranços que a Oligarquia criou e sustenta. É preciso que se diga bem alto e bem claro, Alberi, que esta proposta não deve ser lida como ingênua, já que na prática, se está deixando de enfrentar a reforma política que é o dedo na ferida: o problema não é o sistema republicano em si, porque o parlamentarismo é o aumento do poder justamente para as mãos de quem historicamente sempre definiu, de fato, os destinos do país, que é o Congresso. Quem manda no Brasil é o Centrão, não o governo. E isso será ainda mais forte num sistema parlamentarista. A oligarquia derivada dos latifúndios, que alimentou por todo este tempo a política, como tu bem colocas na pergunta, e tu o sabes porque é professor de história e jornalista, só está sendo criticada porque faliu, porque o modelo que sustenta hoje a política é outro. A oligarquia falida perdeu o protagonismo. Não faz menor sentido mudar a roupa do sujeito se ele continua o mesmo. O hábito não faz o monge, a não ser no provérbio popular. Basta reparar que na política quem antes defendia o fim da velha política agora está reproduzindo-a, filiando-se a ela, reatando os laços com o pior que ela significa e tudo apenas por um cálculo eleitoral. É este tipo de coisa que precisa ser desmascarada (para usar uma metáfora desta pandemia) e isso é algo bastante difícil, seja pelo negacionismo dilatante, seja pela desinformação, ou pelos discursos populistas que se firmam ancorados no descrédito que se quer dar ao trabalho da imprensa, aos jornalistas, aos que zelam pelas leis nesse país, aos que se colocam contrários à lógica de perseguição, de destruição, como vem acontecendo com professores, com universidades, com artistas, intelectuais, gente que assume um papel de engajamento.   

 

AC - O ano de 2022 será para comemorar o bicentenário  de independência do Estado brasileiro. Como nação, contudo, ainda carregamos pesados fardos da herança da colônia de exploração que fomos, fardos que também não nos livramos na República. Na sua avaliação, que ações estratégicas prioritárias devem ser implementadas para reversão desse quadro?

GP - Primeiramente, Alberi, cabe reconhecer que muitas de nossas comunidades, inclusive São Borja, se construiu ancorada nas heranças do colonialismo. Não se pode apagar o passado. Nossa história tem que ser valorizada, mesmo com os prejuízos que só a consciência póstuma tenha sido capaz de promover. Do contrário, teremos que deixar de reconhecer quase tudo do que nossas cidades foram, e do quanto por conta dessa história, somos o que somos, para o bem e para o mal. Cito aqui apenas um exemplo: o mesmo Getúlio Vargas a quem devemos reconhecer os benefícios históricos de conquistas sociais aos trabalhadores e ao desenvolvimento do país, também tem seu lado de lama na história democrática do Brasil. Mas cito mais: com os setores de nossa economia ligados à produção primária não foi diferente. Se hoje temos uma oligarquia falida, temos também boa parte de nossa riqueza ainda associada ao que produzimos na terra e há que se considerar o valor que isso tem. Há muitos tipos de Oligarquia, Alberi. Na política, muito tempo elas foram de ordem econômica, hoje outras forças tencionam esta disputa pelo poder: grupos empresariais não ligados à oligarquia da terra, grupos religiosos, enfim...inclusive em certa proporção as celebridades, pois há uma economia crescente em torno da indústria criativa e também em torno da industrialização da cultura da qual são produtos gente como Tiririca e tantos outros, youtubers, etc. Você me pergunta sobre ações estratégicas e eu te respondo reforçando um entendimento de que só a educação nos salva. Um povo que não lê, que se informa pelo compartilhamento de boatos no celular, que não se questiona sobre o que vê,  se contenta sempre com a explicação mais simples e que atenda seus desejos e necessidades. É por isso que os políticos se esforçam tanto para identificar as demandas dessa massa maior de eleitores, porque se eles se sentirem contemplados no discurso de um(a) candidato(a) isso aumentará as chances de que sejam eleitos(as). Há muito mito contaminando a lucidez pública. Só a informação e o conhecimento nos imunizam contra essas estratégias. Evitá-las já é uma estratégia bem interessante para nossa maturidade política.

 

AC - A sua densa formação acadêmica inclui formações em destacadas universidades europeias. Do convívio com a cultura do chamado Velho Mundo, que aprendizados traz e que podem ser aplicados no Brasil?

GP - Sempre aprendi, Alberi, que devemos evitar ao máximo a simples comparação com finalidades aplicativas. Este é um erro muito frequente em quem passou um pequeno tempo no exterior, como numa viagem por exemplo, e volta ao Brasil achando que deveríamos implantar aqui as coisas boas que viu que existem lá fora. É um simplismo inocente. Cada país é diferente, há cultura, contextos, experiências, etc, que não se comparam e que não se podem ver simplesmente adotadas noutra realidade. Mas, se pode, claro, aprender com elas, buscar inspiração nelas, tentar encontrar caminhos para chegar a elas, quando julgamos que elas sejam de fato positivas.  Muita coisa admirável em outras culturas não funcionariam aqui, da mesma forma que muita coisa que temos aqui no Rio Grande do Sul simplesmente não funcionaria na Bahia, para citar apenas um exemplo. Somos um país continental e isso torna esse fato ainda mais visível e relevante em nossa realidade. Admiro muitas coisas no exterior, como a limpeza urbana, a iluminação pública, a qualidade da indústria automobilística e das ruas e estradas, os modelos de educação e de universidades, os modelos de aplicação de tributos, o sistema de saúde do Estado como na Alemanha, e questões mais culturais como a pontualidade, por exemplo, ou a sabedoria no uso das redes sociais, a independência com que consomem informação e exercem senso crítico, o alto nível de escolaridade, etc, etc. Cada uma dessas características não se conseguiria passar simplesmente a adotar em nossas realidades por aqui, elas só funcionam porque há uma história por trás, um conjunto de variantes. Algumas coisas, inevitavelmente, a gente traz para nossas vidas, para a vida privada, mas isso também traz algum sofrimento, porque com o tempo a gente se vê sendo mais pontual e cobrando mais rigor em coisas nas quais as pessoas, em geral, não estão interessadas e não farão mesmo. Respondendo tua pergunta, as maiores aprendizagens acontecem dentro da gente mesmo e, infelizmente, nem sempre se consegue compartilhá-las. É preciso mais de uma viagem a turismo para absorvê-las e mais que isso, para compreendê-las.  O mesmo acontece com idiomas, uma coisa é você internalizar o sentimento e o simbólico que existe na língua estrangeira e só o nativo ou a convivência em contato direto por imersão em uma cultura permitem isso, o que é bem diferente de aprender uma língua por regras de gramática, sites ou aulas na internet ou nos livros. Não funciona assim. Claro que eu adoraria que tivéssemos as coisas boas que existem no exterior também aqui noBrasil, temos esse direito.  mas os outros países também têm seus problemas. .   

Casal Geder e Sandra Parzianello, residindo
na Alemanha (2012-2013). “Só a  Educação
liberta, mas está sendo negada.”
 

AC - E essa cultura do toma lá dá cá, da barganha e que não respeita fronteiras entre o público e o privado, no Brasil, isso tem jeito?

GP - A característica da pós-modernidade, Alberi, é de fato a perda dessa distância entre o público e o privado. Isso vem sendo tratado na Sociologia, por exemplo, desde há pelo menos quatro décadas. E não é uma questão apenas das redes sociais, como muita gente pensa, e porque lá a pessoa expõe uma crítica ao próprio familiar numa postagem do twitter, uma foto íntima ou vídeo íntimo no Facebook ou no Instagram, e outras coisas desse gênero. Na política (que é por onde eu creio que tua pergunta pareça motivada) essa cultura é o ônus das regras nas quais nosso sistema se encontra sustentado. Isso é tão sério, está tão incrustrado na realidade política e partidária brasileira, que a única solução seria mesmo uma reforma política. Não se trata, na minha opinião, de apenas mudar o sistema (porque outros vícios virão com ele) mas de termos quem exerça a política sem essa velha política e que realmente queira e atue na transformação das regras que passariam a valer contra essa praga e que se materializa nos mensalões, nas rachadinhas, nos petrolões, nas emendas sem limite, no orçamento secreto. De que adiante refundar a política se for para fortalecer os parlamentares, justamente os atores protagonistas de todas essas práticas de “toma lá dá cá”? A quem interessa que o poder de uma presidência seja dividido com gente assim ou continue sendo subordinado a um Centrão, como está claro que vem acontecendo? Ou devemos pensar que a escolha de alianças e os acertos de bastidores que resultem em novas filiações são feitas fora do espectro dessa velha política? Ingenuidade ou excesso de viseira ideológica podem levar a este opaco entendimento. 

         

Casal Parzianello com o filho, Lucas,
na Universidade de Notre Dame.  “O
conservador não quer mudanças; promete
fazer diferente, fazendo tudo igual.”
 

AC - O seu olhar também, por favor, sobre a atuação do Judiciário no país.

GP - Sabemos que a opinião pública está dividida entre aqueles que querem derrubar os membros do Supremo porque discordam das decisões colegiadas que vêm sendo tomadas e aqueles que reconhecem o Poder Judiciário como uma instituição e que sua atuação é absolutamente necessária. Olhe o que acontece nos países em que a democracia se viu ameaçada: a primeira medida de quem chega ao poder é destruir a corte suprema ou formá-la com membros que atendam a seus interesses e de seu projeto de poder. Foi assim em muitas ditaduras da esquerda e da direita e não é de hoje. Sabemos também que o fato de um governante ter sido eleito por voto, não afasta o risco de que ele governe por tentativas de afrontar a democracia, entre elas, atacando o Poder que, no fundo, equilibra o seu despotismo e sua tentativa de governar segundo sua vontade e apenas para os seus. A justiça e as leis existem, assim como a imprensa, e atuam mesmo contra nossa vontade. O mesmo poder que informa  é o mesmo poder que julga quando do nosso interesse, também tem toda prerrogativa institucional de agir quando nos desagrada. As pessoas, em geral, têm muita dificuldade de aceitar isso. Quando uma condenação não atende ao que eu acho justo, digo que a justiça não existe ou que ela não foi feita. Quando a imprensa fala mal do governante que eu não gosto, eu acho até bom que aconteça, mas quando ela faz isso contra meus valores e minha ideologia, eu digo que ela não faz direito e quero que a casa caia. Há um pesquisador em Comunicação, professor aposentado da Universidade Federal da Bahia, Wilson Bueno, que escreveu sobre isso e faz colocações bem interessantes no sentido de apontar como a gente costuma julgar o certo e o errado do que a mídia faz com base nos nossos próprios interesses. Este é definitivamente um traço na Pós-modernidade que herdamos da Modernidade tardia: o individualismo exacerbado. Achamos que o mundo que não se conforma segundo pensamos ou queremos, não serve, não presta. Mentalidades assim levaram ao radicalismo enojante da velha esquerda, ao discurso de arautos da ética e da moralidade que hoje sabemos que era uma completa falácia, ou pelo menos, foi o que suas lideranças tornaram falacioso, muitas delas presas porque condenadas, como os tesoureiros do PT, Vaccari Neto, Delúbio Soares e outros, José Dirceu e o próprio Lula. Isso também se vê na extrema direita e ainda vai render muito mais pano para manga. O mesmo Judiciário que engaveta documentos suspeitos das rachadinhas contra os filhos do presidente, também revê a prisão de Lula e ambos os fatos, de diferentes espectros, podem ser considerados injustos ou absurdos. Mas, o Judiciário atua por colegiados e decisões são votadas e graças a este sistema também muita gente é condenada e muitos crimes não passam em branco. Temos que parar com essa mania de achar que faz sentido julgar instituições como a imprensa e o Poder Judiciário por réguas contaminadas pelo nosso ponto de vista. Nem toda decisão vai contemplar nossa vontade e isso faz parte da democracia. Querer derrubar essa instância é que uma atitude antidemocrática. Acho importante que o STF seja um coletivo com juízes com diferentes entendimentos aos quais se apoiem na percepção de mundo para a jurisprudência a partir da Constituição. Entendo até que para ser membro aprovado pelo Senado um postulante à cadeira no STF fale exatamente o contrário do que sempre defendeu porque só assim seria aprovado pelos senadores. Foi o que vimos acontecer com André Mendonça no começo de dezembro. Quem sempre se afirmou contra a homoafetividade, quando cobrado pelos senadores, disse que defenderá a união conjugal de pessoas do mesmo sexo. Fez parecer que possa existir um sujeito pessoa e um sujeito membro do Supremo numa mesma pessoa e que ambas possam perfeitamente pensar  diferente. O novo ministro sabatinado pelo Senado estava irreconhecível. Defendeu o Estado laico, mas prometeu ao presidente Bolsonaro que faria uma oração no início de cada sessão do STF, se nomeado fosse. Autor de ações contra jornalistas com base na Lei de Segurança Nacional, do tempo da ditadura militar, garantiu que não perseguiu a imprensa. Fez fé na democracia, mas chamou de “profeta” a um adorador de ditaduras. Escapou de perguntas polêmicas como sobre armas e o marco temporal, na questão dos indígenas. Tudo para não descontentar quem o levou à vaga do STF, mas para não bater de frente com quem o avaliava. Ao contrário do que disse antes da sabatina, quis passar a imagem de quem separa a crença religiosa da toga de ministro do STF, mas suas palavras o desmentiam a todo instante. Tropeçou em passagens bíblicas, insinuou que não é preciso a Igreja para exercer a questão religiosa, o que pode fazer do STF um campo de expressão de crença, pois bastam que dois ou mais estejam reunidos em nome da fé, como diz a Bíblia. Por tudo isso, eu poderia dizer que um candidato assim não poderia ser ministro do STF, mas ainda assim julgo que é importante que o colegiado da Corte tenha pessoas de expressões diversas. Ele nega que irá julgar conforme sua fé e que vai separar o Estado da Igreja, como está na Constituição. Mas, o seu discurso divorciado com o que sempre disse antes soava como estratégia para sua aprovação e mais nada. Chegou a dizer uma inverdade histórica: que a história e os fatos em torno da democracia no Brasil não derramaram sangue, quando sabemos perfeitamente o quanto custaram vidas. 

 

AC - No plano internacional, esta disputa Estados Unidos-China, com ares de nova Guerra Fria, é positiva ou prejudicial à macroeconomia  global?

GP - Eu diria, Alberi, que tem os dois lados. É positivo e é também negativo. Não se trata aqui de ser relativista, mas realista. O mundo não cabe mais nesse maniqueísmo entre positivos ou negativos; hoje vivemos numa era de hibridismos, com quase tudo precisando ser reconhecido por suas dualidades intrínsecas, e até mesmo por suas contradições ainda que não desejáveis. Por isso, eu diria que quando temos uma realidade global que descentraliza na economia o poder, isso também tem traços de uma democracia geopolítica global. Mas, todo reordenamento de poder ou hegemonia também desloca lugares e cenários naquilo que a gente nem sempre gostaria. Acho que não dá para comparar a disputa entre Estados Unidos e China, no sistema macroeconômico, com o que representou a Guerra Fria da antiga URSS e a América. Acho que tem muitos discursos rondando aí que são fantasiosos, teorias conspiratórias ridículas, baseadas numa estratégia de narrativa que seduz os desavisados, porque têm alto poder persuasivo entre pessoas que acabam como cobaias presas por estratégias mirabolantes, como a de que o projeto de dominação em curso por alguma potência esteja sendo pensado e executado como se a colocar de joelhos o resto do planeta (que agora cultuam como se a terra fosse plana). Fico pensando no estado emocional e psíquico de gente que se deixa levar por essas ideias ou que cria essas coisas. Nem a Guerra Fria, com toda crueldade que ela representou em espionagem, torturas e homicídios, jamais conseguiu impor essa coisa de uma potência mundial. Isso tem um tom napoleônico, cheira a coisa mal resolvida do passado, de um tempo histórico de dominações e de perversidades. O mundo globalizado (pelo menos das nações e lideranças lúcidas para esta realidade) tem uma constituição totalmente oposta. Penso, Alberi, que o mundo global futuro terá que lidar com a evidência de lideranças globais múltiplas, e que quem é contra que isso aconteça é que fica inventando inimigos imaginários, combatendo adversários econômicos e políticos como se fosse uma guerra e querendo manter poder cada vez mais centralizado. Nem Estados Unidos nem China de hoje estão nessa onda.

 

AC - Com a experiência de quem domina ou conhece vários idiomas, que receita dá o professor Geder para incentivar a leitura, um grande déficit nacional?

GP - Obrigado pela pergunta, Alberi. Ela me faz pensar muitas coisas e ao mesmo tempo. Penso que sobre a leitura, temos uma falsa ideia de que somos um país que lemos quando olhamos os índices de venda, de comercialização de livros. No entanto, eles precisam ser vistos melhor e mais de perto. Maior parte desse comércio é fomentado pelo próprio Estado, por meio dos recursos do governo para livros didáticos. Outra grande parte concentra o mercado de livros infantis. Nossa triste realidade, Alberi, é que à medida que nossas crianças crescem, passando de 12 ou 13 anos, elas vão abandonando a leitura formal e passam a ler cada vez menos. Livro didático e livro infantil não são estatística de um país de leitores. Algumas comunidades têm registros lamentáveis com menos crianças lendo, ou lendo mal ou quase nada. Jovens, então, nem pensar e adultos, muito menos. Não dá para apostar num país que aqueles poucos que leem só leem um livro por ano e um best-seller como Harry Potter. É dito que nessa pandemia lemos mais. Isso pode até ser verdade, em alguns contextos, mas o que eu percebo, é que o que cresceu um pouco, e de forma bem localizada, foram livros de autoajuda e daquele tipo que quer ensinar o leitor a viver e ser feliz. Tem gente que lê quase só isso e se acha um leitor, e isso é realmente de “cair os butiás do bolso” como um provérbio que eu aprendi ao voltar a viver aqui no Estado, depois de mais de 20 anos fora. Sou nascido em Ijuí, no Noroeste do Rio Grande, mas passei um pedaço bem considerável da minha vida em outras culturas. Alguns termos da linguagem gaúcha, a mais campeira, por exemplo, que esta região aqui ainda tem, eu ainda tenho dificuldade de entender e sempre aprendo expressões novas. Gosto disso. E comento porque isso me leva à outra parte do começo da tua pergunta, minha facilidade e interesse por línguas. Sou neto de imigrantes italianos por parte de pai e alemães pelo lado materno. Aprendi duas línguas estrangeiras em casa, desde pequeno. Isso facilita muito a aprendizagem de outras línguas. E funciona como música, esporte ou qualquer outra habilidade: a gente desenvolve, a partir de alguma aptidão talvez inata, talvez absorvida em algum contexto de vida. Vivi em comunidades de fronteira em diferentes culturas e em comunidades diversas com imigrantes, por exemplo, em contato direto com outras culturas. Logo cedo o espanhol foi familiar, embora jamais o tenha estudado. Quanto mais cedo nos expomos a um contato sonoro com um idioma, melhor conseguimos aprendê-lo mesmo que mais tarde. Meu filho mora nos Estados Unidos e creio que deva fazer a vida dele agora por lá, estabelecido com estudo e trabalho. Foi fazer parte da graduação e hoje está cursando seu doutorado em Engenharia de Computação. Sempre viajou conosco e isso o colocava em contato com idiomas, também tem facilidades para línguas e eu o incentivo e admiro isso nele. Vivemos em uma comunidade numerosa em que ele e eu tivemos contato com a língua árabe, eu tentei dar seguimento a esse estudo aqui em São Borja, mas não consegui quem me ensinasse e se dispusesse a manter diálogos no idioma, o que eu sempre faço para não perder vocabulário e fluência nos idiomas que estudei. A internet ajuda muito, é muito melhor e diferente do que quando a internet não existia. Meu idioma mais fluente é o alemão, cheguei a dar aulas na Alemanha em universidade o pratico todos os dias, além do que passo parte das férias sempre que posso onde eu passo praticá-lo e recebo amigos do exterior. É uma língua que me retoma infância, é mais fácil para mim que qualquer outro idioma. Amo a Alemanha. Fiz lá meu pós-doutorado, vivi diferentes períodos naquele país que eu adoro. Assim como a língua italiana (estudei e pesquisei em Roma), a língua alemã tem para mim cheiro de casa, memórias afetivas. Lecionei alemão e inglês e fui tradutor nesses dois idiomas. Fui depois professor de Latim, na Unijuí, a universidade em que comecei minha carreira, ainda no final dos anos 1980 e quando ainda a universidade apenas começava, em seguimento à faculdade que lá existia, a Fidene. Bem mais tarde, retomei meu conhecimento de francês e hoje atuo como pesquisador associado ao Céditec da Universidade de Paris XII. Nas horas de lazer eu gosto mesmo de exercitar outras línguas, isso me relaxa a mente. Faço investidas em Polonês, a língua dos avós da minha esposa, e tenho um projeto pessoal de aprender russo, mas não tenho tido tempo. Fiz aulas de chinês com professores nativos e acabei não dando sequência porque é uma língua tão diferente para nós que sinto que são precisos pelo menos vinte anos para que se possa realmente conseguir usá-la. Mas acho desafiador estudar, conhecer o sistema linguístico de outros idiomas, de outros alfabetos, isso sempre me fascinou. Acho que sou um pouco  linguista. Se isso tem relação com leituras? Certamente. Facilita muito poder saber e acompanhar o que circula em outros territórios, em outras culturas. Ajuda na formação de novas sinapses no cérebro. Sem falar que empresta uma independência enorme em viagens, por exemplo, sem precisar de tradutor, de agente ou guia de viagem.      

 

Geder, em janeiro de 2020,  na
Universidade de Chicago.
“Os jovens e adultos leem cada  vez
menos, e mais livros de autoajuda.“


AC - Em sintonia aos novos tempos, que mudanças fundamentais propõe no curso de Jornalismo?

GP - As mudanças são sempre bem-vindas ainda que se leve um tempo quase sempre para poder aceitá-las e absorvê-las. Há muita coisa em transformação no Jornalismo e a formação de jornalistas, claro, precisa acompanhar essas transformações e encampá-las. Estamos revisando o PPC, o documento do curso que guia nossos projetos de ensino e a oferta de componentes curriculares. O Plano Político Pedagógico do curso de jornalismo vai ser implantado em 2022 com muitas mudanças. Há um consenso de que é preciso ofertar uma formação sempre atualizada, por isso, mudanças em PPCs são comuns que aconteçam e dão um enorme trabalho, mas uma satisfação também muito grande porque o curso fala mais de perto a novas gerações e ao tempo em que estamos vivendo. Já há algum tempo tenho feito em minhas aulas o empenho de que as teorias todas conversem com a realidade presente e busco uma incessante relação entre o saber teórico e o contexto da vida prática não apenas profissional, mas social de nossos estudantes. Isso tem feito também com que eles compreendam melhor os fundamentos de muitos preceitos teóricos clássicos e que são importantes na sua formação e também que sejam atualizados. Dá bastante trabalho trazer para aulas debates atuais, eventos e suas temáticas, os argumentos, os saberes que circulam em periódicos do semestre e ou que recém-lançados, incorporar isso ao programa de aulas e fazer caber no cronograma de atividades. Mas não temos outro caminho, é por aí mesmo. Objetivamente, é preciso também compreender que o papel da universidade é pensar a profissão com o mercado e não apenas em função dele. Nossa razão de ser não é a formação de operários da notícia nem de gente que saiba dominar uma técnica que logo depois se torna inevitavelmente obsoleta. 

 

AC  Qual é a sua avaliação sobre os estragos na Educação acarretados pela pandemia?

GP - Acho que mais que a pandemia, os danos à Educação são feitos por pessoas e governos. Foi muito emocionante ver o empenho e as soluções de professores e de pais e estudantes na superação das dificuldades por causa da pandemia, esse terrível episódio de saúde pública e que serviu, no fundo, para reforçar o valor do ensino e o papel do educador, inclusive, da imprensa profissional. Eu me emocionava com as reportagens na mídia de professores criativos dando aula pelo celular usando azulejos da parede da cozinha para ajudar os estudantes no ensino remoto a compreenderem o conteúdo. Houve muitos exemplos de gente que fez o que podia para driblar a precariedade tecnológica, técnica, de conhecimento e as condições sociais e econômicas durante a pandemia. Professor que ia levar até a casa do estudante os exercícios de bicicleta, gente que se desdobrou, inclusive nas famílias, para que a educação acontecesse. Exemplos de solidariedade e empatia. Claro, tivemos muita evasão, desistência, muitos problemas. Mas o mais grave, no meu ver, são as ações ou as omissões de governos. Nunca fomos uma “pátria educadora” e não somos um país que possa se orgulhar do que vem sendo feito com a educação. As Universidades e seu sistema estão sendo por várias frentes, atacados. Professores perseguidos e ameaçados. Há uma intolerância ao pensamento crítico e um processo em curso de intenção de destruição das universidades, da escola, e da cultura. Houve erros na política da educação dos governos passados, mas igual ao que vem sendo feito agora, nem se compara. É passar dos limites. Existe um verdadeiro processo de destruição das universidades e do ensino de modo geral, que passa pela desvalorização do saber, pela depreciação do conhecimento, pela negação da ciência, pelo controle ideológico de provas e de aulas, por tentativas de domesticar a escolarização, desacreditar o ensino, desdenhar das evidências, como de que a terra é redonda e fazer parecer que existam disciplinas que não sejam necessárias, não sejam úteis ou interessantes. Sempre tenho muita ânsia de perguntar quando alguém me fala em utilidade: algo tem que ser útil, mas útil para quem? A quem interessa, talvez, que se fechem cursos, estudantes se matriculem menos, pessoas estudem e aprendam cada vez mais só aparentemente, sem realmente exercitar o pensamento e a reflexão? A quem interessa que professores não tenham posicionamentos, que escolas não ensinem sobre o que não se concorda?

 

AC -  Quais são os planos pessoais e profissionais do professor Geder Parzianello?

GP - Aprendi na vida, Alberi, que as conquistas e vitórias são sempre solitárias. Que só o sofrimento é solidário. Aos poucos, fui aprendendo a falar menos de meus planos pessoais e profissionais. Ouvi uma vez e passei a adotar a seguinte frase: “projetos a gente não comenta, até que se realizem”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário