Quando o combate
à fome
tem que ser a prioridade
A demanda social vem de longe. O
desafio é o Brasil - a partir de seu rico potencial e da sua gigantesca extensão territorial -, conceber e entregar
um projeto de nação que seja viável e consistente. Um projeto de prospecção de
futuro e de ganhos e desenvolvimento coletivos. No ano em que o país completa seus
dois séculos como Estado independente, preconiza-se
a efeméride como sendo emblematicamente simbólica e oportuna para que esta
dívida histórica possa ser resgatada. Mas, como sempre, tudo vai ficando para depois. Afinal, o Brasil é o país é o país do
futuro e, pelo visto, esse futuro nunca chega.
O ano de disputa eleitoral até poderia
ser fator motivador, mas, ao contrário, só atrapalha. Entre candidatos,
partidos, coligações e seus marqueteiros a prioridade não é pensar no Brasil de
amanhã; é sim, sobretudo, hora de pensar no resultado das urnas, na
desconstrução do adversário. A meta, principal, portanto, é chegar ao poder e
manter-se nele. Uma coisa não deveria excluir a outra, mas excluía. Até hoje –
522 anos após ser achado e 200 anos depois de se tornar independente – o Brasil
tem basicamente peças de ficção ou apenas pontuais de
desenvolvimento nacional. E, tudo indica, que mais uma vez não iremos além
disso. Então que, ao menos, sejam
oferecidas ações objetivas e urgentes, determinadas e não meramente eleitoreiras como a de
combate à fome. É dramático e surreal, mas não é exagero afirmar que enfrentar
o flagelo da fome, hoje, deve ser prioridade absoluta.
Cenário de caos
Entre os brasileiros, 55% acusam algum
tipo de insegurança alimentar - moderada ou severa. Quase 10% informam que ficam
um dia ou mais sem comer. De toda a população brasileira, 9% já declarava isso em 2020 e, com a pandemia, a
situação só piorou.
Nos tribunais em todas as esferas do
Judiciário, em todo o país aumentam os processosenvolvendo furtos praticados por pessoas que buscam o que comer. No Brasil a renda, hoje, é 8,8% menor do que era há 12 meses. No Rio
Grande do Sul é recorde o nível de endividamento das famílias.
A elevação dos custos dos insumos
alimentícios é sempre maior que os salários. O preço da soja até fevereiro
deste ano subiu 130%; do milho, 120%; e do trigo, 100%. Mesmo o feijão e arroz tiveram
alta de 52% e de 41%, respectivamente, muito acima mesmo
acima da correção dos salários. O salário mínimo – R$ 1,200 – deveria estar em
mais de R$ 6 mil, ou cinco vezes mais, diz
o Dieese.
A pobreza, que começou a se agravar em 2015,
só aumentou a partir de 2019. A combinação perversa de desemprego, recessão
econômica, alta da inflação, pandemia e adversidades do clima foi acumulando retrocessos.
Agora a guerra no Leste europeu piorou tudo.
A projeção é que o ano termine com
inflação superior a 8%. Nos alimentos, o índice deverá chegar a 13%. E os mais
pobres, claro, serão os mais castigados.
Existe a tendência, ainda, de que a alta nos alimentos se manterá na
atual escalada nos próximos 12 ou até 24 meses.
Sobe tudo: dos derivados de leite ao óleo
de cozinha até a carne ou o açúcar. Alguns desses itens têm o custo mais alto em 32 anos. Como Rússia e Ucrânia
exportam 25% do trigo e 15% do milho consumidos no mundo, a perspectiva é
sombria. Além do consumo humano, encarece igualmente a ração animal, segundo alerta
o economista André Braz, da Fundação Getúlio
Vargas.
Cobertor curto
O Auxílio Brasil de R$ 400l, novo Bolsa
Família, deve ganhar vida para além de 2023. É importante, mas insuficiente. Um dos motivos
é que alcança a somente 19 milhões de famílias e as necessidade engrossam
contingente muito maior. Além disso, de há muito, mais que programa de renda mínima é
cassa-votos, assistencialista.
Recente levantamento da Confederação
Nacional de Municípios (CNM) mostra que
é grande o número de famílias necessitadas e fora do programa. O perfil
socioeconômico utilizado também esconde os níveis de pobreza. Além da negativa
de acesso a um grande contingente de famílias, os reajustes para o programa não
acompanham a variação inflacionária e nem há periodicidade para as correções.
A geração de emprego é o melhor programa socia - sabemos. A criação de vagas, contudo, tem esbarrado no custo Brasil, na burocracia, na inflação, nos juros altos e na ausência de programas geradores de investimentos de oportunidades.
São
quase 13 milhões de desempregados, sem considerar o número fora aqueles que ‘jogaram a toalha’.
Mas além dos muitos internos, existem aqueles de âmbito global. Se as exportações em dólar se viram favorecidas, as importações são duramente afetas na
proporção inversa. As sucessivas altas do petróleo e do gás , na esteira na
guerra é apenas um exemplo, mas com efeito em cadeia. Há ainda que considerar a
crescente e devastadora bagunça climática, como consequência do aquecimento global.
O Rio Grande do Sul teve quebra entre
50 e 60% nas suas safras de verão. Foi a maior seca em 17 anos. No mundo, a
temperatura deve aumentar 1,5ºC até 2030, bem antes do previstos e com
consequências catastróficas.
Os países mais populoso do planeta – China e Índia – ampliam seu poder seu poder
aquisitivo, seu PIB e devem consumir mais alimentos. Este é o lado bom. Mas a
FAO, órgão da ONU para alimentação, alerta que para atender a esta demanda é primeiro
preciso ter o que vender.
EsTõmago e voto
Em um país como o Brasil, onde as
políticas partidárias se parecem na ausência de propostas mais densas e mais
convincentes, não é raro termos o voto balizado por múltiplas motivações. Na
prática, o voto acaba sendo um instrumento corporativo e movido por algum tipo
de interesse. Seguindo esta lógica, o pleito deste ano deverá ter a sobrevivência,
a superação das muitas dificuldades como o carro-cfede no ranking das demandas.
Em outras palavras, boa parte do eleitorado votará pensando na
recuperação do eseu mprego, da comida na
mesa. E certamente não bastará trocar voto por algum auxílio meramente temporário.
É certo que o eleitor também consultará seu próprio estômago,
entretanto destinará seu voto a quem conseguir ser mais ético, respeitoso e
capaz entregar ações mais efetivas e de maior longevidade.
As mulheres representam maioria folgada
e, atendendo ao apelo Tribunal Superior Eleitoral, milhões de jovens habilitaram-se
a ir às urnas. Quem sabe não está começando aí o ciclo da mudança qualitativa
para um novo Brasil? Que este desejo romântico enfim se realize. Mas com
certeza, paralelamente, este ano do bicentenário
da independência também será um ano de
combater à fome.
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Sorte que os ventos voltam a soprar ao nosso favor. Mesmo com a pandemia e a guerra na Ucrânia, estamos nos recuperando e os números já estão aí para mostrar esse cenário positivo. O que depende do povo brasileiro, as coisas estão se ajeitando. Ago3ra, olhando para trás, dá pena daqueles bilhões de reais jogados pelo "ralo" e que poderiam ter sido investidos em uma base econômica sólida.
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