A devastação
já acarretada
pela
emergência climática
Basta
morar algum tempo em solo são-borjense para se chegar a uma incômoda constatação: nesta microrregião da Fronteira
Oeste gaúcha cada vez chove menos e é gradativamente mais quente. Mesmo que se
considere fatores como os reflexos do aquecimento global, os desequilíbrios no bioma amazônico ou o
fenômeno La Niña, tudo isso não explica a intensidade do que ocorre por aqui. Já são três, quatro
anos seguidos de severas estiagens em São Borja e no seu entorno, produzindo
efeitos cumulativos e prejuízos de toda a ordem. Uma das consequências é mais
uma decretação de situação de emergência pelo prefeito Eduardo Bonotto, agora
em janeiro, pedindo socorro para mitigar os muitos danos registrados.
A estação meteorológica José Alvarez, que
monitora o clima local, informa que desde 2019 chove abaixo do normal no
município. Em 2022, o déficit foi praticamente o ano todo, acentuando-se
principalmente no segundo semestre. Como é natural, então, o principal rio na
região – o Uruguai – registra baixas históricas. De tal modo que é preciso
redobrar atenções para que o abastecimento de água à população urbana não fique
comprometido. Já afluentes, como Icamaquã, Butuí e Ibicuí, ficam igual e
diretamente comprometidos.
Emancipado
em 1992, o município de Manoel Viana é
banhado pelo rio Ibicuí, afluente do Uruguai e que foi distrito de São Francisco de Assis e de
Alegrete. Mesmo que castigada pela seca, a simpática cidade da Fronteira Oeste
também transforma o lugar em opção turística, Um bem montado balneário atrai
frequentadores de toda a região. Com o calorão de picos recordes, São Borja também
se refresca na sua ‘Prainha’, perto da Ponte da Integração.
Com
tão longas ausências de precipitações pluviométricas regulares, é normal que o
déficit hídrico comprometa o lençol freático como um todo. Assim, poços de balde e artesianos já não
conseguem entregar o desempenho habitual, ficando os seus mananciais
comprometidos. A Prefeitura mobiliza homens e máquinas para recuperar açudes,
bebedouros, cacimbas e sistemas de irrigação. Todo o esforço, contudo, acaba
sendo insuficiente, diante das demandas crescentes.
A
Coordenação Municipal da Defesa Civil leva água sobre rodas, com
caminhões-pipas a longas distâncias. Redes de distribuição são substituídas ou
ampliadas. Reservatórios hidráulicos são refeitos, mas os pedidos não cessam,
exigindo permanente manutenção. Tudo
minimiza, mas a solução completa não é possível.
Matriz afetada
Historicamente dependente da produção primária, secas recorrentes como a deste verão e do
anterior, impactam diretamente o setor produtivo de São Borja, inclusive a geração de postos de trabalho. Na atual
safra de milho, foram implantados 15 mil hectares de lavouras
– área recorde na história recente. Desse cultura, nove mil
hectares foram de
sequeiro e seis mil,
irrigados. A maioria das lavouras, porém, ficou
comprometida, com sério déficit de desempenho, por falta de umidade no solo e
as altas temperaturas. Nas áreas de sequeiro, o prejuízo é superior a 50% e a
cultura irrigada teve melhor desempenho, mas também com perdas significativas.
Já a lavoura de milho do tipo safrinha, em janeiro, dificilmente vai se
viabilizar por falta de chuvas. O plano era de expansão de área habitual.
A Emater confirma que, em relação à
soja, o município planejou cultivar 105 mil hectares - uma área recorde nas
últimas décadas. Quase toda a lavoura foi semeada, entretanto, considerando a ausência de chuvas e a sua
má-distribuição, dificilmente a atividade consolidará bons resultados. O
incremento na área pretendida foi motivado pelas boas cotações no mercado
internacional para a oleaginosa.
Já a unidade local do Irga informa
que São Borja cultivou 27 mil hectares de arroz – redução significativa em
relação aos 35 mil hectares do ciclo anterior. Da irrigação da lavoura, 58%
dependem de barragens, e a seca trouxe problemas, comprometendo o sistema. Áreas foram abandonadas por problemas de irrigação.
A produção de hortigranjeiros está
diretamente afetada, especialmente nos últimos
meses. Com isso, diminui a variedade e a quantidade de insumos colocados
à venda nas feiras de produtores familiares. Pomares de frutas, especialmente de citros, também
estão diretamente afetados. Segmentos produtivos como de mandioca,
folhosas e de itens hidropônicos foram diretamente comprometidos. Escassez de abóboras, morangas, melancias,
melões e batata doce exemplificam o período de carências e de dificuldades.
A
atividade pecuária – outro pilar de sustentação econômica no município –
igualmente contabiliza muitos prejuízos.
O rebanho bovino diminuiu para cerca de 120 mil cabeças. As perdas são
principalmente pela escassez das pastagens nativas e a precariedade dos
mananciais usados como bebedouros.
A quebra na produção de leite é
superior a 50%, diminuindo também a
população do rebanho leiteiro. São
também escassos os derivados de leite. Com condições climáticas adversas, a perspectiva é de sensível queda nos níveis
de desempenho na reprodução dos animais. O gado também perde peso e, ao mesmo
tempo, as cotações se retraem.
Conta milionária
Como os eventos adversos do clima
têm sido cada vez mais frequentes e mais impactantes, é natural que a cada ano
produtores, técnicos e autoridades precisem planejar e executar ações de
enfrentamento. Nos últimos anos, investimentos têm sido feitos em irrigação. Em
muitos casos, porém, têm faltado água para fazer esses sistemas funcionarem. No
evento atual, por exemplo, estruturas acabaram ociosas, por falta de água como
insumo essencial.
A estimativa de técnicos,
produtores e suas entidades é de que São Borja já tem contabilizado prejuízo no
mínimo de R$ 180 milhões. Como a previsão, contudo, é ainda seguir a falta de chuvas, a tendência é de o quadro se
agravar. O decreto de emergência do
prefeito é por 180 dias, mas as suas ações são paliativas, limitadas.
Entre os resultados práticos esperados,
aguarda-se ajuda estadual e federal em caráter de emergência. Processos
licitatórios na Prefeitura em determinadas situações ficam dispensados ou facilitados.
Tributos não pagos podem ser postergados. Campanhas de auxílios podem ocorrer e
o acesso às regiões atingidas também fica liberado. É certo que vai cair a
arrecadação de tributos, assim como a geração de empregos. Entretanto, são todas medidas que somente
tornam o drama menos impactante. Somente a normalização do clima será a solução
completa. E de maneira gradual.






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