quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

EM SÃO BORJA


 


Ponte Manoel Osório, em Manoel Viana, no Rio Ibicuí,
cartão postal da Fronteira Oeste (Foto: Alair Almeira)


A devastação já acarretada

pela emergência climática

 

 

Basta morar algum tempo em solo são-borjense para se chegar a uma incômoda  constatação: nesta microrregião da Fronteira Oeste gaúcha cada vez chove menos e é gradativamente mais quente. Mesmo que se considere fatores como os reflexos do aquecimento global, os  desequilíbrios no bioma amazônico ou o fenômeno La Niña, tudo isso não explica a intensidade  do que ocorre por aqui. Já são três, quatro anos seguidos de severas estiagens em São Borja e no seu entorno, produzindo efeitos cumulativos e prejuízos de toda a ordem. Uma das consequências é mais uma decretação de situação de emergência pelo prefeito Eduardo Bonotto, agora em janeiro, pedindo socorro para mitigar os muitos danos registrados.

 A estação meteorológica José Alvarez, que monitora o clima local, informa que desde 2019 chove abaixo do normal no município. Em 2022, o déficit foi praticamente o ano todo, acentuando-se principalmente no segundo semestre. Como é natural, então, o principal rio na região – o Uruguai – registra baixas históricas. De tal modo que é preciso redobrar atenções para que o abastecimento de água à população urbana não fique comprometido. Já afluentes, como Icamaquã, Butuí e Ibicuí, ficam igual e diretamente comprometidos.

Emancipado em 1992,  o município de Manoel Viana é banhado pelo rio Ibicuí, afluente do Uruguai e  que foi distrito de São Francisco de Assis e de Alegrete. Mesmo que castigada pela seca, a simpática cidade da Fronteira Oeste também transforma o lugar em opção turística, Um bem montado balneário atrai frequentadores de toda a região. Com o calorão de picos recordes, São Borja também se refresca na sua ‘Prainha’, perto da Ponte da Integração.



São-Borjenses também fogem do calorão buscando um
 "refresco" na "prainha" do rio Uruguai (Foto Ama Cogo)


Com tão longas ausências de precipitações pluviométricas regulares, é normal que o déficit hídrico comprometa o lençol freático como um todo.  Assim, poços de balde e artesianos já não conseguem entregar o desempenho habitual, ficando os seus mananciais comprometidos. A Prefeitura mobiliza homens e máquinas para recuperar açudes, bebedouros, cacimbas e sistemas de irrigação. Todo o esforço, contudo, acaba sendo  insuficiente, diante das  demandas crescentes.

A Coordenação Municipal da Defesa Civil leva água sobre rodas, com caminhões-pipas a longas distâncias. Redes de distribuição são substituídas ou ampliadas. Reservatórios hidráulicos são refeitos, mas os pedidos não cessam, exigindo permanente  manutenção. Tudo minimiza, mas a solução completa não é possível.

 

 

Matriz afetada



Baixa do Rio Uruguai em São Borja já, há alguns 
anos,  chega a níveis extremos (Foto Ana Cogo)

 

Historicamente dependente  da produção primária,  secas recorrentes como a deste verão e do anterior, impactam diretamente o setor produtivo de São Borja, inclusive  a geração de postos de trabalho. Na atual safra de  milho,  foram implantados 15 mil hectares de lavouras – área recorde na história recente. Desse cultura,  nove mil  hectares  foram de

sequeiro e seis mil, irrigados.   A  maioria das lavouras, porém, ficou comprometida, com sério déficit de desempenho, por falta de umidade no solo e as altas temperaturas. Nas áreas de sequeiro, o prejuízo é superior a 50% e a cultura irrigada teve melhor desempenho, mas também com perdas significativas. Já a lavoura de milho do tipo safrinha, em janeiro, dificilmente vai se viabilizar por falta de chuvas. O plano era de expansão de área habitual.

A Emater confirma que, em relação à soja, o município planejou cultivar 105 mil hectares - uma área recorde nas últimas décadas. Quase toda a lavoura foi semeada, entretanto,  considerando a ausência de chuvas e a sua má-distribuição, dificilmente a atividade consolidará bons resultados. O incremento na área pretendida foi motivado pelas boas cotações no mercado internacional para a oleaginosa.  

Já a unidade local do Irga informa que São Borja cultivou 27 mil hectares de arroz – redução significativa em relação aos 35 mil hectares do ciclo anterior. Da irrigação da lavoura, 58% dependem de barragens, e a seca trouxe problemas, comprometendo  o sistema. Áreas foram  abandonadas por problemas de irrigação.

A produção de hortigranjeiros está diretamente afetada, especialmente nos últimos  meses. Com isso, diminui a variedade e a quantidade de insumos colocados à venda nas feiras de produtores familiares. Pomares  de frutas, especialmente de citros, também estão  diretamente afetados.  Segmentos produtivos como  de mandioca,  folhosas e de itens hidropônicos foram diretamente comprometidos.   Escassez de abóboras, morangas, melancias, melões e batata doce exemplificam o período de carências e de dificuldades.



Novos reservatórios e redes de distribuição são instalados
para minimizar efeitos da seca (Foto Decom)


A  atividade pecuária – outro pilar de sustentação econômica no município – igualmente contabiliza muitos prejuízos.  O rebanho bovino diminuiu para cerca de 120 mil cabeças. As perdas são principalmente pela escassez das pastagens nativas e a precariedade dos mananciais usados como bebedouros.

A quebra na produção de leite é superior  a 50%, diminuindo também a população do rebanho leiteiro.  São também escassos os derivados de leite. Com condições climáticas adversas,  a perspectiva é de sensível queda nos níveis de desempenho na reprodução dos animais. O gado também perde peso e, ao mesmo tempo, as cotações se retraem.

 

Conta milionária



Estação José Alvarez informa que déficit hídrico
 afeta níveis das barragens desde 2019 no município

 

Como os eventos adversos do clima têm sido cada vez mais frequentes e mais impactantes, é natural que a cada ano produtores, técnicos e autoridades precisem planejar e executar ações de enfrentamento. Nos últimos anos, investimentos têm sido feitos em irrigação. Em muitos casos, porém, têm faltado água para fazer esses sistemas funcionarem. No evento atual, por exemplo, estruturas acabaram ociosas, por falta de água como insumo essencial.

A estimativa de técnicos, produtores e suas entidades é de que São Borja já tem contabilizado prejuízo no mínimo de R$ 180 milhões. Como a previsão, contudo, é ainda seguir a falta  de chuvas, a tendência é de o quadro se agravar.  O decreto de emergência do prefeito é por 180 dias, mas as suas ações são paliativas, limitadas.

Entre os resultados práticos esperados, aguarda-se ajuda estadual e federal em caráter de emergência. Processos licitatórios na Prefeitura em determinadas situações ficam dispensados ou facilitados. Tributos não pagos podem ser postergados. Campanhas de auxílios podem ocorrer e o acesso às regiões atingidas também fica liberado. É certo que vai cair a arrecadação de tributos, assim como a geração de empregos.  Entretanto, são todas medidas que somente tornam o drama menos impactante. Somente a normalização do clima será a solução completa. E de maneira gradual.



Imagem produzida por Alvino Felício mostra
 um Rio Uruguai que quase secou com a estiagem

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