O que Lula tem a ver
com Getúlio Vargas?
O jornalista e escritor Lira Neto, hoje um dos mais destacados biógrafos brasileiros, escreveu para a revista Piauí, este mês, o ensaio A volta dos enterrados Vivos. Na publicação, ele detalha e compara, com sua propriedade peculiar, recortes da cena política brasileira. Mostra que duas figuras políticas no país – Getúlio Vargas e Luiz Inácio Lula da Silva – têm algo em comum, apesar do contexto e das circunstâncias diferentes em que chegaram e exerceram o poder.
Sobre os dois – Liira Neto ressalta que são os únicos no Brasil que voltaram a exercer o poder, depois de terem sido considerados cartas fora do baralho. A figura “a volta dos enterrados vivos”, o escritor cunhou de manifestação de Lula na noite em que foi confirmado para exercer seu terceiro mandato presidencial. O petista disse que, devido à sua prisão e demais implicações, todos o consideravam “enterrado” para a vida política. Lira cita outros três exemplos emblemáticos similares na história mundial neste e no século passado – o francês Charles de Gaulle, o britânico Winston Churchill e o argentino Juan Domingos Perón.
O escritor e jornalista é autor, entre outros livros, da biografia Getúlio, em três volumes, e de A Arte da Biografia: Como Escrever Histórias de Vida (pela Companhia das Letras). À Piauí ele escreveu, em relação aos cinco estadistas, que são “líderes carismáticos e populares, cada um a seu modo e a seu tempo, experimentaram o fel da derrota e da desonra, em instantes traumáticos de suas respectivas trajetórias.” Acrescenta: “Controversos, amados e odiados em igual intensidade e medida, todos eles renasceriam dos escombros da anunciada ruína política.”
Getúlio e Lula
Um dos aspectos em comum entre Getúlio Vargas e Luiz Inácio Lula da Silva é o longo tempo no exercício do poder. Getúlio governou por 19 anos em dois períodos. Já Lula, reeleito e empossado para o terceiro mandato, está com a perspectiva de ficar 12 anos como presidente. Outra similaridade é que os dois voltaram a ser eleitos depois de, aparentemente, aniquilados politicamente.
No mais, há diferenças relevantes a considerar. No primeiro período em que governou a nação, de 1930 a 1945, em quase todo ele, Getúlio Vargas atuou com mão de ferro. Chegou à presidência da República depois de ser deputado e governador do RS, mas alcançou a chefia da nação através de uma revolução, Já entre 1937 e 1945 instituiu a ditadura do Estado Novo, suprimindo liberdades, adotando pesada censura e controlando tudo através do Executivo.
A fase mais democrática, nesse primeiro período, foi entre 1934 e 1937, quando uma Assembleia Constituinte entregou nova Constituição ao País. Apesar desse perfil centralizador, Vargas conseguiu também avanços significativos, como novos direitos políticos e trabalhistas, bem como importantes investimentos em infraestrutura e promovendo, ainda, a industrialização e a urbanização do Brasil. Com habilidade, conseguiu o apoio da massa operária.
A partir de 1945, Getúlio Vargas observa ‘exílio voluntário’ na Fazenda do Itu, em São Borja. E quando todos achavam que ele estava politicamente acabado, eis que, em 1950, elege-se presidente da República, agora com a consagração do voto popular. Assumiu em 31 de janeiro do ano seguinte e permaneceu no cargo até 24 de agosto de 1954, quando se matou com um tiro no peito. Apesar do período politicamente conturbado, Getúlio conseguiu mais avanços no desenvolvimento brasileiro e consolidou a sua popularidade. Criou dois partidos políticos, os antigos PSD e PTB.
Já a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva começou nos anos 1970, como líder sindical no ABC paulista. No final da década seria criado o PT, partido que, aos poucos, projetou Lula em âmbito nacional. Foi eleito deputado federal e, como parlamentar, participou da Assembleia Constituinte que produziu a Constituição de 1988.
A seguir, o petista concorreu por vezes sucessivas a presidente da República, mas não se elegeu. Entretanto entre 2003 e 2011 foi duas vezes seguidas eleito para presidir a nação. Em função da Operação Lava Jato, que apurou casos de corrupção no país, Lula ficou por 580 dias preso, entre 7 de abril de 2018 e 8 de novembro de 2019. Após esse período, entretanto, o Supremo Tribunal Federal decidiu pela sua soltura. Lula também reabilitou os seus direitos políticos.
Em um Brasil politicamente polarizado, as posições ficaram dividas, contra e a favor de Lula. Nesse ambiente de apoios e hostilidades, ele viria concorrer a um terceiro mandato para a presidência da República. Em votação de 2º turno, com mais de 60 milhões de votos venceu seu antecessor Jair Bolsonaro (PL), que conseguiu um pouco mais de 58 milhões de votos.
Para a gestão 2023-2026, o petista assumiu em 1º de janeiro deste ano. O principal compromisso assumido por Lula é o combate à forma e à desigualdade no país. Nos dois primeiros governos, um dos destaques foi o avanço do programa Bolsa Família, que começou na gestão Fernando Henrique Cardoso. No período lulista, o programa de inclusão social foi referência internacional. São compromissos também agora geração de empregos e a restauração de investimentos e ações estruturantes de educação, saúde e meio ambiente. Na mesmo esteira reindustrialização e geração de empregos.
De Gaulle, Perón e Churchill
O pesquisador e escritor Lira Neto cita, no cenário internacional, alguns exemplos de figuras representativas e que ressurgiram na vida política, quando pareciam não mais voltar. Um dos nomes em destaque é do francês Charles de Gaulle, um general e político, estadista no seu país e que liderou as forças francesas na II Guerra Mundial. Presidiu o governo provisório da República em 1946, restabelecendo a democracia. Em 1958, saiu da reforma quando foi nomeado presidente do Conselho de Ministros. De Gaulle reescreveu a Constituição francesa e fundou a Quinta República após a aprovação por referendo.
Charles de Gaulle foi eleito presidente de França no final daquele ano (1858), sendo reeleito em 1965. Ficou no cargo até 1959, quando renunciou. Embora reeleito à presidência em 1965, ele enfrentou protestos generalizados de estudantes e trabalhadores, em 1958. Contudo, assumiu com apoio do Exército; Morreu um ano depois. Muitos partidos e figuras francesas reivindicam o legado gaullista. Ruas e monumentos foram dedicados à sua memória após a sua morte.
Já o argentino Juan Domingos Perón foi um militar e político. Presidiu a Argentina por três mandatos: de 1946 a 1952, de 1952 a 1955 e de 1973 a 1974.
A carreira política começou em 1944, quando Perón passou a se destacar à frente da Secretaria do Trabalho e Previdência, com status de ministro. Atraiu imensa massa operária, organizada em sindicatos. Em 1945, passou a acumular os cargos de vice-presidente da República e ministro da Guerra. Nesses cargos atuou em negociações na II Guerra Mundial, posicionando-se contra os EUA.
A política trabalhista de Perón despertou resistência nos meios militares conservadores e nos círculos patronais. Em outubro de 1945, foi preso, mas libertado uma semana após, graça a uma imensa manifestação de apoio popular. Teve apoio também da artista Eva Duarte (futura Evita Peron), que se casaria com ele. Ao todo, foram três casamentos. Perón voltou a seus cargos com muito mais força.
Perón foi eleito presidente da Argentina nas eleições de 26 de fevereiro de 1946. Antes da passe foi promovido a general. Deu início a um programa de apoio aos trabalhadores. O Estado decretou intervenção na economia e foram nacionalizadas as ferrovias e compradas dos proprietários ingleses com faturamento de 1,7 bilhão de dólares.
Perón liquidou os demais partidos e criou um instrumento próprio de ação política, o “partido único da revolução”, a que deu o nome de “Partido Peronista”.
Em 1949, Perón promoveu uma reforma constitucional, ficando com o Congresso sob seu controle e garantindo reeleição.
Perón interveio nas universidades e entrou em conflito com a Suprema Corte e suprimiu a liberdade de imprensa, implantando assim a ditadura sem disfarces, embora com apoio das massas. Em1949 liquidou os demais partidos e criou o Partido Peronista. Com participação de Evita. Também jornais e emissoras de rádios foram fechadas as dezenas. Uma reforma constitucional em 1949 permitiu reeleição ao presidente. Se manteve o apoio da massa operária, foi rechaçado pelas forças conservadores, os militares e a alta corte da Justiça..
No dia 16 de junho de 1954, um grupo rebelado da força aérea bombardeou a Casa Rosada, causando a morte de várias pessoas. Perón conseguiu escapar. Em 31 de agosto simulou uma renúncia, que não foi concretizada.
Em 19 de setembro de 1955, uma rebelião da Marinha e do Exército, com apoio dos setores políticos, obrigou Perón a renunciar e refugiar-se, primeiro em países da América Central, depois na Espanha. De lá continuou chefiando o Peronismo.
A terceira figura internacional destacdaa por Lira Neto é o inglês Winston Churchill. Foi militar, estadista e escritor britânico que atuou como primeiro-ministro do Reino Unido de 1940 a 1945, durante a II Guerra Mundial, e novamente de 1951 a 1955. Atuou no Parlamento de 1900 a 1964, totalizando cinco círculos eleitorais.
Fora do governo durante seus chamados "anos selvagens" na década de 1930, Churchill assumiu a liderança ao pedir o rearmamento britânico para combater a crescente ameaça da Alemanha Nazista. Na II Guerra, ele foi renomeado comandante britânico. Em maio de 1940, tornou-se primeiro-ministro dp país, com atuação decisiva para a vitória dos Aliados contra as Potências do Eixo, em 1945. Em meio à Guerra Fria com a União Soviética, alertou publicamente sobre a influência soviética. Liderou a unidade da Europa.
Escreveu muito sobre a experiência durante a guerra mundial, que rendeu a Churchill o Prêmio Nobel de Literatura em 1953. Perdeu a eleição de 1950, mas voltou ao cargo em 1951. No seu segundo mandato preocupou-se com as relações exteriores, especialmente as relações anglo-americanas e a preservação do Império Britânico. Internamente, seu governo enfatizou a construção de casas e completou o desenvolvimento de uma arma nuclear iniciada por seu antecessor. Com a saúde em declínio, Churchill renunciou ao cargo de primeiro-ministro em 1955. Mas permaneceu como deputado até 1964. Após sua morte em 1965, recebeu um funeral de estado. É considerado um dos maiores líderes do século 20.


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