Preço de um
aprendizado
Há quem diga que, em nome da liberdade
democrática, demorou-se demais para
conter manifestações extremadas, país afora, nas últimas semanas. De tal modo
que segmentos minoritários, mas bem determinados, começaram como a tomar a sopa
pelas bordas do prato, porém sinalizando que o desejo era beber o prato inteiro. Essa gradual escalada nas
ações viria alcançar seu ápice no domingo, 8 de janeiro, deixando atônita e
estarrecida uma nação inteira, estupefata pelo que viu. A Capital Federal foi
transformada em praça de guerra e de destruições. A motivação alegada seria a
não aceitação dos resultados das eleições que, em 30 de outubro, confirmaram o
petista Luiz Inácio Lula da Silva para novo presidente da República.
Esse evento mais recente, traumático e
estarrecedor, entre nós, ocorreu exatos dois anos e dois dias após investida
similar de Invasão do Capitólio, a sede do Parlamento nos Estados Unidos da
América. Mas se o argumento para ambas
as insólitas incursões é basicamente o
mesmo – contestar o resultado eleitoral, mesmo que reconhecido por órgãos oficiais e pelo mundo -, há nele, também, uma diferença robusta. A invasão dos descontentes
norte-americanos foi apenas ao Congresso;
já a ação à brasileira atingiu os Três Poderes da República. E, bem mais que os
descontentes do norte do continente, deixou um sinuoso e denso rastro de
destruição, botando abaixo simbolismos
os mais representativos e produzindo estragos incalculáveis no patrimônio histórico-cultural
do Congresso, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal. Nunca a
democracia e algumas das principais
instituições que a representam foram tão grave e duramente atacadas como agora. “Liberdade democrática não é sinônimo de violência,
depredação ou quaisquer outros excessos”, já vinha alertando o presidente do
Tribunal Superior Eleitoral e ministro do STF Alexandre de Moraes.
Se o Brasil segue dividido pela
polarização política, não havendo sinais de pacificação imediata, quem sabe então este patético cenário em Brasília
não consegue construir um consenso, uma unidade? Os Poderes atingidos e que se refazem
também se unem em todas as suas esferas
e instâncias. Assim também ocorre com os
operadores da segurança, da ordem e das investigações. A disposição é ser
implacável, buscando e alcançando todos aqueles que tenham protagonizado as
cenas deste dantesco teatro. Que a justiça exemplarmente se faça no limite do ordenamento do bom senso
e respeitando direitos e prerrogativas,
onde eles estiverem. A comunidade internacional, que a tudo acompanha espantada, está igualmente solidária, esperando um fecho ajuizado do que vê por aqui. Espera, portanto, pelo restauro
da ordem e pela consolidação democrática.
Não sejamos ingênuos que será fácil
alcançar o Brasil pacificado que sonhamos como uma nação solidária e fraterna. Por
enquanto, os dois lados sob embate não parecem dispostos a convergir. Quem
sabe, contudo, estes acontecimentos mais recentes não sirvam para um choque de
realidade, em nome da razão, do bom senso e do bem geral? Pode ser apenas
exercício de romantização, mas não custa sonhar. E desejar!

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