quarta-feira, 20 de abril de 2022

NOSSA HISTÓRIA, NOSSA GENTE



  

Na praça, mais simbolismos

oferecem moradas à cultura

 (Fotos monumentos Ana Cogo)


Telmo, aos acordes do seu talento, num 
convite de boas-vindas a qyem chega.


Aos poucos, a praça Tricentenário, na região  sul da cidade, vai ampliando suas referências materiais ancestrais e, através de obras de arte, vai perpetuando a nossa história. Quando surgiu, em 1982, a maior motivação foi simbolizar os 300 anos da formação histórica de São Borja, quando foi erguido um monumento emblemático, marcando a efeméride. Agora, eis que um dos portais de acesso à cidade estende o abraço  de um dos seus filhos ilustre - Telmo de Lima Freitas -, para acolher quem chega e para abraçar os são-borjenses.

O Monumento ao Tricentenário foi pensado pelo talento criativo do poeta, compositor, escritor e pesquisador Apparício Silva Rillo. Na obra, no centro da praça, estão representadas as diversas etapas de uma São Borja de história densa e diversificada. Ferro e  concreto ganham vida para simbolizar o período anterior e subsequente a 1682, quando a ação de índios guarani e jesuítas começaria a construção do Primeiro dos Sete Povos Missioneiro. O rio Uruguai e sua importância também se vê representado, assim como a vida agropastoril, meio principal de sobrevivência. O monumento ainda  não esquece  as sagas portuguesa e espanhola, do mesmo modo que os eventos e vultos históricos, como o movimento republicano, pioneiro aqui, a Terra de Getúlio Vargas e de João Goulart.  A síntese de um povo,  enfim, está ali.

Agora, pela iniciativa da administração municipal e pelo talento e pelas mãos do artista plástico Rossini Rodrigues, emerge  a escultura de Telmo de Lima Freitas, trazendo para a praça mais história e mais cultura. Mais que uma homenagem, moldada em cimento e argila, a ação materializa outro regate histórico de um dos mais icônicos poetas, compositores da arte musical . Se desde fevereiro de 2021 ele não está fisicamente entre nós, sua eclética  obra permanece. Como dizia Apparício Silva Rillo “... e até num bronze de praça vive a raiz da querência!”  Confirma, a seguir, a vida e a obra de Telmo de Lima Freitas.

 


Nos 300 anos, um monumento para
materializar a formação histórica.


Vocação privilegiada   

 

Telmo de Lima Freitas nasceu em São Borja em 13 de fevereiro de 1933. É filho do oficial do Exército brasileiro   Leonardo Francisco de Freitas e da campeira Mariana de Lima Freitas. Com orgulho, sempre dizia ter nascido no bairro Paraboi, inspiração para um dos seus discos e o local onde se criou. Já aos dois anos de idade, estampou a capa da Revista Cacimba tendo na mão um cavaquinho - presente de sua madrinha. Mais tarde, ganhou  um violão de presente de um amigo.

Em 1947, aos 14 anos, despontando seus pendores para a carreira musical, participou do lendário grupo  Quarteto Gaúcho com Jaime Fagundes ao violão,  Glênio na gaita de boca e Lulu no pandeiro. Apesar da breve carreira nesta experiência,  marcou época em São Borja e na região Fronteira Oeste gaúcha.

Em 1950 Telmo inicia sua atuação na  Rádio ZYFZ   Fronteira do Sul de São Borja. Apresentou o programa gauchesco Porongo de Pedra. Foi um dos campeões de audiência da pioneira emissora de rádio da cidade. Na sequência, em 1957, o ‘paraboiense’ vence o famoso concurso de gaita de botão no ‘rande Rodeio Coringa da Rádio Farroupilha de Porto Alegre. O programa, dirigido por Darcy Fagundes e Luiz Menezes, era uma das maiores vitrines musicais do Rio Grande do Sul.

 

Mais conquistas


No ano de 1963, Telmo de Lima Freitas foi aprovado em concurso público como agente da Polícia Federal, passando a atuar em Porto Alegre. Em 1964 assume a chefia da Interpol no Rio Grande do Sul. Até 1968 Telmo tem suas músicas gravadas por José Mendes e por meio de pseudônimos, já que seu nome não podia ser divulgado.
Em 1969 participou, com brilhantismo, do 1º Festival de Música Regionalista organizado pela Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Dois anos depois, em 1971, participa com duas composições da recém criada 1ª Califórnia da Canção Nativa de  Uruguaiana. Os trabalhos foram  Retorno e Prece ao Minuano.  

A saga de  talento e de sucesso segue marcando conquistas. Em 1973 tem participação também no cinema, através do filme A Lenda do Boitatá. Já em 1975, o cantor e compositor José Mendes  consolida enorme sucesso gravando duas músicas de Telmo no LP Isto É Integração. São elas Pago Santo e Prece ao Minuano.


Consagração


O ano de 1979 marca para o poeta e compositor são-borjense uma fase de glórias. Com o clássico Esquilador – provavelmente a sua  música mais  emblemática e conhecida – ganha a cobiçada Calhandra de Ouro na 9ª Califórnia da Canção Nativa em Uruguaiana. Em parceria com



Após 40 anos, Monumento ao
Tricentenário recebe parceria
perenizada em argila e cimento.


Edson Otto e José Antônio Hahn, criou o grupo Os Cantores dos Sete Povos. Foram 11 participações na Califórnia. Em 1983,  pela  destacada gravadora Polygram ele gravou o seu primeiro LP  - O Canto de Telmo de Lima Freitas -, com produção de Ayrton dos Anjos e Juarez Fonseca.

Como típico homem da Fronteira, além de São Borja morou em Uruguaiana e Itaqui.  Em Itaqui foram quatro anos de permanência,  a partir de 1987. Nesta cidade, Telmo continuou a arte musical, segundo conta o consagrado poeta da terra João Sampaio, também responsável pelo resgate da cronologia histórica.  

Em parceria com os itaquienses  Ambrósio de Mello (gaita de botão), Zeca Bigode ( pandeiro), mais Amigo Souza no violão e o cantor Januário Teixeira como intérprete, Telmo ganha uma das linhas da 17ª Califórnia da Canção Nativa do RS. A composição foi o xote Surpresa  que fala de personagens populares de Itaqui, como dona Santiago e o famoso Ramão Grande.

Paralelamente, o gaiteiro Porca Véia – que se tornaria um dos maiores interpretes  da obra do Telmo - grava Serenata e  depois populariza, até 1999, músicas como  Lembranças, Recorrendo os Aguapés Matinê,  Canção do Andarengo, ‘arca Borrada – Marcha Tropeira e Saudade Bruaca.


  Outro disco

 

No talento dos traços de Rossini ou nos
 versos de Telmo, o bolicho de campanha.


O talento de Telmo de Lima Freitas continua a produzir sucessos. Como em 1988, quando grava o seu segundo LP – independente – Alma de Galpão. É  patrocinado pela empresa Marcopólo e conta com interpretes e convidados como José Cláudio Machado, João de Almeida Neto, Loma, Edson Otto e Renato Borghetti, entre  outros.

No ano de 1989, o clássico Esquilador recebe uma releitura ao ser gravado pelo Coral do Banrisul. Já em 1992, Telmo aposenta-se como agente da Polícia Federal, função que exerceu pelo Rio Grande do Sul. O CD  De Marcha Batida é gravado pela pela Usa/Discos, em 1994. Dois anos após é lançado o CD  Rastreador, pela Usa/Discos. A  música Lembranças – um dos clássicos – é regravada pelo cantor Dante Ramón Ledesma. Em 1998 é lançado o CD Acervo Gaúcho pela gravadora Usa/Discos. A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) grava Esquilador.

Em 1999, Telmo grava – novamente pela Usa/Discos – o CD A Mesma Fuça, homenageando o ‘seu’ Paraboi. No ano 2000 vem o Prêmio Açorianos  de Melhor Disco Regional  e Melhor Compositor Regional. Já o cantor e compositor Vinicius Brum  regrava Prece ao Minuano e Prenda Minha clássicos do repertório de Telmo. Em 2002 o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) lança o livro de poesias crioulas de Telmo -   De Volta ao Pago - editado pela Gráfica e Editora Treze de Maio. Ele ainda teria mais gravações e parcerias.

Telmo de Lima Freitas  faleceu no dia 18 de fevereiro de 2021, cinco dias  após comemorar 88 anos de idade. A comemoração de aniversário foi em uma festa campeira, onde  bebeu leite na copa de um chapéu, convencendo outros a fazerem o mesmo.

 

De tudo

 


Além de destacado homem de criação,  Telmo de Lima Freitas teve ainda múltiplas outras ocupações. Foi sapateiro,  escultor, músico, poeta, compositor, enfermeiro, peão de estância, taipeiro nas primeiras  lavouras de arroz da Fronteira Oeste e ainda agente da Polícia Federal.

Ele faleceu em Cachoeirinha, cidade da Grande Porto Alegre. Atendendo desejo pessoal expresso, seus restos mortais foram jogados nas águas do rio Uruguai em São Borja, como um retorno ao local onde nasceu. Também atendendo seu pedido, familiares trouxeram em cavalgada as cinzas do seu que, na Sexta-Feira Santa (15/4), repousaram sobre o berço das águas na região de Rincão de Santana, interior do município.

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