Na praça, mais simbolismos
oferecem moradas à cultura
Aos poucos, a praça Tricentenário, na região sul da cidade, vai ampliando suas referências materiais ancestrais e, através de obras de arte, vai perpetuando a nossa história. Quando surgiu, em 1982, a maior motivação foi simbolizar os 300 anos da formação histórica de São Borja, quando foi erguido um monumento emblemático, marcando a efeméride. Agora, eis que um dos portais de acesso à cidade estende o abraço de um dos seus filhos ilustre - Telmo de Lima Freitas -, para acolher quem chega e para abraçar os são-borjenses.
O Monumento ao Tricentenário foi
pensado pelo talento criativo do poeta, compositor, escritor e pesquisador
Apparício Silva Rillo. Na obra, no centro da praça, estão representadas as
diversas etapas de uma São Borja de história densa e diversificada. Ferro e concreto ganham vida para simbolizar o período
anterior e subsequente a 1682, quando a ação de índios guarani e jesuítas
começaria a construção do Primeiro dos Sete Povos Missioneiro. O rio Uruguai e
sua importância também se vê representado, assim como a vida agropastoril, meio
principal de sobrevivência. O monumento ainda não esquece as sagas portuguesa e espanhola, do mesmo modo
que os eventos e vultos históricos, como o movimento republicano, pioneiro
aqui, a Terra de Getúlio Vargas e de João Goulart. A síntese de um povo, enfim, está ali.
Agora, pela iniciativa da administração
municipal e pelo talento e pelas mãos do artista plástico Rossini Rodrigues, emerge
a escultura de Telmo de Lima Freitas,
trazendo para a praça mais história e mais cultura. Mais que uma homenagem,
moldada em cimento e argila, a ação materializa outro regate histórico de um
dos mais icônicos poetas, compositores da arte musical . Se desde fevereiro de
2021 ele não está fisicamente entre nós, sua eclética obra permanece. Como dizia Apparício Silva
Rillo “... e até num bronze de praça vive a raiz da querência!” Confirma, a seguir, a vida e a obra de Telmo
de Lima Freitas.
Vocação privilegiada
Telmo de Lima Freitas nasceu em São Borja em 13 de fevereiro de 1933. É filho
do oficial do Exército brasileiro Leonardo Francisco de Freitas e da
campeira Mariana de Lima Freitas. Com orgulho, sempre dizia ter nascido no
bairro Paraboi, inspiração para um dos seus discos e o local onde se criou. Já
aos dois anos de idade, estampou a
capa da Revista Cacimba tendo na mão um cavaquinho - presente de sua madrinha.
Mais tarde, ganhou um violão de presente
de um amigo.
Em 1947, aos 14 anos, despontando
seus pendores para a carreira musical, participou do lendário grupo
Quarteto Gaúcho com Jaime Fagundes ao violão, Glênio na gaita de boca e Lulu no pandeiro. Apesar
da breve carreira nesta experiência, marcou
época em São Borja e na região Fronteira Oeste gaúcha.
Em 1950 Telmo inicia sua atuação na
Rádio ZYFZ Fronteira do Sul de São Borja. Apresentou o programa
gauchesco Porongo de Pedra. Foi um dos campeões de audiência da pioneira
emissora de rádio da cidade. Na sequência, em 1957, o ‘paraboiense’ vence o
famoso concurso de gaita de botão no ‘rande Rodeio Coringa da Rádio Farroupilha
de Porto Alegre. O programa, dirigido por Darcy Fagundes e Luiz Menezes, era
uma das maiores vitrines musicais do Rio Grande do Sul.
Mais conquistas
No ano de 1963, Telmo de Lima Freitas foi aprovado em concurso público como
agente da Polícia Federal, passando a atuar em Porto Alegre. Em 1964 assume a
chefia da Interpol no Rio Grande do Sul. Até 1968 Telmo tem suas músicas
gravadas por José Mendes e por meio de pseudônimos, já que seu nome não podia ser
divulgado.
Em 1969 participou, com brilhantismo, do 1º Festival de Música Regionalista
organizado pela Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Dois anos depois, em 1971, participa
com duas composições da recém criada 1ª Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana. Os trabalhos foram Retorno e Prece ao Minuano.
A saga de talento e de sucesso segue marcando
conquistas. Em 1973 tem participação também no cinema, através do filme A Lenda
do Boitatá. Já em 1975, o cantor e compositor José Mendes consolida enorme sucesso gravando duas músicas
de Telmo no LP Isto É Integração. São elas Pago Santo e Prece ao Minuano.
Consagração
O ano de 1979 marca para o poeta e compositor são-borjense uma fase de glórias.
Com o clássico Esquilador – provavelmente a sua música mais emblemática e conhecida – ganha a cobiçada
Calhandra de Ouro na 9ª Califórnia da Canção Nativa em Uruguaiana. Em parceria
com
Como típico homem da Fronteira, além
de São Borja morou em Uruguaiana e Itaqui.
Em Itaqui foram quatro anos de permanência, a partir de 1987. Nesta cidade, Telmo
continuou a arte musical, segundo conta o consagrado poeta da terra João
Sampaio, também responsável pelo resgate da cronologia histórica.
Em parceria com os itaquienses
Ambrósio de Mello (gaita de botão), Zeca Bigode ( pandeiro), mais Amigo Souza
no violão e o cantor Januário Teixeira como intérprete, Telmo ganha uma das
linhas da 17ª Califórnia da Canção Nativa do RS. A composição foi o xote
Surpresa que fala de personagens populares de Itaqui, como dona Santiago
e o famoso Ramão Grande.
Paralelamente, o gaiteiro Porca Véia
– que se tornaria um dos maiores interpretes da obra do Telmo - grava
Serenata e depois populariza, até 1999,
músicas como Lembranças, Recorrendo os
Aguapés Matinê, Canção do Andarengo, ‘arca
Borrada – Marcha Tropeira e Saudade Bruaca.
Outro disco
No talento dos traços de Rossini ou nos
versos de Telmo, o bolicho de campanha.
No ano de 1989, o clássico
Esquilador recebe uma releitura ao ser gravado pelo Coral do Banrisul. Já em 1992, Telmo
aposenta-se como agente da Polícia Federal, função que exerceu pelo Rio Grande
do Sul. O CD De Marcha Batida é gravado pela pela Usa/Discos, em 1994.
Dois anos após é lançado o CD Rastreador, pela Usa/Discos. A música Lembranças – um dos clássicos – é
regravada pelo cantor Dante Ramón Ledesma. Em 1998 é lançado o CD Acervo Gaúcho
pela gravadora Usa/Discos. A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) grava
Esquilador.
Em 1999, Telmo grava – novamente pela
Usa/Discos – o CD A Mesma Fuça, homenageando o ‘seu’ Paraboi. No ano 2000 vem o
Prêmio Açorianos de Melhor Disco Regional e Melhor Compositor
Regional. Já o cantor e compositor Vinicius Brum regrava Prece ao Minuano
e Prenda Minha clássicos do repertório de Telmo. Em 2002 o Movimento
Tradicionalista Gaúcho (MTG) lança o livro de poesias crioulas de Telmo -
De Volta ao Pago - editado pela Gráfica e Editora Treze de Maio. Ele ainda
teria mais gravações e parcerias.
Telmo de Lima Freitas faleceu no
dia 18 de fevereiro de 2021, cinco dias após comemorar 88 anos de idade. A comemoração
de aniversário foi em uma festa campeira, onde bebeu leite na copa de um
chapéu, convencendo outros a fazerem o mesmo.
De tudo
Além de destacado homem de criação, Telmo de Lima Freitas teve ainda múltiplas
outras ocupações. Foi sapateiro,
escultor, músico, poeta, compositor, enfermeiro, peão de estância,
taipeiro nas primeiras lavouras de arroz da Fronteira Oeste e ainda
agente da Polícia Federal.
Ele faleceu em Cachoeirinha, cidade
da Grande Porto Alegre. Atendendo desejo pessoal expresso, seus restos mortais
foram jogados nas águas do rio Uruguai em São Borja, como um retorno ao local onde
nasceu. Também atendendo seu pedido, familiares trouxeram em cavalgada as
cinzas do seu que, na Sexta-Feira Santa (15/4), repousaram sobre o berço das águas
na região de Rincão de Santana, interior do município.





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