sexta-feira, 8 de abril de 2022

ENTREVISTA: Christopher Belchior Goulart

 

 

 “As soluções do país estão no nacional-

desenvolvimento e no e trabalhismo”

Neto de Jangogarantte que  ficará em São Borja.

 (Fotos arquivo pessoal)

 

Christopher: “O trabalhismo é
única vertente política no Brasil
que pode quebrar paradigmas.”

Aos 45 anos, o advogado Christopher Goulart é taxativo: depois de peregrinar  pelo mundo, garante que permanecerá em São Borja. Nesta entrevista ao BlogAlberiCogo, o neto do ex-presidente João Goulart confirma que é pré-candidato a deputado estadual, este ano e, que, no último pleito municipal, foi para o sacrifício em nome do PDT. Assegura, ainda, que sempre estará à disposição do  partido para outras disputas, inclusive para concorrer novamente a prefeito em São Borja.

Evitando outras abordagens do cenário local, em ponto é categórico: “o trabalhismo e o nacional-desenvolvimentismo   defendidos pelo PDT  são a solução para o Brasil.” Na sua visão, “as mesmas bandeiras de Getúlio Vargas, de Jango e de Leonel Brizola, adaptadas à realidade, é que devem ser colocadas em prática.”

Christopher tem sua trajetória marcada pela política e o exercício de funções públicas. Foi vereador em Porto Alegre, diretor da Secretaria Estadual de Esportes e secretário da Assistência Social na capital gaúcha. É primeiro suplente de senador e integra a executiva estadual do PDT, assim como o seu diretório nacional. É também militante do Movimento de Justiça e Direitos Humanos.

Christopher é filho de João Vicente Goulart e de Zulma Estela Katz. Nasceu  em 1976. Apesar da nacionalidade uruguaia, o nascimento foi  em Londres, a capital britânica.  Atualmente é casado com Bruna Borges. O casal tem três filhas: Valentina, Martina e Ana Beatriz. Acompanhe a entrevista, a seguir.

 

Christopher Goulart, a esposa
Bruna Borges e as filhas
Valentina, Martina e Ana Beatriz.
 

Alberi Cogo - Que razões principais o motivam a vir para São Borja? A sua presença aqui é para permanecer?

Christopher Goulart -Desde meu primeiro dia de vida, tenho ligação umbilical com São Borja, em razão de meus ancestrais. Poucas pessoas compreendem efetivamente o que significa nascer no exílio. E pior do que isso, muitas julgam de forma preconceituosa.

A verdade é que a ditadura militar não me permitiu nascer no Brasil. Todos sabem, meu avô João Goulart era o perseguido político número 1 da ditadura no Brasil. Eu me sinto como um filho direto dessa história política brasileira. Minha vida iniciou no golpe de 1964, apesar de eu ter nascido em 1976. Vou explicar. Meu pai conheceu minha mãe Zulma Estela Katz no Uruguai, durante o exílio. Por isso, ganhei a nacionalidade uruguaia. Eu nasci em Londres, na Inglaterra, em razão da perseguição política que minha família sofria e por isso meu nome é Christopher.  Nestas condições, acabei vivendo uma vida sem saber exatamente qual é a minha cidade de origem. Situação natural para filhos de exilados políticos. Então, acabei por me encontrar efetivamente em uma cidade aos 45 anos de idade. E essa cidade é São Borja. E sim, minha presença aqui é para permanecer.

 

AC - O senhor já concorreu a prefeito no município. Pretende nova disputa no futuro ou então já agora em 2022 nas eleições gerais?

CG - Minha candidatura a prefeito de São Borja se deu como forma de um sacrifício pessoal, para manter o PDT de pé, com dignidade. Sou um militante do trabalhismo que coloca o interesse partidário acima dos meus próprios interesses. Os demais candidatos a prefeito pelo PDT, nas eleições de 2020, retiraram as suas candidaturas, para concorrer a vereador, deixando nosso partido numa situação muito delicada. Inclusive havia quem queria que o PDT fosse vice do DEM aqui no município, de modo que eu, juntamente com outros valorosos companheiros e companheiras, não poderíamos permitir que acabassem com o nosso partido, logo aqui no berço do trabalhismo, na Terra dos Presidentes.  Muitos inclusive apostaram que eu iria embora logo depois da eleição. Nesse sentido erraram feio. Se antes o problema era que “eu não era de São Borja”, depois o problema passou a ser que agora “eu estou em São Borja”.  Apesar de tudo isso, fizemos 25% dos votos válidos do município. Portanto, saímos muito maior do que entramos. E essa hoje é minha maior motivação.  Considerando as circunstâncias, me sinto um vencedor desse processo!  Hoje sou pré-candidato a deputado estadual, com uma candidatura muito bem construída com o PDT estadual e nacional. Meu nome segue à disposição de um grupo político, e estarei sempre apto a concorrer a qualquer espaço que seja necessário.

 

"Querem acabar com a referência nacional de Terra
 dos Presidentes", reprova Christopher com veemência.

AC - Uma de suas bandeiras é a preservação do legado político do seu avô, ex-presidente João Goulart. Nesse sentido, que ações tem pensadas para implementar pela memória de Jamgo?

CG  - Defendo o legado de meu avô por razões obviamente familiares, com projeção na causa pública de futuro. Enxergo na doutrina trabalhista um pensamento moderno, que não flerta com radicalismos, que se propõe a ser um equilíbrio entre o capital e o trabalho, de acordo a Alberto Pasqualini. Sinto-me detentor de uma causa, num mundo onde quase sempre o fisiologismo pragmático se apresenta. Para mim um dos piores males da política são os oportunistas que não se pautam por causas superiores. Esses que se apresentam como meros despachantes de uma burocracia estatal, à serviço das conveniências e dos grandes empresários.  Pretendo implementar a ideia das reformas de base de meu avô, de forma gradativa, contextualizadas ao momento em que vivemos, com foco principal no exercício da democracia plena. Faz-se necessário um trabalho de conscientização do povo brasileiro, e ao mesmo tempo uma pacificação que permita o diálogo no sentido de conquistar os pontos comuns de convergência.

 

AC - Há observadores que enxergam uma São Borja historicamente dividia e, por isso, pagando um alto preço. Tem sentido essa afirmativa?

CG - São Borja tem como principal marca no Brasil inteiro o fato de ser a “Terra dos Presidentes” e “berço do trabalhismo”. Não há como falar em São Borja sem falar em Getúlio Vargas e João Goulart, e isso obviamente chama a atenção de quem segue o pensamento originário dos ditadores militares. Existe inclusive um esforço pueril no município em substituir a marca “Terra dos presidentes”, por “Capital Gaúcha do Fandango”, uma manobra medíocre que procura apagar as marcas indeléveis do trabalhismo. Hoje, a nova direita se apresenta com outra roupagem, porém na essência representa a mesma atuação política dos que atuam para a manutenção de privilégios financeiros a qualquer custo. São as mesmas aves de rapina com outra plumagem.

 

AC - O senhor é suplente de senador. Nesta condição, que atividades públicas tem conseguido colocar em prática?

CG - Em 2014 fui indicado por meu partido, aos 38 anos de idade, para ser candidato a  primeiro suplente de senador. Motivo de orgulho para mim, pois minha indicação se deu justamente em razão do compromisso que eu sempre demonstrei com o trabalhismo, dentro do Estado do Rio Grande do Sul. Costumo dizer que não sou suplente do senador Lasier Martins, mas sim do trabalhismo. Minhas posições políticas sempre serão coerentes com a formação ideológica que todos já conhecem. Aliás, quase sempre os primeiros suplentes de senador no Brasil são financiadores do candidato principal. Meu caso se deu em razão de meu histórico de militância.  Claro que ao não estar no exercício do cargo, minha atuação prática resta prejudicada. Até porque o próprio senador Lasier não está mais no PDT, e nossas visões políticas são muito diferentes. Apesar disso, hoje temos uma relação cordial, e inclusive recentemente articulei junto ao gabinete uma emenda Parlamentar para a Apae de São Borja.

 

 Christopher prega um trabalho
 de conscientização e ainda de
 pacificação do povo brasileiro.

AC - As eleições gerais no país este ano sinalizam para uma acirrada polarização entre os campos da esquerda e da direita, Por que o campo em que o senhor atua nunca consegue se unir de fato?

CG - Essa é a polarização que está afundando o país economicamente. Ambas representam as correntes o mesmo modelo, de modo que não compreendo as razões pelas quais se insiste no mesmo erro. Bolsonaro para mim é a maior vergonha da história brasileira. Um representante que flerta com a ditadura militar, que faz homenagens aos torturadores e se coloca como vassalo dos Estados Unidos. Que ameaça diariamente a democracia brasileira, atacando as instituições e desrespeitando os direitos e garantias do povo brasileiro. Um despreparado completo na presidência. Já Lula, que efetivamente compõe o campo da esquerda, a meu ver não representa mais o futuro próspero da Nação brasileira, eis que remete a um passado de muitas contradições.  Sou trabalhista, a única vertente política no Brasil que se propõe efetivamente a quebrar paradigmas que perpetuam a exclusão de milhares de cidadãos pobres que não conseguem ingressar numa faixa de desenvolvimento. Vale lembrar a abolição da escravatura, a proclamação da República, a Revolução de 30, a promulgação da CLT, as Reformas de Base. São momentos que inspiram ao trabalhismo, que tem em seus principais documentos públicos a Carta Testamento e as reformas de base de Jango, na Central do Brasil em 13 de março de 1964. Ainda, o legado virtuoso e inatacável de Leonel Brizola segue norteando igualmente os nossos ideais.  Nossa visão política tem diferenças com a visão do PT, muito embora ambos estejam dentro de um campo popular-progressista. Enquanto o trabalhismo se propõe e colocar em prática a política do combate à concentração de renda, a erradicação do analfabetismo, a democratização dos créditos, da terra e do conhecimento, ao fortalecimento da nossa soberania nacional, o PT segue a linha do assistencialismo, da convergência com os banqueiros, de alianças com a direita, para poder assim governar sempre com a complacência da elite financeira. Eis a razão da dificuldade de união, ao menos num primeiro momento. Nunca esquecendo que atualmente nossa causa superior é a luta contra o fascismo corrupto que hoje tem como líder o senhor Bolsonaro. Hoje é fundamental derrotar Bolsonaro nas urnas, para retomar o rumo da plenitude do Estado democrático de direito.

 

AC - A propósito de direita e de esquerda, no Brasil e no mundo têm efetivamente essa identificação? Ou é mais só um rótulo?

CG - Os termos "esquerda" e "direita" apareceram durante a Revolução Francesa, de 1789, e o subsequente Império de Napoleão Bonaparte, quando os membros da Assembleia Nacional se dividiam em partidários do rei à direita do presidente e simpatizantes da revolução à sua esquerda. Penso sim que esses conceitos seguem valendo, pois como disse antes, não acredito em políticos do tipo que querem agradar a todo mundo. Penso que homens públicos devem ter posições claras e definidas. E é nítido que existem formas diferentes de pensamento, entre os conservadores, liberais e os progressistas. Eu sempre deixei claro que atuo no campo do trabalhismo, e, portanto pertenço ao campo da centro-esquerda. Tenho responsabilidades inclusive como dirigente partidário que me levam a conduzir sempre ao PDT nessa linha.

 

Christopher vê hoje  “as mesmas aves
 de rapina, só com outra plumagem.” 


AC - O seu partido, o PDT, tem apostado em Ciro Gomes para a Presidência, mas nos últimos pleitos ele não tem conseguido avançar. Existe um nome que possa aglutinar e ter chances eleitorais na chamada terceira via?

CG - Ciro Gomes é o único candidato que efetivamente têm um projeto de Nação para o nosso Brasil, inspirado no nacional desenvolvimentismo. Inclusive tem um livro publicado, o que o diferencia dos demais que não tem projetos. Trata-se do candidato mais capacitado disparadamente para ser o nosso presidente, e o que representa o trabalhismo brasileiro de Getúlio, de Jango e de Brizola. Temos convicção que na hora dos debates, o povo brasileiro vai perceber claramente quem é quem e depositar o voto em Ciro Gomes. Ele é o único nome para toas as vias que se apresentam, para que o Brasil ingresse no rumo certo.

 

AC - Quais demandas mais urgentes tem de enfrentar este Brasil que, em 2022, completa 200 anos de independência?

CG - Penso que as demandas a serem enfrentadas seguem sendo as mesmas que Jango explicitou no seu discurso da Central do Brasil. A meu ver a principal medida é a conscientização do povo que este país é feito para muitos e não apenas para poucos. Que as potencialidades deste país continental não podem estar a serviço do capital especulativo, e dos detentores de grandes fortunas. Apenas o dado que 5 bilionários  no Brasil concentram a mesma riqueza que metade mais pobre no país já é algo estarrecedor.  Por isso a reforma Educacional que oferece mais oportunidades aos que não nascem em berço de ouro, a reforma tributária que pratique a tributação progressiva, a taxação das grandes fortunas, a conscientização agrária que obedeça a função social da terra, medidas que fortaleçam a nossa soberania nacional e não permita a exploração do capital estrangeiro. Ao mesmo tempo o estímulo ao empreendedorismo e politicas públicas que contribuam com o setor primário, a valorização dos serviços públicos e a exigência da prestação de um serviço de qualidade. Políticas que percebam estrategicamente o valor da democratização dos créditos, e do conhecimento, da distribuição de renda para fortalecer o nosso mercado interno.  Nesse sentido, acredito no projeto nacional-desenvolvimentista, para devolver o crescimento social, político e econômico verdadeiro ao nosso país.

 


Sou um suplente de senador para defender
as demandas preconizadas pelo trabalhismo.

AC - Quais são os seus planos políticos e pessoais em médio e longo prazo?

CG - Sou atualmente pré-candidato à Deputado Estadual, representando uma causa pública e visão de mundo que vem de longe. Alias, nunca foi tão necessário reafirmar os nossos propósitos de sociedade mais justa e fraterna, considerando o atual Governo Federal que está acabando com os direitos dos trabalhadores e ameaçando sistematicamente a nossa democracia. Meu nome estará sempre à disposição, seja em âmbito municipal, Estadual, ou até Federal, sempre representando a corrente de pensamento trabalhista.

 

 

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