sexta-feira, 1 de abril de 2022

ENTREVISTA : Sandra Regina Barbosa Parzianello

 

Cientista política elege cidadania plena

como a principal  demanda brasileira

 


Em 2018. Sandra Parzianello em evento
 na Universidade de Buenos Aires (UBA).

(Fotos arquivo pessoal)

Falando ao BlogAlberiCogo, a jornalista e cientista política Sandra Parzianello analisa aspectos variados da conjuntura nacional. Das eleições de 2022 ao exercício do voto, passando por imunidade parlamentar, tamanho do Congresso e a interminável criação de partidos.  Ainda avalia a atuação do Judiciário e a generalização de direita e esquerda. Acha que “o  Brasil precisa superar vícios, ranços, e voltar o olhar para a vida real das pessoas.” Quando o Brasil chega a seus 200 anos de independência,  Sandra Parzianello vê como principal demanda “a  formação cidadã. Esse Brasil que tem hoje 40% de suas crianças passando fome, em situação de miséria.” Lembra que o país tem alunos no 4º ano do ensino fundamental como se fossem do 2º.  Lembra que, apesar  dos 13 milhões de desempregados, “temos vagas sobrando em áreas de cálculo e tecnologia da Informação. E acrescenta:  “Não é possível aceitar que em pleno século XXI tenhamos analfabetos,  discussões racistas e posições excludentes. Qualquer país que não sustenta as bases de uma sociedade não poderá ter garantias para o seu futuro.”

Sandra Regina Barbosa Parzianello, 47 anos, é mestra e doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).  É também pesquisadora do Grupo de Pesquisa Ideologia e Análise do Discurso (IdAD/UFPel) e da  Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), além de vice coordenadora do Grupo de Pesquisa Diálogos do Pampa (Unipampa), registrado  ao CNPq. Possui graduação em Jornalismo;  especialização em Docência do Ensino Superior; graduação em Ciências Sociais,  ênfase em Ciência Política, na primeira turma da Unipampa. Tem  experiência docente no ensino fundamental, técnico, de graduação e pós-graduação nas áreas de Comunicação, Ciências Sociais e Humanas.

Profissionalmente. já atuou como  radialista, em jornal impresso e foi assessoria de imprensa. É sócia-fundadora da Sociedade Brasileira de Retórica (SBR); sócia fundadora da Organização de Retórica (OIR), docente colaboradora do curso de Pós-graduação em Comunicação Não Violenta e Cultura de Paz (Unipampa) e professora formadora na Pós-graduação pela Universidade Aberta do Brasil (UAB/Unipampa). Os temas maior interesse: pós-estruturalismo; teoria política; teoria do discurso; populismo; crise das democracias; cidadania e comunicação política.

 

Acolhimento e premiação

 


Em 2020. Geder e Sandra Parzianello,
numa das idas aos Estados Unidos.


Natural de Ijuí e filha de um ‘”casal muito simples”,  Sandra diz que teve calorosa acolhida em   São Borja, quando chegou em 2008. Como reconhecimento a seu trabalho no Executivo e no Legislativo, já recebeu o título de Cidadã São-borjense. Além deste, agrega muitos outros destaques, conferidos por entidades tradicionalistas e filantrópicas. “Sinto-me abraçada e acolhida na ‘Terra dos Presidentes’, desde que aqui chegamos,” diz.

Ligada ao tradicionalismo, atuou no CTG Tropilha Crioula, assim como atuava em Ijuí, onde conquistou título de repercussão regional e estadual. Mas, acompanhada do esposo, Geder Parzianello, morou em diversas outras cidades brasileiras e europeias. A graduação em Jornalismo foi em Cascavel (PR).

Profissionalmente, a carreira como jornalista teve reconhecimento e premiações desde a graduação, quando obteve o 1º lugar em redação jornalística, pela Secretaria da Cultura e Associação dos Jornalistas de Cascavel. Outra premiação foi nacional, com o 1º lugar na 11ª Expocom, com o vídeo-educativo “raciocínio abdutivo.” Obteve ainda Menção Honrosa com o "Projeto GerAção: Responsabilidade social que dá certo", um trabalho voluntário com a Universidade da Melhor Idade, pioneiro na cidade paraense de Cascavel.

“A necessidade de algo a mais, não permitiu que eu me acomodasse.” Uma prova disso foi voltar a estudar, agora em Ciência Política da Unipampa. “No  princípio, foi buscando apoio ao jornalismo,  mas depois “a paixão pelos caminhos tortos dos discursos políticos me fascinou.”, explica.  Na sequência viria o Mestrado na UFPel e, em seguida, na mesma Universidade  conquistou o 1º lugar na seleção para Doutorado em Ciência Política, com  pesquisa sobre o populismo na América Latina, tratando mais especificamente dos fenômenos do kirchnerismo (Argentina) e Lulismo (Brasil). O trabalho foi “Destaque” no XX Encontro de Pós-Graduação (ENPOS), da UFPel.

 

Em família

 

Sandra com o filho Lucas em um dos
Museus de Chicago,  EUA, em 2020.


Minhas conquistas se dão em família, sempre um puxando o outro. Em meio a tudo isso, nosso filho, Lucas, foi aprovado em primeira chamada pelo ENEM, garantindo vaga na Universidade Federal de Rio Grande (FURG), em Engenharia da Computação. Por seu desempenho, conquistou bolsa para “graduação-sanduíche” no exterior. Depois alcançou o primeiro lugar na turma como melhor aluno pela Sociedade Brasileira em Engenharia de Computação. Foi então aprovado em três seleções para o Mestrado (UFRGS, Arábia Saudita e Universidade de Notre Dame (EUA). Hoje, aos 28 anos, está plenamente estabelecido nos Estados Unidos.

“Também em família, fazemos de nossas viagens grandes eventos. Meu luxo está em viajar, conhecer o mundo e as cultura, rotina que se mantém desde 1990”, relata Sandra Parzianello. As muitas idas à Europa incluem um período no Alemanha, onde Geder fez seu pós-doutorado.

“Minha maior motivação se resume às coisas simples, como ter amigos, promover pequenos encontros e confraternizações, ter tempo para um demorado café da manhã, gargalhar para a vida.” Essa  mesma vida foi  um desafio à família entre final de 2005 e 2007. “Passei a maior parte de meus dias residindo e internada entre clínicas e hospitais. A descoberta de uma grave doença, mostrou a importância sobre cuidar mais de mim mesma, a olhar mais para dentro de mim e valorizar coisas simples do dia a dia.”, ressalta Sandra. Ela lembra que essa situação dramática levou Geder e Lucas a fazerem do hospital  residência, para acompanha-la.  Sandra venceu um longo período de coma e ressalta que, “sem dúvida, foi uma fase de muito aprendizado, resignação, abdicação e, principalmente, superação.” A seguir, a entrevista.
 


Alberi Cogo - O Brasil promove eleições gerais em 2022, em circunstâncias as mais atípicas na sua história recente: polarização acirrada, desemprego crônico, inflação em alta, ritmo letárgico de crescimento e inúmeros outros problemas a equacionar no que se espera seja o pós-pandemia. Qual é a sua perspectiva para o pleito e o futuro do país nesta conjuntura?

Sandra Parzianello - Há muita especulação e ansiedade para as eleições 2022. Mas, acredite, ainda é cedo para falar do pleito em si. Estamos em momento de articulação das bases políticas, em pleno período das chamadas “Janelas Partidárias”, que nada mais é do que o prazo  para que os candidatos mudem de partido, sem colocar em risco os mandatos políticos. É difícil fazer análise sobre um movimento que está por vir. Recordo que em 2014, quando trabalhava em meu projeto de dissertação de mestrado, que tratou sobre o discurso no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE), o Brasil foi surpreendido pela trágica morte, em um acidente aéreo, do candidato Eduardo Campos (PSB), o que movimentou todo cenário político para aquela campanha, elevando a sucessora Marina Silva (PSB), ao topo das pesquisas de intenção de voto. Porém, a capacidade discursiva da candidata para se manter naquela posição não teve fôlego, principalmente, porque as demandas sobre sustentabilidade e meio ambiente, apesar de ser fundamental para a vida e futuro da humanidade, não mexem diretamente com o dia a dia das pessoas, a ponto de ser uma demanda emergente como alimentação, emprego e moradia. Culturalmente, a nível de formação, nós brasileiros não temos uma educação continuada para abordar sobre a precariedade em torno das pautas ambientalistas.

 

Sandra Barbosa Parzianello –
Cidadã São-Borjense, em 2011.


AC - As pesquisas de intenção de voto indicam uma forte disputa entre direita e esquerda. Na sua avaliação, existe alguma possibilidade de a chamada terceira via consolidar chances eleitorais e, ainda, de unidade?

SP - Há alguns anos escrevi sobre isso para o Jornal Zero Hora. No artigo, falo sobre essa necessidade de associar a história política com a polarização partidária   no   Brasil, para   classificar   o   mundo   da   vida   com   a   dicotomia direita/esquerda. Muitas teorias já desconstruíram essa ideia de direita e esquerda. O que temos é uma cultura que generaliza e que domina o senso comum, impondo “rótulos”, com a posição centro-direita dominada por "coxinhas” (gíria de origem paulistana), que descreve uma pessoa “certinha” que age em defesa da liberdade de expressão, enquanto que do outro lado, estão os “petralhas”, vistos como sujeitos embandeirados, que vestem vermelho, marcados pelo companheirismo e ideais  ditas   de   esquerda (enquanto se apropriam de ideias neoliberais), que se auto definem como os   únicos defensores da igualdade e do direito de todos. Afirmo que há vida além desta visão dicotômica de direita e de esquerda, pelo exemplo da França (2014), quando o pleito mostrou essa possibilidade ao eleger democraticamente e de forma majoritária o centrista Emmanuel Macron, levando-o à Presidência daquele país. No Brasil, ao contrário da França, o voto é obrigatório e o cenário a cada ano eleitoral se parece mais do mesmo, quando falamos de extremismos. A grande massa provou, em 2018, que é capaz de radicalismos, tanto que “criamos” uma terceira via, hoje reconhecida pelo conservadorismo de extrema direita. Mas, há aqueles eleitores que deixam de comparecer às urnas, votam em branco ou anulam seu voto em uma proporção cada vez maior. Isso me faz crer, por uma razão lógica, de que há vida além da direita e da esquerda. O passo que nos falta está na educação, na formação cidadã, que não se resume à filiação partidária, militância ou credos. O Brasil precisa superar vícios, ranços, e voltar o olhar para a vida real das pessoas. A polarização política é prova viva do fracasso no mundo, Rússia e Ucrânia são exemplos. A solução para o progresso de um país não pode estar em se afastar daquilo que não concordo, discriminar, descartar quando não atende mais “minhas vontades” ou eliminar. Ser nação requer agregar, ouvir e capacitar para o debate. Os partidos políticos falham quando se importam simplesmente com os recursos do fundo partidário e com a maquiagem que fazem para preencher cotas, como no caso das mulheres. Essas instituições deveriam se preocupar em ser centro de referência aos cidadãos, politizados em sua plenitude; atuar na formação de agentes capazes de representar algo que vá além do puro assistencialismo social e da decadente gerência da gestão pública, em que os governos se afundam e promovem a falência dos municípios, dos estados e do país. Já é tempo de superar vícios do individualismo metodológico, onde se faz política em nome de poucos e, sempre para os mesmos, sem proporcionar nenhuma possibilidade real àqueles que ocupam um espaço oculto, os sem parte da população. Há aqueles que não acreditam mais na política e nos políticos e há aqueles que nem sabem que a política existe. Eu mesma testemunhei uma recepcionista de hotel dizer que não sabia o que estava acontecendo na tevê (dia 31 de agosto de 2016), enquanto ocorria o julgamento do impeachment da ex-presidente, Dilma Rousseff. Fico pensando se sou eu ou essa cidadã, que vive em outro mundo. Isso me assusta quando pensamos em nação!

 

Sandra Regine Parzianello: Palestrante na
Universidade  de Köln/Alemanha, em 2015.



AC -   Analistas costumam dizer que as casas legislativas e mesmo os governos são a cara do Brasil. O brasileiro, a propósito, sabe votar e tem noção da real importância desse instrumento transformador?

SP - Eu acredito na capacidade do brasileiro. Todos responsáveis pelas suas famílias querem o melhor para suas crianças e seus idosos, aqueles que estão nos extremos das fissuras da democracia. Quem já viajou para algum país europeu deve ter se dado conta que o transporte público das cidades e trens intermunicipais não possuem cobradores e as pessoas pagam seus bilhetes da mesma forma. Isso é uma questão cultural, ligada diretamente ao acesso à educação e à aplicação efetiva dos impostos. O cidadão, quando percebe o retorno dos impostos para o seu dia a dia, para o bem estar da vida das pessoas, pode até se queixar sobre o peso que isso representa no orçamento, como na Alemanha, mas em alguma proporção, percebe o retorno com qualidade e pontualidade e acaba pagando por um valor moral. Por isso, em países como a Suécia e Noruega, carro oficial é exceção para parlamentares, a regra é o uso do transporte público. Eu desafio um Deputado ou Senador da República do Brasil a andar de transporte público em qualquer capital do nosso país. Pelo contrário, tivemos recentemente a mudança nas regras em benefício de integrantes do governo federal e cargos comissionados para viagem de avião na primeira classe, enquanto no outro extremo, temos quase 13 milhões de desempregados no país e outros tantos milhões em situação de insegurança alimentar, passando fome. “A cara do Brasil”, é o que ele quiser ser, mas para isso precisa formação, fortalecer a educação sem contar vantagem, favorecimentos e/ou desvio de finalidade. Um país de fato preocupado com as suas crianças e jovens prioriza a cidadania e tem planejamento para atender às demandas da vida real das pessoas com segurança alimentar, habitacional e renda. O acesso à informação pela imprensa profissional e pela grande mídia cumpre o papel que o Estado deveria desempenhar, de promover a transparência.


AC - Muitos observadores da cena nacional entendem que o voto não deveria ser obrigatório, mas facultativo.  No contexto brasileiro, voto é direito, obrigação ou ‘moeda de troca’? Deve ser obrigatório ou opção?

SP - Eu entendo que o voto é facultativo, afinal, você tem a possibilidade de justificar a falta no dia do pleito ou pagar uma multa simbólica em caso de ausência a qualquer sessão eleitoral, até com um prazo razoável para comparecer a qualquer Cartório Eleitoral. Se fosse obrigatório de fato, não teríamos a cada ano eleitoral um número expressivo de votos brancos e nulos, aliás, que aumentaram nos últimos pleitos. Não acho inteligente pensar em abrir mão desse direito, ao deixar que outros façam escolhas por mim. Ao contrário do que dizem, não votar também é se manifestar politicamente ou ideologicamente. Ficou para trás aquele tempo que era possível atribuir a ideia de ideologia, para quem se revelasse “esquerdista”, ou tomar a expressão ideologia como algo pejorativo, relativo a determinado perfil e manifestação democrática. Não há problema em ter ideologia, o problema é ficar em cima do muro. Tomo o voto como o início do processo democrático, quando escolho aqueles que serão os meus representantes, mas não o “fim”, como quando aparece escrito, ao final da votação, na tela da urna eletrônica. Com a eleição do Legislativo e Executivo em todas as suas instâncias (municipal, estadual e federal), é que começa o nosso direito e daí sim, a obrigação sobre a prestação de contas. Com respeito, acesso e transparência precisamos zelar pelos recursos e bens públicos, alcançar o merecido retorno sobre toda a soma, porque cada cidadão contribui para isso e paga pelos serviços dos políticos e servidores. Importante que todas as partes não confundam democracia (direitos e deveres), com autocracia e abuso de poder. E por falar em voto, a fraude não está na urna eletrônica, mas nas atitudes de alguns grupos que existem e que sempre existiram. Todos sabemos, muitos pais, avós e livros de história, relatam a fraude nas urnas na época do voto impresso, pela pressão de muitos coronéis e oligarcas.

 



Sandra Parzianello: vivendo o
inverno do continente europeu.



AC -     Não é de hoje que se preconiza reduzir o tamanho do Congresso Nacional, bem como a adoção de um Legislativo unicameral. Que lhe parecem teses deste tipo?

SP -  Brasil é tão vasto geográfica e culturalmente, e com demandas muito diversas. Compreendo que a maioria dos nossos políticos é que terão dificuldade em mexer nessa estrutura. De fato, nem sei se desejam, pois, ocorrem muitas resistências. É importante observar que apesar de muitos avanços democráticos, somos uma nação drasticamente conservadora. Certamente, já ouvimos muito sobre a fragilidade de nossa democracia, as fissuras do sistema e sobre os ranços burocráticos. Na minha interpretação, não temos força política para essas pautas e, sinceramente, no Brasil, o que se tem é muito debate e pouca ação.

 

AC -            E o que dizem da ideia de acabar com a imunidade parlamentar e ainda com as reeleições, tanto no Legislativo quanto no Executivo?

SP - Essa ideia de acabar com a imunidade parlamentar tem a mesma lógica do bafômetro. Qual o infrator que, conscientemente, iria produzir provas contra si mesmo? Essa é a lógica do processo. Se não existisse corrupção, esse debate não existiria. O que no senso comum se chama “jeitinho brasileiro”, tomou uma proporção desorientada e, por isso, há essa brecha de autodefesa, a normatização para lidar com um objeto oculto. Ao longo da história, vários foram os sujeitos políticos que “venderam” a mística de acabar com a reeleição, o que perdura até às vésperas de concluir o seu primeiro mandato, ou até a próxima campanha eleitoral. Os partidos políticos são responsáveis por essa demanda, já que quando acertam na liderança, criam dificuldades para o surgimento e expressão de outros nomes.

 

AC -    Fale-se com relativa frequência na instituição do Parlamentarismo no Brasil. Esse sistema de governo seria melhor que o atual Presidencialismo ‘imperial’, de coalizão e patrimonialista?  Estamos preparados para o Parlamentarismo?

SP - Só podemos dizer que estamos ou não preparados no momento que nos arriscarmos. Os países latino-americanos não podem ser comparados aos países europeus. Nosso tipo de economia é diferente, os investimentos em educação, tecnologia e inovação são restritos, a população em estado de vulnerabilidade social é muito mais expressiva e falidas experiências políticas também, já que a colonização foi tardia e o povoamento, precário. Particularmente, acredito ser interessante o parlamentarismo no Brasil. Abriria o caminho para mais ideias, realizações e capacidade de governança. O Brasil está à mercê dos acontecimentos contingentes nas últimas grandes eleições, como da tragédia aérea, da crise econômica mundial e da facada, apenas para citar alguns eventos de forma rasa. Não temos planejamento estratégico, flutuamos conforme a maré nos carrega. As decisões são tomadas somente depois das tragédias, das denúncias, das desavenças e com remédios ruins. Os governos estão sempre à procura de um culpado, nunca demonstram humildade, incapazes de externar a mea-culpa. Agora, tudo recai sobre a pandemia, quando os problemas sociais são históricos; até bicentenários.

 

AC -  E essa ‘indústria’ de partidos no país tem jeito, ou o corporativismo não deixa mudar?

SP - Democracia é isso: exercer o direito de todos. Acho que a criação dos partidos políticos é o reflexo na inexpressividade da classe política. Criam, falsamente, a ideia para o povo que fundando legendas e/ou mudando o nome delas, se renova a política. Em 2014, uma experiente mulher de expressão na política nacional, (que criou uma nova legenda um tempo depois) afirmou, durante o HGPE, que a palavra, a ideia de “mudança”, teria sido criada por ela. Arrisco dizer que só mesmo quem estuda discurso, tenha atentado para isso. Quem ouve o HGPE, espera ouvir algo para resolver as demandas do seu dia a dia, como da fila no posto de saúde, da internação hospitalar nos corredores ou da falta dos remédios na rede pública. Cidadão que trabalha, desperta cedo e anda de ônibus três horas por dia só para chegar ao trabalho não tem energia para se importar com os partidos políticos. Há pesquisas que revelam a personificação do voto, ou seja, as pessoas votam quando, de alguma forma, o(a) candidato/a, toca em algum sentimento do eleitor seja pela saúde, pela creche, pelo programa assistencial ou mesmo pela emoção, um voto mais humanizado. Claro que qualquer militante, de qualquer legenda, irá discordar disso e com razão, senão não teríamos militâncias políticas. É essa personificação que decide o voto de última hora, que toma conta das urnas, inclusive, pela volumosa soma de votos brancos e nulos. Quando ouço dizer que muitos eleitores dizem não se identificar com a política e com os políticos, lhes dou razão, suas faltas constitutivas, expectativas frustradas e demandas não atendidas promovem de fato essas reações.

 

AC -   Há quem enxergue o Judiciário cada vez mais politizado, especialmente nas suas cortes mais altas.  Essa afirmativa tem sentido? Em que medida, a forma de indicação política de ministros tem a ver com isso?

SP - Se o judiciário está politizado é graças ao Executivo e ao Legislativo. Eu discordo dessa ideia. Todos os políticos que se sentem lesados em seus direitos recorrem ao judiciário, mesmo quando sabem que não estão de acordo com a Lei, a propósito, leis votadas pelo Legislativo e sancionadas pelo Executivo. Se alguém não se sente prestigiado em seus direitos, tem a possibilidade de recorrer em diferentes instâncias e a interpretação ocorre de acordo com o texto normativo legal. O que temos é um sistema democrático, e, muitos daqueles que o criticam, é porque gostariam de ter razão e arbitrar de acordo com a sua própria régua a forma de medir o mundo. O sistema pode não ser perfeito, mas é o que temos. Toda sociedade precisa de normatização e ordem, até construir algo diferente. A composição dos três poderes é o melhor que temos.

 

AC -  O ano de 2022 é o do bicentenário da independência do Brasil. Que demandas mais urgentes – heranças históricas – estão a exigir enfrentamentos e soluções?

SP- A principal demanda, sem dúvida, recai sobre a formação cidadã. Esse Brasil que tem hoje 40% de suas crianças passando fome, em situação de miséria ou insegurança alimentar (que não sabem quantas ou quais refeições farão). Nosso país tem alunos no 4º ano do ensino fundamental, com capacidades de leitura e cálculo equivalentes ao 2º ano. Entre um universo de 13 milhões de desempregados, temos vagas sobrando em áreas de cálculo e tecnologia da Informação. Esse cenário só revela que maquiamos a herança histórica do atraso com políticas públicas ineficazes e com finalidade eleitoreira. É correto dar assistência às famílias, não é justo deixar alguém passar fome e morar nas ruas, mas também é correto dar dignidade às pessoas, promover esses cidadãos para uma vida com trabalho, saúde e escolarização. Não é possível aceitar que em pleno século XXI tenhamos analfabetos, discussões racistas, xenófobas e de gênero. É contraditória a ideia de que, com o avanço tecnológico, não tenhamos capacidade de enfrentar uma pandemia e alcançar a garantia de acesso virtual, sem exclusão e privações à educação, como aconteceu nesses dois anos de ensino remoto. Mais uma vez, vimos que a política governa as tragédias, quando não preparam as escolas com estrutura física, professores e o transporte público para as crianças, ao reiniciar o ano letivo. Governos, em diferentes instâncias, expõe alunos aos riscos estruturais às intempéries do clima e ao abandono, para no decorrer do período letivo, buscar alternativas improvisadas e realizar licitações. Qualquer país que não sustenta as bases de uma sociedade não poderá projetar o seu futuro.

 

AC -     Em síntese, como a jornalista Sandra Parzianello vê o fazer jornalístico, hoje, no Brasil?

SP - Tenho o maior respeito por colegas que construíram sua profissão com a prática jornalística e que tiveram reconhecimento pelo bom senso, respeito e equidade. Não é um diploma que dá caráter a uma pessoa, mas é o diploma que desperta para as possibilidades do jornalismo e todas as suas façanhas. Uma notícia não tem uma só verdade, mas tem um comprometimento com o seu público, leitor, ouvinte e expectador. Profissionalizar os jornalistas é tão primordial quanto profissionalizar um fisioterapeuta, por exemplo, chamá-lo de massagista é desqualificar uma categoria, ainda que para ser massagista também é necessário determinado conhecimento. Sejamos justos, o fazer jornalístico profissional é preparado, adequado em texto, imagem, linguagem e capacidade de elaborar e fazer a pergunta. Um profissional capta e expressa a emoção da notícia, sem melindrar e promover espetáculo. Permite contextualizações históricas, pensa sobre a lógica das notícias, a forma como o seu público irá ou não receber determinada informação. Se não fosse o jornalismo, muitas injustiças não viriam à tona, distâncias não seriam vencidas e a informação noticiosa não seria divulgada. Cada vez mais, a precariedade do sistema requer uma visão para além daquilo que os olhos veem, a isso chamamos de um olhar semioticista, só para explorar aqui um pouquinho da possibilidade de reconhecermos a importância da teoria para o saber e o fazer jornalístico.

 

AC - Conte, se possível, quais são os seus próximos planos pessoais e profissionais.

SP - Minha história de vida me permite, hoje, fazer o que me dá prazer. Tenho sim sonhos, ambições e inquietações. Quem me conhece sabe que não consigo parar, sou ansiosa, mas sou uma pessoa de muita sorte por estar sempre descobrindo novos caminhos e desafios. Profissionalmente, estou pela conclusão do meu doutorado, tenho escrito alguns artigos, atendido a entrevistas e participado de eventos acadêmicos, além dos grupos de pesquisa e do exercício docente na pós-graduação. Essas experiências já me aguçam para a realização de um pós-doc, mas ainda não senti que é o momento de pensar sobre isso. Tenho uma vida pessoal estável, o que me possibilita tranquilidade e capacidade de discernimento para não cair na rotina. Nesse ano quero ver meu filho, passar um tempo com ele nos Estados Unidos, pois não nos vimos desde que eu e meu marido retornamos ao Brasil, em início de 2020, quando estourou a pandemia. Coração de mãe grita de saudades! Fora isso, estou permanentemente em contato com minhas amigas. Um dia, ouvi uma imortal da Academia Brasileira de Letras, a escritora Nélida Piñon, dizer que relacionamentos e amizades dão trabalho. E dão mesmo. Eu concordo com isso. A gente precisa, afinal, tempo e dedicação para saber ouvir e cultivar sensibilidade em relação aos outros. Tenho prazer em cultivar amigos, como um grupo que nós temos e que acumula mais de 30 anos já de muita amizade e de cumplicidade. Estamos agendando agora nosso encontro anual (pós-pandemia) em São Borja, pois tomamos rumos geográficos diferentes, mas felizmente, nunca distantes demais do coração.

 

 

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