Cientista política elege cidadania plena
como a principal demanda brasileira
Em 2018. Sandra Parzianello em evento na Universidade de
Buenos Aires (UBA).
(Fotos arquivo pessoal)
Em 2018. Sandra Parzianello em evento na Universidade de
Buenos Aires (UBA).
Sandra Regina Barbosa Parzianello, 47 anos, é mestra e doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). É também pesquisadora do Grupo de Pesquisa Ideologia e Análise do Discurso (IdAD/UFPel) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), além de vice coordenadora do Grupo de Pesquisa Diálogos do Pampa (Unipampa), registrado ao CNPq. Possui graduação em Jornalismo; especialização em Docência do Ensino Superior; graduação em Ciências Sociais, ênfase em Ciência Política, na primeira turma da Unipampa. Tem experiência docente no ensino fundamental, técnico, de graduação e pós-graduação nas áreas de Comunicação, Ciências Sociais e Humanas.
Profissionalmente. já atuou como radialista, em jornal impresso e foi
assessoria de imprensa. É sócia-fundadora da Sociedade Brasileira de Retórica
(SBR); sócia fundadora da Organização de Retórica (OIR), docente colaboradora
do curso de Pós-graduação em Comunicação Não Violenta e Cultura de Paz
(Unipampa) e professora formadora na Pós-graduação pela Universidade Aberta do
Brasil (UAB/Unipampa). Os temas maior interesse: pós-estruturalismo; teoria
política; teoria do discurso; populismo; crise das democracias; cidadania e
comunicação política.
Acolhimento e premiação
Em 2020. Geder e Sandra Parzianello,numa das idas aos Estados Unidos.
Natural de Ijuí e filha de um ‘”casal muito simples”, Sandra diz que teve calorosa acolhida em São Borja, quando chegou em 2008. Como reconhecimento a seu trabalho no Executivo e no Legislativo, já recebeu o título de Cidadã São-borjense. Além deste, agrega muitos outros destaques, conferidos por entidades tradicionalistas e filantrópicas. “Sinto-me abraçada e acolhida na ‘Terra dos Presidentes’, desde que aqui chegamos,” diz.
Ligada ao tradicionalismo, atuou no CTG Tropilha Crioula,
assim como atuava em Ijuí, onde conquistou título de repercussão regional e
estadual. Mas, acompanhada do esposo, Geder Parzianello, morou em diversas
outras cidades brasileiras e europeias. A graduação em Jornalismo foi em
Cascavel (PR).
Profissionalmente, a carreira como jornalista teve
reconhecimento e premiações desde a graduação, quando obteve o 1º lugar em
redação jornalística, pela Secretaria da Cultura e Associação dos Jornalistas
de Cascavel. Outra premiação foi nacional, com o 1º lugar na 11ª Expocom, com o
vídeo-educativo “raciocínio abdutivo.” Obteve ainda Menção Honrosa com o
"Projeto GerAção: Responsabilidade social que dá certo", um trabalho
voluntário com a Universidade da Melhor Idade, pioneiro na cidade paraense de
Cascavel.
“A necessidade de algo a mais, não permitiu que eu me
acomodasse.” Uma prova disso foi voltar a estudar, agora em Ciência Política da
Unipampa. “No princípio, foi buscando apoio
ao jornalismo, mas depois “a paixão
pelos caminhos tortos dos discursos políticos me fascinou.”, explica. Na sequência viria o Mestrado na UFPel e, em
seguida, na mesma Universidade
conquistou o 1º lugar na seleção para Doutorado em Ciência Política, com pesquisa sobre o populismo na América Latina,
tratando mais especificamente dos fenômenos do kirchnerismo (Argentina) e
Lulismo (Brasil). O trabalho foi “Destaque” no XX Encontro de Pós-Graduação
(ENPOS), da UFPel.
Em família
Sandra com o filho Lucas em um dosMuseus de Chicago, EUA,
em 2020.
Minhas conquistas se dão em família,
sempre um puxando o outro. Em meio a tudo isso, nosso filho, Lucas, foi
aprovado em primeira chamada pelo ENEM, garantindo vaga na Universidade Federal
de Rio Grande (FURG), em Engenharia da Computação. Por seu desempenho,
conquistou bolsa para “graduação-sanduíche” no exterior. Depois alcançou o
primeiro lugar na turma como melhor aluno pela Sociedade Brasileira em
Engenharia de Computação. Foi então aprovado em três seleções para o Mestrado
(UFRGS, Arábia Saudita e Universidade de Notre Dame (EUA). Hoje, aos 28 anos,
está plenamente estabelecido nos Estados Unidos.
“Também em família, fazemos de nossas
viagens grandes eventos. Meu luxo está em viajar, conhecer o mundo e as
cultura, rotina que se mantém desde 1990”, relata Sandra Parzianello. As muitas
idas à Europa incluem um período no Alemanha, onde Geder fez seu pós-doutorado.
“Minha maior motivação se resume às coisas simples, como ter amigos,
promover pequenos encontros e confraternizações, ter tempo para um demorado
café da manhã, gargalhar para a vida.” Essa mesma vida
foi um desafio à família entre final de 2005 e 2007. “Passei a maior
parte de meus dias residindo e internada entre clínicas e hospitais. A
descoberta de uma grave doença, mostrou a importância sobre cuidar mais de mim
mesma, a olhar mais para dentro de mim e valorizar coisas simples do dia a
dia.”, ressalta Sandra. Ela lembra que essa situação dramática levou Geder e
Lucas a fazerem do hospital residência, para
acompanha-la. Sandra venceu um longo período de coma e ressalta que,
“sem dúvida, foi uma fase de muito aprendizado, resignação, abdicação e,
principalmente, superação.” A seguir, a entrevista.
Alberi Cogo - O Brasil promove eleições gerais em 2022, em
circunstâncias as mais atípicas na sua história recente: polarização acirrada,
desemprego crônico, inflação em alta, ritmo letárgico de crescimento e inúmeros
outros problemas a equacionar no que se espera seja o pós-pandemia. Qual é a
sua perspectiva para o pleito e o futuro do país nesta conjuntura?
Minhas conquistas se dão em família,
sempre um puxando o outro. Em meio a tudo isso, nosso filho, Lucas, foi
aprovado em primeira chamada pelo ENEM, garantindo vaga na Universidade Federal
de Rio Grande (FURG), em Engenharia da Computação. Por seu desempenho,
conquistou bolsa para “graduação-sanduíche” no exterior. Depois alcançou o
primeiro lugar na turma como melhor aluno pela Sociedade Brasileira em
Engenharia de Computação. Foi então aprovado em três seleções para o Mestrado
(UFRGS, Arábia Saudita e Universidade de Notre Dame (EUA). Hoje, aos 28 anos,
está plenamente estabelecido nos Estados Unidos.
“Também em família, fazemos de nossas
viagens grandes eventos. Meu luxo está em viajar, conhecer o mundo e as
cultura, rotina que se mantém desde 1990”, relata Sandra Parzianello. As muitas
idas à Europa incluem um período no Alemanha, onde Geder fez seu pós-doutorado.
“Minha maior motivação se resume às coisas simples, como ter amigos,
promover pequenos encontros e confraternizações, ter tempo para um demorado
café da manhã, gargalhar para a vida.” Essa mesma vida
foi um desafio à família entre final de 2005 e 2007. “Passei a maior
parte de meus dias residindo e internada entre clínicas e hospitais. A
descoberta de uma grave doença, mostrou a importância sobre cuidar mais de mim
mesma, a olhar mais para dentro de mim e valorizar coisas simples do dia a
dia.”, ressalta Sandra. Ela lembra que essa situação dramática levou Geder e
Lucas a fazerem do hospital residência, para
acompanha-la. Sandra venceu um longo período de coma e ressalta que,
“sem dúvida, foi uma fase de muito aprendizado, resignação, abdicação e,
principalmente, superação.” A seguir, a entrevista.
Alberi Cogo - O Brasil promove eleições gerais em 2022, em circunstâncias as mais atípicas na sua história recente: polarização acirrada, desemprego crônico, inflação em alta, ritmo letárgico de crescimento e inúmeros outros problemas a equacionar no que se espera seja o pós-pandemia. Qual é a sua perspectiva para o pleito e o futuro do país nesta conjuntura?
Sandra Parzianello - Há muita especulação e ansiedade para
as eleições 2022. Mas, acredite, ainda é cedo para falar do pleito em si.
Estamos em momento de articulação das bases políticas, em pleno período das
chamadas “Janelas Partidárias”, que nada mais é do que o prazo para que os candidatos mudem de partido, sem
colocar em risco os mandatos políticos. É difícil fazer análise sobre um
movimento que está por vir. Recordo que em 2014, quando trabalhava em meu
projeto de dissertação de mestrado, que tratou sobre o discurso no Horário
Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE), o Brasil foi surpreendido pela trágica
morte, em um acidente aéreo, do candidato Eduardo Campos (PSB), o que
movimentou todo cenário político para aquela campanha, elevando a sucessora
Marina Silva (PSB), ao topo das pesquisas de intenção de voto. Porém, a
capacidade discursiva da candidata para se manter naquela posição não teve
fôlego, principalmente, porque as demandas sobre sustentabilidade e meio
ambiente, apesar de ser fundamental para a vida e futuro da humanidade, não
mexem diretamente com o dia a dia das pessoas, a ponto de ser uma demanda
emergente como alimentação, emprego e moradia. Culturalmente, a nível de
formação, nós brasileiros não temos uma educação continuada para abordar sobre
a precariedade em torno das pautas ambientalistas.
Sandra Barbosa Parzianello –
Cidadã São-Borjense, em 2011.
AC - As pesquisas de intenção de voto indicam uma forte
disputa entre direita e esquerda. Na sua avaliação, existe alguma possibilidade
de a chamada terceira via consolidar chances eleitorais e, ainda, de unidade?
SP - Há alguns anos escrevi sobre isso para o Jornal Zero
Hora. No artigo, falo sobre essa necessidade de associar a história política
com a polarização partidária no Brasil, para classificar
o mundo da
vida com a
dicotomia direita/esquerda. Muitas teorias já desconstruíram essa ideia
de direita e esquerda. O que temos é uma cultura que generaliza e que domina o
senso comum, impondo “rótulos”, com a posição centro-direita dominada por
"coxinhas” (gíria de origem paulistana), que descreve uma pessoa
“certinha” que age em defesa da liberdade de expressão, enquanto que do outro
lado, estão os “petralhas”, vistos como sujeitos embandeirados, que vestem
vermelho, marcados pelo companheirismo e ideais
ditas de esquerda (enquanto se apropriam de ideias
neoliberais), que se auto definem como os
únicos defensores da igualdade e do direito de todos. Afirmo que há vida
além desta visão dicotômica de direita e de esquerda, pelo exemplo da França
(2014), quando o pleito mostrou essa possibilidade ao eleger democraticamente e
de forma majoritária o centrista Emmanuel Macron, levando-o à Presidência
daquele país. No Brasil, ao contrário da França, o voto é obrigatório e o
cenário a cada ano eleitoral se parece mais do mesmo, quando falamos de
extremismos. A grande massa provou, em 2018, que é capaz de radicalismos, tanto
que “criamos” uma terceira via, hoje reconhecida pelo conservadorismo de
extrema direita. Mas, há aqueles eleitores que deixam de comparecer às urnas,
votam em branco ou anulam seu voto em uma proporção cada vez maior. Isso me faz
crer, por uma razão lógica, de que há vida além da direita e da esquerda. O
passo que nos falta está na educação, na formação cidadã, que não se resume à
filiação partidária, militância ou credos. O Brasil precisa superar vícios,
ranços, e voltar o olhar para a vida real das pessoas. A polarização política é
prova viva do fracasso no mundo, Rússia e Ucrânia são exemplos. A solução para
o progresso de um país não pode estar em se afastar daquilo que não concordo,
discriminar, descartar quando não atende mais “minhas vontades” ou eliminar.
Ser nação requer agregar, ouvir e capacitar para o debate. Os partidos
políticos falham quando se importam simplesmente com os recursos do fundo
partidário e com a maquiagem que fazem para preencher cotas, como no caso das
mulheres. Essas instituições deveriam se preocupar em ser centro de referência
aos cidadãos, politizados em sua plenitude; atuar na formação de agentes
capazes de representar algo que vá além do puro assistencialismo social e da
decadente gerência da gestão pública, em que os governos se afundam e promovem
a falência dos municípios, dos estados e do país. Já é tempo de superar vícios
do individualismo metodológico, onde se faz política em nome de poucos e,
sempre para os mesmos, sem proporcionar nenhuma possibilidade real àqueles que
ocupam um espaço oculto, os sem parte da população. Há aqueles que não
acreditam mais na política e nos políticos e há aqueles que nem sabem que a
política existe. Eu mesma testemunhei uma recepcionista de hotel dizer que não
sabia o que estava acontecendo na tevê (dia 31 de agosto de 2016), enquanto
ocorria o julgamento do impeachment da ex-presidente, Dilma Rousseff. Fico
pensando se sou eu ou essa cidadã, que vive em outro mundo. Isso me assusta
quando pensamos em nação!
Sandra Regine Parzianello: Palestrante naUniversidade de
Köln/Alemanha, em 2015.
AC - Analistas
costumam dizer que as casas legislativas e mesmo os governos são a cara do
Brasil. O brasileiro, a propósito, sabe votar e tem noção da real importância
desse instrumento transformador?
SP - Eu acredito na capacidade do brasileiro. Todos
responsáveis pelas suas famílias querem o melhor para suas crianças e seus
idosos, aqueles que estão nos extremos das fissuras da democracia. Quem já
viajou para algum país europeu deve ter se dado conta que o transporte público
das cidades e trens intermunicipais não possuem cobradores e as pessoas pagam
seus bilhetes da mesma forma. Isso é uma questão cultural, ligada diretamente
ao acesso à educação e à aplicação efetiva dos impostos. O cidadão, quando percebe
o retorno dos impostos para o seu dia a dia, para o bem estar da vida das
pessoas, pode até se queixar sobre o peso que isso representa no orçamento,
como na Alemanha, mas em alguma proporção, percebe o retorno com qualidade e
pontualidade e acaba pagando por um valor moral. Por isso, em países como a
Suécia e Noruega, carro oficial é exceção para parlamentares, a regra é o uso
do transporte público. Eu desafio um Deputado ou Senador da República do Brasil
a andar de transporte público em qualquer capital do nosso país. Pelo
contrário, tivemos recentemente a mudança nas regras em benefício de
integrantes do governo federal e cargos comissionados para viagem de avião na
primeira classe, enquanto no outro extremo, temos quase 13 milhões de
desempregados no país e outros tantos milhões em situação de insegurança
alimentar, passando fome. “A cara do Brasil”, é o que ele quiser ser, mas para
isso precisa formação, fortalecer a educação sem contar vantagem,
favorecimentos e/ou desvio de finalidade. Um país de fato preocupado com as
suas crianças e jovens prioriza a cidadania e tem planejamento para atender às
demandas da vida real das pessoas com segurança alimentar, habitacional e
renda. O acesso à informação pela imprensa profissional e pela grande mídia cumpre
o papel que o Estado deveria desempenhar, de promover a transparência.
AC - Muitos observadores da cena nacional entendem que o voto não deveria ser obrigatório, mas facultativo. No contexto brasileiro, voto é direito, obrigação ou ‘moeda de troca’? Deve ser obrigatório ou opção?
SP - Eu entendo que o voto é facultativo, afinal, você tem
a possibilidade de justificar a falta no dia do pleito ou pagar uma multa
simbólica em caso de ausência a qualquer sessão eleitoral, até com um prazo
razoável para comparecer a qualquer Cartório Eleitoral. Se fosse obrigatório de
fato, não teríamos a cada ano eleitoral um número expressivo de votos brancos e
nulos, aliás, que aumentaram nos últimos pleitos. Não acho inteligente pensar
em abrir mão desse direito, ao deixar que outros façam escolhas por mim. Ao
contrário do que dizem, não votar também é se manifestar politicamente ou
ideologicamente. Ficou para trás aquele tempo que era possível atribuir a ideia
de ideologia, para quem se revelasse “esquerdista”, ou tomar a expressão
ideologia como algo pejorativo, relativo a determinado perfil e manifestação
democrática. Não há problema em ter ideologia, o problema é ficar em cima do
muro. Tomo o voto como o início do processo democrático, quando escolho aqueles
que serão os meus representantes, mas não o “fim”, como quando aparece escrito,
ao final da votação, na tela da urna eletrônica. Com a eleição do Legislativo e
Executivo em todas as suas instâncias (municipal, estadual e federal), é que
começa o nosso direito e daí sim, a obrigação sobre a prestação de contas. Com
respeito, acesso e transparência precisamos zelar pelos recursos e bens
públicos, alcançar o merecido retorno sobre toda a soma, porque cada cidadão
contribui para isso e paga pelos serviços dos políticos e servidores.
Importante que todas as partes não confundam democracia (direitos e deveres),
com autocracia e abuso de poder. E por falar em voto, a fraude não está na urna
eletrônica, mas nas atitudes de alguns grupos que existem e que sempre existiram.
Todos sabemos, muitos pais, avós e livros de história, relatam a fraude nas
urnas na época do voto impresso, pela pressão de muitos coronéis e oligarcas.
Sandra Parzianello: vivendo oinverno do continente europeu.
AC - Não é de
hoje que se preconiza reduzir o tamanho do Congresso Nacional, bem como a
adoção de um Legislativo unicameral. Que lhe parecem teses deste tipo?
SP - Brasil é tão
vasto geográfica e culturalmente, e com demandas muito diversas. Compreendo que
a maioria dos nossos políticos é que terão dificuldade em mexer nessa
estrutura. De fato, nem sei se desejam, pois, ocorrem muitas resistências. É
importante observar que apesar de muitos avanços democráticos, somos uma nação
drasticamente conservadora. Certamente, já ouvimos muito sobre a fragilidade de
nossa democracia, as fissuras do sistema e sobre os ranços burocráticos. Na
minha interpretação, não temos força política para essas pautas e,
sinceramente, no Brasil, o que se tem é muito debate e pouca ação.
AC - E o
que dizem da ideia de acabar com a imunidade parlamentar e ainda com as
reeleições, tanto no Legislativo quanto no Executivo?
SP - Essa ideia de acabar com a imunidade parlamentar tem a
mesma lógica do bafômetro. Qual o infrator que, conscientemente, iria produzir
provas contra si mesmo? Essa é a lógica do processo. Se não existisse
corrupção, esse debate não existiria. O que no senso comum se chama “jeitinho
brasileiro”, tomou uma proporção desorientada e, por isso, há essa brecha de
autodefesa, a normatização para lidar com um objeto oculto. Ao longo da
história, vários foram os sujeitos políticos que “venderam” a mística de acabar
com a reeleição, o que perdura até às vésperas de concluir o seu primeiro
mandato, ou até a próxima campanha eleitoral. Os partidos políticos são
responsáveis por essa demanda, já que quando acertam na liderança, criam
dificuldades para o surgimento e expressão de outros nomes.
AC - Fale-se com
relativa frequência na instituição do Parlamentarismo no Brasil. Esse sistema
de governo seria melhor que o atual Presidencialismo ‘imperial’, de coalizão e
patrimonialista? Estamos preparados para
o Parlamentarismo?
SP - Só podemos dizer que estamos ou não preparados no
momento que nos arriscarmos. Os países latino-americanos não podem ser
comparados aos países europeus. Nosso tipo de economia é diferente, os
investimentos em educação, tecnologia e inovação são restritos, a população em
estado de vulnerabilidade social é muito mais expressiva e falidas experiências
políticas também, já que a colonização foi tardia e o povoamento, precário.
Particularmente, acredito ser interessante o parlamentarismo no Brasil. Abriria
o caminho para mais ideias, realizações e capacidade de governança. O Brasil
está à mercê dos acontecimentos contingentes nas últimas grandes eleições, como
da tragédia aérea, da crise econômica mundial e da facada, apenas para citar
alguns eventos de forma rasa. Não temos planejamento estratégico, flutuamos
conforme a maré nos carrega. As decisões são tomadas somente depois das
tragédias, das denúncias, das desavenças e com remédios ruins. Os governos
estão sempre à procura de um culpado, nunca demonstram humildade, incapazes de
externar a mea-culpa. Agora, tudo recai sobre a pandemia, quando os problemas
sociais são históricos; até bicentenários.
AC - E essa
‘indústria’ de partidos no país tem jeito, ou o corporativismo não deixa mudar?
SP - Democracia é isso: exercer o direito de todos. Acho
que a criação dos partidos políticos é o reflexo na inexpressividade da classe
política. Criam, falsamente, a ideia para o povo que fundando legendas e/ou
mudando o nome delas, se renova a política. Em 2014, uma experiente mulher de
expressão na política nacional, (que criou uma nova legenda um tempo depois)
afirmou, durante o HGPE, que a palavra, a ideia de “mudança”, teria sido criada
por ela. Arrisco dizer que só mesmo quem estuda discurso, tenha atentado para
isso. Quem ouve o HGPE, espera ouvir algo para resolver as demandas do seu dia
a dia, como da fila no posto de saúde, da internação hospitalar nos corredores
ou da falta dos remédios na rede pública. Cidadão que trabalha, desperta cedo e
anda de ônibus três horas por dia só para chegar ao trabalho não tem energia
para se importar com os partidos políticos. Há pesquisas que revelam a
personificação do voto, ou seja, as pessoas votam quando, de alguma forma, o(a)
candidato/a, toca em algum sentimento do eleitor seja pela saúde, pela creche,
pelo programa assistencial ou mesmo pela emoção, um voto mais humanizado. Claro
que qualquer militante, de qualquer legenda, irá discordar disso e com razão,
senão não teríamos militâncias políticas. É essa personificação que decide o
voto de última hora, que toma conta das urnas, inclusive, pela volumosa soma de
votos brancos e nulos. Quando ouço dizer que muitos eleitores dizem não se
identificar com a política e com os políticos, lhes dou razão, suas faltas constitutivas,
expectativas frustradas e demandas não atendidas promovem de fato essas
reações.
AC - Há quem enxergue o Judiciário cada vez mais politizado, especialmente nas suas cortes mais altas. Essa afirmativa tem sentido? Em que medida, a forma de indicação política de ministros tem a ver com isso?
SP - Se o judiciário está politizado é graças ao Executivo
e ao Legislativo. Eu discordo dessa ideia. Todos os políticos que se sentem
lesados em seus direitos recorrem ao judiciário, mesmo quando sabem que não
estão de acordo com a Lei, a propósito, leis votadas pelo Legislativo e
sancionadas pelo Executivo. Se alguém não se sente prestigiado em seus
direitos, tem a possibilidade de recorrer em diferentes instâncias e a
interpretação ocorre de acordo com o texto normativo legal. O que temos é um
sistema democrático, e, muitos daqueles que o criticam, é porque gostariam de
ter razão e arbitrar de acordo com a sua própria régua a forma de medir o
mundo. O sistema pode não ser perfeito, mas é o que temos. Toda sociedade
precisa de normatização e ordem, até construir algo diferente. A composição dos
três poderes é o melhor que temos.
AC - O ano de 2022 é
o do bicentenário da independência do Brasil. Que demandas mais urgentes –
heranças históricas – estão a exigir enfrentamentos e soluções?
SP- A principal demanda, sem dúvida, recai sobre a formação
cidadã. Esse Brasil que tem hoje 40% de suas crianças passando fome, em
situação de miséria ou insegurança alimentar (que não sabem quantas ou quais
refeições farão). Nosso país tem alunos no 4º ano do ensino fundamental, com
capacidades de leitura e cálculo equivalentes ao 2º ano. Entre um universo de
13 milhões de desempregados, temos vagas sobrando em áreas de cálculo e
tecnologia da Informação. Esse cenário só revela que maquiamos a herança
histórica do atraso com políticas públicas ineficazes e com finalidade
eleitoreira. É correto dar assistência às famílias, não é justo deixar alguém
passar fome e morar nas ruas, mas também é correto dar dignidade às pessoas,
promover esses cidadãos para uma vida com trabalho, saúde e escolarização. Não
é possível aceitar que em pleno século XXI tenhamos analfabetos, discussões
racistas, xenófobas e de gênero. É contraditória a ideia de que, com o avanço
tecnológico, não tenhamos capacidade de enfrentar uma pandemia e alcançar a
garantia de acesso virtual, sem exclusão e privações à educação, como aconteceu
nesses dois anos de ensino remoto. Mais uma vez, vimos que a política governa
as tragédias, quando não preparam as escolas com estrutura física, professores
e o transporte público para as crianças, ao reiniciar o ano letivo. Governos,
em diferentes instâncias, expõe alunos aos riscos estruturais às intempéries do
clima e ao abandono, para no decorrer do período letivo, buscar alternativas
improvisadas e realizar licitações. Qualquer país que não sustenta as bases de
uma sociedade não poderá projetar o seu futuro.
AC - Em síntese,
como a jornalista Sandra Parzianello vê o fazer jornalístico, hoje, no Brasil?
SP - Tenho o maior respeito por colegas que construíram sua
profissão com a prática jornalística e que tiveram reconhecimento pelo bom
senso, respeito e equidade. Não é um diploma que dá caráter a uma pessoa, mas é
o diploma que desperta para as possibilidades do jornalismo e todas as suas
façanhas. Uma notícia não tem uma só verdade, mas tem um comprometimento com o
seu público, leitor, ouvinte e expectador. Profissionalizar os jornalistas é
tão primordial quanto profissionalizar um fisioterapeuta, por exemplo, chamá-lo
de massagista é desqualificar uma categoria, ainda que para ser massagista
também é necessário determinado conhecimento. Sejamos justos, o fazer
jornalístico profissional é preparado, adequado em texto, imagem, linguagem e
capacidade de elaborar e fazer a pergunta. Um profissional capta e expressa a
emoção da notícia, sem melindrar e promover espetáculo. Permite contextualizações
históricas, pensa sobre a lógica das notícias, a forma como o seu público irá
ou não receber determinada informação. Se não fosse o jornalismo, muitas
injustiças não viriam à tona, distâncias não seriam vencidas e a informação
noticiosa não seria divulgada. Cada vez mais, a precariedade do sistema requer
uma visão para além daquilo que os olhos veem, a isso chamamos de um olhar
semioticista, só para explorar aqui um pouquinho da possibilidade de
reconhecermos a importância da teoria para o saber e o fazer jornalístico.
AC - Conte, se possível, quais são os seus próximos planos
pessoais e profissionais.
SP - Minha história de vida me permite, hoje, fazer o que
me dá prazer. Tenho sim sonhos, ambições e inquietações. Quem me conhece sabe
que não consigo parar, sou ansiosa, mas sou uma pessoa de muita sorte por estar
sempre descobrindo novos caminhos e desafios. Profissionalmente, estou pela
conclusão do meu doutorado, tenho escrito alguns artigos, atendido a
entrevistas e participado de eventos acadêmicos, além dos grupos de pesquisa e
do exercício docente na pós-graduação. Essas experiências já me aguçam para a
realização de um pós-doc, mas ainda não senti que é o momento de pensar sobre
isso. Tenho uma vida pessoal estável, o que me possibilita tranquilidade e
capacidade de discernimento para não cair na rotina. Nesse ano quero ver meu
filho, passar um tempo com ele nos Estados Unidos, pois não nos vimos desde que
eu e meu marido retornamos ao Brasil, em início de 2020, quando estourou a
pandemia. Coração de mãe grita de saudades! Fora isso, estou permanentemente em
contato com minhas amigas. Um dia, ouvi uma imortal da Academia Brasileira de
Letras, a escritora Nélida Piñon, dizer que relacionamentos e amizades dão
trabalho. E dão mesmo. Eu concordo com isso. A gente precisa, afinal, tempo e
dedicação para saber ouvir e cultivar sensibilidade em relação aos outros.
Tenho prazer em cultivar amigos, como um grupo que nós temos e que acumula mais
de 30 anos já de muita amizade e de cumplicidade. Estamos agendando agora nosso
encontro anual (pós-pandemia) em São Borja, pois tomamos rumos geográficos
diferentes, mas felizmente, nunca distantes demais do coração.
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