quarta-feira, 13 de julho de 2022

ENTREVISTA: Vanildo Fumegalli

 


Educação e família como suporte

na sustentação dos bons valores

 

Uma família unida: Vanildo e Rita 
(professores) com os filhos Patric
e Leonardo, ambos advogados.

Aos 77 anos, o professor Vanildo  Fumegalli é um representativo exemplo de dedicação e de labor trazidos pela rica contribuição da imigração italiana, em solo gaúcho. Hoje ele é aposentado no magistério, mas não para: segue atualmente como empreendendo como Microempreendedor Individual (MEI). Em entrevista ao Blog Alberi Cogo, conta um pouco das sua trajetória e avalia a educação, de ontem e da atualidade.

É natural de Paraí, no caminho para a Serra gaúcha. O pequeno município,  8 mil habitantes e emancipado de Nova Prata, a 167 quilômetros de Porto Alegre, O professor Vanildo transferiu-se  para São Borja em 1973, quando já era professor estadual em Porto Alegre. Aprovado em concurso, veio para lecionar na Escola Polivalente, hoje Padre Francisco Garcia. “O meu sonho era morar na Fronteira e, aqui, fui  tão bem acolhido que, com muita honra e orgulhp, em 2006, me foi conferido o título de Cidadão São-borjense.” 

Ele conta que começou  a estudar aos oito anos de idade, em uma escola unidocente que oferecia até o quarto ano. “Foi também nessa época que comecei a falar português”, lembra.  A partir do quarto ano e até  o final do hoje Ensino Médio, frequentou escolas particulares,  “pagas pela família com grande dificuldade.” Essas escolas exigiam  muita leitura   e ofereciam a chance de  aprender  idiomas. Frequentei aulas de inglês,  italiano, espanhol, latim  e grego, embora não pratique essas línguas.

A formação de graduação  acadêmica  foi na UNIJUÍ,  PUCRS e UFRGS. Já a pós graduação foi na  UFSM. Fumegalli ressalta que toda sua formação  superior  foi voltada à Educação. A primeira atividade “com carteira assinada” foi de   bancário. Em São Borja foi professor em escolas de Ensino Médio  e na FAFISB. Ainda atuou como  orientador educacional,  diretor de escolas e gestor financeiro.

 Por um algum  tempo, Vanildo também  se  dedicou à pecuária. Atualmente  é  microempreendedor, ocupando-se da produção de hortifrutigranjeiros,  prática na qual aplica os ensinamentos da cultura italiana.

Durante a infância e a adolescência, viveu na área rural. “As principais atividades  da família eram na roça. Lá  aprendi a gostar e  lidar  com a terra, assim como das  plantas e dos animais”, recorda. Acrescenta que “como o filho  mais velho  de uma família  numerosa, desde cedo  recebi a responsabilidade de muitas tarefas.” Fumegalli diz que “hoje  sou muito feliz  por ter tido aquelas oportunidades que  me ajudaram a amadurecer  e valorizar  as conquistas.” Ele conta que, enquanto  estudava  como interno, sempre procurava  exercer atividades  complementares. Cultivava e comercializava  hortaliças, revelava fotografias  em preto e branco e cultivava folhagens  em estufa. “

A esposa – Rita de Cássia  Ávila, são-borjense, também professora -,  conheceu na cidade de  Canoas. O casamento foi  em 1979.  O casal tem dois filhos: Patric,  que mora em Caxias do Sul, e Leonardo, que mora em São  Gabriel. Os dois têm graduação em Direito e trabalham como advogados. Vanildo e Rita têm um neto - Pedro Henrique -  filho do Leonardo. A seguir, a entrevista, que ressalta o papael fundamental da educação e da família na preservação de valores.

 

Alberi Cogo - Quem é  mais veterano é ligado à área  de  educação  como é o  seu caso, tem a chance  de  vivenciar épocas muito distintas  em relação  ao  fazer pedagógico. Há  algumas décadas,  os recursos  operacionais, tecnológicos  e de comunicação eram mais empíricos e improvisados. Hoje, tem-se uma verdadeira revolução neste é nos demais  setores. Isso melhora ou piora a qualidade da  educação  que é  entregue  nas escolas e  universidades?

  Vanildo Fumegalli - O  aluno de hoje vive em um universo onde domina a tecnologia e as notícias rápidas mas, muitas vezes, tendenciosas ou falsas.  Não  se realça  tanto os valores universais,  os fatos científicos e as ideias dos intelectuais. Se dá  mais ênfase  ao que diz um integrante  do ‘Bigbroder’ do que à fala de  um estudioso, por exemplo. Não  existe clima que  fomente a leitura de livros  sérios  e a busca pela pesquisa. Muitos jovens  possuem preconceitos  ou preguiça  de aprender  a tabuada, tornando se incapazes de dominar as quatro  operações  da matemática. Já  ocorreu um grande erro em não  reprovar alunos promovendo,  os sem o domínio de conhecimentos básicos para o seu evoluir. O professor  perdeu o poder  numérico  de avaliar o aluno. A fome e as necessidades básicas distanciam o jovem da busca de conhecimentos. A qualidade de  ensino das escolas nem sempre atende aos anseios dos jovens que buscam uma resposta  para o  seu  dia a dia. A desestruturação de famílias afeta muito o psicológico dos jovens,  a ponto de prejudicar a  capacidade de  aprender. As mensagens transmitidas pelo celular  são  constituídas por gírias, abreviações e um português nada gramatical. Este e outros  fatores não  permitem uma evolução e mantêm o nível  educacional  ainda precário, apesar de a tecnologia  ser  um instrumento de grande transformação, se usado adequadamente.

 

AC - À época  da vinda para São  Borja,  o senhor  trabalhou  como  professor na Escola Polivalente,  hoje Padre Francisco  Garcia,  que oferecia formações pré-profissionalizantes. Recentemente,  na mesma linha,  foi anunciada nova  reforma para capacitação no  Ensino Médio.  Qual é  a sua avaliação  sobre esses dois momentos?

 Fumegalli - As Escolas  Polivalentes surgiram no Brasil graças  ao acordo MEC/Usaid entre Brasil e  Estados Unidos,  com uma proposta  inovadora na estrutura  arquitetônica e  no formato  de  ensino. O ponto marcante era a parte técnica. Os alunos  da 5ª a 8ª série  tinham que frequentar  aulas teóricas e práticas  em quatro áreas: técnicas comerciais,  agrícolas, domésticas e industriais. As escolas  possuíam oficinas com todos os equipamentos  necessários para as práticas. O aluno  não  adquiria formação  profissionalizante, mas conhecimentos das diversas  áreas  para posterior  escolha de cursos profissionalizantes, em  nível de técnico/médio. Pelo que sei, na nova proposta de reforma para o Ensino Médio define uma organização  curricular  que contemple uma Base Nacional Comum Curricular e a oferta de diferentes possibilidades de escolhas aos estudantes,  com foco nas áreas  de conhecimento e na formação  técnica e  profissional. A mudança  tem como objetivo garantir  a oferta de educação  de qualidade  e de aproximar à realidade  dos estudantes com projeto de vida,  mundo do trabalho,  culturas digitais e tecnológicas.  Por estar aposentado,  não  tenho acompanhado em maiores detalhes  essa nova proposta.

 

AC - A pandemia  da covid  impôs  a necessidade  de  aulas à distância,  especialmente  pela internet. Tal circunstância revelou, ao mesmo tempo,  que instituições  de ensino e educandos não estão  suficientemente aparelhados dos recursos técnicos  necessários.  Isso tem solução?

 Fumegalli -  As aulas à distância,  no Ensino Fundamental e Médio,  só  são   concebíveis  em casos emergenciais,  como a pandemia. Essa modalidade  acaba se tornando elitista,  pois somente  alguns alunos têm  acesso à tecnologia utilizada. Muitos professores  ainda não  estão preparados, por não  dominarem a tecnologia. Além  disso, muitos pais não  se sentem  em condições de acompanhar, cobrar e tirar as dúvidas  dos filhos referentes à parte  pedagógica. As aulas presenciais são  insubstituíveis; nelas o aluno  troca conhecimentos,  tira dúvidas,  tem incentivos e vive emoções. No convívio  do dia a dia na comunidade  escolar o aluno desenvolve  a parte social, atributo indispensável  para o ser humano. Para suprir essa lacuna deixada pela pandemia, creio que a decisão de aumentar a carga horária de certas disciplinas básicas é uma boa iniciativa. Se fosse possível o aluno frequentar o turno inverso seria outra boa ideia. No entanto, a comunidade escolar tem as melhores condições de encontrar boas formas para suprir tal lacuna, envolvendo pais, alunos e professores como diálogo e debates. Os professores são sempre os que encontram as boas formas para as melhorias, basta motivá-los

 

AC - Neste mundo  da chamada  pós  modernidade,  afirma-se  que os jovens leem menos ou leem em outros formatos  e plataformas. As famílias  também cultivam outros valores. Como avalia  esta conjuntura?

 Fumegalli -  As famílias deveriam ser a base para a formação  dos jovens,  mas parece  que   muitas perderam o senso da responsabilidade, jogando para as escolas essa função.  A omissão é o permissionismo deterioraram a missão  dos  pais. Eles  envolvem  com o econômico e o  social esquecendo da educação  dos filhos, que já  não  buscam sua formação  em bons livros ou fontes científicas. A internet  passou a ser uma válvula  de escape para muitos jovens,  sendo fonte de informação, base de aconselhamento e inspirações, substituindo   a família.

 


Rita e Vanildo: nos CTGs ambiente
saudável e culto às tradições gaúchas.

AC - O senhor  tem também  uma marcada atuação  ligada ao  tradicionalismo e aos CTGs. Que análise  faz a respeito,  diante da evolução para  novos valores e  costumes?

Fumegalli -  Tive minha infância e  juventude em  outras  regiões  do  estado, onde não  se cultuava  as tradições  gaúchas.  Mesmo quando morava em São Borja, demorei anos para começar a  entender  e vivenciar essa cultura. Só comecei  a frequentar   CTGs no final da década de 1990, quando meus filhos iniciaram dançar nas invernadas artísticas.  De lá  em diante, fui vendo o grande  valor dessas entidades, com a  oportunidade de exercer várias funções como as de tesoureiro,  coordenador  de invernadas ou presidir o Festival Ronda de  São  Pedro em quatro 4 edições. Ajudei também na coordenação  do 1º   Festival Tropilha  Gaúcha.  Hoje vejo as entidades  tradicionalistas como um local de preservação da cultura,  de resgate de valores universais,  de desenvolvimento de talentos  artísticos e uma oportunidade de encontro  entre gerações com o fortalecimento  de amizades.  Nos CTGs,  nós  pais, encontramos  segurança para preservar  nossos filhos de situações perigosas. Também  é  no CTGs que se preserva e se exauta os usos, os costumes, os valores e habilidades  artísticas do povo  gaúcho.

 

AC - Vanildo Fumegalli é igualmente conhecido como alguém identificado com a natureza, com a produção sustentável. O aquecimento global é a bagunça geral do clima o preocupam? Há chance de reversão?

Fumegalli - Realmente, sinto fortes laços de apreço com o solo, vegetação e animais. Eu estando envolvido com qualquer uma dessas partes, me sinto bem e feliz. Sofro quando vejo o desequilíbrio climático com longas estiagens e inundações provocadas pela ação irracional do homem. É a natureza dando respostas aos maus tratos recebidos. Não é só o desmatamento e queimadas da Amazônia ou a poluição das grandes indústrias que são os responsáveis. Todos nós podemos ter culpa ao não descartar corretamente o lixo doméstico, ao queimar plásticos nos fundos do pátio ou ainda ao drenar pequenos banhados. Essas e outras pequenas ações também são responsáveis pelo desequilíbrio da natureza. Podemos sim reverter essa situação orientando nossas crianças e jovens da importância de seu agir correto diante da natureza.

 


Com o neto Pedro Henrique,  cultivando 
amor pela terra e a produção sustentável.

AC - Quais são os seus planos para o futuro?

Fumegalli - Alcancei uma etapa da vida em que meus maiores planos são simples, mas relevantes.  Cuidar da saúde física e mental, através de uma boa alimentação e procurar estar permanentemente envolvido em ocupações que me tragam prazer. Acompanhar e apoiar a formação das famílias de meus dois filhos. Prestigiar e apoiar boas iniciativas de pessoas na comunidade. E procurar ser sempre uma pessoa de bem.

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