Educação e família como suporte
na sustentação dos bons valores
Uma família unida: Vanildo e Rita
(professores) com os filhos Patric
e Leonardo, ambos advogados.
Aos 77 anos, o professor Vanildo Fumegalli é um representativo exemplo de
dedicação e de labor trazidos pela rica contribuição da imigração italiana, em
solo gaúcho. Hoje ele é aposentado no magistério, mas não para: segue atualmente
como empreendendo como Microempreendedor Individual (MEI). Em entrevista ao
Blog Alberi Cogo, conta um pouco das sua trajetória e avalia a educação, de
ontem e da atualidade.
É natural de Paraí, no caminho para a Serra gaúcha. O
pequeno município, 8 mil habitantes e
emancipado de Nova Prata, a 167 quilômetros de Porto Alegre, O professor
Vanildo transferiu-se para São Borja em
1973, quando já era professor estadual em Porto Alegre. Aprovado em concurso,
veio para lecionar na Escola Polivalente, hoje Padre Francisco Garcia. “O meu
sonho era morar na Fronteira e, aqui, fui
tão bem acolhido que, com muita honra e orgulhp, em 2006, me foi
conferido o título de Cidadão São-borjense.”
Ele conta que começou a estudar aos oito anos de idade, em uma escola
unidocente que oferecia até o quarto ano. “Foi também nessa época que comecei a
falar português”, lembra. A partir do
quarto ano e até o final do hoje Ensino
Médio, frequentou escolas particulares,
“pagas pela família com grande dificuldade.” Essas escolas exigiam muita leitura e ofereciam a chance de aprender
idiomas. Frequentei aulas de inglês,
italiano, espanhol, latim e
grego, embora não pratique essas línguas.
A formação de graduação acadêmica
foi na UNIJUÍ, PUCRS e UFRGS. Já
a pós graduação foi na UFSM. Fumegalli
ressalta que toda sua formação
superior foi voltada à Educação.
A primeira atividade “com carteira assinada” foi de bancário. Em São Borja foi professor em
escolas de Ensino Médio e na FAFISB.
Ainda atuou como orientador
educacional, diretor de escolas e gestor
financeiro.
Por um algum
tempo, Vanildo também se dedicou à pecuária. Atualmente é
microempreendedor, ocupando-se da produção de hortifrutigranjeiros, prática na qual aplica os ensinamentos da
cultura italiana.
Durante a infância e a adolescência,
viveu na área rural. “As principais atividades
da família eram na roça. Lá
aprendi a gostar e lidar com a terra, assim como das plantas e dos animais”, recorda. Acrescenta
que “como o filho mais velho de uma família numerosa, desde cedo recebi a responsabilidade de muitas tarefas.”
Fumegalli diz que “hoje sou muito feliz por ter tido aquelas oportunidades que me ajudaram a amadurecer e valorizar
as conquistas.” Ele conta que, enquanto
estudava como interno, sempre
procurava exercer atividades complementares. Cultivava e
comercializava hortaliças, revelava
fotografias em preto e branco e
cultivava folhagens em estufa. “
A esposa – Rita de Cássia Ávila, são-borjense, também professora
-, conheceu na cidade de Canoas. O casamento foi em 1979.
O casal tem dois filhos: Patric,
que mora em Caxias do Sul, e Leonardo, que mora em São Gabriel. Os dois têm graduação em Direito e
trabalham como advogados. Vanildo e Rita têm um neto - Pedro Henrique - filho do Leonardo. A seguir, a entrevista,
que ressalta o papael fundamental da educação e da família na preservação de
valores.
Alberi Cogo - Quem é
mais veterano é ligado à área
de educação como é o
seu caso, tem a chance de vivenciar épocas muito distintas em relação
ao fazer pedagógico. Há algumas décadas, os recursos operacionais, tecnológicos e de comunicação eram mais empíricos e
improvisados. Hoje, tem-se uma verdadeira revolução neste é nos demais setores. Isso melhora ou piora a qualidade
da educação que é
entregue nas escolas e universidades?
Vanildo Fumegalli
- O aluno de hoje vive em um
universo onde domina a tecnologia e as notícias rápidas mas, muitas vezes,
tendenciosas ou falsas. Não se realça
tanto os valores universais, os
fatos científicos e as ideias dos intelectuais. Se dá mais ênfase
ao que diz um integrante do ‘Bigbroder’
do que à fala de um estudioso, por
exemplo. Não existe clima que fomente a leitura de livros sérios
e a busca pela pesquisa. Muitos jovens
possuem preconceitos ou
preguiça de aprender a tabuada, tornando se incapazes de dominar as
quatro operações da matemática. Já ocorreu um grande erro em não reprovar alunos promovendo, os sem o domínio de conhecimentos básicos para
o seu evoluir. O professor perdeu o
poder numérico de avaliar o aluno. A fome e as necessidades
básicas distanciam o jovem da busca de conhecimentos. A qualidade de ensino das escolas nem sempre atende aos
anseios dos jovens que buscam uma resposta
para o seu dia a dia. A desestruturação de famílias
afeta muito o psicológico dos jovens, a
ponto de prejudicar a capacidade de aprender. As mensagens transmitidas pelo
celular são constituídas por gírias, abreviações e um
português nada gramatical. Este e outros fatores não
permitem uma evolução e mantêm o nível
educacional ainda precário,
apesar de a tecnologia ser um instrumento de grande transformação, se
usado adequadamente.
AC - À época
da vinda para São Borja, o senhor
trabalhou como professor na Escola Polivalente, hoje Padre Francisco Garcia,
que oferecia formações pré-profissionalizantes. Recentemente, na mesma linha, foi anunciada nova reforma para capacitação no Ensino Médio.
Qual é a sua avaliação sobre esses dois momentos?
Fumegalli - As Escolas Polivalentes surgiram no Brasil graças ao acordo MEC/Usaid entre Brasil e Estados Unidos, com uma proposta inovadora na estrutura arquitetônica e no formato
de ensino. O ponto marcante era a
parte técnica. Os alunos da 5ª a 8ª
série tinham que frequentar aulas teóricas e práticas em quatro áreas: técnicas comerciais, agrícolas, domésticas e industriais. As escolas possuíam oficinas
com todos os equipamentos necessários
para as práticas. O aluno não adquiria formação profissionalizante, mas conhecimentos das
diversas áreas para posterior escolha de cursos profissionalizantes,
em nível de técnico/médio. Pelo que sei,
na nova proposta de reforma para o Ensino Médio define uma organização curricular
que contemple uma Base Nacional Comum Curricular e a oferta de
diferentes possibilidades de escolhas aos estudantes, com foco nas áreas de conhecimento e na formação técnica e
profissional. A mudança tem como
objetivo garantir a oferta de
educação de qualidade e de aproximar à realidade dos estudantes com projeto de vida, mundo do trabalho, culturas digitais e tecnológicas. Por estar aposentado, não
tenho acompanhado em maiores detalhes
essa nova proposta.
AC - A pandemia
da covid impôs a necessidade
de aulas à distância, especialmente
pela internet. Tal circunstância revelou, ao mesmo tempo, que instituições de ensino e educandos não estão suficientemente aparelhados dos recursos
técnicos necessários. Isso tem solução?
Fumegalli
- As aulas à distância, no Ensino Fundamental e Médio, só são
concebíveis em casos emergenciais, como a pandemia. Essa modalidade acaba se tornando elitista, pois somente
alguns alunos têm acesso à
tecnologia utilizada. Muitos professores
ainda não estão preparados, por
não dominarem a tecnologia. Além disso, muitos pais não se sentem
em condições de acompanhar, cobrar e tirar as dúvidas dos filhos referentes à parte pedagógica. As aulas presenciais são insubstituíveis; nelas o aluno troca conhecimentos, tira dúvidas,
tem incentivos e vive emoções. No convívio do dia a dia na comunidade escolar o aluno desenvolve a parte social, atributo indispensável para o ser humano. Para suprir
essa lacuna deixada pela pandemia, creio que a decisão de aumentar a carga
horária de certas disciplinas básicas é uma boa iniciativa. Se fosse possível o
aluno frequentar o turno inverso seria outra boa ideia. No entanto, a
comunidade escolar tem as melhores condições de encontrar boas formas para
suprir tal lacuna, envolvendo pais, alunos e professores como diálogo e
debates. Os professores são sempre os que encontram as boas formas para as
melhorias, basta motivá-los
AC - Neste mundo
da chamada pós modernidade,
afirma-se que os jovens leem
menos ou leem em outros formatos e
plataformas. As famílias também cultivam
outros valores. Como avalia esta
conjuntura?
Fumegalli - As famílias deveriam ser a base para a formação dos jovens,
mas parece que muitas perderam o senso da responsabilidade,
jogando para as escolas essa função. A
omissão é o permissionismo deterioraram a missão dos
pais. Eles envolvem com o econômico e o social esquecendo da educação dos filhos, que já não
buscam sua formação em bons
livros ou fontes científicas. A internet
passou a ser uma válvula de
escape para muitos jovens, sendo fonte
de informação, base de aconselhamento e inspirações, substituindo a família.

Rita e Vanildo: nos CTGs ambiente
saudável e culto às tradições gaúchas.
AC - O senhor tem também uma marcada atuação ligada ao tradicionalismo e aos CTGs. Que análise faz a respeito, diante da evolução para novos valores e costumes?
Fumegalli - Tive minha
infância e juventude em outras
regiões do estado, onde não se cultuava
as tradições gaúchas. Mesmo quando morava em São Borja, demorei
anos para começar a entender e vivenciar essa cultura. Só comecei a frequentar
CTGs no final da década de 1990, quando meus filhos iniciaram dançar nas
invernadas artísticas. De lá em diante, fui vendo o grande valor dessas entidades, com a oportunidade de exercer várias funções como as
de tesoureiro, coordenador de invernadas ou presidir o Festival Ronda
de São
Pedro em quatro 4 edições. Ajudei também na coordenação do 1º Festival Tropilha Gaúcha.
Hoje vejo as entidades
tradicionalistas como um local de preservação da cultura, de resgate de valores universais, de desenvolvimento de talentos artísticos e uma oportunidade de
encontro entre gerações com o
fortalecimento de amizades. Nos CTGs,
nós pais, encontramos segurança para preservar nossos filhos de situações perigosas.
Também é
no CTGs que se preserva e se exauta os usos, os costumes, os valores e
habilidades artísticas do povo gaúcho.
AC - Vanildo Fumegalli é igualmente
conhecido como alguém identificado com a natureza, com a produção sustentável.
O aquecimento global é a bagunça geral do clima o preocupam? Há chance de
reversão?
Fumegalli -
Realmente, sinto fortes laços de apreço com o solo, vegetação e animais. Eu
estando envolvido com qualquer uma dessas partes, me sinto bem e feliz. Sofro
quando vejo o desequilíbrio climático com longas estiagens e inundações
provocadas pela ação irracional do homem. É a natureza dando respostas aos maus
tratos recebidos. Não é só o desmatamento e queimadas da Amazônia ou a poluição
das grandes indústrias que são os responsáveis. Todos nós podemos ter culpa ao
não descartar corretamente o lixo doméstico, ao queimar plásticos nos fundos do
pátio ou ainda ao drenar pequenos banhados. Essas e outras pequenas ações
também são responsáveis pelo desequilíbrio da natureza. Podemos sim reverter
essa situação orientando nossas crianças e jovens da importância de seu agir
correto diante da natureza.
AC - Quais são os seus planos para
o futuro?
Fumegalli - Alcancei
uma etapa da vida em que meus maiores planos são simples, mas relevantes. Cuidar da saúde física e mental, através de
uma boa alimentação e procurar estar permanentemente envolvido em ocupações que
me tragam prazer. Acompanhar e apoiar a formação das famílias de meus dois
filhos. Prestigiar e apoiar boas iniciativas de pessoas na comunidade. E procurar
ser sempre uma pessoa de bem.


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