A penosa saga de quem depende
de atendimento na área de saúde
É
compreensível e justificada a crescente expectativa, em São Borja, pela
habilitação do Centro de Oncologia do Hospital Ivan Goulart (HIG) ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao
Ministério da Saúde. Mais do que uma meritória conquista dos que lideram a
causa, a implementação da medida será um providencial alívio àqueles que, em
grande número, são submetidos a buscar assistência a longas distâncias, apostando em soluções e na
vida. Também são submetidos a riscos,
incertezas e desconfortos. Assim também é com familiares desses pacientes e com quem os
conduz aos destinos. E as consultas, as cirurgias, os tratamentos e a esperança
de cura para os cânceres são apenas um dos exemplos desta repetida, dolorosa e
onerosa saga da chamada ambulancioterapia.
Nos últimos anos, são relevantes e inquestionáveis
os avanços materiais e nos serviços prestados pelo hospital da cidade. Vultuosos
investimentos acontecem em quase todos
os setores, desde a infraestrutura
operacional a equipamentos, os mais
modernos. Espaços físicos são redimensionados,
revitalizados e ampliados, quer em acomodações de hotelaria, quer de apoio
funcional. Paralelamente, a equipe de
profissionais atendentes recebe continuadas capacitações e atualizações técnicas, para a
entrega de mais e melhores serviços humanizados e de qualidade. Homens e mulheres abnegados cuidam de tudo,
garantindo que os avanços aconteçam, como uma sublime missão.
Junto com a instituição hospitalar que
consolida perfil e status regional, São
Borja, como núcleo urbano, também cresce. Nem as dificuldades da pandemia cessam esse processo.
A cidade moderniza-se - na sua infraestrutura viária, no saneamento básico, nas suas feições urbanas. Farmácias e clínicas na área médica se
multiplicam. Tudo isso, entretanto, contrasta com carências e dificuldades que
podem parecer pontuais ou até banais em determinados
serviços de saúde, mas que dolorosamente impactantes a vida de quem se vê
privado pelo vácuo, pela ausência.
Apagão nos sistemas?
A atenção primária de saúde em São
Borja, a exemplo do que ocorre com o HIG, vem garantindo os atendimentos
básicos, e com capilaridade. São 12 Estratégias de Saúde da Família (ESFs) e
uma Unidade Básica (UB) à disposição. A administração municipal anuncia que outras
duas ESFs serão ativadas em solo urbano, além de uma terceira para atender
demandas do interior do município. Farmácias Básicas são duas em funcionamento, no
Centro e no bairro do Passo. Uma terceira unidade vai ser implantada, para
atender à população da Zona Sul.
Ao mesmo tempo, também funcionam em
âmbito local serviços mais aprimorados, disponibilizados pela municipalidade. O Centro Especializado em
Reabilitações (CER), de estrutura e porte regionais, é um bom exemplo. Além disso, um serviço de
regulação a consultas e procedimentos de média e alta complexidade encaminha
para centros especializados fora de São Borja. Daqui partem, como uma permanente
rotina, automóveis, ambulâncias vans e micro-ônibus levando pacientes para mais de uma dezena de cidades em toda a geografia
gaúcha.
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Nem tudo, contudo, é perfeito. Apesar
disso tudo, determinados atendimentos básicos, aqui ou em outros locais, parece
estarem sob apagão e sem sinal de luz ao
final do túnel. A frequente queixa que se ouve é que o SUS há anos congelou seus honorários
e demais valores pagos por serviços prestados. Como consequência, os serviços então são prestados a conta gotas ou
só depois de longas e penosas esperas. Em relação ao Instituto de Previdência
do Estado (IPE), a reclamação é
exatamente a mesma. Atendimentos antes corriqueiros, ou deixam de ser
prestados ou só acontecem mediante
pagamento pelo usuário.
A pandemia também traz os seus estragos
aos demais planos de saúde no Brasil. Em cinco anos, a partir de
2014, os planos perderam 3,4 milhões de
usuários. Com a Covid, a situação só piorou, principalmente em relação aos
contratos individuais.
Com a pandemia, o segmento dos planos individuais mostra
declínio geral: consultas -12,1%; atendimentos ambulatoriais -17,4%; exames -14,6%; terapias -23,7%; internações -15,6%;
e odontologia -15,8%. Isso dá queda de -17,2% em média.
Não é por acaso que a Agência
Nacional de Saúde Suplementar (ANS) anuncia facilitações e menor custo a partir
de abril de 2022.
IPE: dúvidas
Houve época em que o Instituto de
Previdência do Estado era avaliado como
um dos melhores planos de saúde, considerando a relação custo-benefício e a
cobertura quase universal das demandas – consultas, exames, medicamentos,
internações... Mudou muito, ultimamente. Hoje, o que mais se escuta é que
médicos se descredenciaram ou descredenciaram serviços antes postos â disposição.
Os profissionais que permanecem vinculados
à instituição acabam sobrecarregados e, como é lógico, demorando uma ‘eternidade’ para o atendimento
pretendido pelo paciente. Outros – afastados do instituto – afirmam que é
melhor atender de graça do que receber quase nada. Outra constatação emblemática das mudanças e do cipoal de
dificuldades: a agência do IPE já há algum tempo fechou as portas da sua agência
na cidade.
A quem recorrer?
Não raro ouve-se o desabafo de pacientes dizendo que “é preciso rezar para
não precisar de determinados serviços.”
Para procedimentos simples, ambulatoriais, como cirurgia de uma lesão de pele, por exemplo,
difícil é encontrar solução na cidade. Longe, portanto, vai o tempo em que situações análogas – de uma mancha de coloração suspeita,
de uma erupção ou de uma ulceração cutânea -
eram mandadas, com urgência, na busca de socorro.
A prática também mostra que, mesmo
cirurgias oncológicas, quando dependentes
do SUS, somente são realizadas uma a
uma, independentemente da gravidade da situação ou do tamanho do procedimento. Como
o atendimento – pelo menos por enquanto - é em outras centros, não restam muitas opções.
Ou o paciente submeter-se a incontáveis romarias do vai-e-vem, e dependendo da ambulancioterapia. Ou então fica torcendo
para que o pior não aconteça.
Barateando custos
Os constantes
deslocamentos para cidades como Santo Ângelo, Ijuí, Santa Rosa, Passo Fundo,
Lajeado, Santa Maria, Porto Alegre, Rosário do Sul e Uruguaiana representa
altos custos e desgastes dos veículos. Como medida de economia e maior
segurança, a Prefeitura de São Borja renovou a frota operacional da Secretaria
Municipal da Saúde, através de locação
da empresa Credicar. Em dois anos, é a quarta troca de veículos. A contratação de serviço foi possível através do Termo de Adesão à Ata
de Registro de Preços em licitação
realizada pelo Consórcio dos Municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre
e o Consórcio de Desenvolvimento do Pampa Gaúcho.
Segundo a Secretaria Municipal
da Saúde, são 15 os carros locados e a renovação da frota é realizada a cada
seis meses. Na semana passada sete carros, com cerca de 80 mil quilômetros
rodados, foram substituídos por veículos zero quilômetro. Nesta semana mais
três automóveis estão sendo trocados. Só
no mês de agosto mais de 700 pacientes utilizaram o serviço.
A locação significa menor
desembolso aos cofres públicos. Além de reduzir custos com manutenção veicular,
a iniciativa também gera maior segurança e comodidade, tanto para os pacientes
quanto para os motoristas do quadro de servidores da Prefeitura. Pelo uso,
muitos veículos da frota operacional apresentam necessidade de manutenção, em
razão da frequente rodagem. Com veículos novos, é menor o consumo de
combustível, assim como os gastos de
manutenção. A ação também dá mais segurança e conforto aos motoristas e aos
pacientes.
Da Oncologia
É tido como certo o
credenciamento do Centro de Oncologia do HIG no SUS. Então serão muitas as
razões para comemorar. Convém registrar, porém, que, depois da aprovação, ainda
demanda algum tempo para ampliar a estrutura operacional e para que os
atendimentos efetivamente começam.
Em fase inicial, ainda, os
tratamentos de cânceres ainda não terão serviço de radioterapia. Trata-se de um
atendimento de elevados investimentos em equipamentos. As unidades de Santo
Ângelo e Santiago, por exemplo, não têm radioterapia. As referências mais próximas são Ijuí, Santa
Maria ou Uruguaiana.




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