sábado, 4 de setembro de 2021

ENTREVISTA: João Carlos Reolon

“A hora é a da retomada. E os

alunos serão o foco principal”





 

     Ele já foi seis vezes vereador em São Borja, algumas delas o mais votado. E, em 2020, abriu mão de um quase certo sétimo mandato. Optou por seguir trabalhando por uma das grandes paixões e vocações profissionais – a Educação. Este é o professor João Carlos Reolon (foto arquivo pessoal), que, aos 63 anos,  está por completar a terceira gestão como secretário municipal de Educação.  No magistério estadual está aposentado, depois de 35 anos atuação.

       Dono de carisma e empatia singulares, o professor Reolon já lecionou Administração de Empresas, Matemática, Sociologia e Filosofia. Tem  graduação em Pedagogia pela Fafisb (Faculdade de Filosofia, Ciências Letras de São Borja). Como titular da Secretaria Municipal de Educação  (SMEd),  assumiu inicialmente no período entre 1993 e 1996. Retornou depois nas gestões do prefeito Eduardo Bonotto, de 2017 a 2000 e a partir de 2021. Desde 2017, preside, na Fronteira Oeste, a Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais em Educação).

      Nesta entrevista ao BlogAlberiCogo, Reolon fala especialmente dos impactos da pandemia. “É hora de volta presencial às  aulas. Há tempo nos preparamos para isso, tendo o aluno como nosso foco principal”. Recuperar   a defasagem de um ensino que já não vinha bem será o grande desafio. O secretário ressalta que a Covid escancarou ainda mais as desigualdades, acha que o ensino híbrido vai ficar, mas revela preocupação com o futuro – da Educação Básica à Superior.

      Além de grande educador, João Carlos Reolon é católico fervoroso, com atuação destacada também em ações ligadas à religiosidade e à benemerência. Natural de Nova Esperança do Sul, veio para  São Borja em 1965, aos oito anos, acompanhado a família. Reolon convida à reflexão: “Se a informação e a tecnologia tornaram muitas coisas obsoletas, não revogaram as regras do humanismo e o norte da alma”.  

 

 

Alberi Cogo -  Nos últimos séculos, nenhum evento mostra-se tão impactante para a humanidade quanto à atual pandemia da Covid-19. Como secretário de Educação em São Borja, certamente uma das perguntas mais frequentes é sobre quando as escolas municipais retomarão a sua rotina. Já é possível arriscar uma projeções?

João Carlos Reolon – Esse retorno vem sendo há bastante tempo trabalhado, de modo que se dê com segurança e os melhores resultados possíveis. Há um consenso, nas diversas esferas educacionais e administrativas, de que a hora é de voltar às salas de aulas. Pensemos um pouquinho. Durante mais de um ano, a partir de marços de 2020, os alunos só puderam receber atendimento à distância. Depois, a partir de abril deste ano, passamos a adotar ensino híbrido, ou seja, parte presencial e parte à distância, alternando turmas, para evitar aglomerações. Agora, depois de ano e meio de pandemia, felizmente a Covid está relativamente controlada e são bem melhores todos os  indicadores. Além  dessas condições mais favoráveis, não há mais tempo a esperar, e temos um gigantesco déficit a ser recuperado.  E não apenas eu estou dizendo isso. O ministro da Educação, Milton Ribeiro, defende o retorno presencial completo; o governador Eduardo Leite, também, inclusive

diminuindo o distanciamento entre os alunos. Na Federação da Associação de Municípios do Estado, a Famurs, o presidente e prefeito de São Borja, Eduardo Bonotto, já há algum tempo faz campanha em todo o Rio Grande do Sul. A Undime e os Conselhos de Educação  igualmente preconizam aulas normais. A maioria da comunidade escolar pensa da mesma forma. Precisamos, todos juntos, unir forças pela retomada.  

 

AC - A educação já não vinha bem no país e a pandemia só piorou a situação. Especialistas indicam que serão necessários anos para recuperar os prejuízos. Qual é a sua perspectiva, secretário?

JCR - De fato, há muito que se investir para que a qualidade da educação no Brasil esteja em patamares adequados à grandeza da nação. Dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) de 2018, publicados no final de 2019, nos trazem uma dura constatação, com resultados nada animadores. No programa, que avalia três aspectos principais, o Brasil ficou entre 58° e 60° lugar em leitura, entre 66° e 68° em ciências e entre 72° e 74° em matemática. Isto entre os79 países participantes da pesquisa. Na mesma perspectiva, o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação) ratifica o frágil desempenho da educação brasileira, com indicadores muito abaixo do esperado nas áreas de Língua Portuguesa e Matemática. A  pandemia trouxe prejuízos que são incalculáveis para a escolarização de crianças e jovens, desde a ineficácia da alfabetização por meio de aulas remotas, mesmo em processos ancorados em plataformas digitais, até o Ensino Médio, comprometendo o acesso à universidade ou à formação técnica, no tempo e com a qualidade devida. Em um país como o nosso em que o cultivo da leitura, da pesquisa e do autodesenvolvimento não está sedimentado, e que as escolas ocupam o papel central na formação acadêmica da população - mesmo com todas as questões educacionais que precisam ser melhoradas -, a crise sanitária imposta pela Covid-19 deixa sequelas de longa e difícil superação.

 

AC - A gente sabe do esforço que os gestores e os docentes empreendem para entregar o melhor ensino possível, apesar das adversidades. A pandemia, contudo, revelou a grande desigualdade de condições entre os estudantes e famílias mais pobres para implementar, por exemplo, aulas à distância, através da internet. Como resolver questões como esta? Como será o ensino no pós-pandemia?

JCR - A pandemia expôs a profunda ferida da desigualdade social no país. Resgato mais uma vez os dados do PISA, cuja nota de escolas particulares de elite do Brasil colocaria o país na quinta posição do ranking mundial, enquanto que o resultado isolado de escolas públicas estaria 60 posições abaixo, na 65ª posição entre os 79 países avaliados. Investir em tecnologia e disponibilizar internet aos estudantes da educação básica deveria constituir uma política pública e fazer parte do investimento em educação, assim permitindo acesso gratuito a todos os alunos matriculados no ensino público. Sobretudo porque o ensino pós-pandemia será alavancado, em larga medida, pela tecnologia, em diversas modalidades e projetos de ensino. O ensino híbrido, que se colocou como alternativa durante a pandemia, deve fazer parte de uma realidade da qual não poderemos recuar.

 

AC - Há um consenso de que uma Educação Básica de qualidade é determinante para um bom desempenho universitário. Com tantos estragos acarretados pela Covid ao fazer pedagógico, que reflexos o senhor projeta para o futuro do Ensino Superior e a vida profissional?

JCR - Haverá, sem dúvida, uma fase longa de recuperação da educação e os reflexos no ensino superior e vida profissional se farão sentir no ritmo da recuperação econômica, na formação de uma base científica e tecnológica, na capacitação técnica para o mercado de trabalho que permita o acesso qualificado em resposta às demandas de uma sociedade cada vez mais exigente. Além disso, certamente haverá o rebaixamento na competitividade em nível internacional, em uma performance que já vinha enfraquecida. A necessidade de políticas de inovação, que ajudem as empresas brasileiras a acessar a tecnologia e oferecer produtos competitivos em novos mercados, passa pela qualificação do sistema educacional em todos os níveis.

 

AC - O déficit no processo educacional, provocado por esse longo período do Coronavírus, não atinge apenas o aprendizado nas escolas, mas também a socialização e a estrutura emocional dos alunos. Como superar as dificuldades nesse contexto?

JCR - Antes de tudo, é necessária uma estrutura de acolhimento aos alunos e professores. A superação das dificuldades nesse contexto deve vir do estreitamento do diálogo entre os entes públicos e a sociedade civil organizada, de modo que os esforços possam convergir, a partir de planejamentos delineados de maneira séria e responsável, em consonância com o Plano Nacional de Educação, a cujas ações devem ser agregadas ações de superação das sequelas da pandemia. De ordem prática, Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação considera, e concordo com a ideia, de que “desde que feito com qualidade e com condições adequadas aos docentes, mais tempo na escola é uma forma de viabilizar uma aprendizagem à altura dos desafios dos nossos alunos, em especial aqueles em situação de maior vulnerabilidade. Com a pandemia, e consequentemente, com a queda na aprendizagem, perda do vínculo com a escola e, em muitos casos, riscos de evasão, a expansão da jornada torna-se imperativa para reduzir os efeitos do prolongado fechamento das instituições de ensino seja de fato efetiva”

 

AC -  Em São Borja, a Secretaria de Educação oferece permanentes capacitações a seus professores. Está sendo pensada alguma estratégia diferenciada, mais específica, para o período pós-pandemia?

JCR - As capacitações dos professores devem continuar, de acordo com a estratégia adotada pela secretaria, em formações pontuais e focadas nas especificidades de atuação dos profissionais do quadro. Porém, o foco prioritário são os alunos, para os quais ações de recuperação de aprendizagem e  de superação das dificuldades estão sendo planejadas com bastante zelo. As escolas deverão colocar em execução, de forma mais intensa. o projeto de recuperação da aprendizagem, onde o foco é vencer as dificuldades dos alunos, principalmente nos componentes curriculares de Língua Portuguesa e Matemática. A ideia principal é disponibilizar professores no turno inverso, destinando apoio pedagógico para os alunos que necessitarem de recuperação de habilidades não vencidas durante as aulas híbridas. Esses profissionais receberão formação diferenciada para atuarem diretamente nas deficiências apresentadas no diagnóstico que as escolas estão construindo.

 

AC -  O senhor é coordenador na Fronteira Oeste da Undime, a União Nacional de Dirigentes da Educação Municipal. De que ferramentas a instituição dispõe para superar o chamado novo normal?

JCR -  Na Amfro (Associação dos Municípios da Fronteira Oeste)  temos uma importe seccional da União Nacional dos Dirigentes de Educação (Undime). Segue, portanto, o objetivo de integrar os dirigentes municipais na defesa da Educação Pública, construindo possível unidade de ações nos diversos desafios que, como agora na pandemia. São fortes os sentimentos de instabilidade e que pedem ações coletivas sustentadas pelo diálogo. Alguns assuntos têm pautado os encontros dos secretários de Educação na Fronteira Oeste, como a necessária valorização dos professores na construção de um ensino mais sólido e solidário; e a reivindicação de infraestrutura e cobertura digital para os alunos e professores, Em recente encontro regional realizado em Alegrete no dia 25 de agosto  já estiveram em debate pautas comuns, como o Fundeb – principal fonte de financiamento da Educação. Também foi a exame a aplicação de possíveis projetos de recuperação da aprendizagem, principalmente nas disciplinas de Matemática e Língua Portuguesa. Foi  avaliada também adesão ao Projeto Educação e Família; e ao Projeto Tempo de Aprender. Pensa-se também em uma ampla campanha de mobilização de volta às aulas. A retomada dos serviços de merenda e transporte escolar também entrou na pauta.

 

AC – Na rede municipal, São Borja está por iniciar uma nova experiência pedagógica – a da Escola Cívico-Militar. O senhor é um entusiasta desse investimento.

JCR - É importante dizer que a Escola Cívico-Militar se apresenta como um fundamental complemento, não é uma substituição das ações pedagógicas em vigor. Seus fundamentos estão alinhados à BNCC (Base Nacional Comum Curricular) na observância das 10 competências para promover o desenvolvimento dos estudantes em todas as suas dimensões. Sabe-se, porém, que precisamos oferecer alternativas para uma sociedade relativista. O conceito de liberdade está ganhando uma dimensão equivocada, e a subjetividade dos valores vem gerando enorme fragilidade nas relações humanas e na estrutura familiar. Não se trata de uma visão conservadora. Repito -sua referência é a BNCC, documento construído com a imensa participação da sociedade com o propósito de preparar os alunos para as rápidas mudanças do mundo atual. Ao contrário do que dizem seus poucos críticos, nessa moralidade estarão muito presentes o estímulo à criatividade, curiosidade, imaginação e iniciativa. Entendo até como desnecessária essa afirmação. O foco na construção de virtudes como respeito, civismo, disciplina, resgate de valores, é o principal motivo para aprovação e a calorosa acolhida da direção, professores, pais e alunos da comunidade escolar da Escola Municipal Cívico-Militar de Ensino Fundamental Duque de Caxias. Por esse mesmo motivo, o Poder Executivo vem recebendo muitas reivindicações da comunidade para que seja implantado o mesmo modelo em outras escolas. A presença da iniciativa privada através do empresário Celso Rigo é outro sinal da aprovação dos diversos segmentos da sociedade.

 

 AC - Além de um apaixonado pela Educação, o senhor também é um católico fervoroso. Fale um pouco a respeito.

JCR -  Cresci em um lar católico. Meus pais me proporcionaram uma identidade religiosa, me batizando e participando ativamente da minha Primeira Eucaristia. A oração do terço em família fez parte de praticamente toda a minha infância. Na adolescência, estudei no Colégio Sagrado Coração de Jesus, onde a prática da reflexão consolidou minha condição de católico. Na vida adulta, eu e minha família passamos a participar de dois movimentos leigos, o MCC (Movimento do Cursilho de Cristandade) e o EPC (Encontro de Pais com Cristo). Ambos são para nós belas experiências de vida cristã e familiar. Hoje percebo que a “fé é uma vida que se comunica com a própria vida” e que o mesmo Deus que nos oferta tantas oportunidades, pede que sejamos cristãos mais comprometidos com a humanidade diante de uma realidade que pouco contempla os ensinamentos de Jesus Cristo. O certo é que seremos sempre aprendizes da “Boa Nova”, pois a conversão é um processo que não podemos abrir mão.

 

AC - A impressão que se tem é que as novas lideranças são cada vez mais escassas. Se verdadeira a afirmativa, o que fazer para a reversão?

JCR - Penso que vivemos uma encruzilhada civilizatória. Se, por um lado, vivemos numa sociedade profundamente individualista, por outro nunca tivemos tantos elementos que induzem à formação de uma consciência social. Lideranças despontam em contextos comunitários.Todo líder o é em função de um coletivo. Embora algumas habilidades, que podem ser natas, caracterizem um líder, como a habilidade de comunicação, de motivação, de alteridade, uma liderança pode ser forjada no exercício da ação em sociedade. Nesse sentido, a educação é uma ferramenta essencial, por meio da qual, não só os indivíduos tem acesso ao desenvolvimento de suas potencialidades, como dispõe, no microuniverso da vida escolar, a oportunidade de constituir-se sujeito de deveres e direitos, consolidando, à medida que cresce, a cidadania e o senso de pertença à uma nação. Investindo em educação de qualidade, estaremos contribuindo para o florescimento de lideranças.

 

AC - Que mensagem final o senhor nos deixa para um período tão atribulado como o atual?

JCR -  Neste tempo de tantos e tão contundentes desafios, em que a sociedade humana é confrontada tão duramente com seus valores, precisamos de união. Somente o diálogo e a fraternidade podem construir o caminho do futuro. Se a informação e a tecnologia tornaram muitas coisas obsoletas, não revogaram as regras do humanismo e o norte da alma. Nessa busca o principal caminho é a educação.

 

 

 

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