“Só o crescimento
econômico e a geração
de empregos
resolvem as desigualdades”
Pedro Dutra Fonseca: "É ridículo acreditar que,
privatizando a Petrobras, a gasolina vai baratear."
Entre 1930 e 1980, o Brasil foi o
país que mais cresceu no mundo. Hoje, porém, a indústria brasileira representa
só cerca de 30% do que era nos anos 80. Doutor em Economia, o são-borjense
Pedro Cezar Dutra Fonseca, 67 anos, cita esses dois parâmetros para mostrar a
gravidade da situação social e econômica nacional. Para equacionar a imensa desigualdade
existente, ele defende crescimento econômico e geração de empregos. “Tem de
ocorrer a entrada do Brasil nos ramos de ponta, como microeletrônica, nanotecnologia, internet das
coisas, microbiologia e de fármacos avançados”. Além disso, é preciso “investimento
público em educação, ciência e tecnologia”.
O professor
Pedro diz que a polarização política “é péssima, nada constrói”. Vê um vácuo de
grandes novos líderes nacionais. E chama a atenção que não é a pandemia a
responsável pela grave crise atual. Lamenta que a ideologização tome conta do
debate da eventual privatização da Petrobras, por exemplo. Acha, contudo, que
não é hora de vender a petroleira nem o Banco do Brasil, por serem
“estratégicos”. Fonseca ressalta,
contudo, que “é ridículo” pensar que privatizando a Petrobras vai baratear a
gasolina.
Pedro Dutra
Fonseca é bacharel em Ciências Econômicas e mestre em Economia pela Ufrgs (Universidades
Federal do Rio Grande do Sul). É doutor em Economia pela Universidade de São
Paulo (USP). Ele deixou São Borja aos 15 anos, para construir sua exitosa trajetória acadêmica.
Fonseca é pesquisador
do CNPq desde 1987 e professor titular do Departamento de Ciências Econômicas e
Relações Internacionais da Ufrgs. Foi coordenador do curso de Pós-Graduação em Economia, chefe do
Departamento de Economia e Relações Internacionais e diretor da Faculdade de
Ciências Econômicas. Também é presidente da Câmara de Pesquisa da Ufrgs, pró-reitor
de Pesquisa e vice-reitor da instituição. Foi coordenador da Área de Economia
da CAPES, diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do
Sul (1997-2000) e presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política
(2002-2004). Ainda atuou como membro do Comitê de Administração, Economia e
Contabilidade do CNPq (2011-2017), foi coordenador da Rede Brasileira de Ensino
de Desenvolvimento Econômico (2010-2014) e diretor do Centro de Estudos Internacionais
sobre Governo (CEGOV) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2014-2017).
Igualmente dirigiu o Centro Internacional Celso Furtado de 2013 a 2017.
Como
profissional e pesquisador na área de Economia, atua com ênfase em Economia
Brasileira. Tem como foco principal Desenvolvimento Econômico, Formação
Econômica do Brasil nos séculos XX e XXI e História do Pensamento Econômico.
Foi contemplado com Menção Honrosa por sua tese de doutorado pela ANPEC (Associação Nacional de Pós-Graduação em
Economia), em 1987. Ficou em segundo lugar no ‘V Prêmio BNDES de Economia’
(1981). Recebeu o ‘Prêmio Pesquisador Gaúcho 2011’ concedido pela Fundação de
Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (FAPERGS). Ficou com o primeiro e o
segundo lugar no ‘Prêmio Brasil de Economia’, concedido pelo Conselho Federal
de Economia, na categoria ‘Melhor Artigo’ de Economia nos anos de 2016 e 2014.
O
nascimento de Pedro Cezar Dutra Fonseca foi em 7 de novembro de 1954. Em 30 de
novembro de 1990, ele recebeu o título de “São-Borjense Ilustre”, da Câmara
Municipal de São Borja. Em 2021 foi distinguido com o título de “Cidadão de Porto Alegre”, conferido pelo Legislativo da capital gaúcha. Possui cinco livros publicados: “Vargas: o Capitalismo em
Construção” (HUCITEC, 3ª edição); RS: Economia e Conflitos Políticos na
República Velha (Ed. Mercado Aberto); “A Era Vargas, Economia e Sociedade (org.
– em coautoria com Pedro Paulo Bastos). É autor de 49 capítulos de outros livros
e 70 artigos em revistas científicas indexadas.
Em São
Borja, estudou no Colégio Normal Sagrado Coração de Jesus o Curso Primário (1ª
a 5ª série) e o Curso Ginasial no Colégio Estadual de São Borja (CESB). Ao
transferir-se para a capital, fez o Curso
de Técnico em Contabilidade (de nível médio) na Ufrgs. Casado há 40 anos com Elizabeth, o casal tem dois
filhos - Vicente e Lourenço. O primeiro
é jornalista e o segundo é bacharel em Direito e trabalha no TRF4. Vicente é
pai de Isadora, única neta.
Ele lembra
as suas origens: “O meu pai e a minha mãe, já
falecidos, são Diniz Fagundes da Fonseca Sobrinho e Nair Dutra Fonseca, dona
Naná. O pai foi proprietário de uma tradicional loja de calçados e artigos de
couro, localizada na esquina das ruas
General Osório com Serafim Dornelles Vargas”.
Para São
Borja, com um pujante agronegócio consolidado, o conselho é diversificar e
incrementar as atividades urbanas, especialmente o turismo, aproveitando seu
grande e diversificado potencial. “Isso geraria empregos e faria a renda
circular, com efeito multiplicador”, destaca, acrescentando que “Gramado do
nada e hoje potência turística nacional.” Outra ideia é, como região de
fronteira, um polo de exportação e exportação. Acompanhe a seguir a entrevista,
mais uma leitura imperdível.
Alberi Cogo
- Os economistas registram, com
frequência, que em menos 50 anos o Brasil teve duas décadas perdidas. A
primeira foi nos anos 1980 e a mais recente começou pouco antes de 2010. Quando
o país poderia implementar ações para superar a crise, veio a pandemia. Na sua
avaliação, que medidas saneadoras são mais urgentes, prioritárias e possíveis
numa conjuntura de retração econômica, inflação, desemprego crônicos e
crescente e ainda escassos
investimentos?
Pedro
Fonseca - O Brasil foi o país do mundo que mais cresceu entre 1930 e 1980. Na
década de 1940, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, ultrapassou a
Argentina e tornou-se o maior PIB (Produto Interno Bruto) da América Latina.
Infelizmente, a partir de então, seu crescimento foi pífio. A década de 1980
foi de baixíssimo crescimento e inflação alta, só contida após o Plano Real.
Mas do ponto de vista político, não foi “perdida”: foi a década da
redemocratização e da Constituinte. O fato mais marcante do ponto de vista
econômico, desde então, foi, de um lado, o crescimento e a importância do
agronegócio, atividade em que o Brasil se destaca em produtividade e ajuda
garantir saldos positivos em seu balanço de pagamentos. Mas, lamentavelmente,
com uma desindustrialização acelerada, tanto que hoje a indústria brasileira
representa cerca de 30% do que era em 1980. Em tese, não há incompatibilidade
nenhuma em ser uma grande nação exportadora de produtos primários e ao mesmo
tempo ter uma indústria pujante. A alternativa seria retomar a perspectiva de
medidas de política econômica que viabilizassem a entrada do Brasil nos ramos
de ponta em termos de tecnologia, como a microeletrônica, nanotecnologia,
internet das coisas, microbiologia e fármacos de ponta, de outros. A pandemia
não pode justificar tal atraso nem o desemprego que temos sem precedentes: já
em 2019, portanto antes dela, o país já computava 13 milhões de desempregados.
A falta de perspectiva faz muitos jovens e cientistas quererem sair do país, o
que é muito triste, numa nação que tem muito a construir.

Fonseca: "Se o governador recuperar
a qualidade da educação já vale a pena."
AC - Que
medidas propõe para diminuir a gigantesca desigualdade no Brasil como nação?
PF – As
melhores políticas para combater a
desigualdade são o crescimento econômico e a geração de empregos. E isso se
consegue com mais investimentos, com mais produção e produtividade. Por outro
lado, investimento público em educação, ciência e tecnologia. É o que fizeram
as nações que hoje são grandes. Mas nem sempre os políticos concordam, pois são
medidas que mostram resultados só a longo prazo, não dão a visibilidade que
garante votos na próxima eleição. Entendo que programas de distribuição de
auxílios, seja em dinheiro ou em produtos, como cesta básica, gás ou outros, só
fazem sentido no curto prazo: são importantes, mas em caráter emergencial. A dignidade das pessoas não passa por
depender do estado a vida toda, mas por ter emprego, seu próprio negócio,
enfim, uma atividade que lhe dê possibilidade de exercer sua cidadania. E isso
não cai do céu nem aparece por geração espontânea, precisa de política pública,
de união entre os entes federativos e dos três poderes como prioridade
nacional.
AC - Em que
medida, a polarização político-ideológica entre direita e esquerda impede
avanços no país? Que perspectiva o senhor traça para a disputa eleitoral de
2022?
PF - A divisão
é péssima, nada constrói. Uma nação precisa compartilhar valores e símbolos
comuns, é o que nos faz todos brasileiros, o reconhecimento de uma Pátria
comum. As divergências, que são normais em uma democracia, não podem sobrepujar
o fato de que todos são brasileiros e precisam se unir nas grandes causas. A
política deve buscar alternativas com o máximo de consenso para gerir os
conflitos inerentes às sociedades complexas, e não para aprofundar ainda mais
os dissensos. E essa divisão política é reproduzida por mensagens que as
pessoas recebem pelas redes sociais e das quais não questionam a autoria, não
sabem quem as fez nem quem pagou por elas. Pensam que cai do céu. São
manipuladas e pensam que são informadas. Estamos em uma época na qual só se lê
aquilo que se está disposto a concordar e nunca o contraditório. Isso leva a um
emburrecimento e à desinformação. E por ler a mesma informação repetida várias
vezes, mesmo falsa e fantasiosa, passa-se a crer em sua veracidade, já que cada
vez se lê menos jornais e até o jornalismo na TV e no rádio, que é realizado
profissionais responsáveis e sem anonimato, é negligenciado.
PF - Seria
muito importante para o país ter candidatos de centro. O centro é fundamental
na política, pois ele é quem pode empreender a negociação, que é a razão de ser
da política. Quando falo em centro não estou me referindo ao chamado “Centrão”,
que é um grupo heterogêneo e quer mais se beneficiar do dinheiro público do que
levar adiante um projeto de país. Sei que não se pode generalizar, mas acho
deplorável que a política, atividade tão nobre, já destacada na Antiguidade por
Platão e Aristóteles, tenha virado no Brasil uma atividade para ganhar dinheiro
às custas do Estado, ou seja, do contribuinte. Só o fato de o Congresso aprovar
um orçamento secreto - e achar isso normal -, me parece escandaloso: os nossos
representantes, por nós eleitos, resolvem que o dinheiro arrecadado pelos
impostos que nós pagamos pode ser gasto sem que saibamos em quê. Isso não é
usual nos países civilizados. O dinheiro do orçamento da União, dos estados e
dos municípios é dos contribuintes e não dos políticos que temporariamente estão
à frente de determinados cargos, seja no executivo ou nos legislativos.
PF - Não
tenho a menor dúvida. Como qualquer político ou ser humano, Vargas tinha
virtudes e defeitos. Mas possuía um projeto de país, de nação pujante,
industrializada, moderna, com menos desigualdade. Essa perspectiva de fazer
política não em benefício próprio, mas para construir algo, é que com o tempo
se perdeu. Getúlio ficou vinte anos na Presidência da República, a metade em
período de ditadura, mas ao morrer não tinha mais riqueza do que possuía quando
saiu de São Borja para exercer os cargos. Ao contrário, talvez até tenha
perdido dinheiro ou deixado de ganhar, pois ficava longe das fazendas e dos negócios – e, como
se diz, “o boi engorda com o olho do dono”. Recentemente foi publicada toda a
correspondência mantida por ele com sua filha Alzira no período em que ele
viveu em São Borja, entre as duas presidências, e ela permanecera no Rio de
Janeiro. É impressionante ele confessar que estava com dificuldade financeira,
pedia para os familiares diminuírem os gastos. Preocupava-se para dona Darcy
não passar dificuldades, pedia para Alzira acompanhar as finanças da mãe. Mesmo
para construir uma casa em Petrópolis, quando ainda era presidente, teve que
ser aos poucos, pois eram muitos os gastos, muitas despesas de representação e
o salário insuficiente. E se recusava a pedir financiamento em bancos públicos
ou privados, o que poderia sugerir privilégio por exercer cargo público,
propina, ou ter que retribuir depois com benesses. Nomeou sua filha Alzira como
secretária depois de ela exercer tal tarefa na prática, relutante, pois era sua
assessora de confiança e não recebia qualquer salário. Também deixava de
ganhar, pois era formada em Direito e poderia trabalhar como profissional
liberal. Enfim, os tempos eram outros.
Professor prevê novos livros em 2022,marcando o bicentenário da Independência.
AC - A atuação política no Brasil normalmente
transforma-se em carreira, profissão. Isso é fator para que não tenhamos o surgimento de novas grandes
lideranças?
PF - Pode ser um agravante, mas não há
causalidade linear. Políticos profissionais, ou que se dedicam à política como
atividade principal, existem em todos os países e não necessariamente impedem
novas lideranças. Veja Barak Obama e Biden, nos EUA, e Angela Merkel, na
Alemanha. No Brasil, também antes não era assim: tivemos grandes políticos que
poderiam ser chamados de “profissionais” em vários partidos, e eles não
impediram novas lideranças nem se locupletaram com os cofres públicos. Fiquemos
nos antigos para exemplificar: Raul Pilla (Partido Libertador), Tarso Dutra e
Tancredo Neves (antigo PSD), Getulio Vargas e João Goulart (antigo PTB),
Fernando Ferrari (MTR), Pedro Simon e Ulisses Guimarães (antigo MDB), Franco
Montoro e Mario Covas (PSDB) são exemplos... Isso mostra que o fenômeno é mais
recente.
AC - A
Petrobras foi um dos mais importantes e estratégicos investimentos da Era
Vargas. O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes,
reiteram que é indispensável privatizar
a estatal. Como o senhor avalia se desfazer de uma 'das principais joias da coroa'?
PF - O
problema maior ao se discutir privatização é que a ideologização do debate leva
as pessoas a serem sempre contra ou sempre a favor. Querem um princípio para
aplicar a todos os casos. Todavia, penso que se deve analisar caso a caso, não
há regra geral. Nada em si é melhor por ser estatal ou por ser privado, a não
ser no sentimentalismo ideológico que simplifica tudo. Há empresas que foram criadas estatais porque
não havia grupo empresarial capaz de bancar os investimentos. Mas depois de certo tempo elas deixaram de
ter a relevância que tinham na época em que foram criadas e podem ser
privatizadas. O usual em uma economia
capitalista é que o setor privado seja o maior responsável pela produção e o
Estado só entre em casos excepcionais: setores estratégicos, de segurança
nacional, para fomentar indústrias nascentes e serviços de utilidade pública,
por exemplo. Assim é em todos os países, mesmo os desenvolvidos, como Estados
Unidos, Japão, França e Alemanha. No caso da Petrobras, Getúlio inicialmente
pretendia que ela não fosse estatal, mas bancada por um pool de empresários
nacionais. O que ele não aceitava, e com apoio civil, militar e popular, é que
fosse uma multinacional a responsável pela lavra, prospecção e produção de
petróleo. Como não apareceram grupos empresariais privados brasileiros
dispostos a tal risco (não se sabia se petróleo seria encontrado no país) e com
capital suficiente, então a opção foi por criar uma estatal, já que o produto
era estratégico. Pessoalmente considero que empresas como Petrobras e Banco do
Brasil ainda são estratégicas; além do mais, dão lucro, possuem uma lógica
empresarial e são bem administradas. Não há motivo para privatizá-las. O Banco
do Brasil não impede que existam bancos privados, os quais, aliás, lucram muito
e constituem um dos setores mais sólidos da economia brasileira. Mas o BB,
assim como a Caixa Federal, auxilia na elaboração de políticas públicas, como o
próprio crédito à agricultura. Achar que a privatização vai baixar a gasolina é
ridículo: ela continuará sendo o que é hoje, uma commodity, e, portanto, não
pode ter preço desvinculado do mercado internacional. O que a Petrobras faz
hoje é exatamente o que faria se fosse totalmente privatizada. O equívoco é
querer fazer política com empresas com ações em bolsa, pois afasta os acionistas
e as descapitaliza, prejudicando seus investimentos. No longo prazo, quem perde
é a própria população.
AC - O Rio
Grande do Sul tem alguns graves problemas
estruturais que governadores têm deixado de enfrentá-los. O governador
atual, Eduardo Leite, produzirá avanços ou os equacionamentos ficarão para o
futuro?
PF - Penso que alguns avanços foram
feitos, ele é jovem e transmite que tem vontade de acertar. Mas ainda falta
muito. O Rio Grande do Sul já teve a
melhor rede educacional de ensino fundamental e médio do país. A cada pesquisa,
perde posição. Não adianta encontrar culpados, há de se buscar soluções. Se o
governo estadual mostrasse bons resultados só nessa área, já seria um ganho
enorme para todos os gaúchos me com reflexos nos demais setores.
AC - Regiões
como as da Fronteira Oeste e das Missões carregam heranças históricas de
subdesenvolvimento. Como estudioso na área, o que sugere como iniciativas
estratégicas de protagonismo para vencer os atrasos e diversificar a matriz
produtiva?
PF - Não há
uma fórmula pronta, cada região ou cidade deve saber encontrar sua vocação. São
Borja tem excelente produtividade nas lavouras, o que é ótimo, mas poderia
diversificar e incrementar atividades urbanas, o que atrairia turistas, geraria
empregos e faria a renda circular, com efeito multiplicador. Por ser fronteira,
poderia ser um polo de exportação e importação, bem como de serviços, como o
turismo. A cidade tem história, tanto jesuítica como política, poderia investir
na parte artística, como na música regional e pampeana, na paisagem do rio
Uruguai e na faixa ribeirinha, como Porto Alegre só agora começou a fazer nas
margens do Guaíba. Isso exigiria casas de espetáculo, bons hotéis e
restaurantes, empreendedores privados e apoio do setor público. Gramado começou
com chocolate, embora não produza nem cacau, nem açúcar, nem manteiga, nem
nozes... e se tornou o maior centro turístico do estado e um dos maiores do
Brasil.
AC - O
professor Pedro Dutra Fonseca atua há muitos anos como docente na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, já tendo sido vice-reitor da instituição e
diretor do curso de Economia. A universidade tem tido liberdade ideológica e
acadêmica de atuação ou tem havido algum cerceamento?
PF - Pessoalmente
nunca senti nenhuma restrição política nem ideológica. Mas não sou filiado a
nenhum partido, dentre outros motivos
porque prezo minha liberdade acadêmica. Partido exige disciplina e não
tenho mais paciência para as idas e vindas do dia a dia da política. Mas, de
forma alguma, critico quem consegue conciliar as duas coisas. Ademais, entendo
que as pessoas, em si, devem ser livres e podem ter partidos, nunca a
instituição. A Universidade é uma instituição que, por sua natureza, tem de ser
plural, pois é um local de debate, de criação e difusão do conhecimento, onde
vigora o questionamento e o contraditório. Sem essa liberdade não há pesquisa,
ninguém aprende sem poder se expressar livremente, mesmo errando. E, por isso,
nota-se uma correlação muito alta entre os países líderes em ciência e
tecnologia e países de democracia madura. O que hoje se vê com preocupação é o
corte de verbas em instituições de fomento, como CAPES e CNPq – aliás, órgãos
criados na Era Vargas para apoiar a educação, a ciência e a tecnologia e que,
por sua importância reconhecida, mantiveram todo o respaldo durante os governos
militares, inclusive foram fortalecidos. O sistema de pós-graduação brasileiro,
fruto dessa época, é invejável. Pena que poucos reconheçam isso. O que pode
acontecer é o que vem ocorrendo com o ensino fundamental e médio: regressão. Eu
saí da primeira série alfabetizado e lendo, minha professora foi a Irmã Rosa,
no Colégio Sagrado Coração de Jesus. Hoje há crianças que não sabem ler até na
terceira série. Mas fui privilegiado. Nesses anos iniciais tive excelentes
professoras, além da irmã Rosa: Maria Tusnelda Lago, Matilde Cohen, Juracy
Dutra. No CESB também, nem deveria
citar nomes para não cometer o pecado da omissão, mas lembro agora a excelente Marisa Trindade, Natércia Santos,
Maria Isabel Scalco, Mary Azambuja, Mágali Correa Marum, Dalva Lago, Dilza
Antunes, Sonia Gimenez Teló, Consuelo Aquino... Sem falar a Dona Noêmia,
professora de piano. Realmente, fui um privilegiado.
AC - Planos,
professor? Mais livros?
PF - Tenho
vários projetos. Estou na UFRGS há mais de 40 anos, já poderia estar
aposentado, mas não sei ficar parado. Em 2022, comemorar-se-á o bicentenário da
Independência e já fui convidado para participar de vários livros e seminários
para refletir sobre o passado e o futuro do país. Se tudo der certo e a
pandemia ajudar, estou pronto.
Verdadeira aula do professor Pedro Cezar, em linguagem acessível, clara e objetiva, mostrando coisas importantes de se entender.
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