Professora diz que redes sociais,
pandemia
e carências na educação afetam Jornalismo
sempre curtos para tudo o que
planejo fazer.” (Foto Miro Bacin)
“Sou uma insatisfeita nata.
Leio, releio e estou sempre melhorando o texto.” Esta é Adriana Rushel Duval, 48 anos, doutora em Comunicação e professora de Jornalismo em
São Borja na Universidade Federal do Pampa. Ela se graduou em Jornalismo
pela Famecos/PUCRS, en 1994. Na mesma
instituição, cursou Mestrado e Doutorado em Comunicação. O Mestrado concluiu em 1999 e o Doutorado, em 2006.
Nesse percurso de formação, os estudos se centraram na área
do rádio, orientados pela professora Doris Haussen. Na Graduação escreveu sobre
a abordagem que a extinta Revista do Globo fez sobre rádio, no período de 1945
a 1955. No Mestrado, direcionou a
atenção à relação de Carmen Miranda com o rádio no Brasil, mostrando o quanto esse meio de comunicação, em expansão
à época, contribuiu para a projeção da artista. No Doutorado trabalhou com
roteiros originais de programas da Rádio Gaúcha de 1937, redigidos por seu avô
materno, Nilo Rushel, reportando acerca de cenários e personagens urbanos,
sobre ruas e bairros de Porto Alegre e cidades do interior. Em análise as
narrativas na perspectiva de revelar o discurso que incluía contrastes
originados do encontro entre tradição e modernidade naqueles espaços.
“Desde o começo da faculdade, estive envolvida com atuação
para além da sala de aula, como monitora e como bolsista de Iniciação
Científica. Essa atividade, somada ao fato de ser sempre lembrada, pelos
docentes, de que meu avô Nilo Rushel havia sido um reconhecido professor de
rádio (da Famecos e da Fabico/UFRGS, dos anos 1950 aos 1970), me despertou o
interesse em considerar a carreira docente”, relembra.
No entanto, desde o segundo semestre do curso já atuava no mercado de trabalho, como
locutora da Rádio Educadora AM (veículo RBS/Feplam). Isso a impulsionou à
dedicação à mídia. Em 1994 teve breve
passagem pela Rádio Bandeirantes AM, como redatora. Depois, a convite da RBSTV,
assumiu como repórter e, em seguida, como âncora, em Caxias do Sul. No ano
seguinte, 1995, com a inauguração da TVCOM, em Porto Alegre, retornou à
Capital, atuando na reportagem e na apresentação de programas até 1997, quando
ingressou no Mestrado e já começou a
lecionar no ensino superior, na própria Famecos, como professora de rádio.
No ano seguinte (1998), a Universidade do Vale do Rio dos
Sinos (Unisinos) contrata Adriana Duval como docente, nos cursos de Jornalismo
e Relações Públicas, lá permanecendo por
onze anos. Nesse período também foi apresentadora do Canal 20 da Net e da TV
Unisinos. No início de 2010 foi chamada, via concurso público, para trabalhar
como docente em regime de Dedicação Exclusiva na Universidade Federal do Pampa,
em São Borja. “Na Unipampa, juntamente
com seu esposo e colega de profissão, Miro Bacin, criei um projeto de pesquisa
empírico chamado “Jornalismo Humanizador em Crônicas do Cotidiano”, que resulta
na produção semanal de crônicas-reportagens, desde 25/09/2010, para a coluna
“Crônicas da Cidade”, da Folha de São Borja”, detalha. Adriana Rushel Duval
ressalta que ”se trata de um trabalho
desvinculado de fins lucrativos, que inclui a participação de alunos e egressos
colaboradores, apresentando personagens e fatos do cotidiano e da história
local.”
Entre os momentos
emocionantes, na cidade, está o de recebimento do título de “Cidadã
São-Borjense”, em 2015, por proposição do então vereador Roque Feltrin. Já o
marido, Miro Bacin, recebeu o mesmo reconhecimento, em 2018. “Essas homenagens
têm vinculação com as contribuições à memória da cidade através de nosso
trabalho acadêmico e jornalístico”, destaca a professora. Acrescenta que “também
guardo entre minhas melhores lembranças as homenagens recebidas em duas edições
da Feira do Livro de São Borja: como “Escritora Homenageada”, em 2013, e como
“Homenagem Especial”, em 2019.”
Outra ocasião marcante mencionada foi quando recebeu um
prêmio nacional por crônica em que relatou a trajetória da avó materna, Carmen Alves Ruschel. “Fiquei em
segundo lugar no Prêmio Bradesco Seguros Histórias de Vida, em 2014”, conta. Mas
o reconhecimento a seu talento e
contribuições vem de longe: o “Prêmio Formando Destaque” recebeu já na
graduação em Jornalismo.
“Interagir com as pessoas baseada no olhar sensível, no
espírito fraterno e no senso de igualdade e justiça” é motivação e filosofia de
vida. “Como geminiana, tenho a inquietação como tônica”, diz ela, acrescentando que “os dias são
sempre curtos para tudo o que planejo fazer. Parece que, quanto mais atividades
tenho, mais energia ganho para vislumbrar novos desafios. Difícil é me fazer
parar.“
Tenho muita alegria e realização em ser professora e em
continuar atuando no jornalismo, como colaboradora. De Trabalhos de Conclusão dos
acadêmicos desenvolve a Série Memória São Borja, de
livros-reportagem, já no sétimo título desde 2018. “É uma forma de contribuir
com narrativas sobre a cidade, aproximando a Unipampa da comunidade e
estimulando os novos jornalistas a investirem em prol da história e da memória”,
justifica.
Adriana é filha de
Mario José de Oliveira Duval, cirurgião dentista, 81 anos, e de Heloisa Rushel Duval, 78 anos, técnica em arquivos e que trabalhou, até se
aposentar, na discoteca da Rádio da Universidade (UFRGS). O esposo é oMiro Luiz dos Santos Bacin, 63 anos, jornalista e professor na Unipampa. O
casal tem as filhas Isabella, de 17 anos, e Morenna, de 7 anos. A família
Rushel é de Estrela e a Duval, de Pelotas. Já a família Bacin é de Jaguari,
veio para São Borja e mudou-se para a Capital, nos anos 1950. É ligada a uma
família de intelectuais. O avô materno, Nilo Rushel (1911-1975), graduado em
Direito, foi um destacado jornalista, radialista pioneiro, assessor político,
poeta, escritor e professor de Jornalismo. Já o avô paterno, Joaquim Duval
(1904-1971), também graduado em Direito, foi um importante político. Vereador e
prefeito de Pelotas, deputado estadual e deputado federal com dois mandatos.
Também foi professor de Direito.
Nesta entrevista ao BlogAlberiCogo, Adriana Rushel
Duval faz críticas à politização dos
grandes veículos de imprensa e à precarização dos produtos jornalísticos. Culpa,
em parte, a pandemia, mas também as redes sociais que, se de um lado facilitam
tarefas, por outro afetam a qualidade do que entrega à sociedade. Doutora em
Comunicação Social, ela defende uma
revolução na Educação no país, como
principal agente transformador. Também
promete novidades em relação a “Crônicas da Cidade”. Confira a entrevista.
Alberi Cogo - Ambientada
à cultura da região metropolitana de Porto Alegre, como vive a experiência de,
já há alguns anos, estar em São Borja,
com características bastantes diferentes?
Adriana Duval - A adaptação foi ótima. Estou aqui desde
2010, o Miro veio um ano e meio antes. Creio que o fato de termos começado um
trabalho que envolve nossa circulação pela cidade, nos mais diversos ambientes,
ajudou no reconhecimento e enraizamento ao lugar. Prontamente fizemos amizades,
e o fato de termos familiares aqui foi muito importante. Eu e o Miro temos
primos. Minha prima em segundo grau, Anabel Ruschel Freitas, e o esposo, o
saudoso José Mário, por muitos anos residiram aqui e foram figuras fundamentais
para nosso carinho por São Borja. Antes de nos estabelecermos, eles nos
impregnaram com as melhores memórias sobre seus tempos de São Borja. As
particularidades da vida no interior também nos conquistaram. Tudo é mais
fácil, as pessoas se conhecem, se ajudam. Há uma relação de confiança e
consideração. Onde quer que a gente vá, sempre tem alguém para cumprimentar,
para conversar, para trocar uma ideia. Isso não tem preço, e na Capital não se
vê mais.
AC - A Unipampa foi pensada e concebida com a
finalidade estratégica de mudar paradigmas de uma região de fronteira, com
traços de subdesenvolvimento e desigualdade social. A instituição já está
conseguindo mudar esta conjuntura?
AD - Nosso campus este ano completa 15 anos. Até então,
quando estávamos com aulas presenciais, era visível a movimentação que essa
estrutura provocava na cidade. Setor imobiliário, alimentação, comércio,
serviços. Isso foi gradativamente sendo percebido e vivenciado, com a ampliação
do campus e a abertura de novos cursos. Hoje há uma confluência de alunos das
mais diversas regiões do país. Mas, com a pandemia, naturalmente essa questão
econômica foi atingida. Vamos ver como o cenário se delineará nos próximos
meses, com a perspectiva de um retorno dentro das condições exigidas para tal. A
Unipampa, aqui no campus São Borja, já teve iniciativas bastante relevantes, em
pesquisa, ensino e extensão, pensando no bem-estar da comunidade e no
desenvolvimento. Mas ainda há muito o que se fazer para uma aproximação que
gere resultados continuamente. Há que se afinar melhor o conhecimento acadêmico
a serviço de demandas pontuais da sociedade local. Acredito que o incremento em
atividades extensionistas de cunho comunitário, que a Universidade estará
fomentando e irá consolidar nos próximos dois anos, em todos os campi, vai
contribuir muito para isso.
AC - Adriana Duval é, reconhecidamente, um dos
grandes textos do Jornalismo brasileiro na atualidade. Existe alguma receita
para atingir esse patamar e para formar futuros profissionais?
AD - Agradeço pela generosidade das palavras. Mas preciso
confessar que nunca tomo um texto meu como produto impecável. Sou uma
insatisfeita nata. Leio, releio, publico, e logo depois já vejo o que poderia
ter feito de diferente. Nas crônicas, os alunos têm participado desse processo,
ensaiando a estruturação inicial da narrativa, na qual eu mexo, incremento,
altero, como na composição de um mosaico, mostrando a eles as possibilidades de
contarmos uma história. Sempre há vários caminhos, e isso é o mais estimulante.
As interações pelo Google Meet têm permitido que façamos essa atividade juntos,
como se estivéssemos lado a lado, o que é um aprendizado para ambas as partes. Mas,
de modo geral, existe um procedimento que tomamos como padrão: escrevemos para
o personagem. É a vida dele que estará ali, é para a posteridade. Então
precisamos mergulhar na história, captar o clima, perceber aspectos
diferenciados, destacar episódios. Nos concentramos e vamos visualizando o que
estamos colocando na página. Uma boa captação de depoimentos é fundamental,
pois valorizamos muito a “voz” do personagem. Outro ponto que investimos,
sobremaneira, é no detalhamento, e isso requer o exercício apurado da
observação e da sensibilidade. Quanto mais conseguimos detalhar – de modo explícito
ou implícito –, mais daremos chance de o leitor entrar na história e
(re)conhecê-la. Lançamos mão de ferramentas literárias, sempre que possível, e
procuramos tomar o máximo de cuidado na hora de abordar algo que possa
desfavorecer a imagem do perfilado. Temos compromisso em corresponder à sua
confiança e responsabilidade em transmitir uma síntese com ética e cuidado. Por
outro lado, há informações que não podemos omitir; então usamos recursos, na
escrita, para dizermos “sem dizer”, ou seja, entregamos à interpretação do
leitor, com sutileza. Quem ler com calma verá que há textos com várias camadas
de sentido. Nosso trabalho, da ideia da
pauta à publicação, é norteado pelo que chamamos de “jornalismo humanizador”.
Uma prática que não apenas resulta em um texto humanizado, mas que envolve a
todos – equipe, personagem, leitor – num processo de se “humanizar” mais, de
quebrar os paradigmas do distanciamento e da isenção profissional e chegar o
mais próximo possível de uma real dialogia.
AC - Quem é mais
veterano na imprensa viveu um fazer jornalístico mais artesanal, até mais
romântico. As revoluções recentes mudaram todos aqueles parâmetros. O que dizer
dos novos tempos?
AD - Verdade. Tudo aconteceu em um rápido intervalo de
tempo. Quando comecei, em 1991, ainda tínhamos máquina de escrever, laudas e
carbono. Não havia celular e os computadores, robustos, aos poucos chegavam às
redações. Na Rádio Educadora tínhamos máquina de escrever e usávamos da fita
rolo ao CD, mas sobretudo o K-7. Cheguei a passar boletim de orelhão de ficha!
Na Band, máquina de escrever, telefone fixo e fax. Na RBSTV Caxias vivi o
contraste de escrever à máquina e utilizar o teleprompter (que lá era
introduzido naquela época, através de um computador especialmente instalado para
isso). Já na RBS Porto Alegre, a redação estava informatizada, com intranet.
Mas não havia ainda internet. O fax, junto com o telefone fixo, eram as
ferramentas mais ágeis para acessarmos informações. Nas externas ao vivo,
saíamos com radiotransmissor. No entanto, de uma forma ou de outra, tudo
acontecia normal e agilmente. Redige lauda, grava, edita, põe no ar...Creio que
a nossa geração, que viveu essa transição, já vinha com pique e treino mental
para estruturar os textos, foi tranquilo. Já agora, com as facilidades do
computador, mudou a lógica e também mudamos nossa forma de fazer. Se antes eu
datilografava direto, agora digito, copio, corto, colo, pesquiso, altero, troco
o verbo, acrescento uma fala...Temos uma incrível liberdade para as tentativas
de estruturar o conteúdo, experimentando fórmulas. A internet é um universo
aberto à pesquisa, que antes dependia das enciclopédias, dos livros. Isso acho
maravilhoso, ajuda muito na produção de conteúdo, na configuração de estilos e
na precisão da informação. De outra parte, às vezes me questiono se o amplo
acesso à tecnologia é realmente favorável ao nascimento de jornalistas com a
destreza necessária conjugada à habilidade de construir textos da nossa área.
Tenho percebido alguma dificuldade, ao ensinar, e cogito que as novas gerações,
ao se acostumarem a consumir informações direto das redes sociais (ao invés de
acessarem os meios jornalísticos), acabam tomando como modelo de escrita algo
mais informal e fora das nossas regras. Me deparo com frases enormes, sem
pontuação adequada, dificuldades no uso do discurso direto, pobreza de verbos
de elocução e de vocabulário, falta de clareza gerada pela inadequada
estruturação dos períodos, entre outras situações. Me recordo que, quando eu
era estudante, procurava “imitar” o modo de fazer de determinados veículos e
até o “jeito” de apresentar dos profissionais. Hoje em dia os alunos mal
acompanham os noticiários e não têm mais ídolos. Com isso, perdem também a
oportunidade de terem referências.
AC - Neste mundo chamado pós-moderno, movido pelas redes sociais e pela ‘indústria’ das fake news, é possível
implementar algum sistema de controle e qualidade, sem comprometer a liberdade de expressão?
AD - Vou tentar responder essas questões de modo conjugado. As
redes sociais são ferramentas ricas para o trabalho da imprensa. Através delas
encontramos pautas, fontes, informações. Fazemos contatos com mais facilidade e
obtemos retornos de forma mais ágil. Geramos insumos para notícias e
reportagens, como depoimentos escritos, sonoros, audiovisuais, fotografias, que
irão constituir nosso trabalho. E isso onde quer que a fonte esteja, o que é um
grande ganho! Podemos construir uma matéria com entrevistados do outro lado do
mundo, o que antes sequer cogitávamos. Esse incremento na captação via mídias
sociais, sobretudo na pandemia, acabou por alterar alguns padrões, como a
exigência de uma estética e uma qualidade técnica determinadas. Antes, uma
entrevista mal enquadrada não entrava na reportagem. Um áudio abafado, idem. Um
cenário poluído era execrado. Mas esse material que vem sendo gerado a partir
das fontes, de maneira amadora, tem-se incorporado às rotinas produtivas dos
grandes veículos e passou a comprovar que mais importante que a forma é o
conteúdo. O que se coloca como desafio é, justamente, avaliar a pertinência dos
conteúdos e o equilíbrio entre eles. Tornou-se tão fácil captar depoimentos de
pessoas que vão sendo localizadas pela internet, que antes não integravam a
agenda dos veículos, e se por um lado isso é benéfico, no sentido da polifonia,
por outro pode ser perigoso, se o jornalista não cuidar para evitar um
posicionamento uníssono e, em determinados casos, pouco qualificado. Sempre
aprendemos que toda pauta tem vários lados. Mas andam negligenciando essa regra
clássica do jornalismo em nome de valores ideológicos. É a crítica que faço,
principalmente aos grandes veículos, independente de concordar ou discordar do
que eles defendem. Nunca fui de pactuar com mídia, sempre me mantive crítica,
até quando eu atuava. Por isso me sinto confortável de expressar essa percepção
e lamentá-la, pois incide direto na formação dos novos jornalistas. Já no
assunto “Fake News” não vejo boas perspectivas de estancarmos essa fábrica
danosa, que tem linhas de produção partindo de diferentes pontos, que se
entrecruzam, se embaraçam, não sendo privilégio de um lado ou de outro. O que
há por trás desse fenômeno é a intenção maldosa, de modo geral: prejudicar,
perturbar, confundir, atingir, eliminar. Dos miúdos aos graúdos, de lá ou de
cá, sempre tem alguém firme nesse propósito. Enquanto a Humanidade persistir na
animosidade, distanciando-se do espírito coletivo fraterno e do bem comum, a
palavra (mal dita/maldita) continuará sendo uma arma com grande potencial de
letalidade.
AC - Todos reconhecemos que as carências da Educação
Básica têm reflexos diretos no desempenho no Ensino Superior. Isso não compromete a qualidade dos cursos de
Comunicação?
AD - Perfeito o questionamento. Tudo começa na base. Não se
ergue um prédio sólido sobre estruturas frágeis. O que se vê de deficiência em
termos de análise crítica, cognição, informação, conhecimentos gerais etc, hoje
em dia, nas salas de aula das universidades, é, em parte, resultado da política
de sobrevalorização do ensino superior, nas últimas décadas, em detrimento dos
investimentos em formação escolar. É
preciso que se faça uma mobilização, em nível nacional, em prol da Educação
Básica de qualidade, que inclua remuneração justa aos docentes e condições de
as famílias conciliarem sua atividade laboral com o período de estudos da
criança. Vejo mães deixando de trabalhar ou prejudicando seu expediente porque
têm de buscar o filho no meio da tarde, ou que não têm com quem deixá-lo pela
manhã. Escolas de turno integral, com projetos sociais e profissionalizantes,
são urgentes no nosso país. Isso exigiria uma reforma geral nesse âmbito de
ensino. Não basta uma ou outra instituição oferecer essas condições. Promover a educação e preparar o indivíduo
para a atuação profissional e cidadã requer mexer no terreno e instalar
fundações que, de fato, sustentem um projeto educacional complexo e
comprometido com o futuro. E que não necessariamente desemboque nos cursos superiores.
Temos de entender que, sem vocação, o diploma vira só um papel. Há um mercado
em potenciais condições de ampliação para carreiras técnicas, igualmente
importantes no desenvolvimento das cidades, dos estados, da Nação. É preciso
resgatar a defesa da valorização de todas as esferas profissionais, entendendo
que há aptidões, talentos e escolhas.
AC - E a mídia brasileira está mais partidarizada
ou sempre foi assim e a gente não se dava conta?
AD - Como empresas, os veículos de comunicação defendem seus
interesses, e sempre soubemos que há afinidade, maior ou menor, com determinado
direcionamento político. Todavia, de certo modo, procurava-se manter um
equilíbrio, nem que mais aparente do que efetivo. Tinha-se um cuidado, por
assim dizer. Evitavam-se rótulos escancarados, gerenciando oportunidades e
tempos equivalentes na participação dos convidados e assim por diante. Eu, por
exemplo, nunca fui alertada ou orientada quanto a priorizar ou evitar algum
entrevistado, ou fazer ou não fazer determinada matéria, devido a princípios
dessa natureza. Mas, realmente, nos tempos atuais, e sobretudo nesse período
intenso (e tenso) que vem sendo o da pandemia, os ânimos estão acirrados e a
polarização entre situação e oposição tem sido explícita no modo de produção de
veículos e canais distribuídos via redes sociais.
AC - O espaço
Crônicas da Cidade, há mais de uma década na Folha de São Borja, é um dos mais
lidos e prestigiados do jornal. Temos alguma novidade, alguma reinvenção pela
frente, nesse jornalismo de resgate e humanizador?
AD - Sempre temos ideias fervilhando, mas mudar não é fácil.
Estamos, desde o ano passado, trabalhando em uma nova proposta de abordagem,
que seja mais sintética, invista mais na narrativa imagética e contemple um
adicional, áudio ou vídeo, acessível por Query Code. Isso para evitar os textos
longos, que sabemos que por vezes se tornam cansativos. No entanto, acabamos
voltando para o ponto de início, que é a crônica-reportagem em estilo perfil,
com fotos, concentrando a síntese da trajetória do personagem, o que demanda
uma narrativa verbal mais extensa. As pessoas, quando sugerem pautas ou se
oferecem como fontes, esperam um pouco de densidade, apreciam uma cronologia,
acompanhada de um apanhado de lembranças. Valorizam essa fórmula. Compram a
Folha, guardam, põem na parede. Mas continuamos repensando, até conseguirmos
achar uma saída para apresentarmos o personagem com menos palavras, sem sermos
superficiais. Isso me inquieta periodicamente. Outras atividades que fazemos, e
agora de forma virtual, são interações com a comunidade, como através de
palestras. Recentemente promovemos uma palestra com um jornalista de Porto
Alegre, sobre os bastidores de reportagens de investigação do passado. Também
somos convidados, por escolas e universidades, para falarmos sobre temas como
“comunicação e humanização”, “personagens anônimos”, “jornalismo e memória”,
entre outros. São os braços de extensão da nossa pesquisa empírica das
crônicas. Desde o início de 2021 temos feito reportagens especiais, divididas
em duas ou três edições da coluna. Fizemos a história de João das Balas, o dia
em que Roberto Carlos cantou em São Borja e, recentemente, os cem anos da
Escola Olavo Bilac. Nessas ocasiões envolvemos toda a equipe na produção, que
atualmente é composta por mim, pelo Miro, pelo jornalista colaborador Darlan
Witchaki e pelas alunas Ana Isabel da Silva, Julianny Cardoso, Maria Eduarda
Fleck e Moiziane Utzig, com trabalho de diagramação de Daniele Godoi, da Folha
de São Borja. Novas pautas virão por aí, aguardamos sugestões!
AC - Adriana Duval é fervorosa defensora da natureza
e dos animais. Como estamos lidando com o mundo ao nosso redor?
AD - Não é fácil lutar por essa causa, diante de tantas
atrocidades que, diuturnamente, acontecem, muitas das quais chegam ao nosso
conhecimento. Dá uma sensação de impotência, uma revolta, uma vontade de mudar
as pessoas, de fazer valer a lei, de resgatar cada vítima de maus-tratos. O
desequilíbrio que se vê, em nível global, nas relações humanas, se reflete na
esfera homem-animal, às vezes até de forma mais acentuada. Falta empatia, sobra
perversidade. Acredito plenamente naquela velha máxima de Arthur Schopenhauer:
“a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e quem
é cruel com os animais não pode ser um bom homem”.
AC - E quais são os seus planos, professora?
AD - Lançar um livro vinculado aos arquivos das Crônicas da
Cidade, que é uma promessa antiga. Minha maior dificuldade é decidir o que irá
na obra. São mais de quinhentos personagens, impossível colocar todos. Já
projetei um recorte temático, comecei a esboçar o livro, mas não concluí.
Talvez decida por um direcionamento mais acadêmico, ou um livro de memória da
coluna, com seleção por ano. Um dia sai. Enquanto isso a preocupação é, a cada
semana, ter uma boa história para contar.

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