sexta-feira, 1 de outubro de 2021

ENTREVISTA: Adriana Rushel Duval

 

Professora diz que redes sociais, pandemia

e carências na educação afetam Jornalismo



 Adriana Duval: “Os dias são

sempre curtos para tudo o que

 planejo fazer.”  (Foto Miro Bacin)

“Sou uma insatisfeita nata.  Leio, releio e estou sempre melhorando o texto.” Esta é  Adriana Rushel Duval,  48 anos, doutora em Comunicação e professora de Jornalismo em São Borja na Universidade Federal do Pampa. Ela se graduou em   Jornalismo pela  Famecos/PUCRS, en 1994. Na mesma instituição, cursou  Mestrado e  Doutorado em Comunicação. O Mestrado   concluiu em 1999 e o Doutorado, em 2006.

Nesse percurso de formação, os estudos se centraram na área do rádio, orientados pela professora Doris Haussen. Na Graduação escreveu sobre a abordagem que a extinta Revista do Globo fez sobre rádio, no período de 1945 a 1955. No Mestrado, direcionou  a atenção à relação de Carmen Miranda com o rádio no Brasil, mostrando  o quanto esse meio de comunicação, em expansão à época, contribuiu para a projeção da artista. No Doutorado trabalhou com roteiros originais de programas da Rádio Gaúcha de 1937, redigidos por seu avô materno, Nilo Rushel, reportando acerca de cenários e personagens urbanos, sobre ruas e bairros de Porto Alegre e cidades do interior. Em análise as narrativas na perspectiva de revelar o discurso que incluía contrastes originados do encontro entre tradição e modernidade naqueles espaços.

“Desde o começo da faculdade, estive envolvida com atuação para além da sala de aula, como monitora e como bolsista de Iniciação Científica. Essa atividade, somada ao fato de ser sempre lembrada, pelos docentes, de que meu avô Nilo Rushel havia sido um reconhecido professor de rádio (da Famecos e da Fabico/UFRGS, dos anos 1950 aos 1970), me despertou o interesse em considerar a carreira docente”, relembra.

No entanto, desde o segundo semestre do curso  já atuava no mercado de trabalho, como locutora da Rádio Educadora AM (veículo RBS/Feplam). Isso a impulsionou à dedicação à mídia. Em 1994 teve  breve passagem pela Rádio Bandeirantes AM, como redatora. Depois, a convite da RBSTV, assumiu como repórter e, em seguida, como âncora, em Caxias do Sul. No ano seguinte, 1995, com a inauguração da TVCOM, em Porto Alegre, retornou à Capital, atuando na reportagem e na apresentação de programas até 1997, quando ingressou  no Mestrado e já começou a lecionar no ensino superior, na própria Famecos, como professora de rádio.

No ano seguinte (1998), a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) contrata Adriana Duval como docente, nos cursos de Jornalismo e Relações Públicas, lá permanecendo  por onze anos. Nesse  período também foi  apresentadora do Canal 20 da Net e da TV Unisinos. No início de 2010 foi chamada, via concurso público, para trabalhar como docente em regime de Dedicação Exclusiva na Universidade Federal do Pampa, em São Borja.  “Na Unipampa, juntamente com seu esposo e colega de profissão, Miro Bacin, criei um projeto de pesquisa empírico chamado “Jornalismo Humanizador em Crônicas do Cotidiano”, que resulta na produção semanal de crônicas-reportagens, desde 25/09/2010, para a coluna “Crônicas da Cidade”, da Folha de São Borja”, detalha. Adriana Rushel Duval ressalta que  ”se trata de um trabalho desvinculado de fins lucrativos, que inclui a participação de alunos e egressos colaboradores, apresentando personagens e fatos do cotidiano e da história local.”

Entre os  momentos emocionantes, na cidade, está o de recebimento do título de “Cidadã São-Borjense”, em 2015, por proposição do então vereador Roque Feltrin. Já o marido, Miro Bacin, recebeu o mesmo reconhecimento, em 2018. “Essas homenagens têm vinculação com as contribuições à memória da cidade através de nosso trabalho acadêmico e jornalístico”, destaca a professora. Acrescenta que “também guardo entre minhas melhores lembranças as homenagens recebidas em duas edições da Feira do Livro de São Borja: como “Escritora Homenageada”, em 2013, e como “Homenagem Especial”, em 2019.”

Outra ocasião marcante mencionada foi quando recebeu um prêmio nacional por crônica em que relatou a trajetória da  avó materna, Carmen Alves Ruschel. “Fiquei em segundo lugar no Prêmio Bradesco Seguros Histórias de Vida, em 2014”, conta. Mas o reconhecimento a  seu talento e contribuições vem de longe: o “Prêmio Formando Destaque” recebeu já na graduação   em Jornalismo.

“Interagir com as pessoas baseada no olhar sensível, no espírito fraterno e no senso de igualdade e justiça” é motivação e filosofia de vida. “Como geminiana, tenho  a  inquietação como tônica”,  diz ela, acrescentando que “os dias são sempre curtos para tudo o que planejo fazer. Parece que, quanto mais atividades tenho, mais energia ganho para vislumbrar novos desafios. Difícil é me fazer parar.“

Tenho muita alegria e realização em ser professora e em continuar atuando no jornalismo, como colaboradora. De Trabalhos de Conclusão dos acadêmicos   desenvolve a Série Memória São Borja, de livros-reportagem, já no sétimo título desde 2018. “É uma forma de contribuir com narrativas sobre a cidade, aproximando a Unipampa da comunidade e estimulando os novos jornalistas a investirem em prol da história e da memória”, justifica.

    Adriana é filha de Mario José de Oliveira Duval, cirurgião dentista,  81 anos, e de Heloisa Rushel Duval, 78 anos,  técnica em arquivos e que trabalhou, até se aposentar, na discoteca da Rádio da Universidade (UFRGS). O  esposo é oMiro Luiz dos Santos Bacin,  63 anos, jornalista e professor na Unipampa. O casal tem as filhas Isabella, de 17 anos, e Morenna, de 7 anos. A família Rushel é de Estrela e a Duval, de Pelotas. Já a família Bacin é de Jaguari, veio para São Borja e mudou-se para a Capital, nos anos 1950. É ligada a uma família de intelectuais. O avô materno, Nilo Rushel (1911-1975), graduado em Direito, foi um destacado jornalista, radialista pioneiro, assessor político, poeta, escritor e professor de Jornalismo. Já o avô paterno, Joaquim Duval (1904-1971), também graduado em Direito, foi um importante político. Vereador e prefeito de Pelotas, deputado estadual e deputado federal com dois mandatos. Também foi professor de Direito.

Nesta entrevista ao BlogAlberiCogo, Adriana Rushel Duval faz críticas à  politização dos grandes veículos de imprensa e à  precarização dos produtos jornalísticos. Culpa, em parte, a pandemia, mas também as redes sociais que, se de um lado facilitam tarefas, por outro afetam a qualidade do que entrega à sociedade. Doutora em Comunicação Social,  ela defende uma revolução na Educação no país,  como principal agente transformador.  Também promete novidades em relação a “Crônicas da Cidade”.  Confira a entrevista.  

Alberi Cogo - Ambientada à cultura da região metropolitana de Porto Alegre, como vive a experiência de, já há alguns anos, estar  em São Borja, com características bastantes diferentes?

Adriana Duval - A adaptação foi ótima. Estou aqui desde 2010, o Miro veio um ano e meio antes. Creio que o fato de termos começado um trabalho que envolve nossa circulação pela cidade, nos mais diversos ambientes, ajudou no reconhecimento e enraizamento ao lugar. Prontamente fizemos amizades, e o fato de termos familiares aqui foi muito importante. Eu e o Miro temos primos. Minha prima em segundo grau, Anabel Ruschel Freitas, e o esposo, o saudoso José Mário, por muitos anos residiram aqui e foram figuras fundamentais para nosso carinho por São Borja. Antes de nos estabelecermos, eles nos impregnaram com as melhores memórias sobre seus tempos de São Borja. As particularidades da vida no interior também nos conquistaram. Tudo é mais fácil, as pessoas se conhecem, se ajudam. Há uma relação de confiança e consideração. Onde quer que a gente vá, sempre tem alguém para cumprimentar, para conversar, para trocar uma ideia. Isso não tem preço, e na Capital não se vê mais.

 

AC - A Unipampa foi pensada e concebida com a finalidade estratégica de mudar paradigmas de uma região de fronteira, com traços de subdesenvolvimento e desigualdade social. A instituição já está conseguindo mudar esta conjuntura?

AD - Nosso campus este ano completa 15 anos. Até então, quando estávamos com aulas presenciais, era visível a movimentação que essa estrutura provocava na cidade. Setor imobiliário, alimentação, comércio, serviços. Isso foi gradativamente sendo percebido e vivenciado, com a ampliação do campus e a abertura de novos cursos. Hoje há uma confluência de alunos das mais diversas regiões do país. Mas, com a pandemia, naturalmente essa questão econômica foi atingida. Vamos ver como o cenário se delineará nos próximos meses, com a perspectiva de um retorno dentro das condições exigidas para tal. A Unipampa, aqui no campus São Borja, já teve iniciativas bastante relevantes, em pesquisa, ensino e extensão, pensando no bem-estar da comunidade e no desenvolvimento. Mas ainda há muito o que se fazer para uma aproximação que gere resultados continuamente. Há que se afinar melhor o conhecimento acadêmico a serviço de demandas pontuais da sociedade local. Acredito que o incremento em atividades extensionistas de cunho comunitário, que a Universidade estará fomentando e irá consolidar nos próximos dois anos, em todos os campi, vai contribuir muito para isso.

 

AC - Adriana Duval é, reconhecidamente, um dos grandes textos do Jornalismo brasileiro na atualidade. Existe alguma receita para atingir esse patamar e para formar futuros profissionais?

AD - Agradeço pela generosidade das palavras. Mas preciso confessar que nunca tomo um texto meu como produto impecável. Sou uma insatisfeita nata. Leio, releio, publico, e logo depois já vejo o que poderia ter feito de diferente. Nas crônicas, os alunos têm participado desse processo, ensaiando a estruturação inicial da narrativa, na qual eu mexo, incremento, altero, como na composição de um mosaico, mostrando a eles as possibilidades de contarmos uma história. Sempre há vários caminhos, e isso é o mais estimulante. As interações pelo Google Meet têm permitido que façamos essa atividade juntos, como se estivéssemos lado a lado, o que é um aprendizado para ambas as partes. Mas, de modo geral, existe um procedimento que tomamos como padrão: escrevemos para o personagem. É a vida dele que estará ali, é para a posteridade. Então precisamos mergulhar na história, captar o clima, perceber aspectos diferenciados, destacar episódios. Nos concentramos e vamos visualizando o que estamos colocando na página. Uma boa captação de depoimentos é fundamental, pois valorizamos muito a “voz” do personagem. Outro ponto que investimos, sobremaneira, é no detalhamento, e isso requer o exercício apurado da observação e da sensibilidade. Quanto mais conseguimos detalhar – de modo explícito ou implícito –, mais daremos chance de o leitor entrar na história e (re)conhecê-la. Lançamos mão de ferramentas literárias, sempre que possível, e procuramos tomar o máximo de cuidado na hora de abordar algo que possa desfavorecer a imagem do perfilado. Temos compromisso em corresponder à sua confiança e responsabilidade em transmitir uma síntese com ética e cuidado. Por outro lado, há informações que não podemos omitir; então usamos recursos, na escrita, para dizermos “sem dizer”, ou seja, entregamos à interpretação do leitor, com sutileza. Quem ler com calma verá que há textos com várias camadas de sentido.  Nosso trabalho, da ideia da pauta à publicação, é norteado pelo que chamamos de “jornalismo humanizador”. Uma prática que não apenas resulta em um texto humanizado, mas que envolve a todos – equipe, personagem, leitor – num processo de se “humanizar” mais, de quebrar os paradigmas do distanciamento e da isenção profissional e chegar o mais próximo possível de uma real dialogia.

 

AC - Quem é mais veterano na imprensa viveu um fazer jornalístico mais artesanal, até mais romântico. As revoluções recentes mudaram todos aqueles parâmetros. O que dizer dos novos tempos?

AD - Verdade. Tudo aconteceu em um rápido intervalo de tempo. Quando comecei, em 1991, ainda tínhamos máquina de escrever, laudas e carbono. Não havia celular e os computadores, robustos, aos poucos chegavam às redações. Na Rádio Educadora tínhamos máquina de escrever e usávamos da fita rolo ao CD, mas sobretudo o K-7. Cheguei a passar boletim de orelhão de ficha! Na Band, máquina de escrever, telefone fixo e fax. Na RBSTV Caxias vivi o contraste de escrever à máquina e utilizar o teleprompter (que lá era introduzido naquela época, através de um computador especialmente instalado para isso). Já na RBS Porto Alegre, a redação estava informatizada, com intranet. Mas não havia ainda internet. O fax, junto com o telefone fixo, eram as ferramentas mais ágeis para acessarmos informações. Nas externas ao vivo, saíamos com radiotransmissor. No entanto, de uma forma ou de outra, tudo acontecia normal e agilmente. Redige lauda, grava, edita, põe no ar...Creio que a nossa geração, que viveu essa transição, já vinha com pique e treino mental para estruturar os textos, foi tranquilo. Já agora, com as facilidades do computador, mudou a lógica e também mudamos nossa forma de fazer. Se antes eu datilografava direto, agora digito, copio, corto, colo, pesquiso, altero, troco o verbo, acrescento uma fala...Temos uma incrível liberdade para as tentativas de estruturar o conteúdo, experimentando fórmulas. A internet é um universo aberto à pesquisa, que antes dependia das enciclopédias, dos livros. Isso acho maravilhoso, ajuda muito na produção de conteúdo, na configuração de estilos e na precisão da informação. De outra parte, às vezes me questiono se o amplo acesso à tecnologia é realmente favorável ao nascimento de jornalistas com a destreza necessária conjugada à habilidade de construir textos da nossa área. Tenho percebido alguma dificuldade, ao ensinar, e cogito que as novas gerações, ao se acostumarem a consumir informações direto das redes sociais (ao invés de acessarem os meios jornalísticos), acabam tomando como modelo de escrita algo mais informal e fora das nossas regras. Me deparo com frases enormes, sem pontuação adequada, dificuldades no uso do discurso direto, pobreza de verbos de elocução e de vocabulário, falta de clareza gerada pela inadequada estruturação dos períodos, entre outras situações. Me recordo que, quando eu era estudante, procurava “imitar” o modo de fazer de determinados veículos e até o “jeito” de apresentar dos profissionais. Hoje em dia os alunos mal acompanham os noticiários e não têm mais ídolos. Com isso, perdem também a oportunidade de terem referências.

AC - Neste mundo chamado pós-moderno,  movido pelas redes sociais e pela  ‘indústria’ das fake news, é possível implementar algum sistema de controle e qualidade, sem comprometer a  liberdade de expressão?

AD - Vou tentar responder essas questões de modo conjugado. As redes sociais são ferramentas ricas para o trabalho da imprensa. Através delas encontramos pautas, fontes, informações. Fazemos contatos com mais facilidade e obtemos retornos de forma mais ágil. Geramos insumos para notícias e reportagens, como depoimentos escritos, sonoros, audiovisuais, fotografias, que irão constituir nosso trabalho. E isso onde quer que a fonte esteja, o que é um grande ganho! Podemos construir uma matéria com entrevistados do outro lado do mundo, o que antes sequer cogitávamos. Esse incremento na captação via mídias sociais, sobretudo na pandemia, acabou por alterar alguns padrões, como a exigência de uma estética e uma qualidade técnica determinadas. Antes, uma entrevista mal enquadrada não entrava na reportagem. Um áudio abafado, idem. Um cenário poluído era execrado. Mas esse material que vem sendo gerado a partir das fontes, de maneira amadora, tem-se incorporado às rotinas produtivas dos grandes veículos e passou a comprovar que mais importante que a forma é o conteúdo. O que se coloca como desafio é, justamente, avaliar a pertinência dos conteúdos e o equilíbrio entre eles. Tornou-se tão fácil captar depoimentos de pessoas que vão sendo localizadas pela internet, que antes não integravam a agenda dos veículos, e se por um lado isso é benéfico, no sentido da polifonia, por outro pode ser perigoso, se o jornalista não cuidar para evitar um posicionamento uníssono e, em determinados casos, pouco qualificado. Sempre aprendemos que toda pauta tem vários lados. Mas andam negligenciando essa regra clássica do jornalismo em nome de valores ideológicos. É a crítica que faço, principalmente aos grandes veículos, independente de concordar ou discordar do que eles defendem. Nunca fui de pactuar com mídia, sempre me mantive crítica, até quando eu atuava. Por isso me sinto confortável de expressar essa percepção e lamentá-la, pois incide direto na formação dos novos jornalistas. Já no assunto “Fake News” não vejo boas perspectivas de estancarmos essa fábrica danosa, que tem linhas de produção partindo de diferentes pontos, que se entrecruzam, se embaraçam, não sendo privilégio de um lado ou de outro. O que há por trás desse fenômeno é a intenção maldosa, de modo geral: prejudicar, perturbar, confundir, atingir, eliminar. Dos miúdos aos graúdos, de lá ou de cá, sempre tem alguém firme nesse propósito. Enquanto a Humanidade persistir na animosidade, distanciando-se do espírito coletivo fraterno e do bem comum, a palavra (mal dita/maldita) continuará sendo uma arma com grande potencial de letalidade.

  

AC - Todos reconhecemos que as carências da Educação Básica têm reflexos diretos no desempenho no Ensino Superior.  Isso não compromete a qualidade dos cursos de Comunicação?

AD - Perfeito o questionamento. Tudo começa na base. Não se ergue um prédio sólido sobre estruturas frágeis. O que se vê de deficiência em termos de análise crítica, cognição, informação, conhecimentos gerais etc, hoje em dia, nas salas de aula das universidades, é, em parte, resultado da política de sobrevalorização do ensino superior, nas últimas décadas, em detrimento dos investimentos em formação escolar.  É preciso que se faça uma mobilização, em nível nacional, em prol da Educação Básica de qualidade, que inclua remuneração justa aos docentes e condições de as famílias conciliarem sua atividade laboral com o período de estudos da criança. Vejo mães deixando de trabalhar ou prejudicando seu expediente porque têm de buscar o filho no meio da tarde, ou que não têm com quem deixá-lo pela manhã. Escolas de turno integral, com projetos sociais e profissionalizantes, são urgentes no nosso país. Isso exigiria uma reforma geral nesse âmbito de ensino. Não basta uma ou outra instituição oferecer essas condições.  Promover a educação e preparar o indivíduo para a atuação profissional e cidadã requer mexer no terreno e instalar fundações que, de fato, sustentem um projeto educacional complexo e comprometido com o futuro. E que não necessariamente desemboque nos cursos superiores. Temos de entender que, sem vocação, o diploma vira só um papel. Há um mercado em potenciais condições de ampliação para carreiras técnicas, igualmente importantes no desenvolvimento das cidades, dos estados, da Nação. É preciso resgatar a defesa da valorização de todas as esferas profissionais, entendendo que há aptidões, talentos e escolhas.

 

AC -  E a mídia brasileira está mais partidarizada ou sempre foi assim e a gente não se dava conta?

AD - Como empresas, os veículos de comunicação defendem seus interesses, e sempre soubemos que há afinidade, maior ou menor, com determinado direcionamento político. Todavia, de certo modo, procurava-se manter um equilíbrio, nem que mais aparente do que efetivo. Tinha-se um cuidado, por assim dizer. Evitavam-se rótulos escancarados, gerenciando oportunidades e tempos equivalentes na participação dos convidados e assim por diante. Eu, por exemplo, nunca fui alertada ou orientada quanto a priorizar ou evitar algum entrevistado, ou fazer ou não fazer determinada matéria, devido a princípios dessa natureza. Mas, realmente, nos tempos atuais, e sobretudo nesse período intenso (e tenso) que vem sendo o da pandemia, os ânimos estão acirrados e a polarização entre situação e oposição tem sido explícita no modo de produção de veículos e canais distribuídos via redes sociais.

 

AC - O espaço Crônicas da Cidade, há mais de uma década na Folha de São Borja, é um dos mais lidos e prestigiados do jornal. Temos alguma novidade, alguma reinvenção pela frente, nesse jornalismo de resgate e humanizador?

AD - Sempre temos ideias fervilhando, mas mudar não é fácil. Estamos, desde o ano passado, trabalhando em uma nova proposta de abordagem, que seja mais sintética, invista mais na narrativa imagética e contemple um adicional, áudio ou vídeo, acessível por Query Code. Isso para evitar os textos longos, que sabemos que por vezes se tornam cansativos. No entanto, acabamos voltando para o ponto de início, que é a crônica-reportagem em estilo perfil, com fotos, concentrando a síntese da trajetória do personagem, o que demanda uma narrativa verbal mais extensa. As pessoas, quando sugerem pautas ou se oferecem como fontes, esperam um pouco de densidade, apreciam uma cronologia, acompanhada de um apanhado de lembranças. Valorizam essa fórmula. Compram a Folha, guardam, põem na parede. Mas continuamos repensando, até conseguirmos achar uma saída para apresentarmos o personagem com menos palavras, sem sermos superficiais. Isso me inquieta periodicamente. Outras atividades que fazemos, e agora de forma virtual, são interações com a comunidade, como através de palestras. Recentemente promovemos uma palestra com um jornalista de Porto Alegre, sobre os bastidores de reportagens de investigação do passado. Também somos convidados, por escolas e universidades, para falarmos sobre temas como “comunicação e humanização”, “personagens anônimos”, “jornalismo e memória”, entre outros. São os braços de extensão da nossa pesquisa empírica das crônicas. Desde o início de 2021 temos feito reportagens especiais, divididas em duas ou três edições da coluna. Fizemos a história de João das Balas, o dia em que Roberto Carlos cantou em São Borja e, recentemente, os cem anos da Escola Olavo Bilac. Nessas ocasiões envolvemos toda a equipe na produção, que atualmente é composta por mim, pelo Miro, pelo jornalista colaborador Darlan Witchaki e pelas alunas Ana Isabel da Silva, Julianny Cardoso, Maria Eduarda Fleck e Moiziane Utzig, com trabalho de diagramação de Daniele Godoi, da Folha de São Borja. Novas pautas virão por aí, aguardamos sugestões!  

 

AC - Adriana Duval é fervorosa defensora da natureza e dos animais. Como estamos lidando com o mundo ao nosso redor?

AD - Não é fácil lutar por essa causa, diante de tantas atrocidades que, diuturnamente, acontecem, muitas das quais chegam ao nosso conhecimento. Dá uma sensação de impotência, uma revolta, uma vontade de mudar as pessoas, de fazer valer a lei, de resgatar cada vítima de maus-tratos. O desequilíbrio que se vê, em nível global, nas relações humanas, se reflete na esfera homem-animal, às vezes até de forma mais acentuada. Falta empatia, sobra perversidade. Acredito plenamente naquela velha máxima de Arthur Schopenhauer: “a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem”.

 

AC - E quais são os seus planos, professora?

AD - Lançar um livro vinculado aos arquivos das Crônicas da Cidade, que é uma promessa antiga. Minha maior dificuldade é decidir o que irá na obra. São mais de quinhentos personagens, impossível colocar todos. Já projetei um recorte temático, comecei a esboçar o livro, mas não concluí. Talvez decida por um direcionamento mais acadêmico, ou um livro de memória da coluna, com seleção por ano. Um dia sai. Enquanto isso a preocupação é, a cada semana, ter uma boa história para contar.

 

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