sexta-feira, 8 de outubro de 2021

ENTREVISTA: Tiago Giordani Camícia

  

Especialista orienta sobre prevenção e combate

ao câncer. E aposta em São Borja e na região


Dr. Tiago Camícia: investir em

novas pesquisas e tratamentos

 Aos 34 anos já dispor das especialidades médicas que tem Tiago Giordani Camícia é mérito para poucos.  Formado pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG), ele é especialista em Medicina Interna pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e ainda especialista em Oncologia pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Também realizou estágio em Terapias Inovadoras e Desenvolvimento de Novas Drogas no Instituto Europeu de Oncologia em Milão, na Itália.

Atualmente, Camícia é médico Responsável Técnico do Centro de Oncologia do Hospital Ivan Goulart (HIG) em São Borja. Paralelamente, é professor do Curso de Medicina da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e presidente da Comissão de Residência Médica da instituição. Atualmente, também está cursando MBA em Gestão, Inovação e Serviços em Saúde pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

O doutor Tiago nasceu em Cacique Doble (RS). Após ter concluído as residências de Medicina Interna e de Oncologia, mudou-se de Porto Alegre para São Borja, para atuar no Centro de Oncologia.

Nesta entrevista ao BlogAlberiCogo, Tiago Camícia orienta para as ações de prevenção e enfrentamento ao câncer, ressaltando que os diagnósticos precoces da doença “são fundamentais.”  A pandemia reduziu em 40% as consultas e exames em São Borja. Ele aborda sobre os cânceres prevalentes e sobre as novidades da medicina no setor. Diz que a telemedicina veio para ficar. Como presidente da Comissão de Residência Médica da Unipampa/Uruguaiana, planeja a abertura de programas de residência em São Borja e em toda a região da Fronteira Oeste. Também é meta a realização de pesquisas e de utilizar mais tratamentos inovadoras.

 

 

Alberi Cogo -  A indagação inicial pode parecer clichê, mas é necessária: que atividades principais o senhor e o Centro de Oncologia do HIG desenvolvem, agora em outubro e novembro, dois meses emblemáticos na orientação e na prevenção aos cânceres de modo geral?

Tiago Camícia - O Centro de Oncologia do Hospital Ivan Goulart desenvolvia todos os anos, em conjunto com Liga Feminina de Combate ao Câncer, Grupo de Apoio ao Paciente Oncológico, Senac, Prefeitura e Unidades Básicas de Saúde, atividades informativas, palestras, caminhadas de conscientização e prevenção sobre os tipos de câncer mais prevalentes. Durante a pandemia as atividades ficaram online. Esse ano estamos organizando programação para conscientizar a população para a importância do diagnóstico precoce e os exames de rastreio/prevenção tanto no Outubro Rosa como no  Novembro Azul. A programação ainda será online para respeitar os protocolos de distanciamento social do Estado e do  Município.

 

AC -  Houve época em que um diagnóstico de câncer era recebido quase como uma ‘sentença’ de morte pelos pacientes. Este estigma está superado, atualmente?

TC - Felizmente muitos tratamentos inovadores mudaram a sobrevida, garantindo mais dignidade e qualidade de vida para os pacientes. Atualmente, com diagnóstico precoce e tratamento adequado conseguimos taxas elevadas de controle e estabilização da doença, permitindo que os pacientes vivam melhor.

 

AC -  Quais são as neoplasias mais frequentes, hoje? E,  de maneira resumida e pedagógica, que comportamentos práticos de prevenção podem ser recomendados?

TC - As principais neoplasias que acometem a população são as que mais possuem estratégias de prevenção. Na mulher o câncer mais comum é o câncer de mama. O exame de mamografia deve ser realizado a partir dos 40 anos para diagnóstico precoce, aumentando as chances de cura, inclusive com pacientes não necessitando de quimioterapia nos estágios iniciais. No homem, o câncer de próstata é o mais comum. Para estes, recomenda-se o rastreio com exame de PSA no sangue a partir dos 55 anos.

Tanto no homem como na mulher o câncer de pulmão também é extremamente prevalente, e evitar o tabagismo e parar de fumar são as atitudes primordiais para prevenir o câncer. Também se recomenda a realização de tomografia de tórax anual para aqueles pacientes com mais de 55 anos, que tenham fumado (carga tabágica) de 30 maços/ano (uma carteira de cigarro por dia por 30 anos, ou duas carteiras por dia por 15 anos, por exemplo). Essa estratégia permite diagnóstico precoce e pode reduzir em 20% a mortalidade por câncer de pulmão. Outro tipo de tumor também bastante prevalente em homens e mulheres é o câncer de intestino. Essa neoplasia pode ser prevenida realizando-se colonoscopia a partir dos 45-50 anos. Por fim, o quarto tumor mais prevalente na mulher é o câncer de colo uterino, que deve ser prevenido com exame  preventivo (ou Papanicolou ou Preventivo do Câncer) em todas as mulheres a partir dos 25 anos, que tiveram vida sexual ativa. Outra estratégia importantíssima é a realização de vacina contra o HPV, em meninos e meninas. O vírus HPV é o responsável por mais de 90% dos cânceres de colo do útero. É importante, de maneira geral, prevenir o câncer. Então é necessário que as pessoas tenham hábitos alimentares saudáveis, estejam com o peso adequado (obesidade e sobrepeso são importantes fatores de risco para câncer), assim como praticar atividade física, usar protetor solar e fazer os exames de rastreio/prevenção do câncer.

 

AC - Por favor, nos dê alguns exemplos mais recentes em relação a progressos nos diagnósticos, tratamentos medicamentosos e procedimentos curativos na campo oncológico.

TC - Sem dúvidas, o grande destaque das terapias inovadoras em oncologia se deve à introdução da imunoterapia, cuja  aplicabilidade é importante e melhora a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes. Hoje já temos disponíveis para uso no Brasil imunoterapia para alguns tipos de câncer de pulmão, melanoma (um tipo de câncer de pele), câncer de rim, câncer de estômago, câncer de bexiga e câncer de mama. Também tiveram destaque tratamentos orais para diversos tipos de tumores. A imunoterapia funciona estimulando o nosso sistema imune a combater as células cancerígenas e, ao mesmo tempo, com menos efeitos colaterais que a quimioterapia.

 

AC - Certamente as sessões de rádio ou quimioterapia há 20, 30 anos, tinham efeitos colaterais muito mais severos do que hoje para os pacientes. Nos fale a respeito dos avanços específicos.

TC  - Também evoluíram bastante técnicas mais modernas de radioterapia, reduzindo o tempo de aplicação, a extensão da área irradiada e os efeitos colaterais. Também  medicamentos reduzem drasticamente as náuseas e vômitos nos pacientes, garantindo qualidade de vida e mais autonomia.

 

AC - Em que medida a atual pandemia impactou as rotinas das eventuais detecções e dos tratamentos de câncer? As pessoas e os planos de saúde chegam a retardar os encaminhamentos de assistências?

TC - Em São Borja, no ano de 2020, houve uma redução de mais de 40% na realização de mamografias. Entendemos que o "medo" do contágio por covid tenha atrasado. Também a dificuldade de marcação de consultas pode ser a responsável pela redução desses números. E isso nos preocupa muito, porque atrasar o diagnóstico (na maioria das vezes) retarda o tratamento e diminui as chances de um tratamento precoce com intenção curativa. Em estágios iniciais os tumores não têm sintomas.  Agora, com a melhora dos indicadores de transmissão da covid, esperamos que os pacientes voltem a fazer seus exames de rotina e cuidados médicos de prevenção do câncer e também das demais doenças crônicas.

 

AC - A pandemia impôs a necessidade da telemedicina. É uma prática que veio para ficar? E na oncologia pode ser utilizada?

TC - Utilizamos da telemedicina desde o início da pandemia, seja na avaliação de exames de rotina, primeiras consultas e acompanhamento dos pacientes antes e após os ciclos de quimioterapia. Foi uma inovação que veio para ficar e nos possibilita atender com a qualidade e a agilidade que o paciente com câncer precisa. Inclusive no atendimento de pacientes que precisavam se isolar por estarem com covid.

 

AC -  Pessoas com câncer sofrem um forte impacto emocional. Como lidar com isso, considerando que essa fragilização pode refletir diretamente na resposta aos tratamentos? 

TC - É importante que o paciente seja acolhido de maneira multiprofissional. Tanto o paciente como sua família podem adoecer emocionalmente durante o diagnóstico de câncer, as imposições do tratamento e algumas necessidades de afastamento dos pacientes do trabalho, por exemplo. Tudo isso interfere na rotina e gera ansiedade e sofrimento psíquico. O psicólogo é o profissional importante nesse processo de acompanhamento, trabalhando com toda a equipe multidisciplinar para garantir a recuperação dos pacientes e dar suporte emocional para o doente, a família e para a equipe assistencial.

 

Ac -  O senhor tem dito que, uma vez credenciado no Ministério da Saúde,  o Centro de Oncologia do HIG já poderá começar a atender imediatamente pacientes do SUS.  O hospital já tem estrutura operacional e equipe especializada prontas? Que municípios devem ser atendidos?

TC - Sim, quando ocorrer o credenciamento os pacientes novos poderão ser atendidos em São Borja na realização de alguns procedimentos cirúrgicos, de quimioterapia e hormonioterapia. Já os pacientes com algumas patologias como tumores de cabeça e pescoço, tumores de pulmão, linfomas e leucemias e os que necessitem de radioterapia ainda vão precisar de tratamento nos locais de referência para essas áreas em outras cidades. Inicialmente serão atendidos os pacientes dos municípios de São Borja, Garruchos e Maçambará.

 

AC - Unidades oncológicas em cidades da região, habilitadas no SUS, não oferecem atendimento de radioterapia, considerando a relação custo-demanda. Os serviços do sistema são muito caros? 

TC - Não apenas a questão do custo dos aparelhos e da equipe, há a necessidade de demanda. Nem todos os pacientes vão precisar de radioterapia (que é uma outra especialidade médica, realizada por médico especialista em Radioterapia). Isto porque esses serviços ficam concentrados em determinados locais, estratégicos para evitar subutilização de recursos e até mesmo de serviços. São Borja, nesse momento, não tem demanda para ter um serviço de radioterapia.

 

AC -  Como professor no curso de Medicina da Unipampa/Uruguaiana,  o senhor coordena um grupo de futuros médicos, atualmente estagiários no Hospital Ivan Goulart. Quando a Universidade entregará esses novos profissionais ao mercado de trabalho? E a prioridade será atender demandas do Sistema Único de Saúde?

TC - A proposta da formação de todos os cursos da área da Saúde da Unipampa é formar um profissional voltado para as demandas da comunidade, com especial atenção para o sistema público de saúde. Não é diferente no curso de Medicina. A construção do curso de Medicina da Unipampa, desde sua inauguração há seis anos, foi de parceria com os municípios da Fronteira Oeste para atender às demandas da população dessa região. A vinda dos alunos para realizar o estágio em São Borja tem essa premissa. Os alunos, que estão no penúltimo semestre do curso, não fazem estágio apenas no Hospital Ivan Goulart; eles participam de atividades nas áreas de clínica médica, urgência e emergência e de saúde mental do hospital e nas unidades de saúde do município em parceria também com  a Secretaria da Saúde. Os alunos desenvolvem atividades nas enfermarias de Clínica Médica do SUS e convênios, na UTI, Pronto Socorro, Nefrologia e Hemodiálise, Oncologia, Internação de Saúde Mental e CAPS. Além disso, no ambulatório de Infectologia e no Programa Melhor em Casa, do município. Todas as atividades são supervisionadas e acompanhadas pelos colegas médicos responsáveis por cada área, com importante troca de conhecimentos entre a equipe médica e a equipe multiprofissional garantindo qualidade no atendimento dos pacientes, priorizando um atendimento humanizado.

 

AC - Na sua formação e especialização como oncologista, o senhor atuou em centros de excelência na área hospitalar. Que avaliação faz da estrutura à disposição na cidade?

TC - Tenho muito orgulho de estar atuando no interior e conseguir realizar uma medicina de excelência com igual padrão dos hospitais e centros por onde atuei. Especialmente no que depende de áreas cirúrgicas, de internação e exames de imagem conseguimos atender a grande maioria das demandas dos pacientes. Poucas vezes precisamos encaminhar pacientes para realizar procedimentos fora da cidade. Na área da oncologia, especificamente, estamos recebendo pacientes de outras cidades para realizarem infusões de medicamentos, quimioterapia, imunoterapia, cirurgias, exames. Temos acesso a todos os medicamentos que os pacientes necessitam para serem realizados na nossa instituição.

 

AC - Plenamente ambientado com São Borja? E quais são os seus planos na vida profissional?

TC - O motivo da minha vinda para São Borja se resume na palavra perspectiva. Estou adorando a cidade e a região. Fiz vários amigos, o povo é extremamente acolhedor.

No aspecto profissional, há várias perspectivas de crescimento; na minha área como oncologista, estamos com número crescente de pacientes e previsão de credenciamento do serviço de oncologia em futuro próximo. Isso nos permitirá avaliar a possibilidade de desenvolver também um serviço de pesquisa clínica para protocolos com terapias inovadoras. Outra perspectiva, junto com a Universidade, é fortalecer o convênio e o campo de estágio dos alunos do curso de Medicina na cidade. E,  como presidente da Comissão de Residência Médica, o objetivo é a abertura de programas de residência médica em São Borja e na região da Fronteira Oeste.

 

 

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