Especialista orienta sobre prevenção e combate
ao câncer.
E aposta em São Borja e na região
Aos 34 anos já dispor das especialidades médicas que tem Tiago Giordani Camícia é mérito para poucos. Formado pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG), ele é especialista em Medicina Interna pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e ainda especialista em Oncologia pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Também realizou estágio em Terapias Inovadoras e Desenvolvimento de Novas Drogas no Instituto Europeu de Oncologia em Milão, na Itália.
Atualmente, Camícia é médico
Responsável Técnico do Centro de Oncologia do Hospital Ivan Goulart (HIG) em
São Borja. Paralelamente, é professor do Curso de Medicina da Universidade
Federal do Pampa (Unipampa) e presidente da Comissão de Residência Médica da
instituição. Atualmente, também está cursando MBA em Gestão, Inovação e
Serviços em Saúde pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS).
O doutor Tiago nasceu em Cacique Doble (RS). Após ter concluído
as residências de Medicina Interna e de Oncologia, mudou-se de Porto Alegre para
São Borja, para atuar no Centro de Oncologia.
Nesta entrevista ao BlogAlberiCogo,
Tiago Camícia orienta para as ações de prevenção e enfrentamento ao câncer,
ressaltando que os diagnósticos precoces da doença “são fundamentais.” A pandemia reduziu em 40% as consultas e
exames em São Borja. Ele aborda sobre os cânceres prevalentes e sobre as
novidades da medicina no setor. Diz que a telemedicina veio para ficar. Como
presidente da Comissão de Residência Médica da Unipampa/Uruguaiana, planeja a
abertura de programas de residência em São Borja e em toda a região da
Fronteira Oeste. Também é meta a realização de pesquisas e de utilizar mais
tratamentos inovadoras.
Alberi Cogo - A indagação inicial pode parecer clichê, mas
é necessária: que atividades principais o senhor e o Centro de Oncologia do HIG
desenvolvem, agora em outubro e novembro, dois meses emblemáticos na orientação
e na prevenção aos cânceres de modo geral?
Tiago Camícia - O Centro de Oncologia
do Hospital Ivan Goulart desenvolvia todos os anos, em conjunto com Liga
Feminina de Combate ao Câncer, Grupo de Apoio ao Paciente Oncológico, Senac,
Prefeitura e Unidades Básicas de Saúde, atividades informativas, palestras,
caminhadas de conscientização e prevenção sobre os tipos de câncer mais
prevalentes. Durante a pandemia as atividades ficaram online. Esse ano estamos
organizando programação para conscientizar a população para a importância do
diagnóstico precoce e os exames de rastreio/prevenção tanto no Outubro Rosa
como no Novembro Azul. A programação
ainda será online para respeitar os protocolos de distanciamento social do
Estado e do Município.
AC -
Houve época em que um diagnóstico de câncer era recebido quase como uma
‘sentença’ de morte pelos pacientes. Este estigma está superado, atualmente?
TC - Felizmente muitos tratamentos
inovadores mudaram a sobrevida, garantindo mais dignidade e qualidade de vida
para os pacientes. Atualmente, com diagnóstico precoce e tratamento adequado
conseguimos taxas elevadas de controle e estabilização da doença, permitindo
que os pacientes vivam melhor.
AC -
Quais são as neoplasias mais frequentes, hoje? E, de maneira
resumida e pedagógica, que comportamentos práticos de prevenção podem ser
recomendados?
TC - As principais neoplasias que
acometem a população são as que mais possuem estratégias de prevenção. Na
mulher o câncer mais comum é o câncer de mama. O exame de mamografia deve ser
realizado a partir dos 40 anos para diagnóstico precoce, aumentando as chances
de cura, inclusive com pacientes não necessitando de quimioterapia nos estágios
iniciais. No homem, o câncer de próstata é o mais comum. Para estes,
recomenda-se o rastreio com exame de PSA no sangue a partir dos 55 anos.
Tanto no homem como na mulher o câncer
de pulmão também é extremamente prevalente, e evitar o tabagismo e parar de
fumar são as atitudes primordiais para prevenir o câncer. Também se recomenda a
realização de tomografia de tórax anual para aqueles pacientes com mais de 55
anos, que tenham fumado (carga tabágica) de 30 maços/ano (uma carteira de
cigarro por dia por 30 anos, ou duas carteiras por dia por 15 anos, por
exemplo). Essa estratégia permite diagnóstico precoce e pode reduzir em 20% a
mortalidade por câncer de pulmão. Outro tipo de tumor também bastante
prevalente em homens e mulheres é o câncer de intestino. Essa neoplasia pode
ser prevenida realizando-se colonoscopia a partir dos 45-50 anos. Por fim, o
quarto tumor mais prevalente na mulher é o câncer de colo uterino, que deve ser
prevenido com exame preventivo (ou
Papanicolou ou Preventivo do Câncer) em todas as mulheres a partir dos 25 anos,
que tiveram vida sexual ativa. Outra estratégia importantíssima é a realização
de vacina contra o HPV, em meninos e meninas. O vírus HPV é o responsável por
mais de 90% dos cânceres de colo do útero. É importante, de maneira geral,
prevenir o câncer. Então é necessário que as pessoas tenham hábitos alimentares
saudáveis, estejam com o peso adequado (obesidade e sobrepeso são importantes
fatores de risco para câncer), assim como praticar atividade física, usar
protetor solar e fazer os exames de rastreio/prevenção do câncer.
AC -
Por favor, nos dê alguns exemplos mais recentes em relação a progressos nos
diagnósticos, tratamentos medicamentosos e procedimentos curativos na campo
oncológico.
TC - Sem dúvidas, o grande destaque das
terapias inovadoras em oncologia se deve à introdução da imunoterapia,
cuja aplicabilidade é importante e
melhora a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes. Hoje já temos disponíveis
para uso no Brasil imunoterapia para alguns tipos de câncer de pulmão, melanoma
(um tipo de câncer de pele), câncer de rim, câncer de estômago, câncer de
bexiga e câncer de mama. Também tiveram destaque tratamentos orais para
diversos tipos de tumores. A imunoterapia funciona estimulando o nosso sistema
imune a combater as células cancerígenas e, ao mesmo tempo, com menos efeitos
colaterais que a quimioterapia.
AC - Certamente as sessões de rádio ou
quimioterapia há 20, 30 anos, tinham efeitos colaterais muito mais severos do
que hoje para os pacientes. Nos fale a respeito dos avanços específicos.
TC
- Também evoluíram bastante técnicas mais modernas de radioterapia,
reduzindo o tempo de aplicação, a extensão da área irradiada e os efeitos
colaterais. Também medicamentos reduzem
drasticamente as náuseas e vômitos nos pacientes, garantindo qualidade de vida
e mais autonomia.
AC - Em que medida a atual pandemia
impactou as rotinas das eventuais detecções e dos tratamentos de câncer? As
pessoas e os planos de saúde chegam a retardar os encaminhamentos de
assistências?
TC - Em São Borja, no ano de
2020, houve uma redução de mais de 40% na realização de mamografias. Entendemos
que o "medo" do contágio por covid tenha atrasado. Também a
dificuldade de marcação de consultas pode ser a responsável pela redução desses
números. E isso nos preocupa muito, porque atrasar o diagnóstico (na maioria
das vezes) retarda o tratamento e diminui as chances de um tratamento precoce
com intenção curativa. Em estágios iniciais os tumores não têm sintomas. Agora, com a melhora dos indicadores de
transmissão da covid, esperamos que os pacientes voltem a fazer seus exames de
rotina e cuidados médicos de prevenção do câncer e também das demais doenças
crônicas.
AC - A pandemia impôs a necessidade da
telemedicina. É uma prática que veio para ficar? E na oncologia pode ser
utilizada?
TC - Utilizamos da telemedicina desde o
início da pandemia, seja na avaliação de exames de rotina, primeiras consultas
e acompanhamento dos pacientes antes e após os ciclos de quimioterapia. Foi uma
inovação que veio para ficar e nos possibilita atender com a qualidade e a
agilidade que o paciente com câncer precisa. Inclusive no atendimento de
pacientes que precisavam se isolar por estarem com covid.
AC -
Pessoas com câncer sofrem um forte impacto emocional. Como lidar com
isso, considerando que essa fragilização pode refletir diretamente na resposta
aos tratamentos?
TC - É importante que o paciente seja
acolhido de maneira multiprofissional. Tanto o paciente como sua família podem
adoecer emocionalmente durante o diagnóstico de câncer, as imposições do
tratamento e algumas necessidades de afastamento dos pacientes do trabalho, por
exemplo. Tudo isso interfere na rotina e gera ansiedade e sofrimento psíquico.
O psicólogo é o profissional importante nesse processo de acompanhamento,
trabalhando com toda a equipe multidisciplinar para garantir a recuperação dos
pacientes e dar suporte emocional para o doente, a família e para a equipe
assistencial.
Ac -
O senhor tem dito que, uma vez credenciado no Ministério da Saúde,
o Centro de Oncologia do HIG já poderá começar a atender imediatamente
pacientes do SUS. O hospital já tem estrutura operacional e equipe
especializada prontas? Que municípios devem ser atendidos?
TC - Sim, quando ocorrer o
credenciamento os pacientes novos poderão ser atendidos em São Borja na
realização de alguns procedimentos cirúrgicos, de quimioterapia e
hormonioterapia. Já os pacientes com algumas patologias como tumores de cabeça
e pescoço, tumores de pulmão, linfomas e leucemias e os que necessitem de
radioterapia ainda vão precisar de tratamento nos locais de referência para
essas áreas em outras cidades. Inicialmente serão atendidos os pacientes dos
municípios de São Borja, Garruchos e Maçambará.
AC - Unidades oncológicas em cidades da
região, habilitadas no SUS, não oferecem atendimento de radioterapia,
considerando a relação custo-demanda. Os serviços do sistema são muito
caros?
TC - Não apenas a questão do custo dos
aparelhos e da equipe, há a necessidade de demanda. Nem todos os pacientes vão
precisar de radioterapia (que é uma outra especialidade médica, realizada por
médico especialista em Radioterapia). Isto porque esses serviços ficam
concentrados em determinados locais, estratégicos para evitar subutilização de
recursos e até mesmo de serviços. São Borja, nesse momento, não tem demanda
para ter um serviço de radioterapia.
AC -
Como professor no curso de Medicina da Unipampa/Uruguaiana, o
senhor coordena um grupo de futuros médicos, atualmente estagiários no Hospital
Ivan Goulart. Quando a Universidade entregará esses novos profissionais ao
mercado de trabalho? E a prioridade será atender demandas do Sistema Único de
Saúde?
TC - A proposta da formação de todos os
cursos da área da Saúde da Unipampa é formar um profissional voltado para as
demandas da comunidade, com especial atenção para o sistema público de saúde.
Não é diferente no curso de Medicina. A construção do curso de Medicina da
Unipampa, desde sua inauguração há seis anos, foi de parceria com os municípios
da Fronteira Oeste para atender às demandas da população dessa região. A vinda
dos alunos para realizar o estágio em São Borja tem essa premissa. Os alunos,
que estão no penúltimo semestre do curso, não fazem estágio apenas no Hospital
Ivan Goulart; eles participam de atividades nas áreas de clínica médica,
urgência e emergência e de saúde mental do hospital e nas unidades de saúde do
município em parceria também com a Secretaria da Saúde. Os alunos
desenvolvem atividades nas enfermarias de Clínica Médica do SUS e convênios, na
UTI, Pronto Socorro, Nefrologia e Hemodiálise, Oncologia, Internação de Saúde Mental
e CAPS. Além disso, no ambulatório de Infectologia e no Programa Melhor em
Casa, do município. Todas as atividades são supervisionadas e acompanhadas
pelos colegas médicos responsáveis por cada área, com importante troca de
conhecimentos entre a equipe médica e a equipe multiprofissional garantindo
qualidade no atendimento dos pacientes, priorizando um atendimento humanizado.
AC - Na
sua formação e especialização como oncologista, o senhor atuou em centros de
excelência na área hospitalar. Que avaliação faz da estrutura à disposição na
cidade?
TC - Tenho muito orgulho de estar
atuando no interior e conseguir realizar uma medicina de excelência com igual
padrão dos hospitais e centros por onde atuei. Especialmente no que depende de
áreas cirúrgicas, de internação e exames de imagem conseguimos atender a grande
maioria das demandas dos pacientes. Poucas vezes precisamos encaminhar
pacientes para realizar procedimentos fora da cidade. Na área da oncologia,
especificamente, estamos recebendo pacientes de outras cidades para realizarem
infusões de medicamentos, quimioterapia, imunoterapia, cirurgias, exames. Temos
acesso a todos os medicamentos que os pacientes necessitam para serem
realizados na nossa instituição.
AC - Plenamente ambientado com São
Borja? E quais são os seus planos na vida profissional?
TC - O motivo da minha vinda para São
Borja se resume na palavra perspectiva. Estou adorando a cidade e a região. Fiz
vários amigos, o povo é extremamente acolhedor.
No aspecto profissional, há várias
perspectivas de crescimento; na minha área como oncologista, estamos com número
crescente de pacientes e previsão de credenciamento do serviço de oncologia em
futuro próximo. Isso nos permitirá avaliar a possibilidade de desenvolver
também um serviço de pesquisa clínica para protocolos com terapias inovadoras.
Outra perspectiva, junto com a Universidade, é fortalecer o convênio e o campo
de estágio dos alunos do curso de Medicina na cidade. E, como presidente da Comissão de Residência
Médica, o objetivo é a abertura de programas de residência médica em São Borja
e na região da Fronteira Oeste.
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