sexta-feira, 1 de julho de 2022

ENTREVISTA: Leandro Ramires Comassetto

 

 

O desejo: “Um governo decente,

honesto, conciliador e atuante. “

 


Leandro Comassetto: “Se ruim com a
democracia, muito pior sem ela.”
 (Fotos arquivo pessoal)

Aos 57 anos, o jornalista, doutor em Comunicação e  professor Leandro Ramires Comassetto é, atualmente, coordenador do curso de Jornalismo na Unipampa em São Borja. Porém, antes de consolidar status como uma das referências intelectuais na universidade, ascendeu de origem humilde, consolidando  conquistas sucessivas. Com este perfil e em ano eleitoral, ele compartilha sua  lucidez,  visão equilibrada e o desejo como a maioria dos demais brasileiros: quer que tenhamos “um governo decente,  honesto, conciliador e atuante.”  Acha, contudo, que no processo teremos “mais do mesmo.”, em uma campanha pautada pelo ódio e pela polarização.

Leandro Comassetto é catarinense, graduado em Jornalismo e Letras (Português e Espanhol), pós-graduado em Língua Portuguesa e Metodologia do Ensino da Comunicação Social, mestre em Linguística (UFSC) e doutor em Comunicação Social (PUCRS). Iniciou  atividades trabalhando como jornaleiro aos 12 anos de idade, ingressando depois na empresa Sadia, onde atuou como auxiliar de oficina elétrica e marcenaria. Começou a atuar na imprensa aos 16 anos, na Rádio Rural de Concórdia, onde exerceu as funções de rádio-escuta, repórter e locutor-apresentador.  Foi repórter, redator e editor de O Jornal (Concórdia – SC). Atuou também no jornal A Notícia (SC). Durante a graduação em Jornalismo, trabalhou na Rádio Difusora, de Ponta Grossa – PR, e  nas rádios Aliança eAtual FM (Concórdia).

Comassetto iniciou a carreira acadêmica em 1991, na Universidade do Contestado (SC), onde foi diretor acadêmico e pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação. Na Unipampa em São Borja ingressou em 2011: Na instituição, atualmente coordena  o curso de Jornalismo. É autor dos livros ‘As razões do título e do lead’ (uma abordagem cognitiva daestrutura da notícia) e ‘A voz da aldeia: o rádio local e o comportamento da informação nanova ordem global’.


Comassetto: das origens humildes a doutor em
  Comunicipação e coordenador de Jornalismo.

Nesta entrevista ao Blog Alberi Cogo, Leandro Comassetto analisa os horrores e as consequências geopolíticas da invasão da Rússia à Ucrânia. Avalia também a eleição recente de nomes de esquerda na América Latina. Acha que estamos aprendendo  democracia e ressalta: “Se é ruim com ela, pior será sem ela.“ Acompanhe, a seguir, a pedagógica entrevista com o saber didático do professor da Unipampa.

 

Alberi Cogo - “A democracia é a pior  forma de governo, à exceção de todas as demais”, afirmava o ex-1º ministro britânico Winston Churchill, também Nobel de Literatura. Basta um apelo motivador como este para, em outubro, levar os brasileiros às urnas? Que outras razões devem mover o eleitor?

 Leandro Comassetto  -Não temos escolha. Vivemos num sistema político, onde, bem ou mal, a participação do cidadão, embora não decisiva, ajuda a definir os rumos de um município, um estado, um país. A democracia, obviamente, não é perfeita. É um sistema à base de negociações, repleto de lobbies e jogo de interesses, mas, como afirmava Churchill, ainda melhor que o autoritarismo e o estado ditatorial. A história não mente. O mundo está repleto de acontecimentos trágicos para a humanidade. O mais recente talvez seja a tomada da Ucrânia pelo despotismo de Vladimir Putín. Os brasileiros, por sua vez, vão às urnas neste ano. Como já disse em entrevista anterior, mesmo que possamos ter um sentimento negativo em relação à democracia brasileira, estamos avançando. Somos uma democracia recente, ainda em aprendizado e, pelo voto e pela participação cidadã, buscamos dias melhores. O Brasil é um país em crise, não só o Brasil, mas o mundo todo, ainda por reflexo da pandemia, e agora pela guerra provocada pela Rússia. São tempos difíceis, em que escasseiam os recursos e os preços corroem os salários. Certamente que muito do que está ocorrendo independe de ações e políticas internas, mas sempre há esperança no eleitor de que, pela afirmação ou troca de governo, haverá mudanças para melhor. Cenários de crise e insatisfação tendem a estimular de forma mais acentuada a participação popular.

 

AC -  O cenário político é dinâmico e muda de acordo com as circunstâncias. Ao que tudo indica, porém, a polarização será novamente a tônica do pleito de 2022. Ou a chamada terceira via tem chances de decolar?

 Comassetto - A terceira via já teve tempo de sobra para mostrar a que veio. E não veio. A escolha de um candidato único fracassou. O antes então quase imbatível Sérgio Moro perdeu sua popularidade em função dos erros cometidos na condução da Operação Lava Jato e nas desavenças com o governo que o elevou à condição de ministro. Hoje coleciona mais desafetos que simpatizantes. Os demais potenciais candidatos, por sua vez, estão desgastados ou não tiveram tempo para se afirmar, como é o caso da senadora Simone Tebet. Além disso, todos sabemos bem dos jogos de interesse que permeiam nossa política, o que faz com que a maioria das lideranças e partidos prefira se agarrar ao favoritismo. O favoritismo está do lado de Lula e Bolsonaro. A polarização vai se estreitar ainda mais até o dia da eleição. E o problema disso é que estamos, hoje, diante de uma sociedade dividida, onde as provocações e desavenças tendem a se acentuar, e o ódio deverá se tornar ainda mais intenso nas redes sociais. É preciso calma, paciência e sabedoria para não fomentarmos inimizades, com risco de atitudes inconsequentes, brutais e, por vezes, irreversíveis.


A polarização entre Lula e Bolsonaro leva
ao sepultamento de uma terceira via.

AC - Normalmente as campanhas eleitorais têm sido pautadas mais pela desconstrução entre os adversários do que por propostas visando ao futuro do desenvolvimento nacional. Depois de um longo período de retração socioeconômica e investimentos emperrados, ainda mais pela covid, dá para esperar algo diferente?

 Comassetto -  Bolsonaro elegeu-se m 2018 sem prepostas concretas para o desenvolvimento do país. Foi elevado à condição de presidente mais pelo desgaste do PT que por sua cartilha de governo. Costuma-se dizer que Lula elegeu Bolsonaro, e agora Bolsonaro é que pode eleger Lula. E não pelos méritos de Lula, mas pelo desgaste do governo Bolsonaro. O candidato da esquerda vai passar a campanha batendo na tecla da retração sócio-econômica, a qual vai associar à incapacidade de Bolsonaro para governar, e o atual presidente vai acentuar seu discurso de associação de Lula à corrupção. Também virão à tona questões morais e religiosas e argumentos falaciosos da luta do bem contra o mal e do comunismo contra a iniciativa privada. Enfim, uma carga de besteirol que não leva a nada, a não ser minar o tempo e espaço que deveriam ser dedicados à apresentação de propostas reais para tirar o Brasil da crise. Será uma campanha mais de ataques e acusações que de virtudes e propostas. Fatalmente iremos passar por isso. Mas, passada a eleição, acaba a brincadeira. Duvido que o povo brasileiro ainda terá paciência para esperar resultados sentado. Ou o novo mandatário mostra trabalho ou será destronado do posto.

 

AC - O pleito de 2022 coincide com a emblemática data dos 200 anos da independência do Brasil. Na sua avaliação, qual o maior presente poderia ser oferecido ao Brasil e aos brasileiros?

 Comassetto - Um governo decente, honesto, conciliador e atuante. Mas seria ilusão pensar que isso virá simplesmente pelo signficado da data.

 

Ac - Inflação em alta, desemprego crônico, déficit em investimentos em infraestrutura e reformas urgentes a serem implementadas. Dá para apostar na reversão desse quadro?

Comassetto - Tudo vai depender muito do cenário internacional. O governo Bolsonaro perdeu prestígio pela falta e execução de propostas, mas também foi prejudicado pela pandemia e pela guerra. Não é só o Brasil, mas o mundo que vive um momento de estagnação econômica, inflação alta e corrosão dos salários. Se o cenário lá fora não mudar, pouco iremos avançar aqui. Mas um pouco mais de inteligência para governar e um mínimo de propostas fazem bem a qualquer governo. O Brasil é um país cheio de recursos naturais, com elevado potencial econômico. O estímulo à ciência, tecnologia e empreendedorismo podem fazer a diferença. Não se trata de acreditar em uma total reversão do quadro de estagnação em que nos encontramos, mas creio que, sim, podemos pensar em dias melhores. Passada a eleição, como disse, o povo estará mais atento e sedento por resultados que impliquem em melhor qualidade de vida.

 

Lula e Bolsonaro: mais do mesmo, em
um  país carente de novas lideranças.
 

AC - Alguns setores determinantes e estratégicos, como educação, saúde e cultura têm seus investimentos e orçamentos de rotina encolhidos. Que repercussões projetar em relação a essa conjuntura?

 Comassetto - Um erro crasso do atual governo foi tomar a cultura e a educação por inimigas. Nenhum país vai pra frente penalizando a educação e cultura. A saúde também enfrentou percalços, na medida em que, por teimosia, o presidente relutou em adotar as medidas de prevenção e retardou a chegada da vacina contra a covid. Com todo respeito à segurança pública, que também merece ser valorizada, um país não desenvolve à base de exército e armas. Precisamos de inteligência, de fomento à ciência e tecnologia, de aplicação de recursos em setores estratégicos, principalmente na área de energia, e maior incentivo e fomento ao empreendedorismo.

 

AC - Observadores veem um apagão no surgimento de novas lideranças nas últimas décadas, nos diversos setores. É verdadeira a afirmativa e, sim, por quê?

 Comassetto - Verdade. Embora venhamos a ter uma eleição com ânimos acirrados e discursos inflamados de ambos os lados, na crença por dias melhores, é desanimador ver quem são nossos atores principais. O que nos espera, no fundo, é mais do mesmo, ou seja, políticos que já deram prova do que são capazes, ou incapazes, de fazer. Bom seria se tivéssemos novas lideranças, com propostas e ideias novas, mostrando um novo jeito de fazer política e governar. Em parte o que atrapalhou o surgimento de novas lideranças foi o antagonismo que se criou entre os radicais de esquerda e de direita, que arrebanharam seguidores e deixaram pouca margem para o surgimento de novos atores políticos. Infelizmente, no imaginário popular, parece que não tem graça pensar e acreditar no novo. Vivemos na política brasileira uma espécie de Grenal, que se move mais pela rivalidade que pela esperança de títulos.

 

AC - É frequente ouvir que, ao invés de líderes, nós temos mitos. Em que medida o atual sistema partidário tem culpa da situação?

Comassetto - Não diria que o que estamos vivendo é culpa do sistema partidário. Mesmo diante de um sistema presidencialista, o Congresso tem muito poder. O presidente, no fundo, depende da capacidade de articulação para congregar forças. Infelizmente, não raro, isso descamba para a barganha e leva à corrupção. Foi assim com o mensalão, está sendo com o orçamento secreto. Olhando para a história recente, Fernando Henrique e Dilma Roussef não tinham a aura de mitos e, mesmo assim, foram eleitos para dois mandatos. Lula e Bolsonaro carregam essa aura mais messiânica, mas por conta da rivalidade que o país está vivendo. Passada esta eleição, acredito que novas lideranças fatalmente surgirão. Tenho mais esperanças na eleição que ainda virá daqui a quatro anos que nesta que viveremos agora.

 

As mudanças políticas na América Latina não
são decorrentes de ideologias, mas do desencanto
com políticos que fracassaram no combate à pobreza.

AC - Vários países latino-americanos elegeram recentemente candidatos de esquerda, após o mundo registrar guinada à direita. Isso é resultado de um momento ou se traduz em reviravolta no espectro ideológico?

Comassetto -  A guinada não é ideológica. As pessoas, na verdade, estão pouco ligando para as ideologias. Boa parte nem sequer sabe o que isso significa. O que leva à mudança é o desencanto com políticas que não deram certo e não conseguiram entregar o que prometeram, melhorando a renda e a qualidade de vida das pessoas. Se as condições de vida não melhorarem na Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Bolívia... não há ideologia de esquerda que resista por muito tempo.

 

A guerra entre Rússia e Ucrânia ressuscita
o mundo dos tempos da Guerra Fria.

AC - Que repercussões esperar na geopolítica global como consequência da guerra Rússia-Ucrânia?

Comassetto - É triste ver o que está acontecendo. Claro que nada se compara ao sofrimento do povo ucraniano, mas praticamente o mundo todo está arcando com as consequências desta guerra. A repercussão econômica não é negativa apenas no Brasil, os europeus nunca pagaram tão caro pela energia, nos Estados Unidos e Canadá a inflação, sempre controlada, hoje reduz o poder de compra da maioria dos cidadãos. Na saída da estagnação provocada pela pandemia, tudo o que o mundo não precisava era de um acontecimento como este. O que se esperava era um mundo mais unido e solidário após dois anos de mortes e incerteza diante do futuro, mas, infelizmente, a insanidade parece ter falado mais alto. Em termos de geopolítica global, o que irá acontecer é que teremos um mundo novamente dividido, a exemplo dos tempos da guerra fria instaurada pela rivalidade entre EUA e URSS. Blocos de países irão se fortalecer, teremos um mundo polarizado por forças antagonistas, com o fortalecimento da OTAN por um lado e um ainda maior alinhamento da URSS, China e Índia por outro. Nesse cenário, a possibilidade de uma terceira guerra, de dimensão nuclear, sempre será uma possibilidade a ser considerada.

Um comentário:

  1. É importante informar que a taxa de desemprego no Brasil não é crônica. Ao contrário. Diferente do que recebeu da Dilma, o atual governo, mesmo diante da pandemia e do cerário mundial, acaba de cravar em 9.8% no trimestre encerrado em maio, menor taxa para o período desde 2015, quando foi de 8,3%, informou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quinta-feira. Uma realidade escondida pela grande mídia. Aliás este é outros tantos números.

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