Até
o feijão com arroz!
Não é de hoje que nós, brasileiros, nos
queixamos da inflação dos alimentos. No período mais recente, porém, comer – e
sobretudo comer bem – virou um grande dilema, um gigantesco desafio,
especialmente às camadas mais pobres da população. A pandemia tem a ver com
isso, entretanto não pode ser sentenciada como sendo ela a única culpada.
É surreal, mas até o nosso prato mais típico – o tradicional feijão com arroz –, está, para muita gente, inviável. Levantamento mostra que, entre março de 2020 e março de
2021, estes dois itens básicos da nossa rotina alimentar aumentaram de preço em mais de 60%. Pagar mais de oito reais por um quilo de feijão e em torno
de cinco por um quilo de arroz passou a ser algo inacessível para uma grande parcela das nossas
famílias. Isso nos tira a chance da
alimentação de costume e adequada, ao mesmo tempo em que nos rouba a própria identidade. No caso
em questão, portanto, até podemos nos alimentar, contudo deixamos de comer
normalmente.
E o feijão com arroz são apenas o
exemplo mais representativo, contudo a lista é bem mais ampla. O óleo de
cozinha e os hortifrutigranjeiros também estão ou estiveram nas alturas. O churrasco
– símbolo da confraternização e dos nossos encontros – saiu da rotina para muitas famílias brasileiras. Entre os gaúchas a ausência é ainda mais impactante e
sentida. Aves, ovos e carne suína passam a ser alternativas. Quando não, em
casos extremos, ossos bovinos, viram solução para fazer sopa. Na atual
conjuntura, não tem auxílio emergencial que dê conta.
Na mesma escalada, vem o desenfreado
aumento no preço dos combustíveis. Um botijão de gás de 13 quilos está bem acima
dos cem reais. Quando possível, volta-se para o fogão a lenha. Entretanto, é
uma prática em desuso, mais arriscada e, quando possível, também custa caro. Já a gasolina, o diesel e o etanol nunca estiveram
com o seu valor tão alto como nos últimos tempos. A troca na direção e a
promessa de mudanças na estatal do setor
não foram além de anúncios. Operadores do transporte falam em parar tudo no
país.
Para quem tem emprego ou outra forma
certa de algum dinheiro, uma ginástica financeira permanente vai contornando a
situação, mesmo não sendo fácil. Mas o que dizer e pensar de um quarto da
população de compatriotas, sem nenhum ganho
formal ou mesmo na informalidade? É curioso que nessas manifestações de rua, contra e a favor, estes clamores sejam pouco verbalizados. Não que isso garanta alguma solução,
porém é um bom e ao mesmo tempo dramático sinalizador da sangria social
brasileira. E com as eleições de 2022 teremos a solução? Promessas, eu tenho
certeza que sim!

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