Adversidades do clima normalmente impactam, de maneira irremediável,
a produção da agricultura. Foi o que aconteceu, no ciclo 2020/21, com a lavoura
de soja em São Borja. Em plena pandemia, porém, é o agronegócio que tem salvado
a economia local (e do país) de um colapso ainda maior. Uma conta simples,
apenas considerando as três safras principais - de arroz e de soja, já
colhidas, e projetando a futura colheita de trigo -, o município deverá
acumular faturamento bruto de algo como R$ 935.313.000,00 – bem mais que a metade de todo seu o PIB (Produto Interno Bruto).
Não estão incluídas aqui
as culturas de menor expressão, mas também em fase de expansão. A lavoura de
milho é um bom exemplo. Igualmente não é considerada a atividade pecuária,
sabidamente de importância fundamental no contexto da geração econômica local. Os registros, mesmo empíricos, mostram o
tamanho e a importância do agronegócio, do mesmo modo lançam luzes que a
vocação de São Borja para o setor.
Arroz: recordes
Mesmo que tenha diminuído
a área de plantio para 36.889 hectares – há alguns anos foram 50 mil - , a
lavoura orizícola bateu recordes de produtividade e de rendimentos aos produtores. A unidade local do
Irga confirma 9.253 quilos colhidos por hectare, em média, contra os 8.667
quilos por hectare no ciclo 19/20. Este ano, foram 185 sacos por hectare, na
média, segundo contabiliza o diretor da
unidade local do instituto, Roger
Portela.
Feitos os cálculos, tem-se
no município uma produção de 6.824.465
sacas de arroz. Já fazenda uma média
(modesta) de R$ 68,00 a saca, chega-se a um faturamento de R$ 464.063.620,00. O custo de produção aumentou 14% em relação
ao ciclo anterior, conforme o instituto, mas a boa produtividade e os bons
preços compensaram.
Portela explica que a fase
inicial do ano orizícola 2020/21 foi difícil. Insuficiência e má-distribuição
de chuvas durante toda a primeira. Além da dificuldade de implantação e manejo
da lavoura, os mananciais de irrigação não conseguiram se recuperar. A
compensação veio em janeiro e fevereiro, na fase reprodutiva do arroz: alta luminosidade
e temperatura, traduzida em resultados.
Soja castigada
A história da agricultura da São Borja Capital da Produção registra que, entre os anos 1970 e 1980, o município plantou, em algumas safras, 120 mil hectares de soja e igual área de trigo. Depois os números foram minguando, gradativamente. Na safra de soja 20/21, um novo recorde nas últimas décadas: o município semeou 75 hectares mil hectares com a oleaginosa.
O clima, porém - sempre
imprevisto - estragou a festa. A Emater calcula que a produtividade que
deveria ser de pelo menos 50 sacos por hectare, ficou somente em cerca de 35,
em média. Isso que, conforme o técnico agrícola Clóvis Schwengberg, uns10 mil
hectares tiveram plantio irrigado e renderam bem mais que as áreas
convencionais.
Para a soja choveu pouco e
de maneira heterogênea, alterando quase normalidade e secura conforme a região
do município. Resultado: nos 75 mil
hectares plantados, só foram colhidas
2.625.000 sacas do grão. A receita bruta, considerando média de preço de R$
150,00 a saca, foi de R$ 393.759,000,00. A grande aposta dos sojicultores, muitos deles
vindos de outros municípios e regiões, foi o boom das cotações no mercado
internacional. A pandemia fez crescer a
demanda e aquecer os preços.
A cotação do dólar – um dos
balizadores – começou a cair. O técnico da Emater diz que produtores fizeram
apostas a longo prazo, para 2022, considerando remuneração nunca alcançada pela
soja até aqui. O mercado, porém, passa a ser uma incógnita. Os consumidores
também ficam de olho, porque o mercado aquecido e demandante produziu, como uma
das consequências, a alta inflação dos alimentos.
Trigo, a esperança
Aos poucos os produtores
vão refazendo suas esperanças também em relação ao trigo. As
cotações são consideradas satisfatórias e o clima deve ajudar. Em ano de
neutralidade climática em relação ao El Niño e à La Niña, a expectativa é de um
ano normal para a cultura tritícola. No ano passado, as geadas dizimaram 50%
das lavouras.
São Borja está longe dos 120
mil hectares do passado, mas para um município que reduziu a área em 10 vezes,
ficando nos 12 mil hectares, 2021 mostra bons progressos. A lavoura de trigo
que, no ano passado, semeou 16 mil hectares, aumenta este ano para pelo menos
20 mil, incremento de 25%. Ainda faltam
ser semeados 5%, mas a Emater trabalha com uma safra normal.
A perspectiva é de que a
produtividade média chegue a três mil quilos ou 50 sacas por hectare. A safra, desta forma, chegaria a 1 milhão de
sacas, Considerando preço médio de R$78,00 a saca,
pelos parâmetros atuais, a receita bruta ficaria em de 78.000.000,00. É
relevante destacar que, com a disparada do dólar e do custo dos insumos,
as lavouras igualmente aumentaram bastante
os seus custos de produção.

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