Déficit hídrico é ameaça à
futura lavoura de arroz
Aproveitando o período de
estiagem, em julho, foram intensificadas as operações em São Borja, visando ao preparo
de solo para a implantação da futura lavoura
de arroz, ciclo 2021-2022 (nas imagens do Irga). Boa parte das terras já está
pronta, mas muitas ainda são as dúvidas rondando a cabeça dos produtores. No
município, ninguém arrisca projetar de que tamanho será a próxima cultura orizícola.
Um dos motivos principais é o déficit hídrico dos sistemas de irrigação, que,
se não for equacionado a tempo, pode determinar uma nova redução de área de
cultivo.
E não se trata de um
problema local, isolado. Em toda a Fronteira Oeste – região maior produtora do
grão no Rio Grande do Sul – a situação é semelhante. Há mais
de um ano, chove abaixo do normal nessa porção do território gaúcho. Mesmo os
rios maiores e seus afluentes mantêm níveis baixos, contudo o que mais preocupa
é a situação das barragens. Elas, em muitos dos municípios da região, são a
principal fonte de irrigação.
É o caso de São Borja,
conforme o diretor da unidade local do Irga (Instituto Rio-Grandense do Arroz),
técnico agrícola Roger Portela (foto arquivo pessoal). Ele explica que, no
município, “muitas lavouras de arroz à
margem dos rios deram lugar às de soja e, hoje, 55% da cultura orizícola
depende das barragens”. Como estes
mananciais estão, atualmente, com apenas entre 40 e 50% da sua capacidade, tudo
é incerto em relação ao que vai acontecer.
Portela observa que
ocorrências de chuva como as do início da semana acabam atrapalhando ao invés
de ajudar. São precipitações que, além de não conseguirem repor os sistemas de
irrigação, interrompem a preparação das terras. “Somente chuvas concentradas e
volumosas, acima dos 100 milímetros, podem reverter o quadro”, segundo destaca.
Sems decisivas
Nos últimos anos, São Borja
começou a semear mais cedo a lavoura de arroz. Áreas pontuais já são semeadas
no final de agosto e as demais, a partir de 10 de setembro como regra geral. Desta
forma, é indispensável que o retorno da chuva se dê de forma consistente já nas
próximas semanas, para ao menos repetir a área plantada do ciclo 2020-21.
Na penúltima safra, foram 37,5
mil hectares cultivados no município e no último ciclo (2020-21) foram 36,9 mil
hectares. Em passado não muito distante, porém, o município, já registrou o plantio
de área superior a 50 mil hectares. Um ‘fenômeno’ chamado soja é fator responsável para isso.
A maior liquidez da oleaginosa e a sua demanda
e cotação crescentes no mercado internacional explicam por que menos arroz e
mais soja. Os espaços destinados à pecuária também vêm perdendo terreno para os
sojicultores. Muitos desses produtores vêm de fora do município.
O escritório municipal da
Emater ainda não cravou percentual, mas a convicção, desde já, é que a lavoura
de soja no município terá nova expansão. No ciclo 2020-21 foram 75 mil hectares,
quase 10% sobre a safra anterior. “O incremento ainda depende de uma série de
variantes, mas o certo é que haverá novo aumento”, diz o diretor local da Emater,
Odacir Decol.
Insumos: caros e escassos
Acostumado com a rotina de diversas
culturas, como arroz, soja, milho e trigo, o multiprodutor Jones Dalla Porta
vive um momento de incertezas em relação à futura lavoura orizícola. “O que já é certo é que, neste ano, não haverá
expansão da área semeada”, diz ele. Além
de todos os demais fatores adversos, o empresário rural ressalta que os custos de produção estão muito altos.
Dalla Porta se queixa de que,
devido à pandemia, a escala de produção dos insumos de modo geral e também de
máquinas e implementos agrícolas caiu no mundo inteiro. “Isso afetou diretamente a oferta e, como consequência, provocou
uma significativa elevação de preços”, relata. Ele acha que os produtores, antes de
plantarem, estarão atentos não apenas ao clima, mas também a toda a conjuntura
econômica.
Outros fatores
O regime insuficiente e
irregular de chuvas, há mais de um ano e que provoca déficit hídrico histórico, é atribuído ao fenômeno climático
La Niña. Há indicadores de que, depois um hiato na escassez de chuvas, haveria
reprise do déficit pluviométrico, uma
vez passada a primavera. Existe ainda a tese de pesquisadores de que os
desarranjos do clima no Sul do país – secas, temporais e desregulação geral -
têm a ver, também, com os desarranjos e agressões na Amazônia.
O fato é que, de qualquer
modo, o rio Uruguai em São Borja, por exemplo, se mantém há quase dois anos a menos
de três metros acima do nível. O que então esperar dos rios menores, sangas e
barragens? Isso explica por que cada vez mais produtores
implantam seus sistemas de irrigação, para depender menos de ‘São Pedro’.
Para piorar mais o cenário,
não se descarta um apagão no fornecimento de energia elétrica no país. A causa
central é a falta de chuvas na região Sudeste, que concentra 70% da energia
gerada pelas hidrelétricas brasileiras. A retomada das atividades econômicas no
pós-pandemia e a consequente maior demanda energética seria outro fator
determinante para um possível colapso.
Apagão ou racionamento, o
certo é que o risco de desabastecimento não está descartado. No caso do sistema
de irrigação e dos levantes das lavouras de arroz seria outro impactante fator
negativo. O sistema de regulação do
governo federal diz que trabalha para que nada aconteça.



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