quinta-feira, 29 de julho de 2021

LA NIÑA E OUTROS FATORES

 

Déficit hídrico é ameaça à

futura lavoura de arroz

 




       Aproveitando o período de estiagem, em julho, foram intensificadas as operações em São Borja, visando ao preparo de solo para a implantação  da futura lavoura de arroz, ciclo 2021-2022 (nas imagens do Irga). Boa parte das terras já está pronta, mas muitas ainda são as dúvidas rondando a cabeça dos produtores. No município, ninguém arrisca projetar de que tamanho será a próxima cultura orizícola. Um dos motivos principais é o déficit hídrico dos sistemas de irrigação, que, se não for equacionado a tempo, pode determinar uma nova redução de área de cultivo.

      E não se trata de um problema local, isolado. Em toda a Fronteira Oeste – região maior produtora do grão no Rio Grande do Sul – a situação é semelhante.   Há mais de um ano, chove abaixo do normal nessa porção do território gaúcho. Mesmo os rios maiores e seus afluentes mantêm níveis baixos, contudo o que mais preocupa é a situação das barragens. Elas, em muitos dos municípios da região, são a principal fonte de irrigação.

     É o caso de São Borja, conforme o diretor da unidade local do Irga (Instituto Rio-Grandense do Arroz), técnico agrícola Roger Portela (foto arquivo pessoal). Ele explica que, no município, “muitas  lavouras de arroz à margem dos rios deram lugar às de soja e, hoje, 55% da cultura orizícola depende das barragens”.  Como estes mananciais estão, atualmente, com apenas entre 40 e 50% da sua capacidade, tudo é incerto em relação ao que vai acontecer.

      Portela observa que ocorrências de chuva como as do início da semana acabam atrapalhando ao invés de ajudar. São precipitações que, além de não conseguirem repor os sistemas de irrigação, interrompem a preparação das terras. “Somente chuvas concentradas e volumosas, acima dos 100 milímetros, podem reverter o quadro”, segundo destaca.

 



       Sems decisivas

 

          Nos últimos anos, São Borja começou a semear mais cedo a lavoura de arroz. Áreas pontuais já são semeadas no final de agosto e as demais, a partir de 10 de setembro como regra geral. Desta forma, é indispensável que o retorno da chuva se dê de forma consistente já nas próximas semanas, para ao menos repetir a área plantada do ciclo 2020-21.

        Na penúltima safra, foram 37,5 mil hectares cultivados no município e no último ciclo (2020-21) foram 36,9 mil hectares. Em passado não muito distante, porém, o município, já registrou o plantio de  área superior a 50 mil hectares.    Um ‘fenômeno’  chamado soja é fator responsável  para isso.

      A maior liquidez da oleaginosa e a sua demanda e cotação crescentes no mercado internacional explicam por que menos arroz e mais soja. Os espaços destinados à pecuária também vêm perdendo terreno para os sojicultores. Muitos desses produtores vêm de fora do município.

       O escritório municipal da Emater ainda não cravou percentual, mas a convicção, desde já, é que a lavoura de soja no município terá nova expansão. No ciclo 2020-21 foram 75 mil hectares, quase 10% sobre a safra anterior. “O incremento ainda depende de uma série de variantes, mas o certo é que haverá novo aumento”, diz o diretor local da Emater, Odacir Decol.

 

        Insumos: caros e escassos

       

     Acostumado com a rotina de diversas culturas, como arroz, soja, milho e trigo, o multiprodutor Jones Dalla Porta vive um momento de incertezas em relação à futura lavoura orizícola. “O  que já é certo é que, neste ano, não haverá expansão da área  semeada”, diz ele. Além de todos os demais fatores adversos, o empresário rural ressalta  que os custos de produção estão muito altos.

        Dalla Porta se queixa de que, devido à pandemia, a escala de produção dos insumos de modo geral e também de máquinas e implementos agrícolas caiu no mundo inteiro. “Isso afetou  diretamente a oferta e, como consequência, provocou uma significativa elevação de preços”, relata.  Ele acha que os produtores, antes de plantarem, estarão atentos não apenas ao  clima, mas também a toda a conjuntura econômica.

 



      Outros fatores

 

      O regime insuficiente e irregular de chuvas, há mais de um ano e que provoca déficit hídrico  histórico, é atribuído ao fenômeno climático La Niña. Há indicadores de que, depois um hiato na escassez de chuvas, haveria reprise do déficit  pluviométrico, uma vez passada a  primavera.  Existe ainda a tese de pesquisadores de que os desarranjos do clima no Sul do país – secas, temporais e desregulação geral - têm a ver, também, com os desarranjos e agressões na Amazônia.

      O fato é que, de qualquer modo, o rio Uruguai em São Borja, por exemplo, se mantém há quase dois anos a menos de três metros acima do nível. O que então esperar dos rios menores, sangas e barragens?   Isso explica por que cada vez mais produtores implantam seus sistemas de irrigação, para depender menos de ‘São Pedro’.

       Para piorar mais o cenário, não se descarta um apagão no fornecimento de energia elétrica no país. A causa central é a falta de chuvas na região Sudeste, que concentra 70% da energia gerada pelas hidrelétricas brasileiras. A retomada das atividades econômicas no pós-pandemia e a consequente maior demanda energética seria outro fator determinante para um possível colapso.

        Apagão ou racionamento, o certo é que o risco de desabastecimento não está descartado. No caso do sistema de irrigação e dos levantes das lavouras de arroz seria outro impactante fator negativo.  O sistema de regulação do governo federal diz que trabalha para que nada aconteça.

 


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