Volta da
inflação, seca, crise hídrica
e geadas
pioram o cenário no país
Nos supermercados,
Brasil afora, volta a frenética rotina da remarcação de preços. O país nem bem
tinha saído do que os economistas consideram a segunda década perdida em menos
de 50 anos, eis que chega a Covid. Para completar a tempestade perfeita, a rebeldia
climática também cobra a sua conta. Especialistas asseguram que o aquecimento
global, em escala planetária, é que nos está trazendo eventos mais severos e
mais frequentes, como ondas de frio extremo, formações de geada, enchentes localizadas,
secas em outras regiões e, junto, a crise hídrica.
Com tantos
fatores adversos, retorna na mesma esteira o fantasma da inflação à brasileira.
De janeiro a julho de 2021, ela já acumula 4,7%. Se considerados os últimos 12
meses, o índice sobe para 9%. Essa fúria
inflacionária vem da pandemia, da gestão pública, da conta de luz, dos
combustíveis, dos pastos, dos pomares e das plantações. E os mais pobres, que engrossam a base da
pirâmide social, são os mais castigados.
Indicadores
assustam
Só ao longo do
mês de julho, a tarifa de energia elétrica subiu 7,9% e a previsão é que vá continuar
seus choques de alta, neste e no próximo ano. A razão principal apontada pelo
governo federal é a crise hídrica, provocada pela mais dura estiagem em mais de
90 anos. A seca atinge as regiões no país onde estão os sistemas que abastecem
as maiores hidrelétricas. Elas, no conjunto, respondem por 70% da nossa geração de energia. É
preciso, então, usar usinas termoelétricas, sabidamente bem mais caras. Apagão
e racionamento também não são descartados.
Os combustíveis, com
efeito cascata para a espiral inflacionária, também não param de subir. O gás
de cozinha vendido a mais de R$ 100 na região, botijão de 13 quilos, torna-se
inviável para as famílias de renda mais baixa ou sem rendimentos. Nos últimos
12 meses é de 33% a majoração neste item essencial.
A gasolina já teve alta 10 vezes este ano,
superando os 51%. Além das sucessivas remarcações
nas refinarias, os tributos vão às alturas. No Rio
Grande do Sul, é de 30% a alíquota de ICMS para a energia elétrica, os combustíveis
e as telecomunicações.
O flagelo
social do desemprego crônico no Brasil
só teima em crescer. São pelo menos 14,8 milhões de trabalhadores formais
desempregados, mais um sem-número daqueles desalentados ou que sobrevivem de
bicos, a duras penas. Só os informais são 34% dos operários. O presidente Jair
Bolsonaro atribui esse quadro caótico ao “ficar em casa durante a pandemia”.
Pode ser um dos
fatores, mas não é o único. A economista Paula Magalhães aponta que só a conta
de luz subiu 15% este ano. Os alimentos são um dos segmentos de consumo que
mais impactam o custo de vida, juntamente com habitação. Inadimplências e
despejos aos sem casa própria são cada vez mais frequentes. “Para quem ganha
até R$ 1,6 mil por mês a inflação é maior, de 10% nos últimos 12 meses”,
ressalta a economista.
Retomada difícil
Há consenso que a superação da crise
passa pela geração de empregos, investimentos em infraestrutura e reaquecimento
da economia. Entretanto, no durante e no pós-pandemia, não será fácil fazer a
roda girar. Faltam insumos na maioria dos setores, principalmente na indústria.
A escassez leva à inflação dos preços, tanto dos insumos como dos produtos
finais. Alimentos do dia a dia na mesa
dos brasileiros – arroz, feijão, óleo, carnes, farinha, hortigranjeiros e
frutas – sobem bem além da inflação, devido às adversidades climáticas e à
pandemia.
Paula Magalhães
projeta que, neste ano, a inflação chegue até a 7,5%, bem acima da meta. Já os juros devem ir a 8% no fim do ano, como
mecanismo de controle inflacionário. Para 2022, ela prevê que o crescimento do
PIB brasileiro deve ficar na casa dos 2%, abaixo, portanto, dos 3,5% a
princípio pensados.
Aquecimento
global
Nas últimas semanas, o clima tem se rebelado em todos os cantos do planeta. Calor extremo e incêndios no Ártico, Sibéria, Estados Unidos e Canadá, por exemplo. Enchentes na China – 660 milímetros de chuva em dois dias e 3,5 milhões de pessoas evacuadas. Inundações também na Índia, na Alemanha e em regiões norte-americanas. No Brasil, um pouco de tudo: enchente na Amazônia, seca no Sudeste e Centro-Oeste e três ondas de frio recorde no Sul, com neve e intensas formações de geada, além da seca.
Os eventos
contrastantes e extremos são os mais severos nas últimas décadas. O climatologista José Marengo, coordenador do
Centro Nacional de Monitoramento de Clima e Desastres Naturais, alerta que
fenômenos como estes tendem a ser mais intensos e recorrentes a partir de agora. Ele entende que esse é o
preço do aquecimento global, que provoca o efeito estufa. “Essas manifestações
são reações do clima às agressões humanas, praticadas contra o ecossistema”,
analisa o especialista.
De 1850 até agora, a temperatura subiu, em média, 1,2 º C no globo terrestre. Se nada for feito em relação a ações práticas coletivas de controle, até 2030 a elevação será de até mais 2ºC. Marengo adverte que, além da redução efetiva nos combustíveis fósseis por Estados Unidos e China, as duas maiores potências econômicas, toda a humanidade tem de pegar junto, para evitar o caos. O Brasil é o sexto maior poluidor no mundo.
O climatologista José Marengo acha indispensável que sejam cessadas as ações de desmatamento e, no caso do Brasil, a preservação da Amazônia é uma questão emblematicamente crucial. Se essa floresta não for protegida, logo, a tendência é de desertificação na região, e com reflexos para todo o território nacional. O Centro-Oeste brasileiro, por exemplo, hoje o maior produtor de grãos no país, pode ter comprometido o seu agronegócio. As queimadas recentes no Pantanal também assustam em relação ao futuro, diz o especialista. A receita que apresenta é de construção de uma conscientização geral para evitar que o pior nos aconteça.
Retrato
são-borjense
Desde o ano
passado, a irregularidade nos ciclos do clima é atribuída ao La Niña. No
entanto, o atual período de inverno é considerado de neutralidade pelos
climatologistas. Apesar disso, São Borja e outros municípios na região Fronteira
Oeste-Missões registraram mais de 50 dias praticamente sem chuva. As
ocorrências desta semana são são bem-vindas, mas longe de cobrir o déficit
hídrico existente. Algum outro fator,
portanto, deve ser causador deste quadro devastador.
Para a produção
agropecuária a situação é apreensiva. Os campos nativos foram dizimados pela
seca e as geadas, e o gado encontra pouco o que comer (nas imagens de Roger
Portela). Em relação às lavouras, a de trigo, plantada em 20 mil hectares no município,
virou uma grande incógnita. O tamanho da futura cultura de arroz, também é
incerto, devido ao baixo nível das barragens de irrigação (nas fotos de Ado
Fiorin). O milho tem retarda o início de plantio e deve reduzir a área no cedo.
Também o plantio de soja, é uma interrogação, mesmo ainda havendo tempo de
espera.






Nenhum comentário:
Postar um comentário