quinta-feira, 26 de agosto de 2021

A TEMPESTADE PERFEITA


Volta da inflação, seca, crise hídrica

e geadas pioram o cenário no país

 



     Nos supermercados, Brasil afora, volta a frenética rotina da remarcação de preços. O país nem bem tinha saído do que os economistas consideram a segunda década perdida em menos de 50 anos, eis que chega a Covid. Para completar a tempestade perfeita, a rebeldia climática também cobra a sua conta. Especialistas asseguram que o aquecimento global, em escala planetária, é que nos está trazendo eventos mais severos e mais frequentes, como ondas de frio extremo, formações de geada, enchentes localizadas, secas em outras regiões e, junto, a  crise hídrica.

      Com tantos fatores adversos, retorna na mesma esteira o fantasma da inflação à brasileira. De janeiro a julho de 2021, ela já acumula 4,7%. Se considerados os últimos 12 meses, o índice sobe para 9%.  Essa fúria inflacionária vem da pandemia, da gestão pública, da conta de luz, dos combustíveis, dos pastos, dos pomares e das plantações.  E os mais pobres, que engrossam a base da pirâmide social, são os mais castigados.

 

        Indicadores assustam

 




        Só ao longo do mês de julho, a tarifa de energia elétrica subiu 7,9% e a previsão é que vá continuar seus choques de alta, neste e no próximo ano. A razão principal apontada pelo governo federal é a crise hídrica, provocada pela mais dura estiagem em mais de 90 anos. A seca atinge as regiões no país onde estão os sistemas que abastecem as maiores hidrelétricas. Elas, no conjunto, respondem  por 70% da nossa geração de energia. É preciso, então, usar usinas termoelétricas, sabidamente bem mais caras. Apagão e racionamento também não são descartados.

      Os combustíveis, com efeito cascata para a espiral inflacionária, também não param de subir. O gás de cozinha vendido a mais de R$ 100 na região, botijão de 13 quilos, torna-se inviável para as famílias de renda mais baixa ou sem rendimentos. Nos últimos 12 meses é de 33% a majoração neste item essencial.

      A gasolina já teve alta 10 vezes este ano, superando os 51%.  Além das sucessivas remarcações nas   refinarias, os tributos vão às alturas. No Rio Grande do Sul, é de 30% a alíquota de ICMS para a energia elétrica, os combustíveis e as telecomunicações.

        O flagelo social do desemprego crônico no  Brasil só teima em crescer. São pelo menos 14,8 milhões de trabalhadores formais desempregados, mais um sem-número daqueles desalentados ou que sobrevivem de bicos, a duras penas. Só os informais são 34% dos operários. O presidente Jair Bolsonaro atribui esse quadro caótico ao “ficar em casa durante a pandemia”.

       Pode ser um dos fatores, mas não é o único. A economista Paula Magalhães aponta que só a conta de luz subiu 15% este ano. Os alimentos são um dos segmentos de consumo que mais impactam o custo de vida, juntamente com habitação. Inadimplências e despejos aos sem casa própria são cada vez mais frequentes. “Para quem ganha até R$ 1,6 mil por mês a inflação é maior, de 10% nos últimos 12 meses”, ressalta a economista.

 

         Retomada difícil  

 



         Há consenso que a superação da crise passa pela geração de empregos, investimentos em infraestrutura e reaquecimento da economia. Entretanto, no durante e no pós-pandemia, não será fácil fazer a roda girar. Faltam insumos na maioria dos setores, principalmente na indústria. A escassez leva à inflação dos preços, tanto dos insumos como dos produtos finais.  Alimentos do dia a dia na mesa dos brasileiros – arroz, feijão, óleo, carnes, farinha, hortigranjeiros e frutas – sobem bem além da inflação, devido às adversidades climáticas e à pandemia.

      Paula Magalhães projeta que, neste ano, a inflação chegue até a 7,5%, bem acima da meta.  Já os juros devem ir a 8% no fim do ano, como mecanismo de controle inflacionário. Para 2022, ela prevê que o crescimento do PIB brasileiro deve ficar na casa dos 2%, abaixo, portanto, dos 3,5% a princípio pensados.

 

        Aquecimento global

 




     Nas últimas semanas, o clima tem se rebelado em todos os cantos do planeta.  Calor extremo e incêndios no Ártico,  Sibéria, Estados Unidos e Canadá, por exemplo. Enchentes na China – 660 milímetros de chuva em dois dias e 3,5 milhões de pessoas evacuadas. Inundações também na Índia, na Alemanha e em regiões norte-americanas. No Brasil, um pouco de tudo:  enchente na Amazônia, seca no Sudeste e Centro-Oeste e três ondas de frio recorde no Sul, com neve e intensas formações de geada, além da seca.

      Os eventos  contrastantes e extremos são os mais severos nas últimas décadas. O  climatologista José Marengo, coordenador do Centro Nacional de Monitoramento de Clima e Desastres Naturais, alerta que fenômenos como estes tendem a ser mais intensos e recorrentes  a partir de agora. Ele entende que esse é o preço do aquecimento global, que provoca o efeito estufa. “Essas manifestações são reações do clima às agressões humanas, praticadas contra o ecossistema”, analisa o especialista.

       De 1850 até agora, a temperatura subiu, em média, 1,2 º C no globo terrestre. Se nada for feito em relação a ações práticas coletivas de controle, até 2030 a elevação será de até mais 2ºC. Marengo adverte que, além da redução efetiva nos combustíveis fósseis por Estados Unidos e China, as duas maiores potências econômicas, toda a humanidade tem de pegar junto, para evitar o caos. O Brasil é o sexto maior poluidor no mundo.



     O climatologista José Marengo acha indispensável que sejam cessadas as ações de desmatamento e, no caso do Brasil, a preservação da Amazônia é uma questão emblematicamente crucial. Se essa floresta não for protegida, logo, a tendência é de desertificação na região, e com reflexos para todo o território nacional. O Centro-Oeste brasileiro, por exemplo, hoje o maior produtor de grãos no país, pode ter comprometido o seu agronegócio. As queimadas recentes no Pantanal também assustam em relação ao futuro, diz o especialista. A receita que apresenta é de construção de uma conscientização geral para evitar que o pior nos aconteça.

 

     Retrato são-borjense

 



       Desde o ano passado, a irregularidade nos ciclos do clima é atribuída ao La Niña. No entanto, o atual período de inverno é considerado de neutralidade pelos climatologistas. Apesar disso, São Borja e outros municípios na região Fronteira Oeste-Missões registraram mais de 50 dias praticamente sem chuva. As ocorrências desta semana são são bem-vindas, mas longe de cobrir o déficit hídrico existente.  Algum outro fator, portanto, deve ser causador deste quadro devastador.

        Para a produção agropecuária a situação é apreensiva. Os campos nativos foram dizimados pela seca e as geadas, e o gado encontra pouco o que comer (nas imagens de Roger Portela). Em relação às lavouras, a de trigo, plantada em 20 mil hectares no município, virou uma grande incógnita. O tamanho da futura cultura de arroz, também é incerto, devido ao baixo nível das barragens de irrigação (nas fotos de Ado Fiorin). O milho tem retarda o início de plantio e deve reduzir a área no cedo. Também o plantio de soja, é uma interrogação, mesmo ainda havendo tempo de espera.     

        

Nenhum comentário:

Postar um comentário