“Na
correlação de forças e luta de classes,
a política
neoliberal afetou o sindicalismo”
A sua trajetória é marcada, aos 61 anos, à militância sindical e à mobilização em torno das causas comunitárias, como através dos Coredes. Este é Hugo Reginaldo Marques Chimenes, o conhecido Hugo Chimenes (foto arquivo pessoal). Nesta entrevista ao BlogAlberiCogo, ele avalia a conjuntura do sindicalismo brasileiro e queixa-se do neoliberalismo e das reformas trabalhista.
Chimenes sempre
atuou em defesa dos sindicatos. É industriário
da Alimentação e fundador da Associação Profissional dos Trabalhadores na Alimentação de São Borja, presidindo atualmente
a entidade operária no setor. Já foi secretário de Formação Sindical da
Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação no Rio Grande do Sul.
Em outra frentes de
lutas, ainda foi presidente do Fórum dos Coredes do RS no período de agosto de
2011 a outubro 2013. No Conselho de Desenvolvimento da Fronteira Oeste exerceu as funções de tesoureiro,
vice-presidente e presidente. Atualmente é o vice-presidente da instituição. “Não somos apenas a Consulta Popular; nós
pensamos o desenvolvimentos das regiões gaúchas”, ressalta. O sindicalista e
líder comunitário é são-borjense e vive uma união estável, há 10 anos, com a
professora Neuza Maria de Araújo. É pai de três filhos. Já atuou em ações
partidárias, mas hoje descarta. Confira
a entrevista.
Alberi Cogo - As suas ações têm sido marcadas, nas últimas
décadas, pela atuação no movimento sindical. A impressão é que o sindicalismo
se vê, gradativamente, enfraquecido no país. Está correta esta afirmativa?
Hugo Chimenes - Não digo que
enfraquecido, mas as mudanças são geradas pelo ajuste neoliberal da década de 1990.
Foram o fruto de grandes disputas no
terreno da luta de classes. Isso não
necessariamente iniciou neste
período; o mais provável , inclusive é que seja parte de um processo mais
amplo, e a década de 90 é um marco fundamental. É o resultado das modificações no patamar de
correlação de forças entre as classes e na forma de organização dos seus
mecanismos de disputas de hegemonia. Precisamos analisar a correlação existente
entre o avanço do ajuste neoliberal e a capacidade de organização das classes
subalternas, mais especificamente no movimento sindical. Essa reestruturação e
o processo de modelagem do mundo do trabalho não seriam possíveis sem o aumento
do controle sobre os trabalhadores. Com isso diminui a capacidade de organização operária, tendo a
colaboração da nossa estrutura sindical, que só permite a organização do portão
pra fora.
AC - Nos últimos anos, mudou a legislação em relação às
normas trabalhistas e à arrecadação dos sindicatos. Em que medida isso afetou o
movimento sindical?
HC - A reforma trabalhista
implementada em 2017 foi o grande mote na época para acabar com o Imposto
Sindical, correspondente a um dia de
trabalho descontado, em março de cada ano. Isso fez com que as fake news
superassem o debate correto, que era pressionar a Câmara e o Senado para manter
e garantir os nossos direitos. O projeto
enviado pelo presidente Temer tinha meia dúzia de artigos que seriam discutidos
e possivelmente modificados, mas, na Câmara foram 54 artigos alterados,
nove revogados e 43 criados. E na grande
maioria piorando o que já não era bom aos trabalhadores. Claro que os sindicatos
que viviam só do Imposto Sindical ou fecharam ou estão prestes a
fecharem, inclusive entidades patronais.
Hoje tem que se ter muito mais
cuidado. As negociações mal feitas podem
jogar fora os direitos de uma categoria toda, já que após, essa reforma,
prevalece o negociado sobre o legislado. Então nada que esteja ruim que não
possa piorar. Na semana passada a Câmara Federal aprovou a MP 1045/21, que
deveria tratar apenas de políticas de proteção ao emprego durante a pandemia,
mas com as emendas incluídas, chamadas de jabutis acrescentando, uma série de
itens, retiram direitos. Com isso, virou
mais uma minirreforma trabalhista. Agora o nosso trabalho é convencer os
senadores a não aprovarem esse monstrengo que a Câmara aprovou.
AC - A atual
polarização política também tem chegado aos sindicalistas e suas entidades?
HC - Acredito que as entidades são
constituídas pelo conjunto de seus integrantes, em que cada um tem as suas
preferencias políticas, o que é salutar.
Agora os dirigentes sindicais têm o dever e obrigação de mostrar para a sua
categoria o que está acontecendo no momento com relação ao atual governo, que
desde a campanha afirmou que direitos ficariam em segundo plano. Pelos projetos
mandados ao Congresso tem se confirmado. O que não dá para aceitar é aceitar
tudo passivamente e depois querer que a direção do sindicato faça milagre nas
negociações.
AC - São Borja chegou
a tentar a uma espécie de União Sindical, mas, aparentemente, a tentativa não
foi adiante. O senhor acha possível unificar a base operária?
HC - Pode não ter cartorialmente a unificação das entidades
em um lugar definido, mas temos nos reunidos e realizado atividades com uma boa
parcela das entidades de nossa cidade. Sempre respeitando as particularidades
que cada uma tem.
AC - Em geral, a
cúpula dos sindicatos locais se renova pouco. Na sua avaliação, por que isso
acontece?
HC - Acredito que pela cultura de
esperar que alguém faça pra mim. Dai eu fico esperando as coisas acontecerem.
Não é por falta de comunicado que tem eleições. A nossa entidade, além do edital em jornal,
também publica nos locais de trabalho o edital com prazo bem considerável para
inscrições de chapas. Também pelo mundo que vivemos hoje, onde cada um busca
pra si, não pensando no coletivo, e o trabalho sindical é bem ao contrário
dessa máxima.
AC - O seu sindicato, das Indústrias na Alimentação, é diretamente ligado ao beneficiamento de arroz.
Como está a situação dos trabalhadores no setor, considerando que a produção
orizícola em São Borja se dá, gradualmente, em áreas menores?
HC - Diferente dos anos 1990,
quando tínhamos em torno de dois mil
trabalhadores, hoje temos na casa de mil. Nesse patamar, a categoria se mantém estável nos últimos anos. Só um fato “atípico” pode mudar esse quadro
na categoria. A redução de área não tem
se refletido nas vagas de emprego nas indústrias da alimentação, já que a
produtividade tem sido maior. O que lamentamos é a saída de arroz em casca
produzido em nosso aqui, deixando de agregar valores ao nosso município.
AC - Além da atividade sindical, o senhor tem sua trajetória
marcada por atuação no Conselho Regional de Desenvolvimento da Fronteira Oeste.
Que análise o senhor faz sobre o atual papel dos Coredes?
HC - Devido à pandemia ficou
bastante prejudicado o trabalho dos Coredes, mesmo assim no ano passado
realizamos o processo da Consulta Popular todo de forma digital, inclusive as
assembleias públicas municipais. Isso na Fronteira Oeste é bastante complicado, devido
à dificuldade de acesso à internet, que ainda deixa a desejar.
AC - Os recursos do
Estado destinados à Consulta Popular normalmente têm diminuído. Mesmo assim,
segue justificada a existência dos Coredes como instrumento de encaminhamento
das demandas comunitárias?
HC - As pessoas reconhecem os Coredes
pela participação na Consulta Popular,
mas o trabalho não se resume a ela. Tem também discussão de desenvolvimento das 28
regiões gaúchas, êem os planejamentos que são realizados e a busca de suas /. O
desejo que consta nas cartas de avaliações dos Coredes é que o estado destine 5% do orçamento para
discussão e implementação nas comunidades regionais. O atual governo tirou R$ 55
milhões que eram destinados às regiões via discussão da Consulta Popular e
destinou aos deputados para apresentarem emendas. Os Cordes focaram com só R$
20 milhões no orçamento de 2021.
AC - Que proposições mais relevantes da Consulta Popular
seguem pendentes de atendimento em São Borja e na região?
HC - Como a região Fronteira Oeste
nos últimos anos tem privilegiado através de votação popular as áreas do
Turismo e Agricultura (Agroindústrias), são essas áreas que ainda têm
pagamentos em aberto, tanto na forma de Convênio ou Financiamento. A partir de
setembro começam as discussões através de assembleias regionais para o
orçamento de 2022 nas regiões. Aguardamos por parte do governo a liberação de
recursos previstos para a nossa região.
AC - O senhor já concorreu a prefeito, mas, ao que parece,
tem se distanciado da militância partidária.
Ou tem planos futuros de nova candidatura?
HC - Desde 2010 não tenho mais
filiação partidária e hoje não tenho planos. Apesar disso, o assédio sempre
exista, mas prefiro continuar fazendo esse trabalho comunitário na região.

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