sexta-feira, 27 de agosto de 2021

ENTREVISTA: Hugo Reginaldo Marques Chimenes

 


“Na correlação de forças e luta de classes,

a política neoliberal afetou o sindicalismo”



     A sua trajetória é marcada, aos 61 anos, à militância sindical e à mobilização em torno das causas comunitárias, como através dos Coredes. Este é Hugo Reginaldo  Marques Chimenes, o conhecido Hugo Chimenes (foto arquivo pessoal). Nesta entrevista ao BlogAlberiCogo, ele avalia a conjuntura do sindicalismo brasileiro e queixa-se do neoliberalismo e das reformas trabalhista.

     Chimenes sempre atuou em defesa dos sindicatos. É  industriário da Alimentação e fundador da Associação Profissional dos Trabalhadores na  Alimentação de São Borja, presidindo atualmente a entidade operária no setor. Já foi secretário de Formação Sindical da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação no Rio Grande do Sul.

   Em outra frentes de lutas, ainda foi presidente do Fórum dos Coredes do RS no período de agosto de 2011 a outubro 2013. No Conselho de Desenvolvimento da  Fronteira Oeste exerceu as funções de tesoureiro, vice-presidente e presidente. Atualmente é o vice-presidente da instituição.  “Não somos apenas a Consulta Popular; nós pensamos o desenvolvimentos das regiões gaúchas”, ressalta. O sindicalista e líder comunitário é são-borjense e vive uma união estável, há 10 anos, com a professora Neuza Maria de Araújo. É pai de três filhos. Já atuou em ações partidárias, mas hoje descarta.  Confira a entrevista.

 

Alberi Cogo - As suas ações têm sido marcadas, nas últimas décadas, pela atuação no movimento sindical. A impressão é que o sindicalismo se vê, gradativamente, enfraquecido no país. Está correta esta afirmativa?

Hugo Chimenes - Não digo que enfraquecido, mas as mudanças são geradas pelo ajuste neoliberal da década de 1990. Foram o  fruto de grandes disputas no terreno da luta de classes. Isso não  necessariamente iniciou  neste período; o mais provável , inclusive é que seja parte de um processo mais amplo, e a década de 90 é um marco fundamental.  É o  resultado das modificações no patamar de correlação de forças entre as classes e na forma de organização dos seus mecanismos de disputas de hegemonia. Precisamos analisar a correlação existente entre o avanço do ajuste neoliberal e a capacidade de organização das classes subalternas, mais especificamente no movimento sindical. Essa reestruturação e o processo de modelagem do mundo do trabalho não seriam possíveis sem o aumento do controle sobre os trabalhadores. Com isso diminui a  capacidade de organização operária, tendo a colaboração da nossa estrutura sindical, que só permite a organização do portão pra fora. 

 

AC - Nos últimos anos, mudou a legislação em relação às normas trabalhistas e à arrecadação dos sindicatos. Em que medida isso afetou o movimento sindical?

HC - A reforma trabalhista implementada em 2017 foi o grande mote na época para acabar com o Imposto Sindical, correspondente a um  dia de trabalho descontado, em março de cada ano. Isso fez com que as fake news superassem o debate correto, que era pressionar a Câmara e o Senado para manter e garantir os nossos direitos. O  projeto enviado pelo presidente Temer tinha meia dúzia de artigos que seriam discutidos e possivelmente modificados, mas, na Câmara foram  54 artigos alterados, nove  revogados e 43 criados. E na grande maioria piorando o que já não era bom aos trabalhadores. Claro que os sindicatos que viviam só do Imposto Sindical ou fecharam ou estão prestes a fecharem, inclusive entidades  patronais. Hoje tem que se ter muito mais cuidado. As  negociações mal feitas podem jogar fora os direitos de uma categoria toda, já que após, essa reforma, prevalece o negociado sobre o legislado. Então nada que esteja ruim que não possa piorar. Na semana passada a Câmara Federal aprovou a MP 1045/21, que deveria tratar apenas de políticas de proteção ao emprego durante a pandemia, mas com as emendas incluídas, chamadas de jabutis acrescentando, uma série de itens,  retiram direitos. Com isso, virou mais uma minirreforma trabalhista. Agora o nosso trabalho é convencer os senadores a não aprovarem esse monstrengo que a Câmara aprovou.

 

AC -   A atual polarização política também tem chegado aos sindicalistas e suas entidades?

HC - Acredito que as entidades são constituídas pelo conjunto de seus integrantes, em que cada um tem as suas preferencias políticas,  o que é salutar. Agora os dirigentes sindicais têm o dever e obrigação de mostrar para a sua categoria o que está acontecendo no momento com relação ao atual governo, que desde a campanha afirmou que direitos ficariam em segundo plano. Pelos projetos mandados ao Congresso tem se confirmado. O que não dá para aceitar é aceitar tudo passivamente e depois querer que a direção do sindicato faça milagre nas negociações. 

 

AC -   São Borja chegou a tentar a uma espécie de União Sindical, mas, aparentemente, a tentativa não foi adiante. O senhor acha possível unificar a base operária?

HC - Pode não ter cartorialmente a unificação das entidades em um lugar definido, mas temos nos reunidos e realizado atividades com uma boa parcela das entidades de nossa cidade. Sempre respeitando as particularidades que cada uma tem.

 

AC -   Em geral, a cúpula dos sindicatos locais se renova pouco. Na sua avaliação, por que isso acontece?

HC - Acredito que pela cultura de esperar que alguém faça pra mim. Dai eu fico esperando as coisas acontecerem. Não é por falta de comunicado que tem eleições. A  nossa entidade, além do edital em jornal, também publica nos locais de trabalho o edital com prazo bem considerável para inscrições de chapas. Também pelo mundo que vivemos hoje, onde cada um busca pra si, não pensando no coletivo, e o trabalho sindical é bem ao contrário dessa máxima.    

 

AC - O seu sindicato, das Indústrias na Alimentação, é  diretamente ligado ao beneficiamento de arroz. Como está a situação dos trabalhadores no setor, considerando que a produção orizícola em São Borja se dá, gradualmente, em áreas menores?

HC - Diferente dos anos 1990, quando  tínhamos em torno de dois mil trabalhadores, hoje temos na casa de mil. Nesse patamar, a  categoria se mantém  estável nos últimos anos.  Só um fato “atípico” pode mudar esse quadro na categoria.  A redução de área não tem se refletido nas vagas de emprego nas indústrias da alimentação, já que a produtividade tem sido maior. O que lamentamos é a saída de arroz em casca produzido em nosso aqui, deixando de agregar valores ao nosso município.

 

AC - Além da atividade sindical, o senhor tem sua trajetória marcada por atuação no Conselho Regional de Desenvolvimento da Fronteira Oeste. Que análise o senhor faz sobre o atual papel dos Coredes?

HC - Devido à pandemia ficou bastante prejudicado o trabalho dos Coredes, mesmo assim no ano passado realizamos o processo da Consulta Popular todo de forma digital, inclusive as assembleias públicas municipais. Isso na  Fronteira Oeste é bastante complicado, devido à dificuldade de  acesso à internet,  que ainda deixa a desejar.

 

AC -   Os recursos do Estado destinados à Consulta Popular normalmente têm diminuído. Mesmo assim, segue justificada a existência dos Coredes como instrumento de encaminhamento das  demandas comunitárias?

HC - As pessoas reconhecem os Coredes  pela participação na Consulta Popular, mas o trabalho não se resume a ela. Tem  também discussão de desenvolvimento das 28 regiões gaúchas, êem os planejamentos que são realizados e a busca de suas /. O desejo que consta nas cartas de avaliações dos Coredes  é que o estado destine 5% do orçamento para discussão e implementação nas comunidades regionais. O atual governo tirou R$ 55 milhões que eram destinados às regiões via discussão da Consulta Popular e destinou aos deputados para apresentarem emendas. Os Cordes focaram com só R$ 20 milhões no orçamento de 2021.

   

AC - Que proposições mais relevantes da Consulta Popular seguem pendentes de atendimento em São Borja e na região?

HC - Como a região Fronteira Oeste nos últimos anos tem privilegiado através de votação popular as áreas do Turismo e Agricultura (Agroindústrias), são essas áreas que ainda têm pagamentos em aberto, tanto na forma de Convênio ou Financiamento. A partir de setembro começam as discussões através de assembleias regionais para o orçamento de 2022 nas regiões. Aguardamos por parte do governo a liberação de recursos previstos para a nossa região.

 

AC - O senhor já concorreu a prefeito, mas, ao que parece, tem se distanciado da militância partidária.  Ou tem planos futuros de nova candidatura?

HC - Desde 2010 não tenho mais filiação partidária e hoje não tenho planos. Apesar disso, o assédio sempre exista, mas prefiro continuar fazendo esse trabalho comunitário na região.

 

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