São Borja precisa, sem
demora, fazer da
herança missioneiram produto
turístico
Em 2021, o
professor e pesquisador são-borjense José Fernando
Corrêa Rodrigues (foto arquivo pessoal), mestre em Patrimônio Cultural, conquistou
o Prêmio
Trajetórias Culturais Mestra Sirley Amaro, da Secretaria de Estado da
Cultura (Sedac/RS) no segmento Memória e Patrimônio. Aos 45 anos, residindo
atualmente em Santa Maria, Rodrigues tem pós-graduação e mestrado na área,
sendo um apaixonado pelas Missões. Para a sua São Borja dá um conselho: ter seu
um arqueólogo, realizar escavações e instituir política municipal para a
geração de produtos turístico-culturais.
Falando ao BlogAlberiCogo,
o estudioso da herança missioneira ainda
fala sobre os ‘subterrâneos’ da cidade, os sítios arqueológicos a serem
preservados e a importância do legado das reduções jesuíticas no Brasil,
Argentina e Paraguai como conteúdo pedagógico. Propõe, também, trabalhar mais o
tema nas escolas e universidades, como um pertencimento coletivo.
Fernando Rodrigues fez sua graduação em Administração com habilitação em
Comércio Exterior pela Universidade da Região da Campanha (Urcamp). Depois foi pós-graduado em Imagem, História e Memória das
Missões - Educação para o Patrimônio, pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa).
Pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, é mestre
em Patrimônio Cultural. É pesquisador da Identidade imaginária, memória e patrimônio das Missões,
membro do grupo de pesquisa Estudos Culturais e Áudio-visualidades da UFSM.
Em São Borja, foi diretor de Assuntos Culturais
e presidente do Centro Cultural. Atuou
como professor substituto de Administração no Instituto Federal Farroupilha
(IFFar) na cidade, entre 2014 e 2016. Coordenou
os projetos de extensão “Memória em Foco” e “Taji Poty: a educação patrimonial
e a valorização da cultura missioneira”. Em 2018/19 atuou como professor
contratado de Empreendedorismo e de Ética em curso Técnico em Informática do
Mediotec. Atualmente,
trabalha na área administrativa na UFSM através da Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia. Tem
experiência na área de Administração, Docência, Educação à Distância, Gestão
Cultural e Patrimonial. Natural de São Borja, Fernando é de filho de
Jesus e Doralina Rodrigues. É casado com
Cristina dos Santos de Freitas Rodrigues, que lhe deu os filhos Larissa (14 anos) e Lucas (9). Prepara um livro, que
sai até o final do ano. A seguir, a entrevista.
Alberi
Cogo - A Universidade Federal de
Santa Maria e o senhor produziram uma exposição sobre as referências da cultura
jesuítico-missioneira. Ao que sei, ela está em São Borja. Detalhas, por favor,
a respeito e sobre as formas de acesso.
Fernando Rodrigues - A exposição itinerante é o
produto que apresentamos como pré-requisito para a conclusão do Mestrado em
Patrimônio Cultural da UFSM. Chama-se “Identidade e imaginária
jesuítico-missioneira da Redução de São Francisco de Borja: Altares
particulares, da idolatria ao fogo.”, homônimo do título da dissertação.ós a aprovação
da banca de Mestrado em 2019, a exposição começou a circular, inicialmente
junto à Reitoria da UFSM e, posteriormente, na Reitoria do IFFar em Santa
Maria. A seguir, a exposição rumou para
São Borja, onde passou por diversas instituições educacionais e pelo Museu
Municipal Apparício Silva Rillo (o Museu Missioneiro local). Como a pandemia
impediu o acesso ao público, em 2020 transferimos a exposição para o Sítio
Preserva, de Tatiana Paz, onde
atualmente encontra-se à disposição para visitação gratuita. Isso pode ocorrer por agendamento, pelo Whatsapp (55)98433-4222.
Também em 2020 a mostra foi
disponibilizada de forma virtual através da Revista online São Borja (https://www.revistasaoborja.com.br).A
exposição é composta de quinze banners de lona. Procuramos utilizar
fontes padronizadas em todos os banners para facilitar a leitura, assim
como a tonalidade da cor. Lembrando que
o grés da pedra, o laranja da telha e a cor vermelha da terra são elementos que, simbolicamente, remetem à
origem missioneira.
AC - No contexto dos Sete Povos Missioneiros, que
herança material mais relevante ainda guarda São Borja?
FR - O patrimônio cultural jesuítico-missioneiro da
cidade de São Borja não está nas ruínas. Está presente nos “Santos”, no
conjunto de imaginárias esculpidas na Redução de São Francisco de Borja. Está presente no Museu, nas Igrejas e em cada altar
cultuado na cidade ou no interior. Está na imaterialidade da fé, resultante de
anos de adoração de seus proprietários e, principalmente, na formação
identitária dos são-borjenses. Podemos destacar como herança material mais
importante a escultura do padroeiro São Francisco de Borja, esculpida por
Brasanelli. É através dela que se
consegue identificar outras esculturas de autoria do artista, espalhadas pelo
Brasil, Paraguai e Argentina. É através
das técnica empregadas nas cavidades onduladas do manto que se identifica as
obras do mais importantes do artista na sua passagem pelas Missões.
AC - Em áreas rurais e urbanas, há indicativos do sítios arqueológicos materializando a presença de civilizações ancestrais. Dê algumas informações, por gentileza.
São Borja é uma cidade com um grande potencial
arqueológico, tanto do período reducional - onde a cidade moderna cresceu sobre a antiga
Redução, reutilizando os materiais das edificações -, como também em diversos
locais do interior do município que possuem vestígios de civilizações que
remontam presença humana de até sete mil anos atrás. Hoje, no cadastro nacional
de patrimônio arqueológico do IPHAN, São Borja aparece com 43 registros de sítios arqueológicos. Em
18/06/2018 o sítio arqueológico da Redução de São Francisco de Borja foi
reconhecido pelo IPHAN e encontra-se registrado no cadastro nacional de sítios
arqueológicos sob o nº RS03814. O que significa que qualquer ação de demolição, construção ou reforma que
interfira nos alicerces e paredes nos Imóveis da área demarcada. Corresponde ao
polígono preliminarmente protegido, configurado pelas ruas Coronel Lago, Félix
da Cunha, Barão de Rio Branco e Riachuelo. Para intervenções na região, é
preciso passar por vistoria arqueológica. As construções dentro desta poligonal
estão em cima de um dos sítios arqueológicos mais importantes do Rio Grande do
Sul. Outro exemplo são os cerrítos do Banhado M’Bororé, de riqueza arqueológica inexplorada na cidade.
Durante pesquisas de campo realizadas pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas
Arqueológicas (LEPA) da UFSM escavaram-se em São Borja, dois cerritos
denominados Butuy 1 e 2, em um local que apresenta potencial para mais de 150
aterros. Nas intervenções encontrou-se grande quantidade de material. Os
achados incluem uma significativa
quantidade de material lítico – cerca de cerca de 10 mil fragmentos com datação
de cerca de até 5000 aC.
AC - Aquela
versão de túneis e de tesouros escondidos pelos subterrâneos da cidade é só
lenda ou é verdadeiro?
FR - Muito dos fatos são ocasionados pelo
imaginário popular, especialmente os de tesouros escondidos pelos jesuítas. Mas
a versão de túneis não está descartada. Só poderíamos confirmar ou descartar
com um projeto de escavação arqueológica, semelhante ao que Santo Ângelo
executou e acabou descobrindo diversas estruturas e potencializou estes achados
como janelas arqueológicas para ajudar no desenvolvimento do turismo local. Existem em São Borja muitos relatos de
estruturas subterrâneas na Praça XV de Novembro e nos arredores do Colégio Sagrado
Coração de Jesus (das Irmãs), igreja matriz e alguns outros pontos isolados. Em residências, há registro de um
afundamento em uma garagem na Rua Bento Martins, também um forno jesuítico foi enterrado
na Rua Bompland e houve desabamento de um caminhão em um buraco na construção
de um prédio na rua Riachuelo. Em todos os casos a causa mais provável seriam a estruturas subterrâneas. No bairro
do Passo existe uma residência na Rua Patrício Petit Jean que possui um
depósito no subsolo com um túnel ou saída em direção ao rio. Todas são
situações que demandam de mais pesquisa.
AC - Normalmente falar da cultura jesuítico-guarani
não motiva a maioria, especialmente os mais jovens. O que fazer para que esse
resgate se faça interessante?
FR - Eu costumo dizer que o grande problema de São
Borja é educação patrimonial. É conhecer
para valorizar. No momento em que conhecemos nossas origens, nossa memória e
entendermos alguns significados que são comuns no cotidiano, passamos a
valorizar e difundir. Quando sabemos que o habito do churrasco e do chimarrão
foram implementados através da cultura missioneira, que o chã receita da vó tem
uma origem patrimonial missioneira, tudo fica mais fácil. Mas só tem um caminho, - educar jovens e adultos, para que também sejam propagadores da
nossa cultura. Em outras regiões do Estado, quando você chega para uma
entrevista de emprego em algumas empresas, a primeira coisa que é informado é
um pouco da história local, isso mostra o compromisso com o futuro e a
valorização da identidade local.
AC - Que sugestões o senhor oferece para
trabalhar o tema como conteúdo pedagógico nas escolas e universidades?
FR - O conteúdo sobre Missões ele é multidisciplinar,
pode ser trabalhado em todas as áreas do conhecimento. Vai muito da
criatividade do professor em adequar e desenvolver ações didáticas e
paradidáticas que consigam enriquecer a sua disciplina. Exemplo, em matemática
existe um relógio solar do período reducional no Museu Municipal que marcava a
hora da redução e de outras quatro cidades do mundo ao mesmo tempo. Uma visita
da turma ao local pode propor um desafio envolvendo o conteúdo, como um estudo
de ângulos, graus; pode ajudar a despertar o interesse dos alunos. Em artes,
oficinas com argila, maquetes e desenhos. Em português a linguagem, os termos
utilizados do guarani. Em química experiência com a pedra itacuru, a oxidação
da pedra. Outra forma é abrir espaços para outros pesquisadores participarem
das aulas com falas. Existem muitas atividades que podem ser implementadas,
muita coisa já vem sendo feita, especialmente nas universidades. Tem muita
pesquisa boa, de qualidade, mas que acaba ficando no âmbito da academia. Precisamos
de mais seminários públicos para difundir estas pesquisas, festivais de
documentários, etc. Para os professores, a dica é participarem dos projetos de
educação patrimonial oferecidos pela Unipampa e pelo IFFar, ali muita coisa boa
acontece e novas perspectivas pedagógicas surgem. Para os estudantes e
comunidade em geral, visitar os museus, participar das atividades culturais da
cidade, buscar leituras sobre nossa história, a Biblioteca Pública Municipal
tem um ótimo acervo.
AC - O
regime de cooperação aplicado pela nação guarani e os jesuítas chamou a atenção
dos europeus. Seria um modelo de socialismo nas Missões?
FR - Eu penso que não, embora tenha alguns
pesquisadores que criaram tese sobre o assunto como um modelo ideal utópico
socialista-comunista. Entendo como uma experiência social, humanitária,
civilizatória única na história da humanidade e que por um período deu certo.
Foi uma tentativa bem sucedida de instalação e desenvolvimento de uma vida
comunitária cristã, com grupos de indígenas que foram reduzidos ou aculturados
para a sociedade espanhola e à religião cristã.
AC - De que modo o senhor propõe a efetiva
interrelação dos Sete Povos Missioneiros como produto turístico-cultural?
FR - Tem muita coisa acontecendo, cada município
tem suas riquezas e necessidades de potencialização, precisa de apoio
institucional, pesquisa e principalmente integração entre os povos missioneiros com ações integradas em
prol do coletivo. São Borja em especial necessita de legislação municipal que
regule o sítio arqueológico, precisa de um arqueólogo nos quadros do município
e a execução urgente de um projeto de escavação arqueológica, para
potencializar os achados e tornar um atrativo a mais para o produto turístico,
além de um novo espaço para o Museu Missioneiro dentro do sítio arqueológico.
São Borja é a principal ligação entre as Missões do Brasil com as da Argentina
e Paraguai, aqui é a passagem dos turistas no circuito internacional. Precisamos
é estar atento ao que está acontecendo e trabalhar em conjunto com Santo Tomé,
na Argentina.
AC - Fala-se, frequentemente, em incrementar o
turismo a partir das 30 missões jesuíticas no Brasil, Argentina e Paraguai.
Isso é viável, na sua concepção?
FR - Com certeza. É tão viável que já não são mais
30 povos, são bem mais. Os itinerários culturais que buscam ligar cidades ou
povoados com remanescentes históricos semelhantes é uma indicação da Unesco para o desenvolvimento das regiões e teve as
primeiras abordagens em 1998. Hoje já tem três produtos em execução - o
“Caminho das Missões” no Brasil ligando os Sete Povos; o “Circuito
Internacional das Missões” ligando os 30 Povos entre Paraguai, Argentina e
Brasil; e agora o “Camino de los Jesuitas” ligando Bolívia, Paraguai,
Argentina, Brasil e Uruguai”.
AC - O que faz e fará Fernando Rodrigues, um apaixo nado pelas Missões, agora que concluiu Mestrado na área?
FR - Estamos sempre trabalhando, pesquisando,
contribuindo, incentivando e apoiando novas pesquisas e estudos sobre Missões.
Até o final do ano estaremos lançando um
livro englobando um recorte de minha pesquisa em prol da valorização da
identidade e memória Missioneira. Nele, busco mesclar experiências pessoais da
história missioneira de São Borja com a pesquisa realizada no Mestrado em
Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Santa Maria. Também estamos
inseridos em alguns grupos de pesquisa sobre Missões com o objetivo de dar
suporte aos municípios no desenvolvimento de ações para a integração nos
itinerários culturais.




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