sexta-feira, 13 de agosto de 2021

ENTREVISTA: José Fernando Corrêa Rodrigues

 

 

São Borja precisa, sem demora, fazer da

herança missioneiram produto turístico

 



   Em 2021, o professor e pesquisador  são-borjense  José Fernando  Corrêa Rodrigues (foto arquivo pessoal), mestre em Patrimônio Cultural, conquistou o  Prêmio Trajetórias Culturais Mestra Sirley Amaro, da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac/RS) no segmento Memória e Patrimônio. Aos 45 anos, residindo atualmente em Santa Maria, Rodrigues tem pós-graduação e mestrado na área, sendo um apaixonado pelas Missões. Para a sua São Borja dá um conselho: ter seu um arqueólogo, realizar escavações e instituir política municipal para a geração de produtos turístico-culturais.  

   Falando ao BlogAlberiCogo, o estudioso da herança missioneira ainda  fala sobre os ‘subterrâneos’ da cidade, os sítios arqueológicos a serem preservados e a importância do legado das reduções jesuíticas no Brasil, Argentina e Paraguai como conteúdo pedagógico. Propõe, também, trabalhar mais o tema nas escolas e universidades, como um pertencimento coletivo.   

 Fernando Rodrigues fez sua  graduação em Administração com habilitação em Comércio Exterior pela Universidade da Região da Campanha (Urcamp). Depois foi  pós-graduado em Imagem, História e Memória das Missões - Educação para o Patrimônio, pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, é   mestre em Patrimônio Cultural. É pesquisador da Identidade  imaginária, memória e patrimônio das Missões, membro do grupo de pesquisa Estudos Culturais e Áudio-visualidades da UFSM.  

Em São Borja, foi diretor de Assuntos Culturais e  presidente do Centro Cultural. Atuou como professor substituto de Administração no Instituto Federal Farroupilha (IFFar)  na cidade, entre 2014 e 2016. Coordenou os projetos de extensão “Memória em Foco” e “Taji Poty: a educação patrimonial e a valorização da cultura missioneira”. Em 2018/19 atuou como professor contratado de Empreendedorismo e de Ética em curso Técnico em Informática do Mediotec. Atualmente,  trabalha na área  administrativa na UFSM através da  Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia. Tem experiência na área de Administração, Docência, Educação à Distância, Gestão Cultural e Patrimonial. Natural de São Borja, Fernando é de filho de Jesus e Doralina Rodrigues.  É casado com Cristina dos Santos de Freitas Rodrigues, que lhe deu os filhos Larissa  (14 anos) e Lucas (9). Prepara um livro, que sai até o final do ano. A seguir, a entrevista.

 

Alberi Cogo -        A Universidade Federal de Santa Maria e o senhor produziram uma exposição sobre as referências da cultura jesuítico-missioneira. Ao que sei, ela está em São Borja. Detalhas, por favor, a respeito e sobre as formas de acesso.

Fernando Rodrigues - A exposição itinerante é o produto que apresentamos como pré-requisito para a conclusão do Mestrado em Patrimônio Cultural da UFSM. Chama-se “Identidade e imaginária jesuítico-missioneira da Redução de São Francisco de Borja: Altares particulares, da idolatria ao fogo.”, homônimo do título da dissertação.ós a aprovação da banca de Mestrado em 2019, a exposição começou a circular, inicialmente junto à Reitoria da UFSM e, posteriormente, na Reitoria do IFFar em Santa Maria. A seguir, a exposição  rumou para São Borja, onde passou por diversas instituições educacionais e pelo Museu Municipal Apparício Silva Rillo (o Museu Missioneiro local). Como a pandemia impediu o acesso ao público, em 2020 transferimos a exposição para o Sítio Preserva, de  Tatiana Paz, onde atualmente encontra-se à disposição para visitação gratuita. Isso pode ocorrer  por agendamento, pelo Whatsapp (55)98433-4222. Também em 2020 a mostra  foi disponibilizada de forma virtual através da Revista online São Borja (https://www.revistasaoborja.com.br).A exposição é composta de quinze banners de lona. Procuramos utilizar fontes padronizadas em todos os banners para facilitar a leitura, assim como a tonalidade da cor. Lembrando  que o  grés da pedra, o laranja da telha e a  cor vermelha da terra são  elementos que, simbolicamente, remetem à origem missioneira.

 

AC -    No contexto dos Sete Povos Missioneiros, que herança material mais relevante ainda guarda São Borja?

FR - O patrimônio cultural jesuítico-missioneiro da cidade de São Borja não está nas ruínas. Está presente nos “Santos”, no conjunto de imaginárias esculpidas na Redução de São Francisco de Borja. Está  presente no Museu, nas Igrejas e em cada altar cultuado na cidade ou no interior. Está na imaterialidade da fé, resultante de anos de adoração de seus proprietários e, principalmente, na formação identitária dos são-borjenses. Podemos destacar como herança material mais importante a escultura do padroeiro São Francisco de Borja, esculpida por Brasanelli. É  através dela que se consegue identificar outras esculturas de autoria do artista, espalhadas pelo Brasil, Paraguai e Argentina. É  através das técnica empregadas nas cavidades onduladas do manto que se identifica as obras do mais importantes do artista na sua passagem pelas  Missões.

 



AC - Em áreas rurais e urbanas, há indicativos do sítios arqueológicos materializando a presença de civilizações ancestrais. Dê algumas informações, por gentileza.

São Borja é uma cidade com um grande potencial arqueológico, tanto do período reducional  - onde   a cidade moderna cresceu sobre a antiga Redução, reutilizando os materiais das edificações -, como também em diversos locais do interior do município que possuem vestígios de civilizações que remontam presença humana de até sete mil anos atrás. Hoje, no cadastro nacional de patrimônio arqueológico do IPHAN, São Borja aparece com  43 registros de sítios arqueológicos. Em 18/06/2018 o sítio arqueológico da Redução de São Francisco de Borja foi reconhecido pelo IPHAN e encontra-se registrado no cadastro nacional de sítios arqueológicos sob o nº RS03814. O que significa que qualquer ação de demolição, construção ou reforma que interfira nos alicerces e paredes nos Imóveis da área demarcada. Corresponde ao polígono preliminarmente protegido, configurado pelas ruas Coronel Lago, Félix da Cunha, Barão de Rio Branco e  Riachuelo. Para intervenções na região, é preciso passar por vistoria arqueológica. As construções dentro desta poligonal estão em cima de um dos sítios arqueológicos mais importantes do Rio Grande do Sul. Outro exemplo são os cerrítos do Banhado M’Bororé,  de riqueza arqueológica inexplorada na cidade. Durante pesquisas de campo realizadas pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas Arqueológicas (LEPA) da UFSM escavaram-se em São Borja, dois cerritos denominados Butuy 1 e 2, em um local que apresenta potencial para mais de 150 aterros. Nas intervenções encontrou-se grande quantidade de material. Os achados incluem  uma significativa quantidade de material lítico – cerca de cerca de 10 mil fragmentos com datação de cerca de até 5000 aC.

 

AC - Aquela versão de túneis e de tesouros escondidos pelos subterrâneos da cidade é só lenda ou é verdadeiro?

FR - Muito dos fatos são ocasionados pelo imaginário popular, especialmente os de tesouros escondidos pelos jesuítas. Mas a versão de túneis não está descartada. Só poderíamos confirmar ou descartar com um projeto de escavação arqueológica, semelhante ao que Santo Ângelo executou e acabou descobrindo diversas estruturas e potencializou estes achados como janelas arqueológicas para ajudar no desenvolvimento do turismo local.  Existem em São Borja muitos relatos de estruturas subterrâneas na Praça XV de Novembro e nos arredores do Colégio Sagrado Coração de Jesus (das Irmãs), igreja matriz e alguns outros pontos  isolados. Em residências, há registro de    um afundamento em uma garagem na Rua Bento Martins, também um forno jesuítico foi enterrado na Rua Bompland e houve desabamento de um caminhão em um buraco na construção de um prédio na rua Riachuelo. Em todos os casos  a causa mais provável  seriam a estruturas subterrâneas. No bairro do Passo existe uma residência na Rua Patrício Petit Jean que possui um depósito no subsolo com um túnel ou saída em direção ao rio. Todas são situações  que demandam de mais pesquisa.

 

AC -    Normalmente falar da cultura jesuítico-guarani não motiva a maioria, especialmente os mais jovens. O que fazer para que esse resgate se faça interessante?

FR - Eu costumo dizer que o grande problema de São Borja é educação patrimonial. É  conhecer para valorizar. No momento em que conhecemos nossas origens, nossa memória e entendermos alguns significados que são comuns no cotidiano, passamos a valorizar e difundir. Quando sabemos que o habito do churrasco e do chimarrão foram implementados através da cultura missioneira, que o chã receita da vó tem uma origem patrimonial missioneira, tudo fica mais fácil.  Mas só tem um caminho, - educar jovens e  adultos, para que também sejam propagadores da nossa cultura. Em outras regiões do Estado, quando você chega para uma entrevista de emprego em algumas empresas, a primeira coisa que é informado é um pouco da história local, isso mostra o compromisso com o futuro e a valorização da identidade local.

 



AC -    Que sugestões o senhor oferece para trabalhar o tema como conteúdo pedagógico nas escolas e universidades?

FR - O conteúdo sobre Missões ele é multidisciplinar, pode ser trabalhado em todas as áreas do conhecimento. Vai muito da criatividade do professor em adequar e desenvolver ações didáticas e paradidáticas que consigam enriquecer a sua disciplina. Exemplo, em matemática existe um relógio solar do período reducional no Museu Municipal que marcava a hora da redução e de outras quatro cidades do mundo ao mesmo tempo. Uma visita da turma ao local pode propor um desafio envolvendo o conteúdo, como um estudo de ângulos, graus; pode ajudar a despertar o interesse dos alunos. Em artes, oficinas com argila, maquetes e desenhos. Em português a linguagem, os termos utilizados do guarani. Em química experiência com a pedra itacuru, a oxidação da pedra. Outra forma é abrir espaços para outros pesquisadores participarem das aulas com falas. Existem muitas atividades que podem ser implementadas, muita coisa já vem sendo feita, especialmente nas universidades. Tem muita pesquisa boa, de qualidade, mas que acaba ficando no âmbito da academia. Precisamos de mais seminários públicos para difundir estas pesquisas, festivais de documentários, etc. Para os professores, a dica é participarem dos projetos de educação patrimonial oferecidos pela Unipampa e pelo IFFar, ali muita coisa boa acontece e novas perspectivas pedagógicas surgem. Para os estudantes e comunidade em geral, visitar os museus, participar das atividades culturais da cidade, buscar leituras sobre nossa história, a Biblioteca Pública Municipal tem um ótimo acervo.

 

AC - O regime de cooperação aplicado pela nação guarani e os jesuítas chamou a atenção dos europeus. Seria um modelo de socialismo nas Missões?

FR - Eu penso que não, embora tenha alguns pesquisadores que criaram tese sobre o assunto como um modelo ideal utópico socialista-comunista. Entendo como uma experiência social, humanitária, civilizatória única na história da humanidade e que por um período deu certo. Foi uma tentativa bem sucedida de instalação e desenvolvimento de uma vida comunitária cristã, com grupos de indígenas que foram reduzidos ou aculturados para a sociedade espanhola e à religião cristã.

 

AC -    De que modo o senhor propõe a efetiva interrelação dos Sete Povos Missioneiros como produto turístico-cultural?

FR - Tem muita coisa acontecendo, cada município tem suas riquezas e necessidades de potencialização, precisa de apoio institucional, pesquisa e principalmente integração entre os  povos missioneiros com ações integradas em prol do coletivo. São Borja em especial necessita de legislação municipal que regule o sítio arqueológico, precisa de um arqueólogo nos quadros do município e a execução urgente de um projeto de escavação arqueológica, para potencializar os achados e tornar um atrativo a mais para o produto turístico, além de um novo espaço para o Museu Missioneiro dentro do sítio arqueológico. São Borja é a principal ligação entre as Missões do Brasil com as da Argentina e Paraguai, aqui é a passagem dos turistas no circuito internacional. Precisamos é estar atento ao que está acontecendo e trabalhar em conjunto com Santo Tomé, na Argentina.

 

AC -    Fala-se, frequentemente, em incrementar o turismo a partir das 30 missões jesuíticas no Brasil, Argentina e Paraguai. Isso é viável, na sua concepção?

FR - Com certeza. É tão viável que já não são mais 30 povos, são bem mais. Os itinerários culturais que buscam ligar cidades ou povoados com remanescentes históricos semelhantes é uma indicação da Unesco  para o desenvolvimento das regiões e teve as primeiras abordagens em 1998. Hoje já tem três produtos em execução - o “Caminho das Missões” no Brasil ligando os Sete Povos; o “Circuito Internacional das Missões” ligando os 30 Povos entre Paraguai, Argentina e Brasil; e agora o “Camino de los Jesuitas” ligando Bolívia, Paraguai, Argentina, Brasil e Uruguai”.

 



AC - O que faz e fará Fernando Rodrigues, um apaixo nado pelas Missões, agora que concluiu Mestrado na área?

FR - Estamos sempre trabalhando, pesquisando, contribuindo, incentivando e apoiando novas pesquisas e estudos sobre Missões. Até  o final do ano estaremos lançando um livro englobando um recorte de minha pesquisa em prol da valorização da identidade  e memória Missioneira. Nele,   busco mesclar experiências pessoais da história missioneira de São Borja com a pesquisa realizada no Mestrado em Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Santa Maria. Também estamos inseridos em alguns grupos de pesquisa sobre Missões com o objetivo de dar suporte aos municípios no desenvolvimento de ações para a integração nos itinerários culturais. 

 

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