sexta-feira, 6 de agosto de 2021

ENTREVISTA: Darci Bergmann

 

 

Ambientalista: “Mundo está perplexo

com mudanças climáticas dramáticas”

 


                                                    Bergmann: um apaixonado pela preservação do planeta.

     Sempre um apaixonado por natureza e pela sua preservação, Darci Bergmann, 72 anos (foto arquivo pessoal), é profissional respeitado como engenheiro agrônomo, mas reconhecido,  sobretudo, como um grande ambientalista. Natural de Lajeado  (RS), viveu parte da infância em solo catarinense e veio para São Borja em 1974, um ano após concluir sua graduação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFMS). Conta que veio para a cidade, “em função do campo de trabalho, especialmente na área de topografia (agrimensura e projetos de barragens)”. Também atuou como perito judicial e ainda atua no comércio de produtos para jardinagem e similares.

     O entrevistado, hoje, do BlogAlberiCogo foi ainda duas vezes vereador, tendo proposto leis em defesa do meio ambiente no município. Antes de se formar agrônomo, estudou na  Escola Técnica de Agricultura (ETA), em Viamão. “O respeito e o constante contato com a natureza vem desde cedo, contudo a  carreira estudantil só fez crescer a dedicação”, relembra.

       Conheceu uma São Borja de verdes escassos e de altas temperaturas no verão, o que o motivou a uma campanha para minimizar este cenário. “Daí surgiu o projeto Plante Uma Vida, Plante Uma Árvore, que mais tarde deu  nome ao meu blog”, relata Bergmann. A mesma iniciativa, conseguiu em dez edições seguidas na Semana da Árvore, plantar mais de 20 mil espécies nativas para o Centro Nativista Boitatá. Através do mesmo projeto, mais de mil palestras foram proferidas em escolas e universidades, inclusive na Argentina.

    Ainda graças ao projeto Plante Uma Vida, Plante Uma Árvore, surgiu  a Aspan – Associação São-borjense de Proteção ao Ambiente Natural. Entre as muitas ações desenvolvidas, a entidade garantiu, através de uma ação no Judiciário,  a demarcação e a preservação, pelo Estado, da Reserva Biológica do Banhado São Donato.

      Nesta entrevista, Darci Bergmann chama a atenção para o aquecimento global, a bagunça climática no planeta e a devastação na Amazônia, com seus reflexos entre nós. No plano local, defende maior arborização, incluindo o ipê-roxo, nossa árvore-símbolo. Outra defesa enfática é para diminuir a geração de lixo no dia a dia. Recomenda “ética e reverência à Terra, nossa casa de passagem”.

 

Alberi Cogo – A pandemia da covid, como crise sanitária, praticamente paralisou todas as atividades produtivas em escala planetária. Para a saúde do meio ambiente, o senhor acha que há um lado positivo?

Darci Bergmann –  A pandemia da covid-19 trouxe muitos questionamentos e talvez alguns aprendizados. Na questão ambiental, talvez se saliente mais o interesse pela natureza, na busca de espaços mais abertos.

 

AC – Em sentido geral, o senhor considera que nós – são-borjenses e brasileiros – estamos despertando maior consciência para a defesa e a preservação ambiental?

DB - As mudanças climáticas estão mais perceptíveis. Veja-se a escassez de chuvas em boa parte do Brasil, enquanto na Europa e na Ásia, enchentes devastadoras causam as perdas de muitas vidas e destruição nunca dantes ocorrida. Isso evidencia claramente a interferência humana no ambiente com poluição atmosférica e destruição dos habitats.

 

AC – As políticas ambientais no país têm se tornado cada vez mais uma questão ideológica. Na sua avaliação, qual é, efetivamente, o tamanho da devastação do bioma amazônico e que riscos o senhor enxerga para o futuro do ecossistema americano e mundial?

DB – A destruição ambiental no Brasil tem a participação de todos os vieses ideológicos. Não faz sentido atacar este ou aquele governo, quando todos, em seus mandatos, implantaram projetos que impactaram o meio ambiente.

 

AC – Nos últimos anos, o Sul do Brasil tem nos apresentado clima bastante desarranjado, com tempestades, estiagens e mudanças bruscas de temperatura. Que relação isso tem com o que acontece na Amazônia?

DB – A Floresta Amazônica tem interferência positiva no regime de chuvas aqui no Sul do Brasil. A enorme quantidade de vapor de água exalada pela floresta forma os chamados “rios voadores”, que tangenciam a Cordilheira dos Andes e se dirigem até a região Sul, aumentando a incidência de chuvas e, por consequência, a recarga dos mananciais.  Por essa razão e outras mais, a Floresta Amazônica é imprescindível até para o agronegócio. Além de umedecer vastas áreas do Brasil, retém gás carbônico, um dos causadores do efeito estufa. Ela também pode ser explorada de forma sustentável, produzindo alimentos em seus rios, frutos, matéria-prima diversa, inclusive para fins medicinais. A sua destruição poderá resultar na desertificação de boa parte do Brasil.

 

AC – Como as potências mundiais têm lidados com as questões do clima e a preservação ambiental?

DB –  As potências mundiais estão perplexas com as mudanças climáticas. Já citei alguns fatos, mas podemos ainda acrescentar outros, tais como as altas temperaturas no Canadá, Estados Unidos e Rússia, com enormes e devastadores incêndios, no ano em curso. As calotas polares estão derretendo, complicando ainda mais um cenário que já é preocupante. Diante disso, alguns países reagem com medidas cada vez mais restritivas ao uso de  combustíveis poluentes, entre os quais, carvão mineral e derivados de petróleo. Não é por acaso que as montadoras correm contra o tempo para apresentarem veículos elétricos. Os preços ainda são altos, mas talvez se tornem razoáveis e ao alcance de consumidores com menor poder aquisitivo. O caso dos automóveis é emblemático pelo grande impacto na economia e no meio ambiente. E novos desafios surgem. Há necessidade de muita energia elétrica para abastecer as baterias. E o que fazer com centenas de milhões de baterias, depois da sua vida útil?

 

AC – Em vários momentos o senhor tem se insurgido contra a liberação de agrotóxicos e outros insumos agrícolas. Qual é o cenário, hoje?

DB -  Sim, tenho me insurgido contra o uso de alguns agrotóxicos. Por um tempo até trabalhei numa empresa multinacional do ramo. Nela sempre defendi a cautela no uso, contrariando muitas vezes os interesses comerciais. E alguns produtos eu sequer recomendava. Foi uma experiência interessante. Alguns princípios ativos já foram banidos, devido à alta toxicidade. Mas ainda existem produtos no mercado que deveriam ser banidos, devido aos grandes impactos ambientais. Um deles é o princípio ativo clomazone, herbicida aqui utilizado na lavoura de arroz. Este produto é muito volátil, e parte dele fica em suspensão. Com as correntes de ar ele se desloca a vários quilômetros e atinge outras culturas, inclusive espécies arbóreas nativas e exóticas. Em grande parte do Estado os cinamomos estão desaparecendo do cenário pela ação do clomazone. Também a espécie arbórea nativa canafístula tem sofrido injúrias pela ação deste herbicida. Outro herbicida que está causando grande impacto ambiental e prejuízo a diversos  produtores é o herbicida hormonal 2,4-D. É também extremamente volátil. Boa parte dos produtores de uva aqui no Estado tiveram grandes prejuízos com esse produto. Há relatos de que alguns vinhedos foram totalmente dizimados. O Ministério Público gaúcho tem encaminhado ações, visando equacionar o problema. Uma das propostas é criar zonas tampões, onde o uso seria proibido. Outra é a proibição de aplicações aéreas, porque nestas o produto se espalha a longas distâncias – são as derivas. Hoje, o cenário com relação aos agrotóxicos ainda preocupa. Mas em alguns aspectos também ocorreram melhorias. Uma delas é o destino correto das embalagens, que são recicladas na sua maioria. Há uma expectativa muito grande em / ao uso dos drones, substituindo a aviação. Com isso, os agrotóxicos são aplicados somente na área alvo, diminuindo as derivas. Também se vislumbra um incremento na pesquisa de produtos alternativos, tais como inseticidas biológicos, entre outros. Alguns desses têm mostrado resultados animadores.

 

 AC – E o que dizer do CAR - Cadastro Ambiental Rural?

DB – Com relação ao CAR – Cadastro Ambiental Rural, ele foi implantado para determinar a localização das áreas protegidas, como a reserva legal e áreas de proteção permanente, como as matas ciliares que acompanham os cursos de água. O CAR é um instrumento que permite uma melhor fiscalização por parte das autoridades ambientais.

 

AC – A Secretaria Municipal do Meio Ambiente em São Borja pretende ampliar a arborização urbana, inclusive implantando túneis verdes. Que sugestões o senhor apresenta?

DB – A nossa arborização urbana, apesar de alguns avanços, ainda precisa de melhorias. Na área central da cidade, existem quadras inteiras sem uma única árvore. Especialmente nas ruas com predomínio do comércio. Um dos motivos é que alguns comerciantes supõem que as árvores atrapalham a visibilidade das lojas. No entanto, esquecem que, em boa parte do ano, as temperaturas altíssimas afastam os clientes das ruas. Outro fator que concorre para diminuir área verde é a construção predial. Os terrenos não edificados e que tinham boa cobertura arbórea já são escassos. Essas áreas auxiliavam na amenização das altas temperaturas. Além disso, contribuíam para a infiltração das águas das chuvas nos solos. Em Porto Alegre, há uma lei que determina que cada terreno tenha, pelo menos, 20% de área vegetada, livre de construção ou pavimento. A continuar assim a impermeabilização do solo na área urbana, poderão ocorrer sérios problemas com alagamentos, em algumas zonas da cidade. Mencione-se também a elevação das temperaturas pela concentração de calor, decorrendo o desconforto. Quanto aos túneis verdes, são alternativas interessantes. Um deles, implantado a partir de 1977, num trecho da Rua Gal Canabarro, já sinaliza o quanto de bem estar traz uma rua bem arborizada. Ali iniciou o Projeto Plante Uma Vida, Plante Uma Árvore. A maioria dos exemplares arbóreos daquela época ainda persiste no local. Sugiro que a Prefeitura realize e incentive os proprietários a fazerem o plantio de árvores, especialmente na zona central. Também poderia a Prefeitura conceder algum abatimento no IPTU aos proprietários que mantém um mínimo de arborização em seus terrenos. Algumas cidades brasileiras já contemplam este incentivo. Uma delas que me ocorre é Lajeado. Desnecessário dizer do quanto é importante uma boa arborização, até mesmo nos terrenos particulares. De outra parte, o Município deve implantar mais áreas verdes, na forma de praças ou arboretos.

AC – Quando vereador, o senhor propôs a lei municipal que estabelece o ipê-roxo como nossa árvore-símbolo. Esta lei estaria sendo esquecida?

DB – Como vereador, encaminhei vários projetos de lei de interesse ambiental. A espécie ipê-roxo – Tabebuia avellanadae  -foi declarada árvore-símbolo de São Borja, pela lei 1.022, de 26-09-1980. A floração dos ipês quase sempre inicia em julho, podendo estender-se até novembro. Confere uma beleza extraordinária ao cenário, o que auxilia no bem estar das pessoas. Por iniciativa da Aspan, centenas de ipês foram plantados entre os dois trevos de acesso a São Borja. Alguns sucumbiram em razão das queimadas. Os que sobreviveram dão floradas espetaculares. Muitos desses ipês estão infestados por erva-de-passarinho, uma epífita parasita, que pode levar à morte do hospedeiro. Sugiro que a Prefeitura realize a retirada das ervas-de-passarinho de todos os ipês. E também faça a reposição das árvores que sucumbiram.  De certa maneira, a lei da árvore-símbolo deveria ter mais atenção, especialmente no que se refere ao plantio de mais exemplares e cuidado com as árvores já existentes.

 

AC –Quando o senhor atuou na administração municipal em São Borja colocou em prática as primeiras experiências de coleta seletiva e de reciclagem de resíduos. Como avalia a situação, atualmente, e que sugestões oferece nessa área?

DB – Em fins de 2003, fizemos um manual sobre os resíduos sólidos. Houve distribuição de milhares de exemplares desse trabalho e palestras nas escolas e algumas empresas da cidade. Em decorrência disso, alguns meses depois, a quantidade de lixo recolhido baixou em torno de oito ttoneladas/dia. Menos lixo, menos gasto com o recolhimento. Algumas pessoas também instalaram composteiras nos seus terrenos, isto é,  dispositivos para transformar os restos  orgânicos em composto, ou ‘adubo orgânico’. Lamentavelmente, não houve continuidade nem incentivo nessa questão. Havia um propósito inicial de que a Prefeitura contrataria pedreiros para fazer caixas de compostagem paras as pessoas de baixa renda. Os demais proprietários seriam instados a instalar esses dispositivos. Com isso, haveria uma redução estimada de 40% do lixo recolhido em São Borja, que é a fração orgânica. Os demais componentes do lixo já estavam sendo separados por uma cooperativa de catadores. Hoje, a situação está ainda mais caótica, em função do aumento vertiginoso de lixo de toda a ordem. As saídas das cidades estão cheias de despejos clandestinos. Um dos motivos dessa calamidade é a chamada Taxa de Lixo. Esta leva em conta quase os mesmos critérios do IPTU. Penaliza os proprietários que tem terrenos arborizados, cobra sobre área construída, etc. Como é um valor extremamente alto, quase um novo IPTU, muitas pessoas não se dispõem nem a fazer a separação para a coleta seletiva. São Borja gasta uma fortuna para recolhimento do lixo. Com parte desses recursos, a Prefeitura poderia financiar as composteiras às pessoas de baixa renda, adquirir triturador de vidro, trituradores de galhos, carrinhos mais eficientes para os catadores, entre outras medidas. Desde 2010, está em vigor a Lei Nacional dos Resíduos Sólidos. Ela prevê a logística reversa. Fabricantes e fornecedores devem arcar com os custos e destinação correta de resíduos gerados. Um exemplo: as garrafas de bebida, não retornáveis, tipo ‘long net’. O distribuidor de bebidas lucra com a sua venda e joga os custos de recolhimento ao Município. Estilhaços dessas garrafas provocam acidentes e são difíceis de recolher. Também é perceptível um aumento expressivo de artigos fúteis, à base de plásticos não retornáveis. Desde embalagens tipo isopor. Muitos usuários dessas tralhas não estão nem aí para as consequências desastrosas desses resíduos. Cabe destacar, que a União Europeia proibiu a fabricação e o uso de diversos artigos à base de plásticos. A lista inclui cotonetes, canudinhos, copos, pratos, talheres descartáveis, entre outros mais.  Causa estranheza que há lei nacional sobre resíduos sólidos e que o Município não a execute, na parte que lhe toca. Ao invés de exigir de quem lucra com a geração de material não retornável, penaliza todos os proprietários com uma Taxa de Lixo exorbitante.

 

AC – São Borja trabalha para acabar com o Lixão no bairro do Passo, corrigindo o passivo ambiental na região. Deveremos ter também aterro sanitário no município. Qual é a sua avaliação?

DB –  O Lixão de fato é um passivo. Mas um novo aterro sanitário é apenas um paliativo. Na Europa, os países não querem aterros sanitários, porque ocupam áreas preciosas e logo estarão saturados, exigindo sempre novos locais. Conforme já expus antes, deve existir um conjunto de medidas que reduzam o lixo. Isso inclui a participação de todos os setores da sociedade. Para o aterro sanitário, jamais devem ser recolhidos materiais orgânicos, metais, vidros, restos de construção, etc. Esses materiais devem ser trabalhados caso a caso. Pessoalmente, faço separação de todos os resíduos. Tenho caixas de compostagem, trituro o vidro, separo os metais, papelão e papel, plásticos, etc. Lixo quase zero. No entanto, sou penalizado por uma lei draconiana.

 

AC – A Aspan e Darci Bergmann  têm sido, sempre, nossas principais referências da defesa do meio ambiente. Que atividades a Aspan hoje desenvolve?

DB – A Aspan, em função da pandemia da Covid-19, não está em atividade.

 

AC – Por favor, a sua mensagem de orientações às atuações e às futuras gerações.

DB -  A nossa postura em relação à Natureza pode determinar ou não a sobrevivência de muitas espécies, inclusive a humana.  O respeito às outras formas de vida, a utilização sábia dos recursos, a destinação correta ou mesmo redução de resíduos, devem nortear nossas ações. A tecnologia pode nos ajudar nessa caminhada terrena, mas sempre acompanhada pela ética e a reverência à Terra, nossa casa de passagem. Somos espíritos encarnados. Um dia retornaremos e colheremos o que semeamos agora. Aos jovens em especial, desejo que se empenhem na busca de oportunidades para o seu aprimoramento profissional e também na luta pela preservação do meio ambiente.    

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